História do Vêneto e da grande emigração italiana, quando milhões deixaram a Itália entre os séculos XIX e XX em busca de uma vida melhor no Brasil e no mundo. Contato com o autor luizcpiazzetta@gmail.com
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026
Imigração Italiana no Estado de São Paulo e a Construção da Identidade Paulista
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026
Entre Sonhos e Dívidas nos Cafezais do Brasil e a Saga dos Imigrantes Italianos em São Paulo
Entre Sonhos e Dívidas nos Cafezais do Brasil A Saga dos Imigrantes Italianos em São Paulo
No último quarto do século XIX, o café era o eixo em torno do qual girava a economia brasileira. A bebida sustentava o comércio exterior e, com ele, a fortuna de uma elite rural que expandia seus domínios para além das antigas fronteiras do Vale do Paraíba, avançando pelo Oeste Paulista. Até então, a espinha dorsal do trabalho nos cafezais fora o cativeiro. Mas a abolição, em 1888, rompeu de vez esse modelo e expôs um vazio: as lavouras cresciam mais rápido do que a oferta de braços livres.
Os fazendeiros tentaram, primeiro, atrair trabalhadores nacionais — ex-escravizados e pobres livres. Esbarraram, porém, numa realidade dura: salários baixos, jornadas extensas e moradias precárias afastavam quem podia escolher. O café é uma cultura minuciosa, que exige cuidado desde o plantio até o beneficiamento, e não tolera improvisos. Para mantê-lo produtivo, era preciso gente em quantidade e com disciplina de rotina. A resposta veio de fora.
A política imigratória paulista, apoiada por subsídios públicos, abriu as portas para a Europa — e, em especial, para a Itália. Passagens pagas, promessas de trabalho e a imagem de uma terra de oportunidades convenceram milhares de famílias a cruzar o Atlântico. Em poucos anos, São Paulo se tornou o principal destino dos italianos no Brasil. A chegada em massa criou um mercado de trabalho saturado: havia sempre alguém pronto a ocupar o lugar de outro. Isso permitiu aos proprietários manter salários comprimidos mesmo nos anos de maior lucro do café.
O percurso era quase sempre o mesmo. O navio aportava em Santos; o trem levava os recém-chegados até a Hospedaria dos Imigrantes, na capital. Ali, fazendeiros percorriam os pátios escolhendo famílias. O contrato mais comum era o do colonato: cada núcleo cuidava de um certo número de pés de café e recebia por milheiro. Em troca, ganhava uma casa simples e um quintal onde podia criar animais e plantar milho e feijão entre as fileiras dos cafezais. Assinado o acordo, outro trem os lançava nas profundezas do interior paulista.
O sonho de independência, porém, esbarrava numa engrenagem que prendia o colono à fazenda. Isolados, os imigrantes compravam mantimentos no armazém do patrão, quase sempre a crédito e a preços acima do mercado. As contas eram anotadas em cadernetas que raramente fechavam no azul. Multas por supostos erros, danos às plantas ou atrasos aumentavam o saldo devedor. A dívida, mais que um número, tornava-se um instrumento de controle: dificultava a saída e mantinha a família sob dependência constante.
Ainda assim, muitos italianos imprimiram um ritmo novo à lavoura. Vinham de regiões onde a agricultura era intensiva e o trabalho familiar, regra. Trouxeram técnicas de manejo do solo, cuidado com as mudas e disciplina de colheita. Em fazendas onde eram maioria, a produtividade por hectare crescia de forma sensível, e a taxa de abandono do serviço era menor. O café agradecia — e os fazendeiros também.
Havia, além da economia, uma ideologia. A elite paulista via na imigração europeia um caminho para “civilizar” e “embranquecer” a população, ideias então correntes. Os italianos, católicos e falantes de uma língua de matriz latina, pareciam mais facilmente assimiláveis que outros grupos. Para o poder público, cada família que se fixava no interior era também um agente de ocupação do território e de criação de riqueza.
Nem todos resistiram. Poucos conseguiam juntar dinheiro para comprar seu próprio pedaço de terra. As notícias sobre exploração atravessaram o oceano e chegaram à Itália. Em 1902, o governo italiano proibiu a emigração subsidiada para o Brasil. O fluxo diminuiu e outros grupos — espanhóis, portugueses — ganharam espaço. Mas o impacto já estava dado: os italianos haviam ajudado a erguer a maior economia cafeeira do mundo.
