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sábado, 3 de março de 2018

Não Esquecer do Arenque Defumado Pendurado sobre a Mesa — A Pobreza e a Alimentação dos Nossos Antepassados Vênetos


Não Esquecer do Arenque Defumado Pendurado sobre a Mesa — A Pobreza e a Alimentação dos Nossos Antepassados Vênetos

Uma pequena lembrança da vida rural que revela a fome, a escassez e as estratégias de sobrevivência das famílias do Vêneto no século XIX e início do século XX.

“Às vezes, para compreender a história de um povo, não precisamos começar pelos grandes acontecimentos. Basta imaginar uma família reunida em torno de uma mesa, uma panela de polenta e um arenque pendurado por um barbante.”

UMA LEMBRANÇA QUE ATRAVESSOU O OCEANO

Entre as histórias transmitidas pelos antigos emigrantes vênetos aos seus filhos e netos existe uma lembrança particularmente expressiva: a do arenque defumado pendurado por um barbante sobre a mesa durante as refeições.

Os mais velhos contavam que, em determinadas famílias, quando chegava a hora de comer, havia muitas bocas para alimentar e pouquíssimos alimentos para colocar à disposição de todos. A polenta, quase sempre presente, constituía a base da refeição. Para dar algum sabor àquele alimento simples, pendurava-se um arenque defumado sobre a mesa. Cada pessoa, à sua vez, aproximava sua fatia de polenta ainda quente e a esfregava rapidamente no peixe, procurando transferir-lhe um pouco do sabor.

O arenque permanecia suspenso, sem ser repartido em pedaços. Assim, uma quantidade muito pequena de alimento podia proporcionar algum sabor à refeição de uma família numerosa.

Não sabemos quantas famílias utilizaram exatamente esse recurso, nem em quais localidades essa prática foi mais frequente. Trata-se de uma memória transmitida oralmente, cuja importância está menos na possibilidade de estabelecer sua frequência do que na realidade social que ela representa.

O episódio não deve ser entendido como uma simples curiosidade culinária. É uma imagem da necessidade, da escassez e da criatividade com que tantas famílias procuravam atravessar os dias.

E é justamente por isso que não devemos esquecê-lo.

A POLENTA: O ALIMENTO QUE SUSTENTAVA UMA FAMÍLIA INTEIRA

Para compreender essa lembrança, precisamos voltar ao ambiente rural do Vêneto durante a segunda metade do século XIX.

A sociedade vêneta era predominantemente agrícola. Milhares de famílias viviam do cultivo de pequenas propriedades, do arrendamento de terras, do trabalho como meeiros ou da prestação de serviços agrícolas para proprietários maiores.

O trabalho começava cedo e frequentemente envolvia todos os membros da família. Homens, mulheres e até crianças participavam das atividades necessárias para garantir a sobrevivência doméstica.

Entretanto, trabalhar muito não significava necessariamente comer bem.

Em numerosas comunidades rurais, a alimentação cotidiana era baseada principalmente no milho. A farinha era cozida em água para preparar a polenta, que podia ser consumida várias vezes ao dia, acompanhada, quando havia disponibilidade, de verduras, legumes, feijão, leite, queijo, ovos, peixe salgado ou pequenas porções de carne.

A carne de animais maiores não fazia parte da alimentação habitual de muitas famílias pobres. O pão de trigo também podia representar um alimento pouco frequente.

A polenta tinha uma vantagem evidente: era relativamente econômica, fornecia energia e permitia alimentar muitas pessoas com uma quantidade limitada de recursos.

Mas havia um problema. Quando se tornava praticamente o único alimento disponível, a dieta deixava de fornecer os nutrientes necessários para manter a saúde.

A situação era particularmente grave entre as famílias numerosas, nas quais a produção de uma pequena propriedade precisava sustentar muitos filhos, pais e, algumas vezes, outros parentes.

Para conhecer melhor esse cenário, vale a leitura de outro estudo publicado no Portal: A Fome no Vêneto do Século XIX.

O ARENQUE, O SALAME E O OSSO QUE PERCORRIA A VIZINHANÇA

A história do arenque não era a única lembrança transmitida pelos emigrantes.

Em algumas versões, o alimento pendurado sobre a mesa era um pedaço de salame. Em outras, falava-se de um pequeno pedaço de peixe salgado ou defumado que servia para dar sabor à polenta de todos.

Havia ainda uma recordação particularmente comovente, frequentemente associada a famílias provenientes da região de Treviso: a do osso utilizado para preparar o caldo, que circulava entre as casas de uma mesma vizinhança.

Cada família recebia o osso para preparar seu brodo. Depois de utilizá-lo, entregava-o à casa seguinte, que repetia o procedimento. Assim, um único osso podia participar sucessivamente da preparação de vários caldos.

Não se tratava de abundância, evidentemente. Era uma forma de aproveitar ao máximo os poucos recursos disponíveis.

Mas essa lembrança também revela outra dimensão da vida rural: a solidariedade entre vizinhos.

As comunidades eram formadas por famílias que compartilhavam não apenas o trabalho, as festas religiosas e as dificuldades da agricultura, mas também as estratégias cotidianas de sobrevivência.

A pobreza podia ser extrema, mas nem sempre significava isolamento. Em muitas localidades, os vínculos de vizinhança e parentesco constituíam uma importante rede de apoio.

O osso que passava de uma cozinha para outra tornou-se, na memória dos descendentes, uma representação quase perfeita daquela realidade.

QUANDO A FOME SE TRANSFORMAVA EM DOENÇA: A TRAGÉDIA DA PELAGRA

A alimentação insuficiente não provocava apenas fraqueza e dificuldades para trabalhar. Em determinadas circunstâncias, podia produzir doenças graves e incapacitantes.

Uma das mais conhecidas e devastadoras foi a pelagra, que atingiu numerosas populações rurais do norte da Itália, especialmente em áreas do Vêneto.

A doença está relacionada à deficiência de niacina, também conhecida como vitamina B3, ou à insuficiência de triptofano, aminoácido que o organismo utiliza para produzir niacina.

Uma dieta excessivamente dependente do milho, especialmente quando o cereal não era submetido a processos capazes de aumentar a disponibilidade desses nutrientes, podia favorecer o aparecimento da doença.

A pelagra ficou conhecida pela expressão dos três D: dermatite, diarreia e demência. Em seus estágios mais graves, comprometia profundamente a saúde física e mental dos doentes.

Durante décadas, a doença representou um problema sanitário e social de grandes proporções em diferentes localidades vênetas.

A situação era agravada pela pobreza, pela dificuldade de acesso a alimentos variados, pelas condições precárias de habitação e pela insuficiência dos recursos médicos disponíveis naquele período.

O Portal já publicou um estudo específico sobre esse tema, com informações históricas e registros da doença no Vêneto: Pelagra — Uma Doença Endêmica no Vêneto do Final do Século XIX.

É importante compreender que nem todas as famílias que consumiam polenta adoeciam. O problema estava na alimentação persistentemente inadequada e na ausência de uma dieta suficientemente diversificada.

A pelagra não era simplesmente uma doença da pobreza. Era também uma consequência de um sistema alimentar incapaz de proporcionar os nutrientes indispensáveis à população mais vulnerável.

A CASA, A TERRA E A VIDA DAS FAMÍLIAS RURAIS

A alimentação não pode ser separada das condições gerais de existência.

Muitas famílias vênetas viviam em casas pequenas, frequentemente divididas com animais domésticos ou construídas com recursos bastante limitados. Os espaços eram reduzidos, a higiene era difícil e, durante os meses frios, a umidade e a falta de ventilação favoreciam o aparecimento de doenças.

O trabalho agrícola era pesado e dependia das estações, das condições climáticas e dos resultados das colheitas.

Uma família podia trabalhar durante meses e, mesmo assim, terminar o ano com poucos recursos. Uma colheita ruim, uma doença entre os animais ou uma dívida inesperada eram suficientes para comprometer o orçamento doméstico.

Em muitas propriedades, a terra era insuficiente para sustentar todos os integrantes da família. Os filhos cresciam e, quando chegava o momento de constituir suas próprias famílias, encontravam poucas possibilidades de independência.

A realidade de uma família rural não pode ser compreendida apenas pela quantidade de terras que possuía. Era necessário considerar também sua produtividade, as obrigações financeiras, os contratos de trabalho e o número de pessoas que dependiam daquela produção.

Um estudo particularmente interessante sobre essas relações encontra-se em A Preservação da Identidade Cultural em um Grupo Imigrante Italiano — Curato de Colombo, Paraná, 1888–1910, que apresenta informações sobre a organização familiar, a alimentação e as condições de vida dos imigrantes e de seus antepassados.

A POBREZA E A DECISÃO DE EMIGRAR

Quando estudamos a grande emigração vêneta, precisamos compreender que a decisão de partir raramente era resultado de um único acontecimento.

A pobreza persistente, a insuficiência de terras, as relações de trabalho desfavoráveis, as dificuldades agrícolas, o crescimento das famílias e a falta de oportunidades formavam um conjunto de problemas que limitava o futuro de milhares de pessoas.

Para muitas delas, emigrar significava procurar aquilo que a própria terra já não conseguia oferecer: trabalho, alimentação suficiente, uma propriedade e melhores perspectivas para os filhos.

