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quarta-feira, 15 de julho de 2026

Os Agentes de Emigração - Entre Promessas e Silêncios na Partida dos Italianos para o Brasil


Os Agentes de Emigração - Entre Promessas e Silêncios na Partida dos Italianos para o Brasil

"Por trás de cada árvore derrubada, de cada enxada erguida e de cada colheita, houve uma promessa. E milhares de famílias apostaram nela tudo o que possuíam."


Antes da travessia do Atlântico, havia a palavra. Não a palavra escrita, que permanecia inacessível para muitos camponeses italianos do século XIX, mas a palavra falada, transmitida de aldeia em aldeia, repetida nas feiras, nos mercados e nos encontros após as missas dominicais. Foi por meio dela que o Brasil começou a ocupar espaço no imaginário de milhares de famílias do norte da Itália. Antes de ser um lugar real, era uma ideia. Antes de ser um destino, era uma promessa.

Entre essa promessa e a decisão de abandonar a própria terra existia uma figura que desempenhou papel fundamental no grande movimento migratório italiano: o agente de emigração. Conhecido também como procurador, intermediário ou representante de companhias de navegação e empresas colonizadoras, ele era o elo entre dois mundos separados por um oceano. Sua função não se limitava a fornecer informações. Sua principal tarefa era convencer homens e mulheres de que uma nova vida os aguardava do outro lado do Atlântico.

A atuação desses agentes deve ser compreendida dentro do contexto histórico da Itália da segunda metade do século XIX. A unificação italiana, concluída em 1871, não resolveu os graves problemas sociais e econômicos enfrentados pela população rural. O crescimento demográfico pressionava cada vez mais os recursos disponíveis, as propriedades agrícolas eram divididas entre herdeiros geração após geração e a quantidade de terra disponível tornava-se insuficiente para sustentar muitas famílias. Somavam-se a isso crises agrícolas periódicas, baixos salários e uma pobreza que, em determinadas regiões, parecia não oferecer qualquer perspectiva de melhora.

Enquanto a Itália enfrentava essas dificuldades, o Brasil procurava atrair trabalhadores europeus. Nas fazendas de café paulistas, crescia a necessidade de substituir gradualmente o trabalho escravizado. No Sul do país, governos e empresas de colonização buscavam povoar áreas consideradas estratégicas e estimular a agricultura familiar. Surgiu, assim, uma convergência de interesses: de um lado, milhões de italianos procurando alternativas para sobreviver; de outro, um país disposto a receber imigrantes para impulsionar seus projetos econômicos e territoriais.

Nesse cenário, os agentes de emigração tornaram-se personagens indispensáveis. Seria injusto classificá-los simplesmente como enganadores, assim como seria equivocado retratá-los apenas como benfeitores. A realidade era muito mais complexa. Muitos acreditavam sinceramente naquilo que divulgavam. Alguns haviam emigrado anteriormente ou possuíam parentes estabelecidos na América. Tinham conhecimento de histórias de sucesso e de comunidades que prosperavam em terras brasileiras. Para esses homens, a emigração representava uma oportunidade legítima para famílias que dificilmente conseguiriam melhorar de vida permanecendo na Itália.

Entretanto, mesmo os agentes mais honestos tendiam a enfatizar os aspectos positivos e minimizar os obstáculos. A propaganda emigratória da época era construída justamente sobre essa seleção de informações. Folhetos distribuídos em diversas regiões italianas apresentavam descrições otimistas das terras brasileiras. Falava-se em fertilidade, abundância e oportunidades. Destacava-se a possibilidade de obter uma propriedade própria, algo que para muitos camponeses parecia inalcançável em sua terra natal. Pouco se mencionavam as dificuldades da adaptação, as doenças, o isolamento das colônias ou os enormes desafios impostos pela abertura de áreas cobertas por florestas.

Existiam também agentes que viam a emigração principalmente como uma atividade lucrativa. Companhias de navegação e empresas colonizadoras frequentemente remuneravam seus representantes de acordo com o número de emigrantes recrutados. Quanto mais passageiros embarcassem, maiores seriam os lucros. Nessa lógica comercial, a fronteira entre a persuasão legítima e a distorção da realidade tornava-se muitas vezes difícil de identificar. As promessas raramente eram totalmente falsas, mas frequentemente eram incompletas.

A terra prometida realmente existia. O trabalho também. As possibilidades de ascensão social eram reais para muitos. Contudo, as condições encontradas pelos recém-chegados nem sempre correspondiam às expectativas criadas durante o processo de recrutamento. Em numerosas colônias do Sul do Brasil, os lotes distribuídos estavam cobertos por mata fechada. Antes de plantar qualquer cultura, era necessário derrubar árvores, remover raízes, construir moradias e abrir caminhos. A infraestrutura era precária, as distâncias eram grandes e os recursos disponíveis nem sempre eram suficientes para atender às necessidades imediatas das famílias.

A força das promessas estava diretamente relacionada à vulnerabilidade daqueles que as ouviam. Grande parte dos emigrantes possuía pouca instrução formal. Muitos eram analfabetos ou tinham dificuldades de leitura. A obtenção de informações confiáveis era limitada, e as decisões eram frequentemente tomadas com base em relatos orais e cartas enviadas por parentes ou conhecidos que haviam emigrado anteriormente. Nesse contexto, a confiança desempenhava papel central. A palavra de um agente respeitado ou de um conterrâneo que retornava temporariamente à aldeia podia influenciar profundamente a decisão de uma família inteira.

Ainda assim, é importante reconhecer que os emigrantes não eram simples vítimas passivas de um sistema de recrutamento. A decisão de partir era resultado de reflexões, debates familiares e avaliações das circunstâncias existentes. Quando a vida cotidiana era marcada pela pobreza, pela falta de perspectivas e pela insegurança econômica, mesmo uma promessa cercada de incertezas podia parecer preferível à permanência em uma situação considerada sem saída. A esperança transformava-se em um poderoso motor da decisão migratória.

A viagem para o Brasil representava uma ruptura profunda. Para muitos, significava despedir-se de familiares e amigos sem qualquer garantia de reencontro. A travessia marítima podia durar várias semanas e era acompanhada por medo, ansiedade e expectativas. Ao desembarcarem nos portos brasileiros, os imigrantes iniciavam uma nova etapa de suas vidas. Muitos passavam pela Hospedaria dos Imigrantes, em São Paulo, antes de serem encaminhados para fazendas ou colônias agrícolas. Outros seguiam diretamente para os núcleos coloniais do Sul, onde começariam a enfrentar os desafios concretos da adaptação.

Era nesse momento que a distância entre a promessa e a realidade se tornava mais evidente. Os agentes de emigração haviam cumprido sua função no instante do embarque. A partir dali, cabia aos próprios imigrantes enfrentar as dificuldades da nova existência. Algumas famílias experimentaram frustrações profundas. Houve casos de contratos descumpridos, condições de trabalho insatisfatórias e expectativas que jamais se concretizaram. As denúncias de abusos em determinadas fazendas brasileiras chegaram à Itália e provocaram debates intensos sobre a emigração. Em 1902, o governo italiano promulgou o Decreto Prinetti, restringindo a imigração subsidiada para o Brasil em razão das críticas relacionadas às condições encontradas por muitos trabalhadores italianos.

Apesar das dificuldades, a história da imigração italiana no Brasil não pode ser reduzida a uma sucessão de desilusões. Milhões de homens e mulheres permaneceram no país, construíram comunidades, abriram estradas, fundaram escolas, ergueram igrejas e contribuíram decisivamente para o desenvolvimento econômico e cultural de diversas regiões brasileiras. Em muitos casos, o sonho anunciado pelos agentes não se realizou da forma imaginada, mas acabou se concretizando por meio de décadas de trabalho, sacrifício e perseverança.

Por essa razão, o papel dos agentes de emigração continua despertando interesse entre historiadores e descendentes de imigrantes. Eles foram personagens de um sistema complexo, situado entre interesses econômicos, necessidades sociais e expectativas humanas. Alguns exageraram as vantagens e ocultaram dificuldades. Outros acreditaram sinceramente que estavam oferecendo uma oportunidade de vida melhor. Quase todos atuaram em uma época em que a circulação das informações era lenta e em que a esperança possuía um valor muitas vezes maior do que a certeza.

