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terça-feira, 2 de dezembro de 2025

L’Aringa Sfumassà ’nte el Vèneto: Povertà, Pelagra e Tradission dei Nostri Veci



L’Aringa Sfumassà ’nte el Vèneto: Povertà, Pelagra e Tradission dei Nostri Veci

La tràgica tradission de l’aringa sfumassà impicà sora la tola no el ze mia solo ’na stòria de magnar pòvero: el ze un sìmbolo de la vita dura che fasea parte de tante famèie vènete tra la fin del Otossento e el scomìnsio del Novessento.

Le Lamentassion dei Veci e la Vita Rural Vèneta

Tra i penosi recordi pì vivi che i emigranti vèneti i ga portà con lori, ghe ze l’imàgine de ’na aringa sfumassà impicà da un spago sora la tola de magnar.
Sto gesto, sémplisse ma pien de senso, ramenta ’na vita de povertà endémica e de gran mancansa.

La Tola Pien de Zente e Poco de Magnar

Le famèie le zera grande, la polenta no zera tanta, ma la carne e le proteine i zera quasi gnente.
Alora, par dar un poco de gusto a quel magnar insìpido, lori prendea un’aringa sfumassà con un spago e la impissava sora la tola.

Ognun, a turno, tocava la so fetina de polenta calda sora l’aringa, cussì che la polenta siapasse un fià de gusto.

Altre Varianti de questo malincòlico Costume

Inte le version contà tra i emigranti, ghe ze anca:

  • el salame impicà sora la tola

  • el oso del brodo che girava casa par casa

  • el brodo fato ogni zorno da ’na famèia diversa

Tuto par far render el poco che ghe zera.

La Ligassion Tra Povertà e la Pelagra

Sto uso no el vien solo da un costume culinàrio: el vien da ’na pòvera condission de mal nutrission crònica.

Che Cosa Ze la Pelagra

La pelagra la ze ’na malatia provocà da:

  • mancansa de niassina (vitamina B3)

  • mancansa de triptofan

  • mancanza de proteine

´Nte le zone pòvere del Vèneto, ’sta malatia la zera frequentìssima, specialmente tra la fin del sécolo XIX e el scomìnsio del XX.

La Polenta: Bon magnar, ma Pericolosa quando da Sola

El Vèneto pòvero vivea quasi solo de polenta, un magnar che impieni la pansa, sassia la fame ma afato no provede ´na nutrission perfeta.
Tanto che la pelagra la ga fato miaia de vìtime.

La Pelagra e la Emigrassion Vèneta

Sta mancanza de magnar bon e de salute el ze stà ´na de le rason che ga spinto tante famèie vènete a ’ndar via:

  • par scampar a la fame

  • par evitar la malatia

  • par ciamar un futuro pì digno ai fiòi

La Cultura Alimentar Vèneta e le Stratègie de Sopravivensa

La tradission alimentare veneta la zera pien de trufe de sopravivensa:

  • pesse salà o sfumassà

  • pesse e salame sfumassà impicà sora la tola

  • ossi che girava da ’na casa a l’altra

  • polenta ogni zorno

L’Aringa Come Simbolo Cultural

L’aringa sfumassà impisà la ze restà come símbolo de um tràgico de un passà de nostri antinati:

  • povertà

  • creatività dei contadin

  • union de la famèia

  • memòria stòrica dei emigranti

Conclusión

L’aringa sfumassà ligà con el spago no la ze mia solo ’na curiosità da racontar ai zòvani: el ze ’na pàgina de stòria, un ricordo vivo de la misèria che batea le famèie vènete e de come lori se ingegnava par sopravìvar.
Sto rito, sémplisse ma profondo, ramenta anca la pelagra, la mal nutrission e le condission che spingea tanti vèneti a emigrar.

Conservar ’sta stòria vol dir dar dignità a chi ga fato la strada prima de noialtri.

