domingo, 15 de fevereiro de 2026

A História de Madalena e o Silêncio dos Lares de Idosos


A História de Madalena e o Silêncio dos Lares de Idosos 


Madalena tem 82 anos. Quatro filhos. Onze netos. Dois bisnetos.
E hoje, toda a sua vida cabe em um quarto de apenas doze metros quadrados.

Esta é a história de uma mulher que construiu uma família inteira… e acabou vivendo sozinha. Não por falta de amor no passado — mas por ausência de presença no presente.

Quando a Vida Era Casa Cheia

Madalena nasceu simples e viveu para cuidar. Desde jovem, aprendeu que amar era servir: lavar, cozinhar, acolher, ouvir. Casou cedo e teve quatro filhos. Sua casa nunca foi rica, mas sempre foi cheia de vozes, passos, cheiro de comida e de gente.

Vieram os netos — onze. Depois, dois bisnetos.
Ela virou colo, panela quente, história antes de dormir. Bordava ponto cruz enquanto as crianças brincavam. Fazia nuggets caseiros, ovos recheados, rolos de carne moída. A casa pulsava.

Ela acreditava que envelheceria ali.

Quando a Casa Fica Grande Demais

Com o tempo, os filhos cresceram. A casa silenciou. As visitas ficaram raras.
Até que decidiram: Madalena “precisava de cuidados”.

E assim, sem briga, sem escolha real, ela deixou tudo.

Hoje, Madalena vive em um lar de idosos.
Não lhe falta comida.
Não lhe faltam remédios.
Não lhe falta quem faça sua cama ou meça sua pressão.

Mas lhe falta o essencial: pertencer.

A Rotina Que Não Preenche

Ela não vê mais os netos crescerem.
Alguns a visitam a cada quinze dias.
Outros, a cada três ou quatro meses.
E há os que nunca mais voltaram.

Madalena aprendeu a não perguntar.
Aprendeu a não esperar.

Passa o tempo com sudoku, terapia ocupacional, ajudando quem está mais frágil. Mas evita se apegar. Ali, as pessoas desaparecem sem aviso. Um dia estão na cadeira ao lado. No outro, o quarto está vazio.

Dizem que a vida está cada vez mais longa.
Mas não dizem que também está cada vez mais solitária.

Onde Ela Ainda É Livre

À noite, quando o corredor silencia, Madalena abre sua caixa de fotos.
Ali estão seus filhos pequenos. Seus netos bebês. Sua vida inteira.

É o único lugar onde ela ainda caminha sem pedir permissão:
na memória.

E isso é tudo o que lhe resta.

A Mensagem Que Madalena Deixaria ao Mundo

Se Madalena pudesse deixar uma herança, não seria dinheiro nem objetos.

Seria um pedido:

  • Que as próximas gerações entendam que família não é só origem — é permanência.
  • Que o tempo que os pais entregam aos filhos precisa, um dia, ser devolvido.
  • Não com culpa.
  • Mas com presença.


Nota do Autor 

A história de Madalena não é apenas a narrativa de uma mulher idosa em um quarto silencioso. É, sobretudo, o espelho de uma sociedade que aprendeu a prolongar a vida, mas ainda não aprendeu a sustentar o sentido dela até o fim.

Vivemos numa época em que o tempo se tornou utilitário, mensurável, produtivo — mas raramente afetivo. Criamos filhos com dedicação, sacrificamos sonhos em nome do amanhã, e acreditamos que o amor, uma vez plantado, sobreviverá por si só. No entanto, o amor precisa de presença. Precisa de continuidade. Precisa de retorno.

Madalena representa milhares de vozes que não escrevem cartas, não fazem denúncias, não aparecem nas estatísticas. São existências que se apagam lentamente na rotina dos lares, bem cuidadas em seus corpos, mas abandonadas em suas biografias.

Este texto não busca acusar — mas despertar.

Não pretende ferir — mas lembrar.

Não quer gerar culpa — mas consciência.

Que o leitor, ao fechar esta página, leve consigo uma pergunta simples e profunda:

O que farei eu, hoje, para que ninguém que me amou envelheça sozinho amanhã?

Porque família não é apenas um vínculo de sangue.

É um pacto de permanência.

E o tempo que recebemos em forma de cuidado… um dia precisará ser devolvido em forma de presença.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



sábado, 14 de fevereiro de 2026

Relação dos Imigrantes Italianos que Partiram de Gênova para Paranaguá PR em 12 de Fevereiro de 1878

 


Vapor Colombo

Relação dos Imigrantes Italianos que Partiram de Gênova para Paranaguá PR em 12 de Fevereiro de 1878


 