O legado é ambíguo. Houve sofrimento, endividamento e violência; houve também aprendizado, ascensão social e formação de comunidades que marcaram para sempre a cultura paulista. Entre o cheiro da terra molhada e o perfume amargo do café torrado, o imigrante italiano deixou mais do que suor nos cafezais: deixou uma parte de si na história do Brasil.
Nota do Autor
Escrevo este texto pensando em você que carrega um sobrenome, uma memória ou um silêncio herdado da imigração italiana. Cada família que atravessou o oceano trouxe na mala mais do que roupas: trouxe esperança, medo, coragem e uma fé teimosa em dias melhores. Nos cafezais do Brasil, esses homens e mulheres deixaram o corpo, o suor e, muitas vezes, a própria juventude para que seus filhos e netos pudessem ter um futuro diferente.
Se hoje você estuda, trabalha, sonha e constrói a sua vida, é porque alguém, lá atrás, enfrentou o desconhecido com as mãos vazias e o coração cheio de vontade. Que este texto não seja apenas leitura, mas reencontro. Um convite para olhar para trás com respeito, gratidão e orgulho.
Se você já ouviu histórias do seu nono, da sua nona ou dos mais velhos da família, compartilhe. Cada lembrança escrita é uma forma de manter viva a voz de quem fez do Brasil a sua nova pátria.
Dr. Luiz C. B. Piazzetta
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026
Imigração Italiana no Brasil A Verdadeira História das Cartas, Viagens e Esperanças
Imigração Italiana no Brasil
A Verdadeira História das Cartas, Viagens e Esperanças
Quando os italianos chegaram ao Brasil e se fixaram nas fazendas e colônias, começaram a trocar correspondências com parentes que tinham ficado na Itália. Essas cartas, tanto as preservadas pelas famílias que partiram quanto as mantidas pelos que ficaram na antiga pátria, converteram-se em documentos valiosos para compreender o cotidiano, as dificuldades e as esperanças desses imigrantes. Combinadas com jornais antigos, registros de consulados, arquivos e coleções históricas espalhados pelo mundo, essas fontes nos permitem reconstruir com precisão a trajetória da grande imigração italiana para o Brasil e seu impacto social.
Esses testemunhos escritos revelam as duras condições enfrentadas pelos imigrantes: muitos foram trabalhar nas lavouras de café em São Paulo, onde cortaram matas densas, cultivaram e colheram safras extenuantes, ou ainda acabaram se estabelecendo nos centros urbanos, contribuindo com a construção de bairros, comércios e serviços.
Entre as décadas de 1870 e 1920, período frequentemente chamado de “grande imigração italiana”, o fluxo de italianos rumo ao Brasil foi intenso, com expressiva presença no estado de São Paulo, maior destino desses migrantes.
No início desse movimento, poucos italianos chegaram às plantações, mas a partir do começo da década de 1880 o volume aumentou consideravelmente — especialmente a partir de 1882, quando passageiros começaram a atracar na Hospedaria dos Imigrantes em São Paulo em números cada vez maiores.
Famílias inteiras partiam da Itália em busca de melhores oportunidades, muitas vindas de áreas rurais e pequenas comunidades que enfrentavam pobreza, falta de terras e desemprego no sul e norte da Itália.
O período de maior entrada de italianos ocorreu entre as décadas de 1880 e início do século XX. No entanto, diante das denúncias sobre as precárias condições de trabalho e de vida nas fazendas de café — que muitas vezes se assemelhavam a formas severas de exploração — o governo italiano acabou aprovando, em 26 de março de 1902, o chamado Decreto Prinetti, proibindo a emigração subvencionada de seus cidadãos para o Brasil. Isso significa que as companhias de navegação deixaram de receber apoio financeiro para levar italianos ao Brasil, embora a migração espontânea — com passagens pagas pelos próprios imigrantes — ainda pudesse ocorrer.
Mesmo com essa medida, novas levas de italianos seguiram chegando, muitas vezes originárias não mais do norte, mas de regiões do sul da Itália, como Sicília, Campânia e Calábria, em resposta às campanhas de recrutamento e às promessas de trabalho no Brasil.