Nota del Autor

Sto testo el ze basà su i raconti tramandà dai emigranti vèneti e sui studi stòrici sicuri su la vita rural, la pelagra e le tradission de magnar del Vèneto.
El me interesse el ze mostrar come un pìcolo gesto — ’na aringa impicà su un spago su la tola — pol spalancar un mondo de stòrie sossiae, culturae, povertà e sopravivensa.

Ricordar ’sto fato se pur penoso vol dir onorar la memòria vèneta e far capir ai zòvani l’importansa del magnar ben e de la dignità umana. 

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta


 

quarta-feira, 24 de agosto de 2022

Recordações de um Período Difícil no Vêneto

Arenque defumado

 



Não esquecer do arenque defumado atado em um barbante

Entre as recordações do Vêneto que permanecem até hoje na memória dos emigrantes e que se conserva viva entre os seus descendentes encontramos o episódio do arenque defumado atado em um barbante sobre a mesa nas refeições. 
Os mais velhos contam esse episódio para fazer a comparação da pobreza endêmica sofrida pelas famílias vênetas no final do século XIX e início do século XX com a abundância e bem-estar atual. É uma forma de advertimento aos jovens de hoje que não sabem que coisa seja a necessidade. 
Nos contavam que devido as péssimas condições, a falta de proteínas e alimentos de qualidade propiciaram uma séria de doenças, entre elas a pelagra, que ceifaram a vida de tantas pessoas. 
O episódio do arenque defumado: quando se sentavam à mesa estavam sempre em muitos para alimentar e a comida era pouquíssima. Então se amarrava um arenque defumado com um barbante e o pendurava por sobre a mesa enquanto se servia a polenta. Cada um a sua vez esfregava a sua fatia de polenta quente no arenque pendurado, de modo que a polenta mudasse de sabor. 
Em outras versões nos dizem do salame e também do osso para o caldo, que percorria toda a vizinhança, cada dia fazia o “brodo” de uma família.

Casa pobre no Vêneto de antigamente



No scordare dell’aringa affumicata appesa nello spago

Tra i brevi ricordi del Veneto, rimasti fino oggi nella memoria degli emigranti che si conserva ancora con i suoi discendenti troviamo 
l'episodio dell'aringa affumicata appesa allo spago sopra la tavola nei pranzi. I più vecchi raccontano l'episodio per confrontare la povertà endemica patite dalle famiglie venete nel fin'Ottocento e inizio del Novecento con         l'abbondanza e benessere attuale. È una forma d'avvertimento ai giovani d'oggi che non sano cosa sia la necessità. 

Ci raccontano che dovuto le brutte condizioni, la mancanza di proteine e cibi di qualità hanno propiziato una serie di malattie, tra cui la pelagra, che portavano via tanti persone. 

L'episodio dell'aringa: quando ci si sedeva a tavola si era sempre in tanti da sfamare e il cibo pochissimo. Allora, si appendeva un'aringa affumicata ad uno spago penzolante sopra il tavolo e ai commensali si serviva la polenta. A sua volta ognuno strofinava la propria fetta di polenta calda sull'aringa, in modo che la polenta cambiasse sapore. Altre versioni ci parlano del salame e anche delle ossa per il brodo che faceva strada tra i vicini, ogni giorno faceva il brodo di una famiglia.



terça-feira, 19 de julho de 2022

A Fome no Vêneto do Século XIX

 

O homem e seu cão de Antonio Rocca




Já se sofria de fome na região do Vêneto desde muito tempo. Estava espalhada especialmente pela zona rural, onde o pequeno agricultor trabalhava muito mas, não tinha o suficiente para comer. A alimentação era precária, de má qualidade, pobre no fornecimento dos nutrientes necessários à vida diária.

O Vêneto já havia conhecido uma história de esplendor e fartura durante a República Sereníssima de Veneza. Apesar dela já estar em fase de decadência no final do século XVIII, foi somente após a invasão e tomada de todo o Vêneto por Napoleão, em 1766, que a região passou a decair mais rapidamente, culminando nos anos que se seguiram a unificação da Itália.

O preço para a construção do novo país, com as novas taxas criadas,  recaiu principalmente nas costas dos mais pobres, entre eles os pequenos agricultores que constituíam a maioria da população. 

