Como Descobri Minhas Raízes Italianas em Pederobba
“Eu passei muitos anos tentando descobrir de onde, na Itália, havia vindo a minha família. Nunca imaginei que a resposta começaria a aparecer por causa de um cachorro.”
Durante muitos anos, eu sabia apenas que minhas raízes familiares estavam na Itália. Sabia o sobrenome, conhecia algumas histórias transmitidas pela família, mas não sabia exatamente de onde haviam vindo meus antepassados. Para mim, “Itália” ainda era uma referência ampla demais. Eu queria encontrar o lugar, a comunidade, a terra onde aquela história havia começado.
Naquela época, pesquisar uma origem familiar era muito diferente do que é hoje. Não havia a facilidade dos bancos de dados genealógicos disponíveis na internet, dos grupos de pesquisadores ou dos documentos digitalizados que podemos consultar atualmente. Era preciso escrever cartas, procurar pessoas, consultar mapas, reunir pequenas informações e, muitas vezes, simplesmente esperar que uma pista aparecesse.
E a pista apareceu de uma maneira que eu jamais poderia imaginar.
Eu estava procurando um cachorro que pudesse ser meu companheiro e também exercer a função de cão de guarda. Pesquisei criadores e fui conhecer um canil. Durante a conversa com o proprietário, surgiu uma coincidência que imediatamente chamou minha atenção: ele tinha o mesmo sobrenome da minha família.
Começamos a conversar sobre nossas origens. Aos poucos, percebemos que não se tratava apenas de uma coincidência de sobrenome. Aquele homem era meu primo, filho de um irmão mais velho de meu pai, alguém que eu não via desde a infância e cuja existência praticamente havia desaparecido do meu cotidiano.
Eu havia ido até aquele lugar procurando um cachorro. Encontrei um parente que eu nem sabia que voltaria a encontrar.
E foi justamente esse encontro que abriu a primeira porta para a história da minha família.
Meu primo havia encontrado, entre antigos pertences familiares, um pequeno bilhete escrito a lápis. Não havia uma explicação detalhada, uma árvore genealógica ou uma certidão. Havia apenas uma palavra:
Pederobba.
Eu nunca tinha ouvido falar daquele lugar.
Naquele momento, aquela palavra não significava nada para mim. Eu não sabia se era uma cidade, uma aldeia, uma região ou simplesmente o nome de algum lugar relacionado aos nossos antepassados.
Mas eu precisava descobrir.
Eu também era radioamador e mantinha contato com pessoas de vários lugares. Por intermédio de um contato italiano, consegui um mapa da província de Treviso. Foi assim que, pela primeira vez, encontrei Pederobba no mapa.
Ali estava a resposta que eu procurava havia tanto tempo: Pederobba, na província de Treviso, no Vêneto.
A partir daquele momento, minha pesquisa ganhou uma direção concreta.
Escrevi para o jornal Tribuna di Treviso. Meu italiano ainda era muito limitado e precisei recorrer a um dicionário português-italiano para conseguir redigir a carta. Expliquei que procurava pessoas que pudessem conhecer minha família e pedi ajuda para localizar parentes ou moradores que tivessem informações sobre aquele sobrenome.
A carta foi publicada.
Depois começaram a chegar as respostas.
Recebi seis cartas da Itália, escritas por pessoas que tinham o mesmo sobrenome da minha família. Algumas eram parentes distantes; outras conheciam pessoas que poderiam ajudar a reconstruir aquela história. Um casal se interessou especialmente pela minha busca e começou a procurar outras pessoas e informações em Pederobba. Com a ajuda deles e de um historiador local, novas peças foram aparecendo.
O que durante tantos anos havia sido apenas uma pergunta — “De onde vieram meus antepassados?” — começou finalmente a ganhar nomes, lugares e relações familiares.
No ano seguinte, viajei para a Itália em uma excursão. Eu ainda não dominava a língua italiana. O grupo ficou hospedado a certa distância de Pederobba, mas meus parentes foram me buscar. Levaram-me para a casa deles e, depois, finalmente para Pederobba.