A chegada em portos como Santos e Rio de Janeiro era sempre um momento carregado de expectativas: além das pessoas, muitos traziam consigo poucas bagagens, mas também sonhos, lembranças e a esperança de construir um futuro diferente daquele que deixavam para trás.
Do ponto de vista demográfico, entre 1876 e 1920 mais de um milhão de italianos desembarcaram no Brasil, compondo uma das maiores comunidades de migrantes do país e deixando um legado cultural, social e econômico profundamente enraizado na história brasileira.
Nota do Autor
Este texto nasce do compromisso com a memória e com a verdade histórica. A imigração italiana no Brasil não foi apenas um deslocamento de povos, mas uma travessia de destinos. Cada carta escrita, cada mala arrastada nos porões dos navios, cada passo dado em terras desconhecidas carrega o peso da renúncia e a nobreza da esperança.
Ao reunir documentos, relatos e vestígios dessa experiência humana, busquei dar voz aos que raramente aparecem nos grandes livros: homens e mulheres anônimos que trocaram a pátria pela promessa, o conhecido pelo incerto, e a segurança pela possibilidade de um amanhã melhor. Eles não vieram apenas trabalhar — vieram fundar raízes.
Narrar essa história é, portanto, um ato de respeito. É reconhecer que o Brasil moderno se ergueu também sobre o esforço silencioso desses imigrantes, sobre suas dores, seus gestos simples e sua fé obstinada no futuro. Que estas páginas sirvam como ponte entre gerações, para que a memória não se perca e a dignidade de seus sonhos permaneça viva.
Dr. Luiz C. B. Piazzetta
sábado, 10 de janeiro de 2026
Sob o Sol de Santa Teresa no Interior da Província de São Paulo
Sob o Sol de Santa Teresa no Interior da Província de São Paulo
Em março de 1889, um homem simples da província de Treviso, chamado Giuseppe Marchetto, tomou a decisão que mudaria para sempre o destino de sua família. Nascido em um pequeno vilarejo agrícola próximo a Conegliano, crescera entre vinhas pobres e campos de trigo que mal sustentavam os seus. A fome, a escassez de terras e a promessa de uma vida melhor empurraram-no para a grande travessia. Carregava consigo a esperança de que o Brasil, distante e misterioso, ofereceria aquilo que sua pátria não podia mais dar: terra e futuro para seus filhos.
Era filho de camponeses que, geração após geração, haviam aprendido a extrair da terra dura e ingrata apenas o suficiente para sobreviver. Ainda menino, Giuseppe conheceu o peso do trabalho árduo sob o sol e a frustração de ver as colheitas minguarem diante das geadas tardias ou da seca implacável. O suor que escorria pelo rosto de seu pai, as mãos calejadas de sua mãe e o vazio constante na mesa familiar eram marcas que moldaram sua infância. O vilarejo onde crescera parecia imóvel, preso ao tempo, como se ali os séculos não tivessem avançado, e as mesmas dificuldades que haviam esmagado seus avós agora recaíam sobre ele.
No entanto, no coração desse homem de poucas posses, nascia uma inquietação que não podia mais ser contida. Giuseppe via seus filhos crescerem com os mesmos olhos famintos que conhecera na própria infância e, no silêncio das madrugadas, alimentava o medo de que o destino deles se repetisse, fechado no mesmo círculo de miséria e renúncias. Cada vez que ouvia histórias sobre terras distantes, sobre navios que cruzavam oceanos levando famílias inteiras rumo ao desconhecido, sentia que a vida o chamava para além das colinas do Vêneto. A América, descrita por cartas que chegavam esparsas de conhecidos já emigrados, ganhava contornos quase míticos: terras vermelhas, férteis, esperando apenas mãos dispostas a cultivá-las.
Decidir partir não foi apenas um ato de coragem, mas também de desespero. Giuseppe sabia que deixava para trás raízes profundas, sepulturas de antepassados, o sino da igreja que ritmara sua vida, a língua e os gestos de uma comunidade que lhe dera identidade. No entanto, carregava consigo algo mais forte que a saudade: a determinação de oferecer aos seus filhos uma chance que ele nunca tivera. E assim, com o coração dividido entre o apego ao solo natal e a esperança depositada em terras desconhecidas, lançou-se à jornada que marcaria para sempre a memória de sua família.
O navio que o trouxe à América foi para ele um purgatório flutuante. O espaço reduzido, o calor insuportável e a presença de centenas de emigrantes comprimidos em condições precárias transformaram a travessia em tormento. Dias seguidos de mares agitados e o sufoco de um ar pesado faziam cada respiração parecer insuficiente. Para as crianças, o suplício era ainda maior: febres, choros incessantes e a falta de alimento adequado enfraqueciam seus pequenos corpos. Giuseppe se culpava em silêncio, acreditando ter condenado os filhos a uma provação que talvez não resistissem.
As horas arrastavam-se como se o tempo tivesse perdido qualquer medida, e a esperança que o sustentava antes do embarque agora se diluía no enjoo, na sede e no medo constante. A água escassa, de gosto salobro, parecia mais um veneno do que alívio, e o pão distribuído, duro e insosso, mal podia ser chamado de alimento. O ar daquelas cabines escuras, carregado do cheiro de suor, vômito e doença, tornava-se insuportável, e muitos preferiam permanecer no convés, enfrentando o vento cortante e a maresia, a sufocar nas entranhas do navio. O som constante das ondas que batiam contra o casco misturava-se ao lamento humano, como se o próprio mar zombasse daquela multidão que ousara desafiá-lo. Giuseppe, ao ver os olhos febris de seus filhos e a palidez crescente de sua esposa, sentia o coração esmagado pela impotência. Cada gemido infantil era para ele uma acusação muda, lembrando-lhe que sua busca por um futuro melhor poderia, ironicamente, selar o fim da própria família.
Quando, após longas semanas, o navio enfim alcançou o porto de Santos, não houve alívio imediato. O desembarque trouxe apenas novas provações. Ali, uma massa de imigrantes, igualmente exaustos, aguardava por respostas e direções que nunca vinham. Amontoados em vagões de trem improvisados, foram levados até São Paulo. O cansaço crescia, assim como a sensação de abandono. Na chamada Casa da Imigração, a multidão era tão densa que a cada passo alguém tropeçava sobre corpos prostrados no chão. O ar era pesado de choro infantil, de gemidos abafados, de mães desesperadas que embalavam crianças febris, enquanto homens se punham contra a parede tentando suportar a impotência. Giuseppe, de olhar fixo e coração dilacerado, passava noites em claro, dividido entre a angústia e o remorso de ter arrastado a família para aquele abismo.
Quatro dias depois, foi enfim transferido para o destino prometido: a Colônia de Santa Teresa, no interior da província de São Paulo. Mas o que encontrou não passava de um cenário de desolação. As casas que lhes haviam sido prometidas não estavam prontas, e 138 pessoas foram obrigadas a se amontoar em uma única construção improvisada. O chão de terra batida mal continha a umidade que escorria pelas paredes, e o ar saturado fazia a sobrevivência quase impossível. Os filhos de Giuseppe começaram a adoecer; as pernas frágeis já não os sustentavam, e os gemidos infantis o feriam mais do que qualquer trabalho forçado. Ele via cada um se debilitar como se a própria vida lhes fosse arrancada dia após dia.
O peso da consciência crescia. As noites eram intermináveis, povoadas pelo choro que ecoava das crianças, pelas preces murmuradas das mães e pelo silêncio pesado dos homens, que se limitavam a esperar. Giuseppe, muitas vezes, deixou-se vencer pelas lágrimas, chorando em segredo como se pudesse, com isso, aliviar a dor de todos. A América, que lhe havia sido pintada como terra de promissão, surgia agora como uma cruel armadilha.
Apesar de tudo, ele não desistiu. Trabalhou a terra hostil, suportou a fome e a doença, agarrou-se à esperança de que os filhos que sobrevivessem pudessem um dia colher frutos diferentes daqueles que lhe haviam sido negados no Vêneto. Sua determinação, alimentada pelo desespero, converteu-se em resistência.
Na Colônia de Santa Teresa, sob o sol inclemente do interior paulista, Giuseppe Marchetto não encontrou o paraíso que lhe haviam prometido. Encontrou, sim, a luta diária pela sobrevivência, marcada por perdas e privações. Mas também descobriu a força de uma gente que, mesmo dilacerada, insistia em plantar raízes em solo estranho.
E foi assim que sua vida, moldada pelo sacrifício, deixou um legado invisível mas duradouro: o testemunho de que o caminho dos imigrantes não se fazia de glória fácil, mas de sofrimento, resiliência e esperança tecida no fio mais tênue da existência.
