O Mar Entre Dois Mundos
Assim se cumpria o destino de milhões de italianos que, entre a miséria e a esperança, escolheram o mar.
Vida a Bordo
Até o final do século XIX, a travessia dos emigrantes rumo ao Novo Mundo era feita inicialmente em navios à vela, velhas e lentas embarcações que já haviam conhecido melhores dias, agora transformadas em arcas humanas onde a esperança dividia espaço com o medo. A viagem podia durar trinta, quarenta dias, às vezes mais, dependendo da vontade dos ventos e das correntes do Atlântico. Lá embaixo, no ventre escuro do navio, o ar era rarefeito e fétido. As acomodações — se assim se podia chamá-las — eram simples tábuas de madeira sobre as quais famílias inteiras se amontoavam, respirando o mesmo ar viciado, dormindo ao som das ondas e dos gemidos dos doentes.
De manhã, qualquer que fosse o tempo, todos eram obrigados a subir ao convés. Era preciso arejar o porão, afastar o cheiro da morte e dar àqueles homens e mulheres um pouco de luz. As doenças se espalhavam como fogo em palha seca — febres, diarreias, tosses que pareciam não ter fim. Para muitos, o mar se transformava num cemitério líquido, e os corpos eram entregues às águas com preces murmuradas e olhos marejados.
Entre os poucos pertences, a bagagem do emigrante era o retrato da sua vida. Antes dos baús e malas de madeira ou ferro, havia o fagotto, um simples embrulho de tecido onde se guardavam os tesouros de uma existência: uma muda de roupa, um rosário, um punhado de terra natal, uma fotografia amarelada, talvez uma carta de recomendação que se esperava apresentar a algum parente distante nas Américas. Dentro daquele embrulho estava todo o passado — e o fio tênue que os ligava ao futuro.
Com o tempo, as grandes companhias marítimas começaram a construir os modernos, navios a vapor que prometiam travessias mais rápidas e, para os padrões da época, menos cruéis. Nos 25 anos finais do século XIX, no início da grande emigração, os navios disponíveis eram antigos cargueiros rapidamente adaptados para o transporte de passageiros a fim de aproveitar o boom que milhões de emigrantes proporcionavam a carente economia do país. Já nos anos 1920, os emigrantes começaram a viajar ao lado dos primeiros turistas, dividindo o mesmo oceano, mas não o mesmo destino.
Chegada ao Novo Mundo
Quando enfim viam terra, muitos choravam. Não era apenas emoção; era o alívio de quem sobrevivera à provação. Mas a América que os aguardava não era a dos folhetos distribuídos pelas agências de emigração, com suas promessas de fortuna fácil e terra fértil. Era uma terra dura, indiferente, onde o sol queimava tanto quanto a saudade.
Os recém-chegados eram conduzidos a galpões ou hospedarias improvisadas. No Brasil, havia os grandes prédios da Hospedaria dos Imigrantes, que pareciam mais prisões do que abrigos. Na Argentina, os imigrantes eram alojados em edifícios semelhantes, onde esperavam dias ou semanas até serem enviados ao interior. Antes disso, passavam por uma verdadeira via-crúcis de inspeções médicas e burocráticas. Os doentes eram barrados, as famílias separadas, os humilhados obrigados a regressar no mesmo navio que os trouxera.
Os que conseguiam ficar contavam com a força invisível da cadeia migratória — a rede de parentes e conterrâneos que já haviam chegado antes e tentavam abrir caminho para os novos. Era ela que garantia abrigo, trabalho e um pedaço de pão nos primeiros dias, quando o sonho ainda não se transformara em desilusão.
“La Mèrica”
Nos Estados Unidos, a travessia terminava quase sempre diante da imponente figura da Estátua da Liberdade. Aquela mulher de cobre, com a tocha erguida sobre o porto de Nova York, parecia representar tudo o que o emigrante buscava: liberdade, justiça, uma nova vida. Muitos acreditavam que bastava vê-la para que a sorte mudasse.
Mas o primeiro contato com a América se dava não em Manhattan, e sim na pequena ilha ao lado: Ellis Island. Ali, em galpões imensos, multidões aguardavam a inspeção médica e o interrogatório dos oficiais. Bastava um tremor nas mãos, um olhar desconfiado, uma cicatriz antiga, e o sonho era interrompido. Crianças órfãs, mulheres sozinhas, idosos e enfermos eram sumariamente recusados.
Em 1917, o Literacy Act impôs um novo obstáculo: exigia que o imigrante soubesse ler e escrever em sua língua. Milhares de italianos, especialmente do sul, foram barrados pela simples razão de nunca terem tido escola. Nos anos seguintes, novas leis — as cotas de 1921 e 1924 — fecharam ainda mais as portas, limitando o número de entradas anuais.
A América deixava de ser a terra das oportunidades para se tornar a terra da seleção. Ainda assim, os navios continuaram a chegar, carregando a esperança de quem preferia arriscar o desconhecido a permanecer na miséria.
Com o tempo, a Estátua da Liberdade deixou de ser apenas um monumento: tornou-se o símbolo da promessa americana. Muitos dos que a avistaram pela primeira vez do convés juraram que ela sorria para eles. Logo descobriram, porém, que as ruas não eram pavimentadas de ouro, como diziam os boatos das aldeias. Ao contrário: foram eles, com as próprias mãos, que construíram aquelas ruas, ergueram os edifícios, abriram os trilhos das ferrovias.
A estátua permanecia ali, imóvel, iluminando o porto, enquanto os imigrantes seguiam para os cortiços de Nova York, as minas da Pensilvânia ou os campos de café do Brasil. Era o farol dos sonhos, mesmo para quem, na realidade, jamais a tocaria.
Nota do Autor
O texto a seguir não pretende romantizar a travessia nem suavizar o sofrimento vivido pelos emigrantes do final do século XIX e início do século XX. Ao contrário, busca lançar luz sobre uma experiência humana marcada pela precariedade, pela dor silenciosa e pela coragem extrema. A viagem oceânica, muitas vezes descrita em números e estatísticas, foi antes de tudo uma vivência sensorial e emocional: o cheiro do porão, o balanço incessante do mar, o medo da doença, a despedida sem garantias de retorno.
A bagagem reduzida, os corpos amontoados, as inspeções humilhantes e a chegada a uma terra que raramente correspondia às promessas feitas fazem parte de uma memória coletiva que atravessa gerações. Este relato se apoia em fontes históricas, testemunhos e estudos sobre a imigração, mas é narrado com liberdade literária, buscando dar voz àquilo que muitas vezes ficou registrado apenas nas entrelinhas da história oficial.
Se, durante a leitura, o leitor sentir um aperto no peito ou reconhecer fragmentos da trajetória de seus próprios antepassados, então este texto terá cumprido seu propósito. Ele é, acima de tudo, um exercício de memória e respeito — uma homenagem aos milhões de homens, mulheres e crianças que atravessaram oceanos carregando pouco mais que um embrulho de pano, uma fé teimosa no futuro e a esperança de que o sacrifício não fosse em vão. Convido dividir a sua experiência escrevendo nos comentários do blog.
Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta
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