Durante o século XIX, especialmente nos seus cinquenta anos finais, nas zonas rurais do Vêneto, a maioria das numerosas famílias dos pequenos agricultores e dos pobres trabalhadores diaristas, que se contavam em milhares, comiam praticamente somente o milho, na forma de farinha moída e cozida em água fervente, muitas vezes sem sal. 





Poenta brustolà


Era a tradicional a polenta, uma refeição muitas vezes ingerida sem qualquer acompanhamento, a não ser algumas ervas e verduras. Comiam polenta pela manhã no desjejum, no almoço, apenas um intervalo durante a jornada de trabalho, e no jantar, quando, exaustos retornavam para as suas casas.

Essa dieta precária foi a causa da chamada doença dos "três D's" muito generalizada em todo o Vêneto, conhecida cientificamente como pelagra. Os 3 D's representavam as letras iniciais dos nomes dos sinais e sintomas das três fases conhecidas desta grave doença: dermatite, diarréia e demência.

Essa doença ainda fazia vítimas em meados do século seguinte, já próximo da II Grande Guerra e para termos uma ideia, nos dias atuais, mesmo em países muito pobres, assolados por guerras, catástrofes naturais ou frequentes convulsões sociais, não encontramos casos de pelagra.

A pelagra é fruto de uma fome crônica causada por uma alimentação inadequada, estoicamente suportada por muito tempo. 


Interior de uma pobre casa típica no Vêneto antigo 



O vinho, mais que uma bebida, era um alimento de verdade, e muito consumido pelos vênetos, causando uma outra praga representada pelo alcoolismo. O seu consumo nas zonas agrícolas do Vêneto eram muito superiores da média.

Quando na segunda metade do século XIX os parreirais italianos foram acometidos pela doença da filoxera, com a perda de quase todas as plantações de uva, causou uma catástrofe na economia regional e também na nutrição da população. 

A Itália depois da unificação era um país atrasado, pobre em relação à maioria dos países europeus, com um parque industrial muito reduzido e que não dava conta de absorver o excesso de mão de obra representado pelos milhares de desempregados do campo que procuravam trabalho nas cidades.

Até a época da grande emigração, que teve início por volta de 1875, a Itália era um país com uma economia essencialmente agrícola, mas, muito atrasada em relação a outros países. 

O campo era trabalhado nos mesmos moldes medievais, usando os mesmos instrumentos de trabalho do século anterior e onde a mecanização era privilégio de algumas poucas regiões. 

Com a emigração, em poucos anos milhares de pessoas deixaram o Vêneto aliviando assim a pressão social e o número de bocas a serem alimentadas. Além disso, passados os primeiros anos na terra de adoção, as regulares remessas de recursos, transferidas por aqueles que partiram, para os seus familiares que ficaram na Itália, possibilitou uma melhoria das condições de vida em todo o país. 



Dr. Luiz Carlos Piazzetta
Erechim RS





sexta-feira, 20 de abril de 2018

O Arenque Defumado Pendurado com um Barbante sobre a Mesa



Non scordare dell’aringa affumicata appesa nello spago sulla tavola.

Entre as recordações do Vêneto que permaneceram até hoje na memória dos descendentes de emigrantes e que ainda se conservam vivas encontramos o episódio do arenque defumado, atado em um barbante, sobre a mesa nas refeições. 

Os mais velhos contavam esse episódio para fazer a comparação da pobreza endêmica sofrida pelas famílias vênetas no final do século XIX e início do século XX com a abundância e bem-estar atual. 

É uma forma de advertência aos mais jovens de hoje que não sabem que coisa seja a necessidade. Menos ainda, o que é verdadeiramente passar fome. Nos contavam ainda que devido as péssimas condições alimentares na época, a falta de proteínas e alimentação de má qualidade, quando só se alimentavam de farinha de milho, usada para a polenta, deram lugar a uma séria de doenças, entre as quais a pelagra, que inutilizavam e ceifavam a vida de muitas pessoas. 