NOME
IDADE
LUGAR DE
NASCIMENTO
NAÇÃO
PROFISSÃO
RELIGIÃO
TUALDO Gio.Batta
TUALDO Luigia
TUALDO Maria
TUALDO Emanuele
TUALDO Giuseppe
TUALDO Tarquino
TUALDO Silvio
45
42
14
10
7
5
3
VICENZA
"
"
"
"
"
"
Itália
"
"
"
"
"
"
Agricultor
"
"
"
"
"
"
Católico
"
"
"
"
"
"
ROARO Giovanne
ROARO Regina
ROARO Giulio
ROARO Antonio
38
36
6
3
"
"
"
"
"
"
"
FOGLIATO Francesco
FOGLIATO Maria
FOGLIATO Giacomo
FOGLIATO Cecilia
FOGLIATO Francesco
35
33
7
4
2
"
"
"
"
"
"
"
"
TREVISAN Giuseppe
TERVISAN Francesca
TREVISAN Giovanna
TREVISAN Lucia
TREVISAN Angela
TREVISAN Francesco
TREVISAN Francesco
TREVISAN Domenico
TREVISAN Caterina
38
36
15
10
9
7
6
4
1
"
"
"
"
"
"
"
"
"
"
"
"
PIROTTO Francesco
PIROTTO Elisabetta
PIROTTO Giustina
PIROTTO Francesco
PIROTTO Costanza
PIROTTO Maria
PIROTTO Pietro
35
30
10
9
6
3
1
"
"
"
"
"
"
"
"
"
"
CHEMELO Antonio
CHEMELO Domenica
30
30
"
"
"
"
"
BAGIN Giovanni
BAGIN Filomena
BAGIN Maria
BAGIN Maddalena
BAGIN Giovanni
42
10
15
11
4
"
"
"
"
"
"
"
"
GUERRA Antonio
GUERRA Maria
GUERRA Francesca
GUERRA Gio.Batta
GUERRA Maria
44
40
16
13
3
"
"
"
"
"
"
"
"
BARBIERO Giuseppe
BARBIERO Bortolo
BARBIERO Maria
79
52
52
"
"
"
"
"
"
POTTOLLON(?) Antonio
POTTOLLON Caterina
POTTOLLON Giovanni
32
30
4
"
"
"
"
"
"
NOME
IDADE
LOCAL DE
NASCIMENTO
NAÇÃO
PROFISSÃO
RELIGIÃO
NODARI Sebastianno
NODARI Angela
NODARI Luigia
NODARI Lucia
NODARI Domenico
NODARI Romano
NODARI Maria
NODARI Emilio
41
40
10
9
7
5
4
2
VICENZA
"
"
"
"
"
"
"
Itália
"
"
"
"
"
"
"
Agricultor
"
"
"
"
"
"
"
Católico
"
"
"
"
"
"
"
LORENZONI Caterina
LORENZONI Antonio
LORENZONI Maria
LORENZONI Giulio
LORENZONI Andrea
LORENZONI Gaetano
60
24
41(?)
14
8
1
"
"
"
"
"
"
"
"
"
MASCHIO Gio Maria(?)
MARCHIO Angela
27
22
"
"
"
"
"
DALLA COSTA Domenico
DALLA COSTA Maria
DALLA COSTA Eva
DALLA COSTA Maria
DALLA COSTA Costanza
DALLA COSTA Speranza
DALLA COSTA Guglielmo
46
40
14
12
10
8
6
"
"
"
"
"
"
"
"
"
"
FINALTI Michele
FINALTI Angelo
FINALTI Giovanna
62
27
25
"
"
"
"
"
"
FORNER Giacomo
FORNER Maria
FORNER Antonia
FORNER Antonio
FORNER Maria
FORNER Guglielmo
FORNER Giordano
41
-
39
14
10
2
0.7
"
"
"
"
"
"
"
"
"
"
GAZZOLA Agostino
GAZZOLA Lucia
GAZZOLA Fortunato
GAZZOLA Alessandro
35
30
32
3
"
"
"
"
"
"
"
MENEGHETTI Valentino
MENEGHETTI Caterina
MENEGHETTI Giuseppina
33
30
1
"
"
"
"
"
"
BIZZOTTO Francesco 
BIZZOTTO Angela
BIZZOTTO Antonio
BIZZOTTO Matteo
BIZZOTTO Giovanni
BIZZOTTO Orsola
BIZZOTTO Regina
41
35
13
11
9
7
3
"
"
"
"
"
"
"
"
"
"
BASCAN Valentino
BASCAN Maria
BASCAN Amedeo
BASCAN Sante
32
26
6
3
"
"
"
"
"
"
"
NOME
IDADE
LOCAL DE
NASCIMENTO
NAÇÃO
PROFISSÃO
RELIGIÃO
CECCON Gaetano
CECCON Cecilia
CECCON Maria
CECCON Angelo
CECCON Margheritta
34
34
11
8
1
VICENZA
"
"
"
"
Itália
"
"
"
"
Agricultor
"
"
"
"
Católico
"
"
"
"
DALLAPOZZA Maria
DALLAPOZZA Antonio
DALLAPOZZA Rosa
DALLAPOZZA Giuditta
DALLAPOZZA Massimiliano
DALLAPOZZA Maria
60
40
35
9
6
3
"
"
"
"
GHENO Giovanna
GHENO Maria Angela
GHENO Bartolomeu
Constam dois nome riscados 
59
13
9
-
"
"
"
"
PAOLETTO Bortolo
PAOLETTO Maria
PAOLETTO Giuseppe
PAOLETTO Anna
PAOLETTO Carlo
57
37
8
5
0.8
"
"
"
"
RIGHI Giovanni
RIGHI Teresa
RIGHI Giovanni
RIGHI Francesco
RIGHI Emilia
28
25
6
3
0.5
"
"
"
"
BRAGAGNOLO Pietro
BRAGAGNOLO Angela
BRAGAGNOLO Ciriaco
BRAGAGNOLOMatteio
51
54
15
12
"
"
"
"
MENEGAZ Abramo
MENEGAZ Pasqua
MENEGAZ Domenico
MENEGAZ Pietro
MENEGAZ Maria
MENEGAZ Anna
55
43
14
8
5
3
"
"
"
"
CARLESSO Bernardo
CARLESSO Angela
CARLESSO Giovanni
CARLESSO Francesco
49
46
15
11
"
"
"
"
TOTONE(?) Andrea
TOTONE Pasqua
TOTONE Sebastiano
TOTONE Lucia
TOTONE Maria
37
28
7
4
2
"
"
"
"
GRIGOLETTO Giuseppe
GRIGOLETTO Maria
GRIGOLETTO Maria
GRIGOLETTO Rosa
GRIGOLETTO Giovanni
33
33
7
4
1
"
"
"
"
NOME
IDADE
LOCAL DE
NASCIMENTO
NAÇÃO
PROFISSÃO
RELIGIÃO
TRITOLATI Vincenzo
TRITOLATI Angela
TRITOLATI Gaetano
TRITOLATI Giovani
TRITOLATI Anacleto
32
27
6
4
1
VICENZA
"
"
"
"
Italia
"
"
"
"
Agricultor
"
"
"
"
Catolico
 "
"
"
"
MORO Bortolo
MORO Luigia
MORO Maria
MORO Pietro
MORO Domenica
44
44
16
14
12
"
"
"
"
BOLZON Pietro
BOLZON Luigi
BOLZON Rosa
BOLZON Giacomo
BOLZON Adora
-
26
23
22
0.5
"
"
"
"
STRADIOTTO Antonio
STRADIOTTO Antonia
STRADIOTTO Valentino
STRADIOTTO  Cristina
31
33
6
3
TREVISO
"
"
"
"
"
"
MILANI Antonio
MILANI Rosa
MILANI Maria
MILANI Valentino
MILANI Caterina
MILANI Giovanni
40
34
16
9
4
1
"
"
"
"
FILIPPIN Giovanni
FILIPPIN Antonia
22
21
"
"
"
"
GUIDOLIN Angelo
GUIDOLIN Angela
GUIDOLIN Luigi
GUIDOLIN Giuseppe
59
57
19
16
"
"
"
"
PASINATO Amedeo
PASINATO Patrizio
PASINATO Luigia
PASINATO Pietro
PASINATO Giuseppe
PASINATO Angelo
PASINATO Matteo
PASINATO Angelo
PASINATO Gio (?)
70
46
40
18
13
11
7
4
0.18
"
"
"
"
PIEROBOM Antonio
PIEROBOM Teresa
PIEROBOM Marco
33
27
26
"
"
"
"
CECCHIN Francesco
CECCHIN Veronica
CECCHIN Celeste
CECCHIN Maria
CECCHIN Gio.Batta
CECCHIN Vittorio
CECCHIN Maria
52
47
29
26
18
14
12
"
"
"
"
NOME
IDADE
LOCAL DE 
NASCIMENTO
NAÇÃO
PROFISSÃO
RELIGIÃO
SOUZA Celeste
SOUZA Domenica
SOUZA Angelo
SOUZA Maria
SOUZA Amedeo
SOUZA Giovanni
SOUZA Giuseppe
SOUZA Angela
37
37
14
12
10
7
4
2
TREVISO
"
"
"
"
"
"
"
Italia
"
"
"
"
"
"
"
Agricultor
"
"
"
"
"
"
"
Catolico
"
"
"
"
"
"
"
GAZZOLA Antonio
GAZZOLA Pietro
65
30
"
"
"
"
TONIOLO Eugenio
TONIOLO Maria
TONIOLO Maria
30
27
2
"
"
"
"
STANGHERLIU(?) Sante
STANGHERLIU Maria
STANGHERLIU Cesare
STANGHERLIU Eugenio
STANGHERLIU Pasquale
STANGHERLIU Regina
STANGHERLIU Teresa
63
53
27
23
16
13
11
"
"
"
"
FUGANTI(?) Felice
FUGANTI Bortolomea
FUGANTI Lucia
FUGANTI Virginia
FUGANTI Rosa
FUGANTI Cesare
FUGANTI Pietro
FUGANTI Caterina
FUGANTI Romedio
49
38
18
17
16
10
9
7
5
TRENTO
"
"
"
"
"
"
"
"
"
"
"
TOMAS Gio.Batta
TOMAS Margherita
TOMAS Corona
TOMAS Margherita
TOMAS Giacomo
36
28
10
8
2
"
"
"
"
TONIETTI Fortunata
TONIETTI Maria
TONIETTI Barbera
TONIETTI Pietro
TONIETTI Giorgio
TONIETTI Giovanni
42
15
11
8
3
1
"
"
"
"
PERMIAN Caterina
PERMIAN Giuseppe
PERMIAN Carolina
PERMIAN Maria
PERMIAN Luigia
PERMIAN Luigi
PERMIAN Alessandro
PERMIAN Gaetano
PERMIAN Rosa
PERMIAN Giuseppe
70
33
38
20
19
18
16
14
11
2
VERONA
"
"
"
"
"
"
"
"
"
"
"
"
"
NOME
IDADE
LOCAL DE
NASCIMENTO
NAÇÃO
PROFISSÃO
RELIGIÃO
VIERO Giovanni
VIERO Caterina
VIERO Andrea
VIERO Giovanna
VIERO Antonio
VIERO Santo
43
40
9
6
3
1
VICENZA
"
"
"
"
"
Italia
"
"
"
"
"
Agricultor
"
"
"
"
"
Catolico
"
"
"
"
"
TOLFO Eurosia
TOLFO Giovanni
TOLFO Margherita
TOLFO Pietro
TOLFO Drusilla
TOLFO Fioravante
61
28
26
5
4
2
"
"
"
"
RINCO Margherita
RINCO Luigi
RINCO Isotta
RINCO Gio.Batta
RINCO Giuseppe
70
35
36
11
2
"
"
"
"
RECCHIA Luigi
RECCHIA Maria
RECCHIA Antonio
RECCHIA Massimiliano
RECCHIA Benvenuto
32
25
4
3
1
"
"
"
"
FACCIN Benedetto
FACCIN Pasqua
FACCIN Rodolfo
FACCIN Romano
FACCIN Guglielma
FACCHIN Agostino
48
44
15
22
8
5
"
"
"
"
MELATTO Michele
MELATTO Domenica
MELATTO Clorinda
MELATTO Paola
27
25
7
2
"
"
"
"
DAL SANTO Bortolo
DAL SANTO Filomena
DAL SANTO Maria
DAL SANTO Natale
DAL SANTO Rosa
37
32
10
4
3
"
"
"
"
NOGARA Angelo
NOGARA Teresa
NOGARA Lucia
NOGARA Alessandro
NOGARA Gio.Batta
NOGARA Maria
49
39
15
11
9
6
"
"
"
"
BROCCARDO Francesco
BROCCARDO Elena
BROCCARDO Silvio
BROCCARDO Aliuto
32
30
4
2
"
"
"
"
RUGGINE Antonio
RUGGINE Maria
RUGGINE Attilio
37
31
3
"
"
"
"
NOME
IDADE
LOCAL DE
NASCIMENTO
NAÇÃO
PROFISSÃO
RELIGIÃO
NOGARA Giuseppe
NOGARADomenica
NOGARA Teresa
NOGARA Elisabetta
NOGARA Rosa
39
30
10
7
3
VICENZA
"
"
"
"
Itália
"
"
"
"
Agricultor
"
"
"
"
Católico
"
"
"
"
LOVATO Isidoro
LOVATO Cristina
LOVATO Giseppe
LOVATO Gio.Batta
50
46
13
7
"
"
"
"
GOBBO Mario
GOBBO Maria
GOBBO Amalia
GOBBO Massimiliano
GOBBO Giuseppe
GOBBO Petronilla
49
35
10
8
6
2
"
"
"
"
COSTA Isidoro
COSTA Caterina
COSTA Angela
COSTA Domenico
COSTA Rosa
31
30
4
3
0.7
"
"
"
"
CARLOTTO Antonio
CARLOTTO Maria
CARLOTTO Domenico
CARLOTTO Rosa
CARLOTTO Andrea
CARLOTTO Antonio
62
54
23
21
18
0.8
"
"
"
"
PELIZZARO Giovanni
PELIZZARO Giuditta
PELIZZARORiccardo
PELIZZARO Rosa
35
35
4
2
"
"
"
"
BISOGNIN Francesco
BISOGNIN Brigida
BISOGNIN Isidoro
BISOGNIN Alessandro
BISOGNIN Santa
BISOGNIN Rosa
46
27
9
6
3
0.8
"
"
"
"
CREAZZO Luicia
CREAZZO Luigi
CREAZZO Angela
CREAZZO Elena
70
40
33
25
"
"
"
"
GIARETTA Angelo
GIARETTA Pasqua
GIARETTA Michele
GIARETTA Maria
GIARETTA Antonio
50
50
29
29
"
"
"
"
LORENZON Giovanni
LORENZON Caterina
LORENZON Francesco
LORENZON Pia
LORENZON Paola
39
37
9
6
2
"
"
"
"
NOME
IDADE
LOCAL DE 
NASCIMENTO
NAÇÃO
PROFISSÃO
RELIGIÃO
GUERRA Giovanni
GUERRA Francesco
GUERRA Orsola
GUERRA Gio.Batta
GUERRA Genovieffa
53
39
37
14
2
VICENZA
"
"
"
"
Italia
"
"
"
"
Agricultor
"
"
"
"
Católico
"
"
"
"
LORENZON Francesco
LORENZON Giovanna
LORENZON Maria
LORENZON Giovannina
LORENZON Giovanni
LORENZON Pietro
40
37
8
6
4
2
"
"
"
"


