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domingo, 8 de fevereiro de 2026

A Vida de Domenico Laganà na Argentina

 


A Vida de Domenico Laganà na Argentina

A Terra da Miséria e o Sonho da América

Quando Domenico Laganà deixou a pequena localidade de Spadola, no comune de Vibo Valentia, a vida parecia se fechar sobre ele como as paredes de pedra de sua aldeia onde soprava o vento forte do Tirreno. A pobreza esmagava sua família com a mesma constância das colheitas magras. Na Calábria dos últimos anos do século XIX, a vida dos camponeses estava encurralada entre latifúndios improdutivos controlados por proprietários ausentes e o peso insuportável dos impostos, como a taxa sobre a moagem do pão e o sal, que reduzia ainda mais o pouco que se tinha. A fome se repetia em ciclos, agravada por secas, pragas e pela filoxera que devastava as vinhas, privando aldeias inteiras de uma das poucas fontes de sustento. A malária e a cólera corriam pelos povoados, e a mortalidade infantil ceifava gerações antes mesmo que alcançassem a juventude. A unificação da Itália, celebrada em Turim e Roma, deixara na Calábria apenas soldados para reprimir o brigantaggio e cobradores de tributos, sem trazer estradas, escolas ou indústrias. Era uma terra sem futuro, onde diaristas se vendiam por salários de miséria e onde até a esperança parecia ter sido arrancada pelas raízes. Nesse cenário devastador, a promessa da América — tão distante e envolta em incertezas — erguia-se como a única possibilidade de fuga.

Embarcou no navio a vapor Poitou no porto de Napoli com pouco mais do que a roupa do corpo e uma fé que precisava ser maior do que o medo.

A travessia foi longa e cruel, marcada pela fome e pelo enjoo do mar revolto. Mas nada poderia prepará-lo para a realidade que encontrou em território argentino. O país que lhe haviam pintado como um paraíso de trabalho e fartura mostrou-se uma terra dura, onde a sobrevivência era tão difícil quanto na Itália. Logo percebeu que a América não era o sonho de prosperidade, mas uma extensão ampliada das mesmas lutas que havia deixado para trás.

A carne era escassa, o pão mais ainda, e até a polenta que alimentara sua infância tornou-se artigo raro. Nos campos, a vida se resumia a enfrentar animais selvagens e o calor sufocante que castigava os recém-chegados. Domenico, que havia se nutrido da esperança de que dois dias de trabalho na Argentina renderiam tanto quanto dois meses na Calábria, descobriu a amarga verdade: a jornada era interminável, e o pagamento, miserável.

As cartas que enviava para a família em Spadola tornaram-se um misto de alívio e de desespero. Queria que soubessem que estava vivo, mas não podia esconder a dor. Cada palavra carregava o peso de sua decepção, mas também a necessidade de manter acesa uma chama de esperança para aqueles que haviam ficado. Sabia que seus irmãos, primos e pais esperavam por notícias de prosperidade, e isso o feria mais do que a fome.

Aos domingos, quando os sinos das igrejas chamavam para a missa, Domenico calculava as poucas moedas que conseguira juntar. Um dia, após semanas de trabalho árduo, somou apenas vinte e cinco francos. Era tudo o que tinha para enfrentar um mês inteiro de privações. Ao escrever, pedia que a família aceitasse sua sorte com resignação, porque não havia retorno possível. A travessia de volta era cara demais e o orgulho de admitir o fracasso o esmagava ainda mais do que a fome.

Nas noites, sonhava com os montes da Calábria, com o ar salgado do Tirreno, com o cheiro da polenta sobre o fogo, com o aroma condimentado da comida picante que sua mãe preparava. Sonhava também com as vozes dos irmãos que ficaram, imaginando-os perguntando quando finalmente voltaria. Mas a cada amanhecer sabia que esse retorno jamais aconteceria. O destino havia selado seu caminho, e a Argentina seria sua prisão e sua última morada.