O episódio do arenque defumado é bem ilustrativo dessa fase difícil da história do Vêneto. Quando a família se sentava à mesa, quase sempre eram muitos para alimentar e a comida disponível, a polenta sem gosto e sem carne. Então se amarrava, com um barbante, um arenque defumado e o dependurava por sobre a mesa enquanto era servida a polenta. Cada um a sua vez esfregava rapidamente a sua fatia de polenta quente naquele arenque pendurado, de modo que a polenta sem gosto adquirisse algum sabor. 

Outras versões, conforme a zona de proveniência do imigrante, nos contam que era um pedaço de salame que dependuravam sobre a mesa de refeições. 

Outra história muito contada, geralmente por imigrantes oriundos da província de Treviso, era a do osso para fazer o caldo, que percorria toda a vizinhança, cada dia sendo usado para fazer o “brodo” na casa de uma das famílias.


Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta
Erechim RS




No scordare dell’aringa affumicata appesa nello spago sulla tavola


Tra i brevi ricordi del Veneto, rimasti fino oggi nella memoria degli emigranti che si conserva ancora con i suoi discendenti troviamo l´episodio dell´aringa affumicata appesa allo spago sopra la tavola nei pranzi. I più vecchi raccontanno l´episodio per confrontare la povertà endemica patitte dalle famiglie venete nel fin´Ottocento e inizio del Novecento con l´abbondanza e benessere attuale. È una forma d´avvertimento ai giovani d´oggi che non sano cosa sia la necessità. Ci raccontano che dovuto le brutte condizioni, la mancanza di proteine e cibi di qualità hanno propiziato una serie di malattie, tra cui la pelagra, che portavano via tanti persone. L´episodio dell´aringa: quando ci si sedeva a tavola si era sempre in tanti da sfamare e il cibo pochissimo. Allora, si appendeva un´aringa affumicata ad uno spago penzolante sopra il tavolo e ai commensali si serviva la polenta. A sua volta ognuno strofinava la propria fetta di polenta calda sull´aringa, in modo che la polenta cambiasse sapore. Altre versioni ci parlano del salame e anche delle ossa per il brodo che faceva strada tra i vicini, ogni giorno faceva il brodo di una famiglia.

sábado, 3 de março de 2018

Não Esquecer do Arenque Defumado Pendurado sobre a Mesa — A Pobreza e a Alimentação dos Nossos Antepassados Vênetos


Não Esquecer do Arenque Defumado Pendurado sobre a Mesa — A Pobreza e a Alimentação dos Nossos Antepassados Vênetos

Uma pequena lembrança da vida rural que revela a fome, a escassez e as estratégias de sobrevivência das famílias do Vêneto no século XIX e início do século XX.

“Às vezes, para compreender a história de um povo, não precisamos começar pelos grandes acontecimentos. Basta imaginar uma família reunida em torno de uma mesa, uma panela de polenta e um arenque pendurado por um barbante.”

UMA LEMBRANÇA QUE ATRAVESSOU O OCEANO

Entre as histórias transmitidas pelos antigos emigrantes vênetos aos seus filhos e netos existe uma lembrança particularmente expressiva: a do arenque defumado pendurado por um barbante sobre a mesa durante as refeições.

Os mais velhos contavam que, em determinadas famílias, quando chegava a hora de comer, havia muitas bocas para alimentar e pouquíssimos alimentos para colocar à disposição de todos. A polenta, quase sempre presente, constituía a base da refeição. Para dar algum sabor àquele alimento simples, pendurava-se um arenque defumado sobre a mesa. Cada pessoa, à sua vez, aproximava sua fatia de polenta ainda quente e a esfregava rapidamente no peixe, procurando transferir-lhe um pouco do sabor.

O arenque permanecia suspenso, sem ser repartido em pedaços. Assim, uma quantidade muito pequena de alimento podia proporcionar algum sabor à refeição de uma família numerosa.

Não sabemos quantas famílias utilizaram exatamente esse recurso, nem em quais localidades essa prática foi mais frequente. Trata-se de uma memória transmitida oralmente, cuja importância está menos na possibilidade de estabelecer sua frequência do que na realidade social que ela representa.

