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terça-feira, 18 de agosto de 2026

O Capítulo Europeu Esquecido da Emigração Italiana


 

O Capítulo Europeu Esquecido da Emigração Italiana

Havia um tempo em que o mapa da fome italiana não se desenhava apenas sobre o Atlântico. Antes que os navios partissem de Gênova ou de Nápoles carregados de homens que nunca mais veriam as oliveiras da Calábria ou os vinhedos do Vêneto, muitos já tinham atravessado outras fronteiras, mais próximas e igualmente cruéis. Eram as fronteiras da Europa industrial, onde o carvão belga e o aço alemão pediam braços que a terra italiana já não alimentava.

Lembro-me de ouvir, ainda menino, histórias confusas de parentes distantes que “tinham ido para o Norte”. O Norte não era Nova York nem São Paulo. Era a Valônia, eram as minas de carvão da Bélgica, eram as fábricas da Renânia. Homens que saíam das aldeias com uma mala de papelão e um pedaço de pão duro no bolso, e que voltavam — quando voltavam — com o rosto marcado pela poeira negra e os pulmões já meio perdidos. Trabalhavam nas galerias profundas, onde a luz do sol era uma lembrança, e nas forjas quentes da Alemanha, onde o metal derretido iluminava rostos pálidos de sulistas deslocados.

Não eram emigrantes no sentido definitivo da palavra. Eram trabalhadores temporários, quase sazonais, como as andorinhas que cruzam o continente em busca de clima melhor. Só que o clima que encontravam era o da exploração: jornadas de doze, catorze horas, alojamentos úmidos, salários que mal bastavam para enviar algum dinheiro à família que ficara para trás. Na Bélgica, depois da guerra, o acordo foi formal: homens em troca de carvão. A Itália mandava braços; a Bélgica mandava o ouro negro que movia as fábricas. E os italianos desciam às minas como quem desce a um inferno combinado entre governos.

Houve o dia de Marcinelle, em 1956, quando o fogo e o gás mataram duzentos e sessenta e dois homens, a maioria italianos. As famílias receberam telegramas secos. Algumas receberam apenas o silêncio. Aqueles que sobreviveram continuaram descendo, porque o pão ainda era necessário e a terra natal ainda não os chamava de volta com generosidade.

Depois, muitos cruzaram o oceano de verdade. Levaram consigo a memória da poeira belga e do suor alemão. Chegaram às Américas já endurecidos, já familiarizados com a solidão do trabalho estrangeiro. Mas a história que se conta preferiu o grande drama do navio e da Estátua da Liberdade, ou do café brasileiro e das colônias do Sul. O capítulo europeu ficou na penumbra, como se fosse apenas um ensaio menor da grande partida.

Eu penso nesses homens quando vejo fotografias antigas: rostos jovens, bigodes finos, olhares que ainda não sabem o que os espera. Pensam talvez em voltar ricos, ou ao menos com as mãos menos vazias. A maioria voltou apenas com o corpo cansado e a certeza de que a Europa também sabia ser madrasta. Alguns ficaram. Seus filhos e netos falam hoje flamengo ou alemão com sotaque italiano escondido. Outros partiram de novo, e o oceano finalmente os engoliu na direção das terras distantes.

Há algo de profundamente triste e ao mesmo tempo heroico nessa passagem quase invisível. Eles não construíram monumentos. Não deixaram cartas famosas. Deixaram apenas o rastro de uma geração que aprendeu a sobreviver primeiro nas minas e nas fábricas do continente, antes de ousar o salto maior. E quando a história oficial se esquece deles, é como se esquecesse uma parte da própria alma italiana: a parte que já conhecia o exílio antes mesmo de embarcar.

Às vezes, à noite, imagino o som dos elevadores das minas subindo e descendo na escuridão da Valônia, e o ruído das máquinas alemãs martelando o metal. E penso que, sob esse barulho, havia sempre a mesma canção surda: a de homens que carregavam no peito a esperança de um dia poder voltar para casa, ou de um dia poder partir de vez. A maioria nunca conseguiu as duas coisas ao mesmo tempo.