Nota

Cada nome que aparece nesta relação não é apenas uma entrada num arquivo antigo. É um coração que bateu mais forte ao avistar o mar pela última vez na costa de Gênova. É uma mala pobre, cheia de silêncios, despedidas e esperanças. Ao organizar e publicar esta lista de imigrantes italianos que partiram rumo a Paranaguá em fevereiro de 1878, sinto que não estou apenas lidando com dados, mas com vidas suspensas entre dois mundos.

Foram homens e mulheres que deixaram para trás aldeias, vinhas, montanhas e sepulturas de antepassados para enfrentar o desconhecido. Não sabiam o que os esperava do outro lado do oceano. Sabiam apenas que a fome, a miséria e a falta de futuro já não lhes davam escolha. O Brasil era mais do que um destino: era uma promessa.

Escrever sobre eles é, para mim, um ato de respeito. É devolver dignidade a quem a história muitas vezes reduziu a números. É lembrar que a identidade brasileira foi construída por mãos calejadas, por vozes com sotaque, por corações que aprenderam a amar uma terra que não era sua — até que se tornou.

Se este texto tocar alguém que reconheça um sobrenome, uma origem, uma história de família, então ele cumpriu seu papel. Porque a memória não é passado morto. É raiz viva. E sem raiz, nenhuma árvore permanece em pé.

 

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Imigração Italiana no Brasil e a Construção da Alma Ítalo-Brasileira


Imigração Italiana no Brasil e a Construção da Alma Ítalo-Brasileira


Nas últimas décadas do século XIX, a Itália recém-unificada ainda aprendia a existir como nação. A bandeira era nova, mas a fome era antiga. No Norte, sobretudo nas regiões camponesas do Vêneto, da Lombardia e do Piemonte, o trabalho rareava, a terra já não sustentava tantas bocas e os impostos do novo Estado pesavam sobre ombros cansados. A promessa da unidade política não se traduzira em dignidade material. Entre vinhedos exauridos e campos divididos até o limite, crescia um sentimento difuso de inutilidade, como se a própria vida tivesse perdido seu lugar.

Ao mesmo tempo, do outro lado do Atlântico, o Brasil entrava em um tempo de ruptura. A escravidão havia sido abolida, e as grandes lavouras de café, uva e trigo clamavam por braços. O país buscava trabalhadores livres para sustentar sua economia e, mais do que isso, para reinventar sua identidade social. Nesse encontro entre uma Itália exausta e um Brasil em reconstrução, formou-se uma travessia não apenas geográfica, mas emocional.

A decisão de partir não nascia de entusiasmo, mas de esgotamento. O imigrante deixava a aldeia não porque sonhava com o novo, mas porque já não podia suportar o velho. A despedida acontecia em silêncio, na beira dos campos, diante das casas de pedra e madeira que haviam abrigado gerações. Não se tratava apenas de abandonar um território, mas de rasgar uma continuidade afetiva. Ficavam para trás os mortos, os costumes, os cheiros da cozinha, as vozes da infância. Levava-se no corpo o medo e, na memória, uma dor ainda sem nome.

A viagem no porão dos navios era uma experiência de despersonalização. O tempo se diluía entre dias idênticos, embalados pelo rumor do mar e pelo balanço que confundia sono e vigília. Doenças circulavam como sombras. Crianças adoeciam, velhos se apagavam, e o luto era rápido, porque não havia espaço para o pranto. Mesmo assim, dentro daquelas estruturas de ferro e madeira, algo se preservava: o sentimento coletivo. Cantava-se, quando possível. E nas melodias de Verdi, especialmente nos coros de Nabucco e nas árias de Aida, os imigrantes reconheciam a própria condição: exilados, errantes, suspensos entre um passado que não voltaria e um futuro que ainda não existia.

A música funcionava como linguagem da alma. Onde faltavam palavras, surgia o canto. Ele não descrevia a dor; ele a continha. Era uma forma de resistência íntima, uma tentativa de não se dissolver completamente na travessia. Ao lado das canções, circulavam pequenos objetos: imagens de santos, pedaços de terra embrulhados em pano, cartões-postais com fotografias sépia de famílias que já começavam a se dividir.

Esses cartões eram mais do que correspondência. Eram fragmentos de identidade. Cada imagem enviada do Brasil para a Itália, ou da Itália para o Brasil, carregava mais ausência do que notícia. As palavras, sempre contidas, evitavam assustar quem ficara. Mas por trás das frases simples havia conflitos afetivos profundos: culpa por sobreviver, vergonha por não prosperar rápido, medo de nunca mais pertencer a lugar algum. A família, antes um corpo único, tornava-se um arquipélago de saudades.

Ao chegar ao Brasil, o imigrante não encontrava a terra prometida, mas a terra possível. Florestas densas, clima estranho, trabalho duro. A adaptação exigia mais do que força física; exigia uma reorganização interior. Era preciso reaprender a existir sem as referências de antes. A língua se misturava, os gestos se transformavam, os ritmos do tempo mudavam. A memória da Itália não desaparecia, mas começava a se recompor em outra tonalidade, como uma música transposta para novo instrumento.