O episódio não deve ser entendido como uma simples curiosidade culinária. É uma imagem da necessidade, da escassez e da criatividade com que tantas famílias procuravam atravessar os dias.

E é justamente por isso que não devemos esquecê-lo.

A POLENTA: O ALIMENTO QUE SUSTENTAVA UMA FAMÍLIA INTEIRA

Para compreender essa lembrança, precisamos voltar ao ambiente rural do Vêneto durante a segunda metade do século XIX.

A sociedade vêneta era predominantemente agrícola. Milhares de famílias viviam do cultivo de pequenas propriedades, do arrendamento de terras, do trabalho como meeiros ou da prestação de serviços agrícolas para proprietários maiores.

O trabalho começava cedo e frequentemente envolvia todos os membros da família. Homens, mulheres e até crianças participavam das atividades necessárias para garantir a sobrevivência doméstica.

Entretanto, trabalhar muito não significava necessariamente comer bem.

Em numerosas comunidades rurais, a alimentação cotidiana era baseada principalmente no milho. A farinha era cozida em água para preparar a polenta, que podia ser consumida várias vezes ao dia, acompanhada, quando havia disponibilidade, de verduras, legumes, feijão, leite, queijo, ovos, peixe salgado ou pequenas porções de carne.

A carne de animais maiores não fazia parte da alimentação habitual de muitas famílias pobres. O pão de trigo também podia representar um alimento pouco frequente.

A polenta tinha uma vantagem evidente: era relativamente econômica, fornecia energia e permitia alimentar muitas pessoas com uma quantidade limitada de recursos.

Mas havia um problema. Quando se tornava praticamente o único alimento disponível, a dieta deixava de fornecer os nutrientes necessários para manter a saúde.

A situação era particularmente grave entre as famílias numerosas, nas quais a produção de uma pequena propriedade precisava sustentar muitos filhos, pais e, algumas vezes, outros parentes.

Para conhecer melhor esse cenário, vale a leitura de outro estudo publicado no Portal: A Fome no Vêneto do Século XIX.

O ARENQUE, O SALAME E O OSSO QUE PERCORRIA A VIZINHANÇA

A história do arenque não era a única lembrança transmitida pelos emigrantes.

Em algumas versões, o alimento pendurado sobre a mesa era um pedaço de salame. Em outras, falava-se de um pequeno pedaço de peixe salgado ou defumado que servia para dar sabor à polenta de todos.

Havia ainda uma recordação particularmente comovente, frequentemente associada a famílias provenientes da região de Treviso: a do osso utilizado para preparar o caldo, que circulava entre as casas de uma mesma vizinhança.

Cada família recebia o osso para preparar seu brodo. Depois de utilizá-lo, entregava-o à casa seguinte, que repetia o procedimento. Assim, um único osso podia participar sucessivamente da preparação de vários caldos.

Não se tratava de abundância, evidentemente. Era uma forma de aproveitar ao máximo os poucos recursos disponíveis.

Mas essa lembrança também revela outra dimensão da vida rural: a solidariedade entre vizinhos.

As comunidades eram formadas por famílias que compartilhavam não apenas o trabalho, as festas religiosas e as dificuldades da agricultura, mas também as estratégias cotidianas de sobrevivência.

A pobreza podia ser extrema, mas nem sempre significava isolamento. Em muitas localidades, os vínculos de vizinhança e parentesco constituíam uma importante rede de apoio.

O osso que passava de uma cozinha para outra tornou-se, na memória dos descendentes, uma representação quase perfeita daquela realidade.

QUANDO A FOME SE TRANSFORMAVA EM DOENÇA: A TRAGÉDIA DA PELAGRA

A alimentação insuficiente não provocava apenas fraqueza e dificuldades para trabalhar. Em determinadas circunstâncias, podia produzir doenças graves e incapacitantes.

Uma das mais conhecidas e devastadoras foi a pelagra, que atingiu numerosas populações rurais do norte da Itália, especialmente em áreas do Vêneto.