Estar ali foi diferente de simplesmente encontrar um nome em um mapa.
Eu estava diante do lugar de onde haviam partido meus antepassados.
Depois daquela primeira viagem, voltei outras vezes à Itália. Continuei pesquisando documentos, nomes, relações familiares e lugares. A cada nova descoberta, aquela palavra escrita a lápis no velho bilhete ganhava um significado maior.
E, olhando para trás, percebo que toda essa história começou de uma forma quase absurda de tão simples.
Eu estava procurando um cachorro.
O cachorro se chamava Danke.
Durante cinco anos, Danke foi muito mais do que o animal que um dia fui buscar naquele canil. Tornou-se meu querido amigo, meu fiel companheiro e uma presença profundamente ligada à minha vida e à minha família. Foi por causa dele que entrei naquele lugar, conheci meu primo e recebi a primeira pista que me levaria até Pederobba.
Por isso, Danke não foi apenas uma coincidência no começo dessa história. Ele faz parte dela.
Infelizmente, sua vida foi muito curta. Danke desenvolveu um osteossarcoma agressivo, um câncer que atingiu um osso de um de seus membros anteriores e que apresentou precocemente metástases pulmonares. Tinha apenas cinco anos.
A doença avançou e ele passou a sofrer muito. Chegou então o momento mais difícil: decidir que seu sofrimento não poderia continuar.
A responsabilidade por Danke sempre havia sido minha. Naquele momento, também seria minha a responsabilidade de ajudá-lo a partir.
Fui eu mesmo quem realizou sua eutanásia. Não quis entregar essa responsabilidade a outra pessoa. Danke confiava em mim, e eu entendia que, diante daquela situação, o mínimo que eu poderia fazer por ele era permanecer ao seu lado e assumir até o fim a responsabilidade que havia assumido quando ele entrou na minha vida.
Foi uma das decisões mais dolorosas que já precisei tomar. As lembranças daquele momento ainda hoje doem muito.
Mas, quando penso em Danke, não quero lembrar apenas da doença e da despedida. Quero lembrar dos cinco anos em que ele foi meu fiel companheiro e, sobretudo, da maneira inesperada como sua presença acabou mudando a história que eu procurava.
Por causa de Danke, encontrei meu primo. Por causa daquela conversa, conheci um velho bilhete. E naquele pequeno pedaço de papel estava escrito o nome de um lugar que eu ainda não conhecia: Pederobba.
Foi assim que uma busca que parecia não ter relação alguma com a minha genealogia acabou me conduzindo até a terra dos meus antepassados.
Danke nunca conheceu Pederobba. Nunca esteve na Itália. Mas foi ele quem, sem saber, abriu a primeira porta.
E é por isso que, quando penso nas minhas raízes italianas, penso também nele — com saudade, com gratidão e com a certeza de que algumas das descobertas mais importantes da nossa vida começam de maneiras que jamais poderíamos imaginar.
Nota do autor
Esta é uma nova versão, ampliada e reorganizada, de uma história verdadeira publicada originalmente neste blog em 21 de junho de 2023, sob o título “Danke: O Cão Que Desvendou Minha História Familiar Perdida em Pederobba, Itália”. Tudo o que relato aconteceu comigo e faz parte da minha própria trajetória de descoberta das raízes familiares. Durante mais de três décadas, trabalhando e convivendo com famílias de descendentes de italianos, acompanhei inúmeras pesquisas genealógicas que começaram com uma pequena pista — um sobrenome, uma fotografia, uma carta, uma certidão ou o nome de um lugar. A minha própria história não foi diferente. No meu caso, porém, a primeira porta se abriu de uma maneira que eu jamais poderia imaginar: por meio de Danke, meu querido amigo e fiel companheiro. Esta narrativa é também uma forma de preservar sua memória e registrar a gratidão que sinto por tudo o que ele representou na minha vida. As imagens ilustrativas desta publicação foram produzidas com recursos de inteligência artificial e não constituem registros fotográficos dos acontecimentos narrados.
Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta
Autor e pesquisador da Imigração Italiana e histórias familiares
