A Janela que Nunca Deixou de Olhar para o Vêneto
Uma crônica sobre memória, saudade e as raízes italianas que atravessaram o oceano.
"Existem janelas que se abrem para ruas, praças, jardins ou campos. Outras, porém, abrem-se para o tempo."
Na antiga casa de madeira erguida pelos imigrantes sobre a terra vermelha do Sul do Brasil, havia uma janela assim. Não era grande, nem possuía adornos refinados. As tábuas já carregavam as marcas de muitas estações, o verniz havia sido vencido pelos anos e os vidros, por vezes embaçados pela umidade do inverno, deixavam passar uma luz suave, quase reverente. Ainda assim, aquela janela conservava algo que nenhuma tempestade conseguira arrancar: permanecia voltada para o Vêneto.
Não para o Vêneto dos mapas, das fronteiras políticas ou das estatísticas demográficas. Olhava para o Vêneto das lembranças, das histórias repetidas junto ao fogão a lenha, das palavras pronunciadas em talian quando o coração precisava falar mais alto do que a razão. Era o Vêneto das colinas cobertas de videiras, dos sinos que marcavam o ritmo da vida, das procissões dedicadas à Madona, dos pães assados em fornos comunitários e das despedidas silenciosas feitas nos pequenos portos antes da travessia do oceano.
Aqueles homens e mulheres que chegaram ao Brasil trouxeram muito pouco consigo. Algumas roupas, ferramentas simples, imagens de santos, fotografias amareladas e cartas cuidadosamente dobradas. O resto precisou ser deixado para trás: a casa de pedra construída pelos avós, os campos cultivados por gerações, os túmulos dos antepassados, os caminhos percorridos desde a infância.
Mas existe uma curiosa teimosia na memória humana. Quando tudo parece perdido, ela encontra um modo de permanecer.
Permanece no cheiro do vinho novo fermentando nos porões. No sabor da polenta repartida em torno da mesa. No sotaque que sobrevive aos anos, mesmo quando as novas gerações já não conhecem a língua dos bisavós. Permanece na fotografia cuidadosamente guardada dentro da gaveta, na oração rezada em voz baixa, na canção antiga que ninguém ensinou, mas que todos parecem conhecer.
E permanece, sobretudo, nas janelas. Porque as janelas dos imigrantes nunca serviram apenas para observar a paisagem diante da casa. Eram lugares de espera. Esperava-se a chuva necessária para a lavoura, o retorno dos filhos que haviam partido, a chegada das cartas vindas da Itália, notícias de parentes que talvez nunca mais fossem vistos. Esperava-se, também, por aquilo que não tinha nome: uma sensação de pertencimento, um reencontro impossível com um mundo que continuava existindo apenas na lembrança.
Quantas vezes uma mãe terá permanecido diante da janela ao entardecer, imaginando as montanhas do Vêneto iluminadas pelo mesmo sol que agora desaparecia atrás das araucárias brasileiras? Quantos pais terão permanecido em silêncio, olhando para longe, tentando reconhecer nas linhas do horizonte alguma semelhança com as colinas que deixaram para trás?
A imigração italiana foi feita de coragem, trabalho e esperança. Mas também foi feita de ausências. Cada árvore derrubada para abrir espaço à lavoura escondia uma saudade. Cada parreira plantada carregava um gesto aprendido do outro lado do Atlântico. Cada casa construída representava um esforço para reproduzir, em terras desconhecidas, algo que lembrasse o lar abandonado. Talvez seja por isso que certas janelas envelheçam sem jamais se fecharem por completo.
Elas compreendem que existem distâncias que não se medem em quilômetros, mas em lembranças. E que algumas terras continuam habitando aqueles que partiram muito depois de terem desaparecido do horizonte.
Hoje, quando muitos descendentes procuram reconstruir suas origens, pesquisar sobrenomes, descobrir aldeias esquecidas e reencontrar a língua dos avós, talvez estejam apenas repetindo um antigo movimento: aproximar-se daquela janela que nunca deixou de olhar para o Vêneto.
Porque há povos que transportam sua pátria em malas. Outros a guardam em documentos.
Mas os italianos que cruzaram o oceano trouxeram consigo algo mais profundo e mais duradouro: carregaram a pátria dentro da memória.
E a memória, como uma velha janela de madeira aberta para o passado, jamais deixou de contemplar a terra onde nasceram os sonhos, as despedidas e as raízes.
Afinal, existem lugares que abandonamos com os pés. Mas que nunca deixamos com o coração.
Nota do Autor
A imigração italiana não foi apenas um movimento de pessoas em busca de sobrevivência. Foi, sobretudo, uma travessia de sentimentos. Milhões de homens e mulheres deixaram para trás aldeias, campanários, vinhedos, rios, montanhas e histórias construídas ao longo de gerações. Trouxeram consigo poucas posses materiais, mas carregaram um patrimônio muito mais precioso: a memória. Esta crônica nasce da convicção de que a verdadeira pátria dos imigrantes nunca esteve limitada por fronteiras geográficas. Ela permaneceu viva nos costumes preservados, nas palavras transmitidas aos filhos, nas receitas repetidas aos domingos, nas festas comunitárias, nos gestos de fé e na saudade silenciosa cultivada por aqueles que aprenderam a amar duas terras ao mesmo tempo. A janela aqui evocada é símbolo dessa permanência. Representa o olhar que atravessa o tempo, a lembrança que resiste às gerações e a capacidade extraordinária que os descendentes de italianos possuem de continuar dialogando com um passado que nunca desapareceu por completo. Porque existem heranças que se recebem em documentos. Outras, porém, chegam até nós em forma de histórias. E são justamente essas histórias que impedem que o esquecimento feche as janelas da memória. Que cada leitor encontre nestas páginas um pouco de sua própria origem, de sua própria saudade e da paisagem distante que ainda habita o coração de tantas famílias espalhadas pelo Brasil. Afinal, há janelas que se fecham com o tempo. Mas existem outras que permanecem abertas por séculos, iluminando a identidade de um povo inteiro.
Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta
Autor e pesquisador da Imigração Italiana e histórias familiares