Nesse processo, nascia um estado de alma novo. Nem mais totalmente italiano, nem ainda plenamente brasileiro. Um ser de fronteira, feito de sobreposições. A saudade tornava-se constitutiva. Não como dor aguda, mas como camada permanente da sensibilidade. O imigrante aprendia a amar duas terras: uma que o expulsara e outra que ainda não o acolhera por inteiro.

Com o passar dos anos, os filhos dos imigrantes herdavam não apenas o sobrenome e o trabalho, mas também essa paisagem emocional. Cresciam ouvindo histórias de uma Itália que não conheciam, cantadas em melodias que misturavam ópera e canto popular. Nos almoços de domingo, nos mutirões de colheita, nas festas religiosas, formava-se um grande amálgama anímico: uma mistura de resistência, nostalgia e esperança.

Assim, a imigração italiana no Brasil não foi apenas um movimento de corpos, mas uma migração de sentimentos. Trouxe consigo dores antigas, mas também a capacidade de transformar perda em permanência. O que se perdeu em território foi recriado em cultura. O que se rompeu em família foi recomposto em comunidade. E dessa travessia, feita de silêncios, músicas e cartas, nasceu uma parte essencial da alma brasileira.

Nota do Autor

Este texto nasce do encontro entre história e sensibilidade. Não pretende substituir o trabalho dos historiadores nem competir com a documentação, mas dialogar com ela a partir de uma escuta interior. A imigração italiana no Brasil é um dos grandes movimentos formadores da nossa sociedade, e sua compreensão exige não apenas dados e datas, mas também atenção aos estados de alma que atravessaram homens e mulheres em trânsito entre mundos.

A narrativa aqui apresentada é de caráter ensaístico e literário. Apoia-se em referências amplamente conhecidas sobre o contexto da unificação italiana, da abolição da escravidão no Brasil e dos fluxos migratórios do final do século XIX, mas não reproduz textos, análises ou estruturas de obras específicas. Trata-se de uma interpretação autoral, construída a partir da observação, da memória cultural e da imaginação histórica.

Ao evocar a música de Verdi, as cartas familiares e o silêncio das despedidas, procurei iluminar aquilo que raramente aparece nos registros oficiais: o drama íntimo da transmigração, a reconstrução afetiva do sujeito e a lenta formação de uma identidade mestiça de saudade e esperança. Se este texto tocar o leitor, não será por exatidão acadêmica, mas por reconhecimento humano.

Escrevi, portanto, não para narrar feitos, mas para escutar ecos. E se algo permanece após a leitura, que seja a certeza de que nenhuma nação se constrói apenas com braços — constrói-se, sobretudo, com almas em travessia.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Le Colone del Novo Mondo e La Saga de Bartolomeo Sandrigo


 

Le Colone del Novo Mondo e La Saga de Bartolomeo Sandrigo

´Ntel autono del 1855, in un vilareto alora meso scordà ciamà Spresiano, ´nte la provínsia de Treviso, al cuor del Vèneto, nasse Bartolomeo Sandrigo. L’ària la zera pesà de odor de fòie ùmide e tera smossa, mentre el Piave el mormorava come un lamento che no finisse mai. L´ Itàlia, ancora no unificà, la zera un calderon de promesse rote: tasse che schiassiava i contadin, tera in man de pochi signori, e ´na fame che rosegava le budele come un lupo svodà. Bartolomeo, el pì zòvene de sete fradéi, el cressea in ´na caseta de piere e paia mal curà, ndove so pare, un mesadro sfrutà, el sudava da sol a sol par ´na feta de racolto. “La tera dà vita, ma la roba l’ànima”, el disea el vècio Sandrigo, con le man screpolà come radise torte.

La vita in campagna la zera un giro crudele. A diese ani, Bartolomeo el zà manegiava la zapa ´ntei campi de mìlio e fromento, mentre la pelagra – el mal de la misèria, par via de magnar solo polenta – la marcava la pele dei visin con sbafi rossi. Rivolte de contadini le rimbonbava tra le coline, con preti che provava a meter pase tra i famèie e i signori lontan. Bartolomeo el caminava a piè fin a Treviso par vender ovi al marcà, e là el sentia sussuri de un mondo oltre mar: el Brasil, na tera de oro verde, onde el governo el prometea tera a chi ghe gavea coraio de atravessar l’ossean. “Mèrica”, i la ciamava, na parola che suonava come salvassion.

A ventani, ´ntel 1875, la tragèdia la ga segnà el so destino. Na zelada tardia la ga destruì el racolto, e so pare el ze morto de strachessa, lassando la famèia con dèbiti. Bartolomeo, alto e forte come un rovere vèneto, con oci castagni che tegnia ´na volontà de fero, el ga deciso de partir. El ga vendù el poco che gavea e el ga comprà un biliete con el sussìdio del governo brasilian, che vedea l’emigrassion come ´na vàlvola par sfogar la pression sossial. Con ´na valìsia de legno pien de semi de uva, ´na Bibia consumà e el rosàrio de so mama, el se ga zontà a centinaia de paesani al porto de Genova. Là, in meso al caos de valise e làgreme, el ga trovà Maria, ´na zòvane de un borgo visin, orfana e coraiosa, che viaiava sola par catar parenti lontan. I so oci i se ga incrosià come scintile in ´na forgia, piantando i semi de un amor che sfidaria i mari.

El vapor La Sofia, un navio vècio de fero rusenoso, el ga zarpà in novembre del 1875, cargado con 388 ànime del Vèneto e Trentino. Bartolomeo e Maria, strensù la zo ´nte ´na repartission freda e ùmida, i ga scontrà setimane de tempeste atlantiche, con onde alte come montagne che menasiava de inghiotir el navio. Malatie le se sparsea come fogo ´nte la pàia seca: el tifo el ga taià vite, come quela de na creatura che Bartolomeo el ga aiutà a sepelir in mar. Lui, con la so forsa, el ga organisà turni par divider rassion magre de pan duro e aqua salmaza, guadagnando el rispeto dei compagni. “Semo come i antichi romani”, el disea a Maria ´nte le note sensa sono, “costruendo un impero in tere salvadeghe”.