Escrevia, por fim, não para confortar, mas para advertir. Implorava aos irmãos que não viessem, que não se deixassem enganar pelas promessas dos recrutadores. A Argentina não era a terra de abundância. Era apenas um lugar onde italianos pobres se transformavam em trabalhadores invisíveis, esquecidos pelos dois mundos.

E assim, sob o sol impiedoso da planície argentina, Domenico Laganà, filho de Spadola, moldava com sofrimento e resignação a história que jamais seria contada nos livros, mas que ecoaria nas cartas guardadas em baús de família. Cada linha, escrita com suor e lágrimas, tornava-se um testemunho silencioso de uma geração que acreditou no sonho da América e encontrou apenas a dureza da sobrevivência.

Nota do Autor

Esta narrativa nasceu a partir de uma carta escrita por um emigrante de Spadola, na Calábria, no final do século XIX, quando milhares de italianos cruzaram o oceano em busca de uma vida melhor na Argentina. Naquela carta, repleta de dor e resignação, um homem relatava à família os sofrimentos de sua nova vida: a fome, a escassez, a solidão e a dura constatação de que a América não era a terra de abundância prometida, mas um prolongamento das dificuldades que já conhecia em sua terra natal. Os nomes foram modificados, assim como alguns detalhes da narrativa, para preservar a intimidade dos descendentes e para dar forma literária ao testemunho. Contudo, o núcleo da história permanece fiel às palavras que ecoaram naquela carta: a luta de um emigrante anônimo que, ao tentar construir um futuro, encontrou apenas mais trabalho, mais sacrifício e mais distância daquilo que amava.

Escrever esta história é uma homenagem a todos os calabreses que deixaram aldeias como Spadola, acreditando em promessas que quase nunca se cumpriram. São vidas que desapareceram no anonimato dos campos e das fazendas argentinas, mas que, através de cartas e memórias, ainda podem ser lembradas.

Que este relato sirva não apenas como memória, mas também como reconhecimento da coragem e da dor daqueles que, com sacrifício pessoal incalculável, ajudaram a moldar a Argentina e deixaram uma marca indelével na história da imigração italiana.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta 



quinta-feira, 8 de agosto de 2024

O Fluxo Migratório Italiano: Uma Jornada Transoceânica


"Deixo minha casa, deixo o país e vou para a América para capinar. Parto em busca da fortuna e há um mês não vejo mais terra: só céu e mar.  Deixo minha casa, a bela Itália, para ir tão longe, em terra estrangeira. E sob um outro céu e uma outra estrela levo os filhos e a mulher para lá começar com melancolia pensando no campo onde nasci, naquela velha e santa mãe e em todas as coisas queridas do passado...”  Assim escreveu um emigrante italiano durante a viagem, ainda no navio.