Compreender esses intermediários significa compreender um dos primeiros capítulos da experiência migratória italiana. Antes da chegada às colônias, antes da derrubada da mata e antes da construção das comunidades que marcariam profundamente a história do Brasil, existiu uma narrativa sobre o outro lado do oceano. Essa narrativa continha verdades, omissões e expectativas. Alimentou sonhos, influenciou decisões e ajudou a colocar em movimento milhões de pessoas. Talvez seja justamente nesse espaço entre aquilo que foi prometido e aquilo que foi encontrado que se encontre a verdadeira dimensão dos agentes de emigração: não como heróis nem como vilões, mas como representantes de uma época em que partir significava confiar no desconhecido e apostar o futuro em uma esperança que atravessava o mar junto com os emigrantes. 

Nota do Autor

Quando pensamos na imigração italiana para o Brasil, é natural que nossa atenção se volte para aqueles que embarcaram. Lembramos dos homens e mulheres que atravessaram o oceano, das famílias que enfrentaram a mata, da coragem necessária para recomeçar em uma terra desconhecida. No entanto, muito antes da partida, existiu um momento igualmente decisivo e que, por vezes, recebe pouca atenção da história: o instante em que alguém apresentou aos futuros emigrantes a ideia de partir.

Foi justamente sobre esse momento que desejei refletir neste texto.

Os agentes de emigração ocuparam uma posição singular na grande epopeia migratória italiana. Eles não cultivaram os campos do Brasil, não derrubaram as florestas nem construíram as comunidades que floresceram nas colônias. Ainda assim, influenciaram profundamente o destino de milhares de pessoas. Foram eles que transformaram terras distantes em possibilidades concretas, que levaram notícias da América às pequenas aldeias italianas e que ajudaram a construir, na imaginação de muitos camponeses, a imagem de uma vida nova além do Atlântico.

Seria injusto julgá-los apenas como exploradores da esperança alheia. Da mesma forma, seria ingênuo vê-los como simples benfeitores. A realidade histórica raramente se acomoda nos extremos. Alguns acreditavam sinceramente naquilo que divulgavam. Outros foram movidos principalmente pelo interesse econômico. Muitos misturavam ambas as coisas. O certo é que atuaram em um período no qual a informação circulava lentamente, as distâncias pareciam infinitas e a confiança depositada na palavra de um intermediário possuía um peso que hoje talvez nos seja difícil compreender.

Ao pesquisar documentos, cartas e estudos sobre a emigração italiana, torna-se evidente que inúmeras famílias partiram carregando expectativas moldadas por relatos incompletos. As promessas não eram necessariamente falsas, mas quase nunca eram inteiras. Falava-se das oportunidades, mas pouco dos sacrifícios. Mencionavam-se as terras, mas raramente a dureza do trabalho necessário para torná-las produtivas. Destacava-se o futuro possível, enquanto as dificuldades do presente permaneciam muitas vezes em silêncio.

Ainda assim, reduzir essa história a uma narrativa de engano seria ignorar a extraordinária capacidade humana de sonhar. A maioria dos emigrantes não embarcou apenas porque ouviu promessas. Embarcou porque a realidade que deixava para trás já não oferecia respostas suficientes para suas necessidades e esperanças. Os agentes influenciaram decisões, mas não criaram a pobreza, a falta de terras ou a insegurança que empurravam milhões de italianos para fora de sua pátria.

Escrevi este texto porque acredito que compreender a imigração exige olhar não apenas para a chegada, mas também para os caminhos que conduziram à partida. Entre a Itália que se abandonava e o Brasil que se imaginava existia um espaço ocupado por palavras, expectativas e escolhas. Foi nesse espaço que os agentes de emigração exerceram sua influência e ajudaram a moldar destinos que atravessariam gerações.