Ma el mar no zera l’ùnico nemigo. Intrighi a bordo i ga nassù: un agente brasilian, un omo furbo, de soranome Pereira, el prometea tera bona, ma i sussuri i disea che tanti imigranti i finia in condission quasi da schiavi. Bartolomeo, con la so ànima de capo, el ga scontrà Pereira in na discussion calda, defendendo na famèia imbroià da promese false. Maria, con la so testa fina, la cosea vestiti strassà e la contava stòrie vènete par calmar le creature, tegnendo nodi che sarìa stà importanti ´nte el novo mondo. Quando el vapor el ga rivà al porto de Rio Grande in zenaro del 1876, dopo ´na sosta a Paranaguà, el grupo el zera straco, ma vivo. L’aria tropical, pien de ùmido e odor de mato bruto, la zera come un pugno in confronto a le nevi del Vèneto.

El governo del Rio Grande do Sul, afamà de man d’opera dopo l’abolission lenta dei schiavi, el ga dà tera ´nte la Serra Gaúcha, na region montagnosa e selvàdega. Bartolomeo e Maria, oramai sposà in ´na serimonia fata al porto, i ze stà mandà a la Colònia Conde d’Eu, che dopo la deventarà Garibaldi. La tera promessa la zera un bosco fito, pien de onse e indios kaingangue, che vardava i foresti come ´na menàssia. Con manare e zape, Bartolomeo el ga guidà la tàia de àlbari secolari, costruendo na caseta de legni mentre Maria la piantava i semi portà d’Itàlia – ue moscatel che se adataria al teren vulcánico.

Le dificultà i zera sensa fin. Piove torensiai le trasformava i sentier in palù, e la malària la taiava vite come ´na false scura. Bartolomeo el ga siapà la febre, malà par zorni, ma Maria, con erbe portà e saver popolar, la lo ga salvà. Rivalità le ga nassù: un paron local, el Barão de Arroio Grande, el bramava le tere dei imigranti e el mandava bravi par spaventarli. Bartolomeo, con altri vèneti, el ga formà na milisia de bisogno, defendendo la colónia in ´na imboscada noturna che ga lassà cicatrisi ´nte la so ànima. “Sta tera prova noaltri, ma noaltri forgia”, el confidava a Maria, mentre el primo fil, Giuseppe, el nassea in 1878, come na radise piantà ´ntel novo teren.

Economicamente, la colónia la cressea pian. Bartolomeo el ga portà tècniche de terasamenti vèneti, par no far scivolar la tera, e el ga fondà na cooperativa par far vin, ispirà da le vigne de Treviso. Ma scioperi i ga scopià in 1880, quando el governo el ga ritardà i pagamenti par strade fate dai imigranti. Bartolomeo, ricordando le rivolte de zóvene, el ga guidà na màrsia fino a Porto Alegre, finendo in preson par setimane. Maria, sola con el fiol, la mandava avanti la colónia, tratando con mercanti portoghesi e indios, mostrando ´na forsa che parea de ´na ´Ntei ani 1890, la colónia la zera cambià. Bartolomeo, oramai un omo de mesa età con barba grisa, el vardava le so vigne produre el primo vin premià, mandà fin al Rio de Janeiro. El ga costruì na cesa de sasso, dedicà a San Roco, onde le feste le smissiava canzone e bali vènete con danse gausse, forgiando ´na identità nova. Ma el costo el zera alto: un fiol perso in ´na piena, rivalità che ga finì in un duelo con un vècio nemigo, e el peso de la nostalgia del Vèneto. Maria, el so suporto, la ga fondà ´na scola rural, insegnando el talian – el dialeto vèneto smissià con el brasilian – a generassion che sarìa cressù come ítalo-brasilian.

In 1910, a 55 ani, Bartolomeo el rifletea ´nte la so veranda, vardando i vali verdi che el gavea aiutà a domar. I so dessendenti, oramai desine, i se sparsea par Caxias do Sul e Bento Gonçalves, dando man a la indùstria che nassea. El ze morto in 1925, durante la Rivolussion Federalista, lassando un lassà de forsa. Maria la ga vivesto fin al 1935, contando stòrie che ga ispirà i nepoti a tornar in Itàlia par catar radise, chiudendo el cerchio de ´na saga che rimbonbava i piloni de la tera: laoro, amor e trasformassion. 

Nota de l’Autor

Sta stòria la ze nassesta da ‘na memòria longa e dolse, como ‘l vin bon che se fassea con la pase. “Le Colone del Novo Mondo” no parla de eroi grandi, ma de òmeni e done che gavea solo el coraio de sopravivar. I ze quei che ga scavà con le man la so sorte, che ga sfidà el mar e la misèria, e che, sensa saver leser né scrìvar, i ga scrìto con el sudor la prima pàgina de ‘na tera nova.

Bartolomeo Sandrigo el no ze solo un nome: el ze un sìmbolo. El raconta de milioni che, come lu, i ga lassà indrìo el odor de la tera bagnà del Vèneto par catar un sol che no sparisse mai. In ogni so gesto ghe ze la memòria de chi laora in silénsio, de chi spera anca quando tuto par perso, de chi ghe mete el cuor anca quando la tera ghe lo struca.

Scrivendo sta saga, mi go sentì come se le so man rugose me tegnesse la pena. Mi go sentì el respiro de Maria, che con ago e fede la cusìa insieme le ànime sbandonà. Mi go sentì el vento de la Serra Gaúcha portar via le note de ´na canson véneta smissià con el portoghese, segno che le radise no se perde, ma le se mescola, e da ‘sto incontro nasse ‘na nova vita.

Sta opera la ze un omaio a tuti quei che ga costruì con el sudor el destino de ‘na nasion, ai emigranti che i ga fato del dolor un canto, e de la speransa ´na bandiera.

Parché fin che ghe ze quarcun che conta, Bartolomeo, Maria e tuti i so compagni i no morirà mai.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta




quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Os Camponeses Italianos e o Brasil do Café no Século XIX

 

Os Camponeses Italianos e o Brasil do Café no Século XIX


O Império Brasileiro, já nos últimos trinta anos do século XIX, despontava como um grande país: vasto em território, com baixa densidade demográfica e ainda pouco desenvolvido. Sua economia era baseada quase exclusivamente na agricultura, especialmente na produção de café.

Até então, a força de trabalho era formada quase inteiramente por escravizados africanos trazidos à força para o Brasil. Com a explosão do preço internacional do café, surgiram extensas lavouras nas províncias de São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo e Minas Gerais, o que aumentou enormemente a demanda por mão de obra.