A doença está relacionada à deficiência de niacina, também conhecida como vitamina B3, ou à insuficiência de triptofano, aminoácido que o organismo utiliza para produzir niacina.

Uma dieta excessivamente dependente do milho, especialmente quando o cereal não era submetido a processos capazes de aumentar a disponibilidade desses nutrientes, podia favorecer o aparecimento da doença.

A pelagra ficou conhecida pela expressão dos três D: dermatite, diarreia e demência. Em seus estágios mais graves, comprometia profundamente a saúde física e mental dos doentes.

Durante décadas, a doença representou um problema sanitário e social de grandes proporções em diferentes localidades vênetas.

A situação era agravada pela pobreza, pela dificuldade de acesso a alimentos variados, pelas condições precárias de habitação e pela insuficiência dos recursos médicos disponíveis naquele período.

O Portal já publicou um estudo específico sobre esse tema, com informações históricas e registros da doença no Vêneto: Pelagra — Uma Doença Endêmica no Vêneto do Final do Século XIX.

É importante compreender que nem todas as famílias que consumiam polenta adoeciam. O problema estava na alimentação persistentemente inadequada e na ausência de uma dieta suficientemente diversificada.

A pelagra não era simplesmente uma doença da pobreza. Era também uma consequência de um sistema alimentar incapaz de proporcionar os nutrientes indispensáveis à população mais vulnerável.

A CASA, A TERRA E A VIDA DAS FAMÍLIAS RURAIS

A alimentação não pode ser separada das condições gerais de existência.

Muitas famílias vênetas viviam em casas pequenas, frequentemente divididas com animais domésticos ou construídas com recursos bastante limitados. Os espaços eram reduzidos, a higiene era difícil e, durante os meses frios, a umidade e a falta de ventilação favoreciam o aparecimento de doenças.

O trabalho agrícola era pesado e dependia das estações, das condições climáticas e dos resultados das colheitas.

Uma família podia trabalhar durante meses e, mesmo assim, terminar o ano com poucos recursos. Uma colheita ruim, uma doença entre os animais ou uma dívida inesperada eram suficientes para comprometer o orçamento doméstico.

Em muitas propriedades, a terra era insuficiente para sustentar todos os integrantes da família. Os filhos cresciam e, quando chegava o momento de constituir suas próprias famílias, encontravam poucas possibilidades de independência.

A realidade de uma família rural não pode ser compreendida apenas pela quantidade de terras que possuía. Era necessário considerar também sua produtividade, as obrigações financeiras, os contratos de trabalho e o número de pessoas que dependiam daquela produção.

Um estudo particularmente interessante sobre essas relações encontra-se em A Preservação da Identidade Cultural em um Grupo Imigrante Italiano — Curato de Colombo, Paraná, 1888–1910, que apresenta informações sobre a organização familiar, a alimentação e as condições de vida dos imigrantes e de seus antepassados.

A POBREZA E A DECISÃO DE EMIGRAR

Quando estudamos a grande emigração vêneta, precisamos compreender que a decisão de partir raramente era resultado de um único acontecimento.

A pobreza persistente, a insuficiência de terras, as relações de trabalho desfavoráveis, as dificuldades agrícolas, o crescimento das famílias e a falta de oportunidades formavam um conjunto de problemas que limitava o futuro de milhares de pessoas.

Para muitas delas, emigrar significava procurar aquilo que a própria terra já não conseguia oferecer: trabalho, alimentação suficiente, uma propriedade e melhores perspectivas para os filhos.

A América passou a representar uma possibilidade concreta de reconstrução da vida.

O Brasil, em particular, recebeu numerosas famílias vênetas a partir da segunda metade da década de 1870. Muitas foram encaminhadas para colônias agrícolas no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e Espírito Santo.

A viagem, entretanto, não significava o fim das dificuldades. Os emigrantes encontraram novas doenças, trabalhos pesados, dificuldades de adaptação e condições muitas vezes bastante diferentes daquelas que lhes haviam sido anunciadas.