Com o passar dos anos, quando suas mãos já não tinham a mesma firmeza para trabalhar a terra e seus olhos carregavam a névoa do tempo, Giuseppe encontrava consolo em observar os filhos e netos crescerem sobre aquele solo que antes lhe parecera inóspito. Cada casa erguida, cada parreira que vingava, cada criança que corria livre pelos campos vermelhos era, para ele, a confirmação de que a travessia e a dor não haviam sido em vão. Não havia riqueza acumulada, tampouco monumentos erguidos em sua memória, mas a continuidade da vida — enraizada em um chão antes estranho — era a prova silenciosa de sua vitória. No coração de Giuseppe, o Brasil já não era apenas o destino distante e misterioso que um dia escolhera às cegas: tornara-se o espaço onde sua linhagem aprendera a florescer, entre perdas e renascimentos. E, ao fim, sua história se confundia com a de tantos outros anônimos que, vindos de longe, deixaram atrás de si não apenas descendentes, mas também a marca indelével de coragem diante do impossível.
Nota do Autor
Esta narrativa é uma criação literária, mas suas raízes estão profundamente fincadas na realidade histórica. Os nomes aqui apresentados — Giuseppe Marchetto, sua família e seus conterrâneos — são fictícios, escolhidos para preservar a liberdade narrativa e a fluidez do enredo. No entanto, cada detalhe de sua trajetória, desde a partida na província de Treviso até a adaptação nas terras vermelhas do Brasil, foi inspirado em cartas, registros e documentos autênticos do final do século XIX, hoje preservados em museus e arquivos do interior do estado de São Paulo.
O que o leitor encontra nestas páginas é, portanto, uma recriação fiel do espírito da época: a esperança que impulsionava os emigrantes, o sofrimento vivido nas travessias, as dificuldades da adaptação em um país desconhecido e, sobretudo, a herança silenciosa deixada por homens e mulheres comuns que, em meio a privações, ajudaram a construir os alicerces de uma nova sociedade.
Ao dar voz a personagens inventados, busquei resgatar a memória coletiva dos que não deixaram suas histórias registradas, mas cuja experiência se repete em milhares de famílias descendentes. Este livro é, antes de tudo, uma homenagem a eles — aos imigrantes anônimos que, entre lágrimas e esperanças, encontraram no Brasil o palco definitivo de suas vidas.
Dr. Luiz C. B. Piazzetta
sexta-feira, 16 de maio de 2025
O Destino de Giuseppe Veraldi
O Destino de Giuseppe Veraldi
Giuseppe Veraldi nasceu em 1854 no município de San Bonifacio, na província de Verona. Sua infância foi marcada pelo trabalho árduo ao lado do pai, um pequeno agricultor que lutava para obter sustento daquela terra castigada por impostos e colheitas incertas. Com o passar dos anos, Giuseppe compreendeu que a Itália não lhe oferecia um futuro digno. Assim, em 1875, aos 21 anos, embarcou em um navio rumo ao Brasil, em busca da prosperidade que tantos conterrâneos diziam encontrar no Novo Mundo.
O porto de Santos o recebeu com uma mistura de promessas e dificuldades. A cidade fervilhava de imigrantes, sonhadores e oportunistas. No início, Giuseppe encontrou trabalho em Campinas, no interior de São Paulo, onde passou anos lidando com a terra e os cafezais. Não demorou para perceber que a verdadeira riqueza não estava apenas no trabalho braçal, mas na capacidade de organização e investimento.
Com algumas economias, em 1884 mudou-se para Jundiaí, onde abriu uma casa comercial. O comércio, ao contrário da agricultura, lhe dava mais controle sobre os ganhos e menor dependência das intempéries. Com sua visão estratégica, Giuseppe expandiu seus negócios para além da simples venda de produtos: criou uma empresa chamada Fazenda Verona, que fornecia terras, ferramentas e crédito aos italianos que chegavam sem nada além da esperança. Os colonos pagavam com parte de sua colheita, e Giuseppe, atento às oportunidades, também cobrava uma parcela pelo uso da terra.
A fama da Fazenda Verona cresceu rapidamente. O próprio governo paulista, interessado em ampliar a colonização da região, via com bons olhos a iniciativa de Veraldi. Até os indígenas da área, que antes desconfiavam dos estrangeiros, foram incluídos no sistema. Trabalhando ao lado dos italianos, aprenderam novas técnicas agrícolas e tornaram-se parte da cadeia produtiva que transformou Jundiaí em um polo agrícola de grande destaque.
Em 1889, já um homem rico, Giuseppe comprou uma fazenda de 22.000 hectares em São Carlos, batizando-a de Fazenda Coqueiro. Juntas, a Fazenda Verona e a Fazenda Coqueiro garantiam uma produção anual de 30.000 toneladas de grãos, tornando-o tão influente que a imprensa o apelidou de “O Rei do Trigo”.
Mas Giuseppe nunca foi apenas um comerciante ambicioso. Lembrava-se bem das dificuldades de sua infância e da falta de oportunidades na Itália. Por isso, financiou a construção de escolas, asilos e hospitais em suas propriedades, garantindo que tanto os colonos quanto os indígenas pudessem ter uma vida mais digna.
Quando a Primeira Guerra Mundial devastou a Europa, Giuseppe não hesitou em enviar navios carregados de cereais para a Itália, ajudando sua terra natal em tempos de grande miséria. O governo italiano o homenageou, concedendo-lhe o título de Comendador da Fazenda Coqueiro.
Ele faleceu em 1935, retornando à terra onde nasceu, mas que não lhe havia dado oportunidades. No entanto, seu nome permaneceu gravado na história do interior paulista, não apenas como um magnata do trigo, mas como um homem que soube transformar dificuldades em prosperidade — para si e para muitos outros.
Nota do Autor
"O Destino de Giuseppe Veraldi" é uma obra de ficção inspirada em fatos reais, construída a partir de relatos históricos, cartas e depoimentos deixados por imigrantes italianos que vivenciaram as adversidades e conquistas da vida no Brasil no final do século XIX e início do século XX. Embora Giuseppe Veraldi seja um personagem fictício, sua trajetória é representativa da experiência de muitos pioneiros italianos que cruzaram o oceano em busca de um futuro melhor. O conto pretende capturar o espírito de resiliência, coragem e determinação que marcou essa geração de imigrantes. Os desafios descritos, como o trabalho árduo nos cafezais, as dificuldades de adaptação e a construção de uma nova vida em terras estrangeiras, refletem o que muitos enfrentaram. A história de Giuseppe também busca explorar como a força de vontade e a visão estratégica permitiram a alguns transformarem suas vidas e ajudarem a moldar o destino das comunidades ao seu redor. Embora inspirado em acontecimentos e contextos históricos reais, esta narrativa é fruto da imaginação do autor. Alguns elementos foram recriados ou ajustados para trazer maior profundidade e conexão emocional ao leitor. Esta obra é uma homenagem a todos os imigrantes que, com suor, lágrimas e esperança, ajudaram a construir as bases de nossa sociedade.
Espero que esta história toque os corações dos leitores e os faça refletir sobre o legado de coragem e sacrifício deixado por aqueles que vieram antes de nós. Que Giuseppe Veraldi, mesmo como uma figura fictícia, simbolize a força e o espírito de superação que nos inspiram a continuar a busca por dias melhores.
Dr. Piazzetta
sábado, 4 de dezembro de 2021
Os camponeses italianos nas lavouras de café
O império brasileiro, desde os últimos 30 anos do século XIX, já despontava como um grande país, com uma densidade demográfica muito baixa e ainda muito pouco desenvolvido, com uma economia baseada quase que exclusivamente na agricultura. A força de trabalho era até então quase que exclusivamente formada por escravos negros trazidos a força da África.
A explosão do preço internacional do café logo fez surgir extensas plantações nas províncias de São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo e Minas Gerais que exigiam cada vez mais a importação de escravos para o trabalho braçal.
Nessa época as vozes, dentro do império, contra a escravidão cresciam cada vez mais até que no ano de 1871 foi aprovada uma lei que gerou a necessidade dos cafeicultores mudarem de planos para tocarem os seus negócios.
Era a chamada Lei do Ventre Livre, quando então os filhos das escravas seriam considerados livres. Essa lei foi o início do fim da escravidão no Brasil, o que só veio a acontecer em 13 de maio de 1888, quando foi definitivamente abolida com a promulgação da Lei Áurea.