Para nós, descendentes daqueles emigrantes, essa reflexão possui um significado especial. Ela nos recorda que a história de nossas famílias começou muito antes do desembarque. Começou quando alguém ouviu falar de uma terra distante e decidiu acreditar que nela poderia existir um futuro melhor. Foi uma decisão tomada entre dúvidas e esperanças, entre informações incompletas e necessidades urgentes. E talvez seja justamente por isso que continua tão humana, tão emocionante e tão próxima de nós, mesmo depois de mais de um século.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



sábado, 16 de janeiro de 2021

Padres Agentes Clandestinos da Emigração

Emigrantes italianos no Porto de Genova a espera do embarque para o Novo Mundo


A partir da década de 1870 as autoridades italianas passaram a questionar o envolvimento  dos padres, e de seus inflamados discursos religiosos, no aumento da organização de grupos cada vez com mais de emigrantes para trabalharem nas terras do Novo Mundo. As consequências da deterioração crescente da já precária economia italiana, acrescida pelo aumento populacional, eram já sentidas na pele pelos pequenos agricultores e acompanhada com preocupação pelos párocos das pequenas cidades e vilas do norte da Itália. Eram eles que estavam mais perto daquela pobre gente que  enfrentava o desemprego cada vez maior, as doenças e a fome que rondava muitos lares, fazendo vítimas entre os adultos mais fracos e crianças menores de idade. Foram os padres, por serem mais esclarecidos e preocupados com o destino dos seus paroquianos que começaram a divulgar  e incentivar a emigração como uma forma pacífica de melhorar as condições de vida do povo. Os pequenos agricultores também viam nela uma oportunidade real para a sobrevivência da família.  Assim nas últimas décadas do século XIX os padres de muitos municípios da região do Veneto, passaram a incentivar e a organizar grupos de emigrantes para a partida definitiva para a América. 

Os párocos passaram a ser vistos pelas autoridades policiais como agentes disfarçados da emigração, que enganavam as famílias dos pequenos agricultores com a propagação de informações falsas. Alguns desses sacerdotes conseguiram realmente organizar a viagem para a América para centenas dos seus paroquianos. Para tal se dedicaram com coragem e muita tenacidade. Sabiam eles dos enormes riscos de se transformarem em alvos de censuras, mesmo das próprias autoridades da Igreja, que não queriam entrar em choque com as autoridades do governo, como também de investigações policiais e possíveis processos judiciários. 

Como exemplo, entre tantos corajosos sacerdotes, podemos citar o desempenho do padre Angelo Cavalli, nascido no ano de 1834, em Valstagna, um pequeno município da província de Vicenza, região do Vêneto, assumiu a paróquia de Santo Spirito in Oliero no ano de 1871. Oliero era uma pequena "frazione" do município de Valbrenta, localizada em meio do vale do rio Brenta. Don Cavalli foi denunciado diversas vezes pela polícia por ser um recrutador não licenciado de emigrantes para a América e levado às autoridades judiciárias de Bassano del Grappa. O fato de ser ele um agente da emigração era sem dúvida conhecido da população de todo o vale do rio Brenta que o protegia. As autoridades afirmaram "que devido ao seu mau comportamento, o padre teria causado amargas desilusões a muitos infelizes que, acreditando em suas palavras, venderam todos os seus bens e, não conseguindo embarcar, retornaram a este distrito". 

A casa do padre Don Cavalli, que ficava em Campolongo sul Brenta, província de Vicenza, as autoridades encontraram e apreenderam inúmeras cartas e circulares que comprovavam o seu envolvimento com o movimento emigratório. Ali estava uma contínua correspondência entre Don Cavalli e Clodomiro de Bernardes, agente de uma companhia de navegação marítima no porto de Genova, que estava organizando a transferência de emigrantes com destino ao Brasil. O referido agente emitia circulares com informações sobre as partidas dos navios e cartas com notícias concernentes as diversas regiões que estavam recebendo agricultores no território brasileiro. Em muitas correspondências, passava informações e instruções para determinadas pessoas que estavam organizando a transferência de emigrantes. Nas cartas também  existiam informações sobre os custos do transporte e da existência de embarque gratuito para grupos familiares.

Não tendo autorização oficial para atuar como um promotor de emigração, o padre Cavalli ,mesmo assim, emitiu carta ao agente Caetano Pinto solicitando o embarque gratuito em um mesmo navio para um grupo de pessoas conhecidas que pretendiam emigrar para o Brasil. A participação do padre, que era uma pessoa bem conhecida, que gozava de boa reputação e confiança,  como um intermediador da emigração, dava para aqueles pequenos agricultores a segurança necessária na tomada de decisões. Os camponeses que pensavam emigrar procuravam se informar junto a pessoas de confiança não somente sobre a viagem mas, também a respeito das vantagens que estavam sendo divulgadas pelos países de destino. Quando no momento da partida eles já estavam informados dos privilégios e oportunidades que encontrariam nas diversas províncias do Brasil. 

Através das cartas que foram apreendidas em sua casa pode-se perceber a existência de uma ampla rede de contatos e informações que forneciam subsídios às famílias antes de embarcarem. Padre Cavalli foi censurado pelas autoridades superiores da igreja, tendo sido suspenso temporariamente pelo seu bispo  das suas funções eclesiásticas por estar sendo acusado de envolvimento com a emigração, recebendo dinheiro dos pequenos agricultores que pretendiam emigrar. Don Cavalli de algum tempo vinha realmente circulando por diversas cidades  da região apesar dos riscos de cair nas mãos da justiça e a população sabia que ele desempenhava também a atividade de agente de emigração. Para as autoridades policiais ele estava divulgando o próximos embarques para a América, iludindo os camponeses.

Os frequentes deslocamentos do padre Cavalli entre as cidades de Veneza, onde ficava o consulado brasileiro, e Genova revelavam que ele ainda continuava a exercer a função de agente clandestino de emigração. As autoridades ao confrontar as partidas de dois navios diretos para o Brasil com emigrantes arrolados por dom Cavalli confirmaram a participação ativa do padre no movimento emigratório. Por diversas vezes, dom Angelo fazia pequenos discursos em bares e feiras, de diferentes municípios das províncias de Treviso e Vicenza, explicando os caminhos da emigração para aqueles que desejavam partir da Itália. Em maio de 1877, o cônsul do império do Brasil em Veneza, Leopoldo Bizio, afirmou ser grande o fornecimento de informações para aqueles que se deslocavam até o consulado. Apesar de recomendar cautela à população, disse que o padre Cavalli “animava o espírito dos emigran- tes” nas províncias do Vêneto, desencadeando em alguns lugares graves desordens. Em face do contínuo aumento dos deslocamentos e do surgimento de tumultos por parte das famílias que retornavam exaltadas dos portos da região, visto não terem conseguido embarque gratuito, a autoridade consular destacava que nenhuma instrução havia sido transmitida pelo governo imperial brasileiro aos agentes consulares na Itália, nem para recrutar, nem para conceder facilitações de viagens, nem, ainda, para “favorecer qualquer modo de emigração”. 

Em fevereiro de 1877, esperando escapar das perseguições por parte das autoridades, padre Cavalli comunicou, ao delegado do distrito de Bassano del Grappa, que em abril ele iria partir para o Brasil junto com familiares, mãe e irmãos, além de algumas famílias conhecidas. A viagem já estava acertada, declarando ter ido até Gênova para pessoalmente acordar com Clodomiro de Bernardes o embarque e certificar-se das condições oferecidas aos familiares e aos outros emigrantes. No entanto, padre Cavalli não cumpriu com a afirmação de que iria partir, preferindo continuar a atuar como agente da emigração, como o fez durante todo aquele ano. 

Nos primeiros anos da emigração para o Brasil, muitos foram os padres que emigraram com os seus paroquianos e conhecidos. O que os motivava eram variados, desde o deseja de fazer fortuna na América até outros que partiam com a intenção de fazer um serviço missionário junto as famílias que emigravam. Partiam por conta própria acompanhados de familiares e amigos, financiados pelos antigos paroquianos que já estavam no Novo Mundo, outros emigravam para escapar de perseguições, dificuldades pessoais e familiares. Uns outro partiam pro serem suspeitos de cometer alguma infração como aquela contra o voto de castidade. 

O trabalho de dom Angelo como agente de emigração também estava ligado ao desejo de se  estabelecer no Brasil junto aos seus familiares e amigos. Nas palavras de um imigrante que o conheceu, dom Cavalli era um jovem inteligente e cheio de vida, sempre pronto para descrever as diversas etapas da longa viagem e o que poderiam encontrar na terra prometida. Dizia que o Brasil era o novo El Dorado, a terra da cucagna. Dom Cavalli acabou se fixando na cidade de Morretes na então província do Paraná. Morreu menos de um ano após a sua chegada ao Brasil.

Um outro padre, que também como dom Angelo Cavalli promovia a emigração, orientando os agricultores desejosos de partir, foi o padre Giovanni Solerti, que trabalhava na paróquia de Piavon, na província de Treviso. Ele ajudou um grande grupo de paroquianos e de localidades vizinhas a se transferirem para a província do Rio Grande do Sul. Considerado pelas autoridades do governo  italiano como sendo um fanático, incentivador da emigração para a América,  foi por elas acusado de ter sido condenado a prisão em 1860, por fraudes, embustes e trapaças, quando ele ainda não trabalhava na paróquia rural de Treviso. O padre Solerti havia sido preso junto com outros paroquianos por roubo, fraude e posse ilegal de arma de fogo, mas, nada foi comprovado e absolvido por falta de provas. 

Nesse período eram comuns denúncias das autoridades constituídas contra sacerdotes que se interessavam em ajudar os pequenos agricultores, abrindo para eles os caminhos da emigração. Procuravam de todas as formas colocar obstáculos para impedir a livre partida dos agricultores. 

Camponeses e muitos padres da província de Treviso caíram nas malhas da justiça porque esta estava empenhada em reprimir a contestação das leis. Diversos padre que atuavam nas paróquias rurais acabaram sendo presos. As autoridades diocesanas, por outro lado, partiam orientações para que os sacerdotes observassem as leis do Estado, porém isso não foi seguido por todos, pois conviviam diretamente com o sofrimento do povo, o desemprego crescente, as doenças por falta de boa alimentação. A fome literalmente rondava inúmeros lares onde os desesperados  pais de família não conseguiam mais dar o sustento aos seus dependentes. O processo de formação do estado italiano modificaram a forma como os pequenos agricultores garantiam o necessário para o sustento das suas famílias. A proibição do uso das terras públicas e as da igreja, de onde tradicionalmente os camponeses plantavam alimentos, criavam alguns animais e retiravam frutos e madeira, desencadearam revoltas nas populações. A implantação de alguns novos tributos, destinados a equilibrar a cambaleante economia italiana, como as novas taxas que passaram a incidir sobre a moagem dos grãos, imposto esse que passou a ser cobrado diretamente nos moinhos, e a taxa sobre o sal, fizeram os preços dos alimentos subirem e aumentaram o desemprego por toda a Itália. 

O padre Giovanni Solerti se envolvia em questões que iam além das relacionadas com a administração dos bens da igreja e a assistência religiosa aos fiéis.  Foi acusado, igual como o padre Ângelo Cavalli,  de ser também um incentivador da imigração para a América. Através de seus “discursos empolgantes”, segundo as autoridades policiais, fazia surgir a “esperança entre a população camponesa de que poderiam melhorar a própria sorte” no além-mar. E, ainda: que longe da pátria teriam liberdade para “conservar sua religião”. Além disso, apresentava o Brasil como a “terra da promissão”, assegurando que “na Itália a religião católica desapareceria”, que a “população seria destruída pela peste, fome e guerra”, e que todos cairiam “sob o domínio Turco”; e que “um novo papa seria eleito do outro lado do Atlântico”. Tal como o padre Cavalli, parece que dom Solerti transmitia em seus discursos uma imagem positiva das vantagens que as famílias camponesas poderiam encontrar na América, uma delas sendo a liberdade de constituir novas comunidades católicas, longe das ameaças e dos problemas enfrentados na pátria de origem.

Padre Solerti foi acusado pelas autoridades, pela imprensa de ser um dos principais instigadores da emigração de Oderzo, que atuava como um agente das companhias de navegação nos municípios de da província de Treviso. Um dos jornais dessa província o acusava também "de pregar a decadência da igreja católica na Itália e estimular os camponeses a fundarem uma colônia religiosa na América". Neste mesmo período acontecia na Itália o crescimento das idéias comunistas, do surgimento de campanhas anti clericais e a perda dos terrenos da igreja, fizeram com que alguns padres reagissem tentando preservar a religião e o poder em terras do Novo Mundo com a participação dos emigrantes. Além de se revoltarem contra a cobrança de novos impostos e proibições, alguns padres foram perseguidos pela justiça por não respeitarem as novas leis estabelecidas. Os discursos, de muitos padres italianos tais como dom Cavalli e dom Solerti, de encorajamento ao abandono da pátria também era uma forma de se manifestarem contra as novas instituições do Estado liberal italiano, considerado por eles o grande responsável pelas dificuldades socioeconômicas que pesadamente,  atingiam as populações rurais. 

As escolhas realizadas tanto pelo padre Giovanni Solerti quanto por Angelo Cavalli auxiliam a compreender o universo de atuação das lideranças religiosas frente ao fenômeno da imigração para a América, pelo menos em sua fase inicial, entre os anos 1877 e 1887, nas províncias do Vêneto. O comportamento de ambos os padres ajuda a entender as percepções políticas e os projetos individuais e coletivos dos paroquianos. As suspeitas sobre a atuação “clandestina” de algumas lideranças religiosas levaram as autoridades policiais a invadir suas residências para apreender objetos como cartas e listas com nomes que indicavam o envolvimento nas atividades de recrutamento de emigrantes.

Todo esse ambiente criado em torno da figura de dom Solerti, acabou tornando insustentável a vida do padre, o qual após dar assistência para um novo grupo de emigrantes, com destino ao Brasil, desapareceu da sua paróquia. 

Esses padres que com seus discursos e ações pregavam e facilitavam a emigração das famílias camponesas para o exterior, ao contrário de estarem ludibriando os seus paroquianos e conhecidos ao falarem das vantagens que seriam encontradas do outro lado do oceano, confiavam plenamente que a emigração definitiva era a grande chance para a maioria mudarem de vida, inclusive para eles. 

Em carta, padre João Solerti mencionou que “sempre havia carregado consigo a vontade de acompanhar os seus conterrâneos até o outro lado do Atlântico”. Assim, na última década do século XIX, após tantos pedidos dos conhecidos já instalados no Brasil, expressados em cartas, depois de ter ajudado a partida de muitos  paroquianos e conhecidos, decidiu também a emigrar para o sul do Brasil para trabalhar nas regiões ocupadas por italianos. 

Dois meses após a sua partida para o Brasil, dom Solerti precisou retornar à Itália, pois ao sair apressadamente, quase certo fugindo às perseguições que vinha sofrendo, não levou consigo os documentos que o liberavam da sua diocese de origem. Sem essa carta de liberação, assinada pelo seu bispo, não podia legalmente assumir integralmente os serviços eclesiásticos que tencionava executar no local de destino. Foram diversos os sacerdotes que emigraram para o Brasil sem a permissão das autoridades diocesanas ou de posse de tão somente de um documento de licença temporária. 

A confiabilidade entre as famílias camponesas e os padres é considerado um dos principais fatores que permitiram que eles tivessem sucesso ao atuarem também como agentes da emigração. Os padres mantinham regular  contato, através de cartas, com seus antigos paroquianos já instalados na nova pátria e elas eram usadas para comprovar o acerto de suas orientação e a legitimidade seus discursos. 

As escolhas realizadas tanto pelo padre Giovanni Solerti quanto por Angelo Cavalli auxiliam a compreender o universo de atuação das lideranças religiosas frente ao fenômeno da imigração para a América, pelo menos em sua fase inicial, entre os anos 1877 e 1887, nas províncias do Vêneto. O comportamento de ambos os padres ajuda a entender as percepções políticas e os projetos individuais e coletivos dos paroquianos. As suspeitas sobre a atuação “clandestina” de algumas lideranças religiosas  realmente levaram as autoridades policiais a invadir suas residências para apreender objetos como cartas e listas com nomes que indicavam o envolvimento nas atividades de recrutamento de emigrantes.

O padre Giovanni Solerti se fixou no Rio Grande do Sul, na Colônia Silveira Martins, também conhecida como a Quarta Colônia Italiana do Estado, localizada próxima da cidade de Santa Maria, onde já estavam instalados centenas de seus conhecidos e ex paroquianos que ele ajudou a emigrar.




Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta
Erechim RS