Ainda assim, muitos conseguiram estabelecer propriedades, construir casas, formar comunidades e proporcionar aos descendentes oportunidades que não haviam encontrado na Itália.

A história da emigração não começa no momento em que o navio deixa o porto. Começa muito antes, na aldeia, na casa, na pequena propriedade e até mesmo naquela mesa onde uma família dividia uma polenta quase sem acompanhamento.

NÃO ESQUECER É TAMBÉM UMA FORMA DE HONRAR OS NOSSOS ANTEPASSADOS

Hoje, quando olhamos para a vida confortável de muitas famílias descendentes de italianos, pode parecer difícil imaginar a realidade que seus antepassados enfrentaram.

A polenta servida diariamente, o arenque pendurado por um barbante, o pedaço de salame cuidadosamente dividido e o osso que percorria as casas da vizinhança parecem pertencer a um mundo muito distante.

Mas essas lembranças continuam presentes.

Foram transmitidas pelos avós, bisavós e antigos emigrantes que, mesmo depois de estabelecerem uma nova vida no Brasil, não esqueceram as dificuldades que haviam deixado para trás.

É possível que alguns desses relatos tenham adquirido, com o passar das gerações, pequenas diferenças de detalhes. Isso é próprio da memória oral. Entretanto, o significado humano permanece: houve famílias que precisaram aproveitar cada migalha, cada alimento e cada oportunidade para conseguir sobreviver.

O arenque defumado pendurado sobre a mesa tornou-se uma imagem dessa época.

Não precisamos transformá-lo em um costume universal para reconhecer seu valor histórico. Basta compreender o que ele representa.

Por trás daquele barbante havia uma família numerosa, uma refeição insuficiente e uma realidade que não oferecia muitas alternativas.

Talvez seja justamente por isso que essa história mereça continuar sendo contada.

Quando um descendente italiano procura conhecer a origem de seu sobrenome, descobrir a pequena comunidade de onde partiram seus avós ou reconstruir a trajetória de uma família, também está recuperando uma parte dessa história.

Não eram apenas sobrenomes registrados em documentos antigos. Eram pessoas que trabalhavam, sofriam, alimentavam seus filhos, compartilhavam o pouco que possuíam e sonhavam com uma vida melhor.

Não esquecer o arenque defumado é, em última análise, não esquecer a fome, a dignidade e a coragem daqueles que vieram antes de nós.


PROCURE TAMBÉM NO PORTAL EMIGRAZIONE VÊNETA

Para aprofundar o conhecimento sobre as condições de vida dos nossos antepassados, recomendo estas leituras:

  • A Fome no Vêneto do Século XIX — a alimentação, a pobreza rural e as dificuldades econômicas.

  • Pelagra — Uma Doença Endêmica no Vêneto do Final do Século XIX — as consequências sanitárias da alimentação deficiente.

  • A Preservação da Identidade Cultural em um Grupo Imigrante Italiano — a organização familiar e os costumes alimentares dos imigrantes.

    Nota do Autor

    Ao longo de mais de três décadas de convivência com famílias de descendentes de italianos, aprendi que a história da emigração não se encontra apenas nos documentos oficiais, nas listas de passageiros ou nos registros das antigas comunidades. Ela também permanece viva nas lembranças transmitidas de pais para filhos, em pequenos episódios da vida cotidiana que revelam as dificuldades, os costumes e a dignidade dos nossos antepassados.

    A lembrança do arenque defumado pendurado sobre a mesa é uma dessas histórias que não devemos esquecer. Por trás desse costume, encontramos o retrato de famílias que conheceram a escassez e precisaram transformar poucos alimentos em sustento para todos. Compreender essa realidade nos ajuda a entender melhor as razões que levaram tantos vênetos a deixar sua terra natal em busca de condições de vida mais dignas para si e para seus filhos.

    Preservar essas memórias é uma forma de honrar aqueles que vieram antes de nós. Afinal, conhecer nossas origens significa também reconhecer os sacrifícios que tornaram possível a história das famílias que hoje vivem no Brasil e em tantos outros países.

    Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta
    Portal A Emigração Vêneta