De acordo com o pesquisador e escritor Delisio Villa, autor do conhecido livro Storia dimenticata: "O ano de 1860 é considerado o ano zero da emigração italiana". 
Nesse ano, começa a longa jornada dos italianos em busca de novos espaços, na Europa e na América. Uma fotografia precisa da situação da Itália nos últimos anos do século XIX, região por região, das condições de vida da maior parte dos italianos, podemos conhecer no chamado Relatório Jacini, uma abrangente pesquisa nacional realizada pelo parlamento italiano, da situação agrária do país publicada entre 1881 e 1890. Este documento oficial diz que: 
"Nos vales dos Alpes e dos Apeninos, e também nas planícies, especialmente no sul da Itália, e até mesmo em algumas províncias entre as mais bem cultivadas do norte da Itália, surgem barracos onde em um único cômodo enfumaçado e sem ar e luz vivem juntos homens, cabras, porcos e galinhas. E esses barracos podem ser contados talvez em centenas de milhares¨.
Uma análise das causas subjacentes à vasta migração transoceânica ocorrida entre 1880 e 1914 revela uma gama diversificada de fatores. Simplificando, o movimento migratório foi impulsionado por uma combinação de mudanças demográficas, como a redução da taxa de mortalidade e a estabilização da taxa de natalidade após 1870, e fatores econômicos, destacando-se a crise agrícola dos anos 1880, que resultou em escassez de alimentos e uma crise econômica substancial.
No entanto, a principal motivação para a migração maciça foi a incapacidade dos camponeses em adquirir capital líquido, o que levou grandes contingentes a empreender a perigosa travessia oceânica em busca de oportunidades. Esses eventos, combinados com a imposição de tributos sobre a farinha, cujo não pagamento poderia levar ao confisco das propriedades, resultaram em um êxodo em massa das áreas rurais.
Para contextualizar, entre os anos de 1875 e 1881, aproximadamente 61.831 pequenas propriedades no campo foram confiscadas, e entre 1884 e 1901 outras 215.759 pequenas propriedades rurais enfrentaram o mesmo destino desafortunado.
Este retrato sombrio por si só evidencia que os fatores que impulsionaram a migração superavam em peso os fatores de atração. O movimento migratório não encontrou barreiras significativas por parte das elites da época, as quais, pelo contrário, acolheram com alívio uma emigração que servia como uma válvula de escape para manter a estabilidade social. 
Naturalmente, houve oposição à emigração, sobretudo por parte dos proprietários de terras, preocupados com a diminuição visível da mão de obra devido ao êxodo, o que poderia levar a aumentos salariais e a condições de trabalho mais favoráveis aos camponeses. No entanto, a favor da emigração, houve um movimento crescente liderado pelos armadores genoveses, proprietários das grandes companhias italianas de navegação da época, agindo em comum acordo com países que procuravam desesperadamente mão de obra em toda a Europa.
Este breve relato do relatório Jacini ilustra a dureza e a dificuldade da vida na Itália naquele período e a mentalidade que os italianos deviam ter diante dessa situação. A difícil situação interna e a percepção de que a Itália oferecia poucas perspectivas levaram milhões de italianos a deixar sua terra natal em busca de novos horizontes. A situação interna estava muito difícil, com falta de trabalho de norte a sul do país, com a fome rondando os lares mesmo na área rural. Assim começou um processo que ao longo de um século levaria milhões de italianos a se estabelecerem em diversas partes do mundo.
Quanto às regiões de origem dos emigrantes e aos destinos para os quais os italianos se dirigiram, os padrões de migração variaram ao longo do tempo e geograficamente. As regiões do Norte foram as primeiras a sentir os efeitos das intempéries, da importação de cereais de outros países, dos diversos impostos que gravavam impiedosamente os mais desprotegidos, da industrialização que dava os primeiros passos, enquanto áreas como o Nordeste e o Sul testemunharam fluxos migratórios mais substanciais. O atraso da emigração do sul em relação ao norte pode ser atribuído a vários fatores, incluindo a gradual participação na migração e a falta de recursos financeiros para enfrentar as viagens.
Em relação aos destinos, entre 1876 e 1885, a Europa Central, principalmente França, Áustria, Alemanha foram as principais metas escolhidas, representando cerca de 64% dos emigrantes. Posteriormente, com o persistir das condições adversas na Itália, os destinos transoceânicos, como Brasil, Argentina e Estados Unidos, ganharam mais peso. Após a Primeira Guerra Mundial, a emigração no continente europeu voltou a predominar, devido em parte às restrições impostas por alguns países receptores, como os Estados Unidos.
No Brasil, especialmente, houve uma grande afluência de italianos a partir do final do século XIX até meados do século XX. Estes imigrantes buscavam aqui melhores condições de vida do que as encontradas em suas terras de origem. Muitos desembarcaram nos portos de Santos, Rio de Janeiro e Paranaguá, cada um trazendo consigo uma história singular, mas todos unidos pelo desejo comum de encontrar um lugar onde pudessem viver dignamente e oferecer um futuro melhor para suas famílias.
A imigração italiana no Brasil em si teve início em 1874 tendo como destino o estado do Espírito Santo que recebeu a primeira leva de italianos e ao longo de um século trouxe cerca de um milhão e meio de italianos para os portos brasileiros.