Os italianos, pela grande disponibilidade naquele momento, desde o início foram uma das opções do governo imperial para substituir os negros escravos nas grandes plantações de café. Nas fazendas, por serem brancos e católicos, tinham um tratamento melhor que os escravos e a qualidade de vida desses primeiros imigrantes era um pouco melhor daquela dos escravos. Mesmo assim, para se ter uma ideia, a dureza do trabalho, as más condições das habitações disponíveis nas fazendas - geralmente eram as mesmas dos antigos escravos - e a mentalidade ainda escravagista, de muitos fazendeiros, levaram o governo italiano, com o decreto Prinetti de 1902 a suspender temporariamente a emigração para o Brasil, especialmente aquela destinada para as grandes fazendas paulistas de café.
As primeiras levas de imigrantes italianos chegaram a província de São Paulo nos últimos anos do século XIX, provenientes das regiões do Vêneto e Lombardia, logo seguidos por milhares de outros camponeses da região sul da Itália.
Esses imigrantes eram recrutados por companhias especializadas, contratadas pelo governo imperial brasileiro. Vieram para o Brasil com a viagem paga pelos fazendeiros e tinham destino certo.
Através dos diferentes contratos assinados ainda na Itália deviam, com as suas famílias, ficar responsáveis pelo plantio, limpeza e colheita de um determinado número de pés de café. Durante o período para que foram contratados, geralmente, não inferior a dois anos, o imigrante não podia legalmente abandonar a fazenda.
O descontentamento desses primeiros imigrantes era grande com o que tinham encontrado no Brasil e crescia ainda mais na medida que percebiam que a suas vidas não tinham mudado muito para melhor com a emigração. O sonho da propriedade ainda não tinha sido alcançado e este devia ser perseguido a todo o custo. Para a grande maioria desses pioneiros retornar para Itália, sem terem alcançado o objetivo maior que os movera, era considerado uma grande desonra e estava fora de cogitação.
Após vencido o período acordado no contrato, cumpridas as suas clausulas e depois de quitarem todas as dívidas contraídas com o fazendeiro, os imigrantes mais corajosos e empreendedores abandonavam as fazendas e se aventuravam por conta própria nas inúmeras cidades vizinhas que rapidamente estavam surgindo.
Nelas se estabeleciam trabalhando como empregados nas várias fábricas já existentes na região ou, aqueles que já tinham aprendido algum ofício na Itália e especialmente os que tinham conseguido guardar alguma economia durante a permanência na fazenda, logo se tornavam empreendedores ou comerciantes autônomos.
Sem medo do trabalho, depois da longa jornada na fábrica, em suas próprias casas trabalhavam por conta própria nos mais diversos ofícios, procurando assim aumentar a renda familiar. Este foi o maior segredo, reconhecido por todos, do sucesso desses imigrantes italianos.
Assim surgiram pelo interior de São Paulo e também na capital, pequenas e variadas fábricas e casas de comércio que, aos poucos, foram crescendo incorporando o trabalho de toda a família. Muitas delas se tornaram verdadeiras potências econômicas. O rápido progresso do interior paulista se deve, em grande parte, a esses pioneiros empreendedores italianos.
Uma grande diferença entre os italianos e os imigrantes de outros países que chegaram aqui no Brasil naquele periodo, foi o fato que não tinham até então uma consciência nacional italiana, nem os mesmos costumes eram iguais entre eles e até mesmo não falavam a mesma língua.
Nessas cidades o idioma italiano foi rapidamente se difundindo, passando de uma língua conhecida e usada por poucos - pois os imigrantes só se comunicavam nos seus dialetos provinciais - para uma língua usada por todos eles para facilitar os relacionamentos, principalmente após os casamentos entre noivos provenientes de diferentes províncias e regiões da Itália.
Falar em italiano passou a ser considerado uma forma mais culta e educada de se viver e os diversos dialetos provinciais, assim como a maioria dos seus usos e costumes regionais trazidos com a emigração, foram aos poucos se perdendo, pois, essas eram consideradas características das classes mais baixas e que deveriam ser abandonados para se distinguirem.
Tanto naquelas cidades do interior paulista que conheceram a imigração italiana, como também na capital do estado, se criaram bairros inteiros onde praticamente só viviam os italianos e seus descendentes. Exemplos são os grandes bairros italianos do Brás e do Bixiga que até poucos anos atrás moravam somente os descendentes de italianos.
Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta
Erechim RS