Nota do autor

A grande emigração italiana, entre o último quartel do século XIX e meados do século XX, foi um dos maiores deslocamentos humanos da história moderna. Mais de treze milhões de pessoas deixaram a península em busca de sobrevivência, empurradas pela miséria rural, pela pressão demográfica e pela fragilidade do Estado recém-unificado. A maior parte seguiu para as Américas — Estados Unidos, Argentina, Brasil —, mas um contingente expressivo circulou primeiro pela Europa industrial, onde as minas belgas e as fábricas alemãs absorveram braços italianos em condições de extremo rigor. Muitos desses homens fizeram da migração um movimento de ida e volta, ou usaram o continente como escala antes do salto oceânico definitivo.

Escolhi este tema porque ele permanece, de certo modo, à margem das narrativas mais repetidas. Preferimos contar a epopeia do navio e do desembarque, o drama do café ou do trabalho nas cidades americanas. Pouco se fala daqueles que, antes de cruzar o Atlântico, já haviam descido às galerias de carvão da Valônia ou suado diante dos fornos da Renânia. Interessou-me exatamente essa zona de sombra: o capítulo europeu quase esquecido, onde a dor do estrangeiro se revelava mais cedo e de forma mais discreta. Escrever sobre esses homens foi uma maneira de devolver-lhes um pouco da luz que a história oficial lhes negou, e de lembrar que toda grande partida começa, quase sempre, por partidas menores e igualmente desoladoras.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

A Emigração Temporária



Os moradores da regiões alpinas, os "mestieranti", que viviam na zona de montanhas e nos profundos vales, desde tempos antigos, andavam regularmente fazer a chamada emigração temporária, partindo regularmente em determinadas estações do ano, em busca de trabalho, nos países vizinhos, como a França e o Império Austríaco, mas também muitos deles se dirigiam para outros locais da própria Italia, como as férteis planícies mais ao sul.  

No período da primavera saíam para buscar trabalho na colheita das folhas da amoreira, necessárias para a criação do bicho da seda. No verão partiam para fazer a colheita de cereais e cortar o feno, que seria armazenado para o inverno. No outono partiam para a colheita da uva. 




Junto com essa emigração de braços relacionados com trabalhos agrícolas, também existia a emigração temporária de artesãos: serradores, cortadores de lenha, fabricantes e arrumadores de cadeiras, guarda-chuvas, caldeiras, utensílios domésticos  afiadores de facas e tesouras, cortadores de árvores, pedreiros, fabricantes de carvão e tantos outros, até os mais simples como os "badilanti"e os "carriolanti" que migravam apenas com uma pá ou com o seu carrinho de mão, Também os "spazzacamini", limpadores de chaminés, que se deslocavam em zonas distantes, sendo que em alguns países vizinhos essa profissão era exercida somente por italianos. Todos eles deixavam temporariamente as suas casas para oferecerem seus trabalhos nas zonas mais ricas da própria Itália ou nos países vizinhos. 

Para as populações mais pobres do Vêneto esse tipo de  emigração temporária serviu durante muito tempo para compensar a falta crônica de recursos financeiros e mitigar a fome de muitos.




O êxodo de homens válidos era total, ficando em casa somente os velhos, mulheres e crianças. Mas, muitas vezes, partiam também elas para fazerem trabalhos domésticos nas cidades, como transportadoras de água em Veneza, empregadas domésticas e babás nas casas particulares mais ricas da Itália e dos países vizinhos. Também partiam as "balie", jovens mães que ainda amamentavam no peito os  seus próprios filhos, os quais deixavam em casa aos cuidados de familiares, para servirem, por alguns meses, de amas de leite para os filhos das famílias ricas mais bem sucedidas. As amas de leite da província de Belluno eram uma das mais requisitadas.




Nesse período as populações do Vêneto ainda não estavam preparadas para uma emigração definitiva para lugares mais distantes. Tentavam encontrar trabalho nas cidades vizinhas pois, ainda se sentiam ligados às famílias e ao "campanile". Se transferir para o Novo Mundo  ainda parecia uma solução extrema e por demais  desesperada. Por isso se limitavam a ir até a França, Áustria, Alemanha e Suiça. Ficavam longe de casa por alguns meses. Deixavam as mulheres e filhos sozinhos esperando pelo seu retorno.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta

Erechim RS