A América passou a representar uma possibilidade concreta de reconstrução da vida.

O Brasil, em particular, recebeu numerosas famílias vênetas a partir da segunda metade da década de 1870. Muitas foram encaminhadas para colônias agrícolas no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e Espírito Santo.

A viagem, entretanto, não significava o fim das dificuldades. Os emigrantes encontraram novas doenças, trabalhos pesados, dificuldades de adaptação e condições muitas vezes bastante diferentes daquelas que lhes haviam sido anunciadas.

Ainda assim, muitos conseguiram estabelecer propriedades, construir casas, formar comunidades e proporcionar aos descendentes oportunidades que não haviam encontrado na Itália.

A história da emigração não começa no momento em que o navio deixa o porto. Começa muito antes, na aldeia, na casa, na pequena propriedade e até mesmo naquela mesa onde uma família dividia uma polenta quase sem acompanhamento.

NÃO ESQUECER É TAMBÉM UMA FORMA DE HONRAR OS NOSSOS ANTEPASSADOS

Hoje, quando olhamos para a vida confortável de muitas famílias descendentes de italianos, pode parecer difícil imaginar a realidade que seus antepassados enfrentaram.

A polenta servida diariamente, o arenque pendurado por um barbante, o pedaço de salame cuidadosamente dividido e o osso que percorria as casas da vizinhança parecem pertencer a um mundo muito distante.

Mas essas lembranças continuam presentes.

Foram transmitidas pelos avós, bisavós e antigos emigrantes que, mesmo depois de estabelecerem uma nova vida no Brasil, não esqueceram as dificuldades que haviam deixado para trás.

É possível que alguns desses relatos tenham adquirido, com o passar das gerações, pequenas diferenças de detalhes. Isso é próprio da memória oral. Entretanto, o significado humano permanece: houve famílias que precisaram aproveitar cada migalha, cada alimento e cada oportunidade para conseguir sobreviver.

O arenque defumado pendurado sobre a mesa tornou-se uma imagem dessa época.

Não precisamos transformá-lo em um costume universal para reconhecer seu valor histórico. Basta compreender o que ele representa.

Por trás daquele barbante havia uma família numerosa, uma refeição insuficiente e uma realidade que não oferecia muitas alternativas.

Talvez seja justamente por isso que essa história mereça continuar sendo contada.

Quando um descendente italiano procura conhecer a origem de seu sobrenome, descobrir a pequena comunidade de onde partiram seus avós ou reconstruir a trajetória de uma família, também está recuperando uma parte dessa história.

Não eram apenas sobrenomes registrados em documentos antigos. Eram pessoas que trabalhavam, sofriam, alimentavam seus filhos, compartilhavam o pouco que possuíam e sonhavam com uma vida melhor.

Não esquecer o arenque defumado é, em última análise, não esquecer a fome, a dignidade e a coragem daqueles que vieram antes de nós.


PROCURE TAMBÉM NO PORTAL EMIGRAZIONE VÊNETA

Para aprofundar o conhecimento sobre as condições de vida dos nossos antepassados, recomendo estas leituras:

  • A Fome no Vêneto do Século XIX — a alimentação, a pobreza rural e as dificuldades econômicas.

  • Pelagra — Uma Doença Endêmica no Vêneto do Final do Século XIX — as consequências sanitárias da alimentação deficiente.

  • A Preservação da Identidade Cultural em um Grupo Imigrante Italiano — a organização familiar e os costumes alimentares dos imigrantes.

    Nota do Autor

    Ao longo de mais de três décadas de convivência com famílias de descendentes de italianos, aprendi que a história da emigração não se encontra apenas nos documentos oficiais, nas listas de passageiros ou nos registros das antigas comunidades. Ela também permanece viva nas lembranças transmitidas de pais para filhos, em pequenos episódios da vida cotidiana que revelam as dificuldades, os costumes e a dignidade dos nossos antepassados.

    A lembrança do arenque defumado pendurado sobre a mesa é uma dessas histórias que não devemos esquecer. Por trás desse costume, encontramos o retrato de famílias que conheceram a escassez e precisaram transformar poucos alimentos em sustento para todos. Compreender essa realidade nos ajuda a entender melhor as razões que levaram tantos vênetos a deixar sua terra natal em busca de condições de vida mais dignas para si e para seus filhos.

    Preservar essas memórias é uma forma de honrar aqueles que vieram antes de nós. Afinal, conhecer nossas origens significa também reconhecer os sacrifícios que tornaram possível a história das famílias que hoje vivem no Brasil e em tantos outros países.

    Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta
    Portal A Emigração Vêneta