A Lei do Ventre Livre e o Fim da Escravidão

Nesse período, cresciam dentro do Império as vozes contrárias à escravidão. Em 1871, foi aprovada a Lei do Ventre Livre, que determinava que os filhos das mulheres escravizadas seriam considerados livres.

Essa lei marcou o início do fim da escravidão no Brasil, que seria definitivamente abolida em 13 de maio de 1888, com a promulgação da Lei Áurea.

A Imigração Italiana para as Lavouras de Café

Diante da necessidade de substituir a mão de obra escrava, os camponeses italianos tornaram-se uma das principais opções do governo imperial. Vindos sobretudo do Vêneto, da Lombardia e do sul da Itália, chegaram à província de São Paulo nos últimos anos do século XIX.

Eles eram recrutados por companhias especializadas e vinham com a viagem paga pelos fazendeiros. Os contratos assinados ainda na Itália determinavam que, com suas famílias, seriam responsáveis pelo plantio, limpeza e colheita de um número fixo de pés de café, geralmente por no mínimo dois anos, período em que não podiam abandonar legalmente a fazenda.

Dificuldades, Desilusões e o Decreto Prinetti

Apesar de, por serem brancos e católicos, receberem tratamento um pouco melhor do que os ex-escravizados, a realidade era dura. As moradias eram precárias — muitas vezes antigas senzalas — e o trabalho era exaustivo.

Essa situação levou o governo italiano a editar, em 1902, o Decreto Prinetti, suspendendo temporariamente a emigração para o Brasil, especialmente para as grandes fazendas paulistas de café.

Do Café às Cidades: O Espírito Empreendedor Italiano

Após cumprirem os contratos e quitarem suas dívidas, muitos imigrantes deixaram as fazendas e se estabeleceram nas cidades em rápido crescimento no interior paulista.

Ali, passaram a trabalhar em fábricas ou abriram pequenos negócios. Depois da jornada nas indústrias, ainda trabalhavam em casa em diversos ofícios para aumentar a renda familiar. Esse esforço foi o grande segredo do sucesso dos imigrantes italianos.

Assim surgiram pequenas fábricas e casas comerciais que, com o tempo, tornaram-se verdadeiras potências econômicas. O progresso do interior paulista deve-se em grande parte a esses pioneiros empreendedores.

Língua, Cultura e Bairros Italianos em São Paulo

Uma característica marcante era que os italianos não tinham, naquele momento, uma identidade nacional unificada. Falavam diferentes dialetos e tinham costumes variados.

Com o convívio, o idioma italiano difundiu-se rapidamente como língua comum. Falar italiano passou a ser visto como sinal de distinção social, enquanto muitos dialetos e costumes regionais foram sendo abandonados.

Tanto no interior paulista quanto na capital, surgiram bairros inteiros formados quase exclusivamente por italianos e seus descendentes. Exemplos clássicos são o Brás e o Bixiga, em São Paulo.

Nota do Autor 

A imigração italiana para o Brasil no auge da cultura cafeeira representa um dos episódios mais significativos da nossa história sociocultural. À primeira vista um movimento motivado por necessidades econômicas e de mão de obra, revelou-se um fenômeno complexo, marcado pela resiliência, criatividade e capacidade de adaptação dos imigrantes. Além de terem substituído de forma decisiva a mão de obra escrava em um período de profundas transformações econômicas, esses camponeses e suas famílias tunaram — com trabalho e cultura — as bases de regiões inteiras do país. Eles não apenas plantaram café, mas semearam comunidades, tradições e um vigoroso legado que se perpetua até hoje. 

Dr. Luiz C. B. Piazzetta



terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Como o Café e os Imigrantes Italianos Transformaram a Mogiana Paulista


Como o Café e os Imigrantes Italianos Transformaram a Mogiana Paulista


A região oeste e nordeste do estado de São Paulo destacou-se, desde o final do século XIX, como uma das áreas mais férteis para o cultivo de café no Brasil. O solo conhecido como terra roxa, resultado da decomposição de basalto, aliado ao relevo suave e às estações do ano bem definidas — com períodos de chuva e seca — criou condições ideais para o cafeeiro arábica prosperar em grande escala. Esse cenário atraiu investimentos e trabalho para a região que hoje compreende a Alta e a Média Mogiana. 

Na década de 1880, a produção de café cresceu rapidamente. Em 1886, a área da Mogiana já produzia mais de dois milhões de arrobas de café, o que representava mais de 20 % do total paulista. No início do século XX, essa porcentagem havia aumentado ainda mais, chegando a cerca de 35 % da produção de café do estado — um reflexo direto da expansão das lavouras e da melhoria das rotas de escoamento da produção. 

A infraestrutura das fazendas foi transformada para atender às exigências da produção cafeeira em larga escala. Eram construídos terreiros para a secagem dos frutos recém-colhidos, tulhas para armazenar os grãos secos, além de casas de máquinas para beneficiar o café e instalações residenciais para as famílias dos fazendeiros. Essas estruturas substituíram, gradualmente, antigas formas de organização agrícola — sobretudo após a abolição da escravidão em 1888 — marcando a transição para um modelo de agricultura assalariada. 

Com a assinatura da Lei Áurea e o fim do trabalho escravo, surgiu a necessidade urgente de mão de obra livre para manter e expandir as lavouras de café. Foi nesse contexto que ganhou força a imigração europeia para o Brasil. Muitos agricultores europeus enfrentavam dificuldades econômicas em seus países: a mecanização gradual, a concorrência com grandes propriedades e a falta de oportunidades urbanas levavam famílias a buscar alternativas fora de seus territórios. 

Os italianos foram o maior grupo de imigrantes a chegar ao estado de São Paulo nessa época, frequentemente em núcleos familiares que incluíam pai, mãe e filhos de diversas idades. Essa imigração foi estimulada tanto por fazendeiros brasileiros, que subsidiavam parte da passagem para trazer trabalhadores, quanto por pressões econômicas internas na Itália. Entre 1886 e 1902, a população de Ribeirão Preto, importante centro cafeeiro da região, saltou de cerca de 10 420 habitantes para mais de 52 900, dos quais mais de 27 700 eram italianos. 

Os contratos de trabalho variavam conforme as fazendas, mas o sistema predominante previa um salário fixo pelo cultivo dos pés de café e um adicional proporcional à quantidade de frutos colhidos. Além disso, os trabalhadores imigrantes podiam cultivar pequenas hortas e plantações para consumo próprio e vender eventual excedente, o que ajudava a complementar a renda familiar. O pagamento anual era dividido em parcelas mensais, distribuídas geralmente no primeiro sábado de cada mês — um dia que se tornou conhecido por permitir aos colonos atividades de comércio e visitas às vilas mais próximas. 

A presença italiana e de outros imigrantes na região teve impacto além do espaço rural. Muitos trabalhadores deixaram as fazendas com o tempo para estabelecer-se em funções urbanas, como marceneiros, ferreiros, alfaiates, padeiros ou pequenos comerciantes. Essa diversificação de ofícios contribuiu para o crescimento das cidades, impulsionando a construção de calçadas, praças, edifícios públicos e o fortalecimento de setores como comércio e serviços. A ferrovia da Companhia Mogiana, que havia chegado à região em 1883 e facilitado o escoamento do café até o porto de Santos, também foi crucial para o desenvolvimento urbano e econômico desses municípios. 

A expansão da produção de café na Mogiana não apenas consolidou o estado de São Paulo como epicentro da economia cafeeira brasileira, como também transformou profundamente a composição demográfica, as estruturas sociais e o perfil das cidades no interior do estado, deixando um legado cultural e econômico que ainda hoje é lembrado e estudado. 

Nota do Autor

A história da Mogiana paulista não foi escrita apenas com cifras e sacas de café, mas com sonhos, sacrifícios e coragem. Cada lavoura aberta, cada trilho assentado e cada casa erguida carrega a marca de homens e mulheres que deixaram tudo para trás em busca de um futuro melhor. Ao revisitar a cafeicultura e a imigração italiana, este texto é também um tributo às famílias que transformaram dor em trabalho, incerteza em esperança e terra estranha em lar. A Mogiana que conhecemos hoje nasceu dessas escolhas difíceis — e dessa fé silenciosa que atravessou oceanos.

Dr. Luiz C. C. Piazzetta











segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Imigração Italiana no Brasil A Verdadeira História das Cartas, Viagens e Esperanças


Imigração Italiana no Brasil 

A Verdadeira História das Cartas, Viagens e Esperanças


Quando os italianos chegaram ao Brasil e se fixaram nas fazendas e colônias, começaram a trocar correspondências com parentes que tinham ficado na Itália. Essas cartas, tanto as preservadas pelas famílias que partiram quanto as mantidas pelos que ficaram na antiga pátria, converteram-se em documentos valiosos para compreender o cotidiano, as dificuldades e as esperanças desses imigrantes. Combinadas com jornais antigos, registros de consulados, arquivos e coleções históricas espalhados pelo mundo, essas fontes nos permitem reconstruir com precisão a trajetória da grande imigração italiana para o Brasil e seu impacto social. 

Esses testemunhos escritos revelam as duras condições enfrentadas pelos imigrantes: muitos foram trabalhar nas lavouras de café em São Paulo, onde cortaram matas densas, cultivaram e colheram safras extenuantes, ou ainda acabaram se estabelecendo nos centros urbanos, contribuindo com a construção de bairros, comércios e serviços. 

Entre as décadas de 1870 e 1920, período frequentemente chamado de “grande imigração italiana”, o fluxo de italianos rumo ao Brasil foi intenso, com expressiva presença no estado de São Paulo, maior destino desses migrantes. 

No início desse movimento, poucos italianos chegaram às plantações, mas a partir do começo da década de 1880 o volume aumentou consideravelmente — especialmente a partir de 1882, quando passageiros começaram a atracar na Hospedaria dos Imigrantes em São Paulo em números cada vez maiores. 

Famílias inteiras partiam da Itália em busca de melhores oportunidades, muitas vindas de áreas rurais e pequenas comunidades que enfrentavam pobreza, falta de terras e desemprego no sul e norte da Itália. 

O período de maior entrada de italianos ocorreu entre as décadas de 1880 e início do século XX. No entanto, diante das denúncias sobre as precárias condições de trabalho e de vida nas fazendas de café — que muitas vezes se assemelhavam a formas severas de exploração — o governo italiano acabou aprovando, em 26 de março de 1902, o chamado Decreto Prinetti, proibindo a emigração subvencionada de seus cidadãos para o Brasil. Isso significa que as companhias de navegação deixaram de receber apoio financeiro para levar italianos ao Brasil, embora a migração espontânea — com passagens pagas pelos próprios imigrantes — ainda pudesse ocorrer. 

Mesmo com essa medida, novas levas de italianos seguiram chegando, muitas vezes originárias não mais do norte, mas de regiões do sul da Itália, como Sicília, Campânia e Calábria, em resposta às campanhas de recrutamento e às promessas de trabalho no Brasil. 

A chegada em portos como Santos e Rio de Janeiro era sempre um momento carregado de expectativas: além das pessoas, muitos traziam consigo poucas bagagens, mas também sonhos, lembranças e a esperança de construir um futuro diferente daquele que deixavam para trás. 

Do ponto de vista demográfico, entre 1876 e 1920 mais de um milhão de italianos desembarcaram no Brasil, compondo uma das maiores comunidades de migrantes do país e deixando um legado cultural, social e econômico profundamente enraizado na história brasileira. 

Nota do Autor

Este texto nasce do compromisso com a memória e com a verdade histórica. A imigração italiana no Brasil não foi apenas um deslocamento de povos, mas uma travessia de destinos. Cada carta escrita, cada mala arrastada nos porões dos navios, cada passo dado em terras desconhecidas carrega o peso da renúncia e a nobreza da esperança.

Ao reunir documentos, relatos e vestígios dessa experiência humana, busquei dar voz aos que raramente aparecem nos grandes livros: homens e mulheres anônimos que trocaram a pátria pela promessa, o conhecido pelo incerto, e a segurança pela possibilidade de um amanhã melhor. Eles não vieram apenas trabalhar — vieram fundar raízes.

Narrar essa história é, portanto, um ato de respeito. É reconhecer que o Brasil moderno se ergueu também sobre o esforço silencioso desses imigrantes, sobre suas dores, seus gestos simples e sua fé obstinada no futuro. Que estas páginas sirvam como ponte entre gerações, para que a memória não se perca e a dignidade de seus sonhos permaneça viva.

Dr. Luiz C. B. Piazzetta