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segunda-feira, 5 de março de 2018

Como os Restos Mortais de São Marcos Chegaram a Veneza em 828



 



Como os Restos Mortais de São Marcos Chegaram a Veneza em 828

A história da transferência das relíquias do evangelista que se tornou o símbolo da Sereníssima República de Veneza

"Em 828, segundo a tradição veneziana, as relíquias de São Marcos atravessaram o Mediterrâneo e passaram a fazer parte da história e da identidade de Veneza."

A história de Veneza está profundamente ligada à figura de São Marcos Evangelista. Seu nome está presente na basílica mais famosa da cidade, na praça que recebe visitantes de todo o mundo e no majestoso Leão Alado, símbolo histórico do Vêneto. Mas como as relíquias do santo, tradicionalmente associadas a Alexandria, no Egito, teriam chegado à lagoa veneziana no século IX?

Segundo a tradição veneziana, a resposta está em uma viagem marítima realizada no ano de 828, uma história que combina comércio, disputas políticas, devoção religiosa e o desejo de afirmar a identidade de uma cidade que começava a consolidar sua importância no Mediterrâneo.

São Marcos e Alexandria

São Marcos Evangelista é tradicionalmente associado à pregação do cristianismo em Alexandria, importante centro cultural e comercial do mundo antigo. Segundo a tradição cristã, ele morreu nessa cidade, onde suas relíquias permaneceram veneradas durante séculos.
Alexandria ocupava uma posição estratégica nas rotas comerciais entre o Mediterrâneo e o Oriente. Ao longo dos séculos, a cidade passou por profundas transformações políticas e religiosas, especialmente depois da conquista árabe do Egito, no século VII.
É nesse contexto que se insere a narrativa veneziana sobre a transferência das relíquias. É importante, entretanto, distinguir a tradição religiosa das informações que podem ser comprovadas documentalmente: os pormenores da retirada do corpo de São Marcos são transmitidos principalmente por relatos tradicionais, e não devem ser apresentados como fatos inteiramente demonstrados.

O plano dos mercadores venezianos

De acordo com a narrativa tradicional, em 828 dois venezianos, Bono — também conhecido como Buono — da Malamocco e Rustico da Torcello encontravam-se em Alexandria quando decidiram levar as relíquias de São Marcos para Veneza.
A tradição atribui a iniciativa ao receio de que os restos mortais do evangelista fossem profanados ou destruídos em meio às dificuldades enfrentadas pela comunidade cristã local. Os dois mercadores teriam procurado os responsáveis pela guarda das relíquias, identificados em algumas versões como Stauranzio e Teodoro.
A proposta teria provocado hesitação. Retirar as relíquias de seu lugar de veneração era uma decisão grave, que poderia colocar em risco tanto os envolvidos quanto outros cristãos da cidade. Depois de discussões, porém, os guardiões teriam concordado com o plano.
O episódio, tal como chegou até nós, revela também a importância que as relíquias dos santos possuíam na sociedade medieval. Elas eram objetos de devoção religiosa e, ao mesmo tempo, podiam conferir prestígio a uma cidade, atrair peregrinos e fortalecer sua identidade política.

O estratagema da cesta de alimentos

Um dos episódios mais conhecidos dessa história é o método que os mercadores teriam utilizado para retirar as relíquias de Alexandria.
Segundo a tradição, os restos mortais foram colocados em uma cesta, cobertos por folhas de hortaliças e escondidos sob pedaços de carne de porco. A intenção seria evitar que os responsáveis pela fiscalização reconhecessem o conteúdo transportado.
O relato afirma que, ao encontrarem a carne, os fiscais muçulmanos teriam se afastado, considerando-a impura. Assim, os venezianos teriam conseguido levar a cesta até a embarcação sem que as relíquias fossem descobertas.
A narrativa tornou-se uma das passagens mais célebres da tradição veneziana. Entretanto, seus detalhes pertencem ao relato tradicional da transferência e devem ser compreendidos nesse contexto, sem que se suponha a existência de comprovação independente para cada elemento da história.
O que importa para a memória de Veneza é que a viagem passou a ser lembrada como uma ação audaciosa, destinada a trazer para a cidade os restos mortais de um dos evangelistas.

A viagem até Veneza

Depois de deixar Alexandria, a embarcação teria iniciado a viagem de retorno através do Mediterrâneo. Algumas versões da tradição mencionam uma tempestade durante a travessia e atribuem a sobrevivência dos navegantes à proteção divina.
Esses relatos de acontecimentos extraordinários contribuíram para conferir à transferência um significado religioso. Para os venezianos, a chegada das relíquias não representava apenas a conclusão de uma viagem: era também um sinal da proteção de São Marcos sobre a cidade.
Segundo a tradição, as relíquias chegaram a Veneza em 31 de janeiro de 828, durante o governo do doge Giustiniano Partecipazio.
O episódio teria provocado grande comoção. O doge, que inicialmente havia proibido determinadas relações comerciais com o Egito, teria perdoado os responsáveis pela viagem, reconhecendo a importância religiosa e política do que haviam trazido.
A partir desse momento, São Marcos passou a ocupar um lugar cada vez mais importante na identidade veneziana.

A primeira igreja dedicada a São Marcos

As relíquias teriam sido inicialmente depositadas em uma capela ligada ao palácio ducal, centro do poder político veneziano. A tradição atribui ao doge Giovanni Partecipazio, irmão e sucessor de Giustiniano, a construção de uma basílica destinada a abrigá-las.
A ligação entre o santo e o governo da cidade foi se fortalecendo. Veneza encontrava em São Marcos um patrono capaz de representar sua identidade religiosa e sua crescente autonomia política.
A história da basílica, porém, não terminou com sua primeira construção. O edifício passou por incêndios, reconstruções e grandes reformas ao longo dos séculos, até adquirir a forma monumental que hoje conhecemos.
Para compreender essa evolução, vale conhecer também o artigo do Portal A Basílica de San Marco, que apresenta outros momentos importantes da história desse extraordinário monumento veneziano.

De São Teodoro a São Marcos

Antes da consolidação do culto a São Marcos, São Teodoro era venerado como um dos principais protetores de Veneza. Com o fortalecimento da tradição ligada às relíquias do evangelista, São Marcos passou a ocupar posição central na identidade religiosa e política da cidade.
Essa transformação não deve ser entendida apenas como uma mudança de devoção. Na sociedade medieval, a figura de um santo patrono podia contribuir para a construção da identidade coletiva e para a afirmação da legitimidade de um governo.
São Marcos tornou-se progressivamente associado à própria história da Sereníssima República de Veneza. Seu nome passou a identificar monumentos, cerimônias, instituições e símbolos que atravessariam gerações.
O Portal também apresenta o tema em Veneza e São Marcos o Evangelista, uma leitura complementar sobre a relação entre o evangelista e a cidade.

O Leão Alado e a identidade veneziana

A imagem do Leão Alado de São Marcos tornou-se um dos símbolos mais reconhecidos de Veneza e de todo o Vêneto. Sua presença em monumentos, bandeiras, edifícios e representações oficiais expressa a longa associação entre o evangelista e a história da cidade.
O leão aparece frequentemente com um livro aberto no qual se lê a inscrição latina Pax tibi Marce, evangelista meus, tradicionalmente traduzida como “Paz a ti, Marcos, meu evangelista”.
Ao longo dos séculos, o símbolo adquiriu significados religiosos, políticos e cívicos. Representava a proteção do santo, mas também a autoridade e a identidade da República de Veneza.
Essa simbologia pode ser explorada no artigo do Portal As Duas Colunas da Piazzetta San Marco, que aborda dois dos monumentos mais conhecidos da entrada monumental da praça veneziana e os símbolos ali representados.

A Basílica e o destino das relíquias

A basílica dedicada a São Marcos passou por sucessivas transformações. A construção inicial foi substituída por edifícios maiores e mais elaborados, refletindo a riqueza, as ambições e os contatos culturais da Veneza medieval.
A atual Basílica de São Marcos reúne elementos arquitetônicos e artísticos que testemunham as intensas relações da cidade com o mundo bizantino e com diferentes regiões do Mediterrâneo. Seus mosaicos, mármores e ornamentos refletem séculos de intercâmbio cultural.
A tradição sobre as relíquias também inclui o relato de que, durante as obras e transformações da basílica, sua localização teria sido perdida e posteriormente redescoberta de maneira extraordinária. Essas narrativas fazem parte da memória religiosa do monumento e devem ser identificadas como tradições, não como comprovação histórica de todos os acontecimentos descritos.
A história das relíquias e a evolução da basílica estão, portanto, profundamente entrelaçadas. Ambas ajudam a compreender como Veneza construiu, ao longo dos séculos, uma identidade que combinava fé, poder político, comércio e cultura.

Uma história que ultrapassou os séculos

A transferência das relíquias de São Marcos, tradicionalmente situada em 828, ocupa um lugar central na memória histórica de Veneza. Mesmo quando seus episódios são examinados com o necessário cuidado crítico, a narrativa permanece fundamental para compreender a maneira como a cidade interpretou suas origens e fortaleceu sua identidade.
A chegada atribuída a Bono da Malamocco e Rustico da Torcello passou a representar muito mais do que o transporte de restos mortais de uma cidade para outra. Tornou-se parte da história de uma comunidade marítima que procurava afirmar sua autonomia, ampliar sua influência e encontrar símbolos capazes de unir seus habitantes.
São Marcos tornou-se o patrono de Veneza, e o Leão Alado passou a identificar a cidade e o território vêneto em diferentes épocas. A basílica dedicada ao evangelista, por sua vez, transformou-se em um dos mais importantes monumentos artísticos e religiosos da Europa.
A história continua viva nas ruas, nas praças, nas cerimônias e nas obras de arte venezianas. Para quem deseja conhecer as raízes culturais do Vêneto, compreender a tradição de São Marcos é também compreender uma parte essencial da memória coletiva dessa região.
A história de São Marcos mostra como religião, memória e identidade política se entrelaçaram na formação de Veneza. Entre os fatos históricos, as tradições e as narrativas transmitidas ao longo dos séculos, permanece a importância de um símbolo que ainda hoje representa a cidade e o Vêneto.

Nota do Autor

Este artigo integra o trabalho independente do Portal A Emigração Vêneta de preservação e divulgação da história, da cultura e das tradições do Vêneto. A história da transferência das relíquias de São Marcos é apresentada distinguindo-se os elementos da tradição veneziana dos acontecimentos historicamente documentados, para que o leitor possa conhecer tanto o significado cultural dessa narrativa quanto a importância de uma leitura crítica do passado.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta