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domingo, 4 de março de 2018

A Grande Seca de 1779 no Vêneto Um Registro da Sereníssima República de Veneza





A Grande Seca de 1779 no Vêneto Um Registro Histórico da Sereníssima República de Veneza

Um testemunho de 1779, preservado por um padre em 1877, revela o sofrimento de uma população vêneta diante de uma das grandes calamidades climáticas do século XVIII.

"Uma página esquecida durante dois séculos revelou como nossos antepassados enfrentaram uma das grandes calamidades climáticas do século XVIII."

Um documento antigo que atravessou dois séculos

Existem documentos históricos que chegam até nós pelas mãos dos grandes arquivos, das bibliotecas nacionais e das instituições de pesquisa. Outros, entretanto, sobrevivem quase por acaso, guardados durante séculos em lugares que poucas pessoas imaginariam procurar.
É o caso de um extraordinário registro encontrado em um antigo livro paroquial da Igreja de San Marco, em Camposampiero, na província de Padova, no Vêneto.
O documento relata uma terrível seca que atingiu a região em 1779, durante o período de existência da Sereníssima República de Veneza. Seu testemunho é particularmente valioso porque não descreve os acontecimentos a partir de uma interpretação histórica posterior, mas pela perspectiva de alguém que viveu naquele tempo e registrou aquilo que presenciou.
A história desse documento é igualmente interessante.
Segundo as informações que acompanharam a cópia encontrada, o relato original teria sido escrito em latim pelo pároco daquela época. Aproximadamente cem anos depois, em 1877, o padre Cristiano Cera decidiu preservar aquela memória, traduzindo-a para o italiano da época e registrando-a em um livro paroquial.
Foi justamente nesse antigo registro que nosso leitor Cezar Scolari, residente em Constantina, no Rio Grande do Sul, encontrou a preciosa anotação enquanto pesquisava documentos de seus antepassados na paróquia vêneta.
A cópia chegou até nós graças à sua percepção e ao cuidado de reconhecer a importância histórica daquele texto.
A leitura, entretanto, estava longe de ser simples. A caligrafia antiga, as particularidades da escrita italiana do século XIX e as expressões pouco usuais exigiram meses de trabalho para decifrar o manuscrito, compreender seu significado e realizar uma tradução que permitisse ao leitor contemporâneo conhecer aquele testemunho.
O resultado desse esforço foi a recuperação de uma pequena, mas significativa página da história do Vêneto.

O testemunho de 10 de maio de 1779

O registro começa com uma indicação precisa:
Addì 10 maggio 1779.
O pároco descreve uma estiagem excepcional, que havia começado muitos meses antes. Segundo seu relato, não chovia nem nevava desde novembro de 1778. A pequena precipitação ocorrida em abril não havia sido suficiente para umedecer adequadamente a terra.
A situação era tão grave que os rios Brenta e Piave estavam quase secos, prejudicando a navegação e comprometendo o funcionamento de numerosos moinhos instalados ao longo de seus cursos.
A seguir, reproduzimos o texto italiano preservado no livro paroquial.
Addì 10 maggio 1779
Sarà cosa grata a posteri il sapere che in quest’anno si è patita terribile siccità, non avendo mai piovuto ne nevicato dalli mesi novembre 1778 sino addì 10 aprile 1779 - ed ancora oggi ha piovuto lentamente per due o tre ore e non più, cosicché l’umidità tanto bramata non penetrò un solo dito. Tale inaudita siccità si è stesa per tutta l’Italia e persino in Polonia, a molti luoghi dell’Alemagna così pure in Francia e in Spagna. Li 27 aprile verificò una lentissima pioggia.
Finalmente il 7 e 8 maggio è piaciuto alla Divina Provvidenza consolarci intieramente, avendo piovuto abbondantemente ove i nostri fiumi Brenta e Piave, che erano quasi dissecati con tanto danno alla navigazione e specialmente con l’essersi resi quasi affatto inefficienti tanti molini sopra medesimi, ciò che arrecava una totale miseria agli afflitti popoli circonvicini.
Nelle nostre montagne, tante restarono dissecate, quasi tutte, con estrema desolazione di quegl’infelici popoli che penavano enormemente per dissetare sé stessi e i loro bestiami, persino di notte. Quei pochi, che portati di benigna Provvidenza del Cielo restarono provveduti del bramito liquido, erano sempre circondati di gente da lontani paesi conversa per raccoglierne sino la più minuta stilla.
In un pubblico rapporto in data di Madrid, 27 marzo, si legge ciò che segue: “in tutto questo Regno fanno delle pubbliche Devozioni per ottenere la pioggia, poiché da 7 interi mesi non è caduta una goccia di acqua, lo che ha cagionato infinite malattie e grandissima mortalità”.

A tradução do documento

Dia 10 de maio de 1779
Será gratificante para aqueles que vierem depois de nós saber que, neste ano, sofremos uma terrível seca. Não havia chovido nem nevado desde novembro de 1778 até o dia 10 de abril de 1779. Naquela ocasião, ocorreu uma chuva muito fraca, durante apenas duas ou três horas, de modo que a umidade tão desejada não chegou a penetrar sequer um dedo no solo.
Essa extraordinária estiagem estendeu-se por toda a Itália e também pela Polônia, por muitas regiões da Alemanha, assim como pela França e pela Espanha. No dia 27 de abril ocorreu outra chuva muito fraca.
Finalmente, nos dias 7 e 8 de maio, aprouve à Divina Providência nos consolar inteiramente, fazendo chover abundantemente sobre nossos rios Brenta e Piave, que estavam quase secos. Isso havia provocado enormes prejuízos à navegação e, especialmente, deixado praticamente inoperantes tantos moinhos instalados ao longo de seus cursos, causando extrema miséria às populações vizinhas.
Nas nossas montanhas, muitas fontes e reservas de água haviam secado, quase todas, provocando enorme desolação entre aquelas infelizes populações, que sofriam terrivelmente para conseguir água para si próprias e para seus animais, chegando a procurá-la durante a noite.
Aqueles poucos que, pela bondade da Providência Divina, ainda dispunham do precioso líquido encontravam-se constantemente cercados por pessoas vindas de lugares distantes, que procuravam recolher até a menor gota de água.
Em um relatório público datado de 27 de março, proveniente de Madrid, encontra-se também a seguinte informação: em todo aquele reino estavam sendo realizadas orações públicas para obter chuva, pois havia sete meses inteiros que não caía uma única gota de água, situação que havia provocado inúmeras doenças e uma enorme mortalidade.

Os rios Brenta e Piave e a vida das populações vênetas

Um dos aspectos mais importantes desse testemunho está na descrição dos prejuízos provocados pela estiagem.
Os rios Brenta e Piave não eram apenas elementos da paisagem vêneta. Representavam importantes vias de circulação, abastecimento e atividade econômica. A redução de suas águas comprometia o transporte de mercadorias e dificultava o funcionamento dos moinhos, estruturas essenciais para transformar os cereais em farinha.
Naquela época, uma parcela expressiva da população dependia diretamente da agricultura e das atividades relacionadas ao processamento dos alimentos. A interrupção do funcionamento dos moinhos significava muito mais do que uma dificuldade comercial: ameaçava o abastecimento cotidiano das famílias.
Nas regiões montanhosas, a situação era ainda mais dramática. A falta de água atingia simultaneamente pessoas e animais, obrigando os habitantes a percorrer distâncias consideráveis em busca de fontes que ainda conservassem alguma reserva.
O relato revela uma realidade que dificilmente seria percebida em documentos oficiais dedicados apenas à administração política ou às atividades comerciais da República.
Aqui encontramos a vida cotidiana das pessoas comuns.

Uma calamidade que ultrapassou as fronteiras do Vêneto

O autor do registro não restringe o fenômeno à sua região. Ele menciona a Itália, a Polônia, a Alemanha, a França e a Espanha.
A referência a Madrid é particularmente interessante. O pároco reproduz uma notícia de um relatório público espanhol que mencionava sete meses sem chuva e a realização de cerimônias religiosas para pedir a intervenção divina.
Isso demonstra que os acontecimentos eram percebidos como parte de uma situação muito mais ampla, que ultrapassava as fronteiras políticas dos Estados europeus.
Estudos modernos de climatologia histórica identificam períodos prolongados de condições secas na Europa Central a partir da década de 1770. O documento vêneto constitui, portanto, um testemunho local que merece ser considerado em futuras pesquisas comparativas sobre o clima europeu do século XVIII.
É importante, entretanto, distinguir o alcance do relato daquilo que ainda precisaria ser comprovado por outras fontes históricas e meteorológicas.

A religiosidade diante das adversidades

Outro detalhe merece atenção.
O pároco atribui a chegada das chuvas dos dias 7 e 8 de maio à Divina Providência. Essa maneira de interpretar os acontecimentos revela muito sobre a mentalidade religiosa daquele período.
Em uma sociedade predominantemente rural, profundamente ligada à Igreja e dependente dos ciclos naturais, uma seca prolongada representava uma ameaça direta à sobrevivência.
As orações públicas para pedir chuva, mencionadas no relatório de Madrid, demonstram que a religiosidade também constituía uma forma coletiva de enfrentar as calamidades.
A Igreja não era apenas o local onde se celebravam os sacramentos. Era também um espaço de preservação da memória, de organização comunitária e de registro dos acontecimentos que marcavam a vida das populações.
É justamente por isso que os antigos livros paroquiais possuem um valor histórico que ultrapassa muito sua finalidade religiosa e genealógica.

Uma memória preservada durante cem anos

A decisão do padre Cristiano Cera de transcrever aquele relato em 1877 merece reconhecimento.
A Sereníssima República de Veneza havia deixado de existir em 1797, quando Napoleão encerrou a secular independência da República. O padre que registrou novamente aquela narrativa já vivia em outra realidade política, quase um século depois dos acontecimentos descritos.
Mesmo assim, considerou importante preservar a memória de uma calamidade que havia atingido gerações anteriores.
Talvez não imaginasse que, muitos anos depois, aquele registro seria novamente encontrado, estudado e divulgado do outro lado do Atlântico.
O livro paroquial de San Marco, em Camposampiero, tornou-se assim um inesperado guardião da memória coletiva.
A história da própria localidade também merece atenção. Camposampiero possui raízes medievais e uma longa trajetória ligada à história política e religiosa da região de Padova.
Quem deseja conhecer melhor o ambiente histórico e cultural da antiga República pode também visitar nosso artigo Veneza do século XVIII na visão do pintor Francesco Guardi.

Uma pequena página da história do povo vêneto

A seca de 1779 não deve ser interpretada isoladamente como explicação para a pobreza que atingiria tantas famílias vênetas no século seguinte. Entretanto, constitui um exemplo concreto das vulnerabilidades enfrentadas pelas populações rurais diante das adversidades naturais.
A combinação entre a dependência agrícola, as dificuldades de abastecimento, a precariedade dos recursos hídricos e as limitações dos meios de transporte podia transformar uma estiagem em uma verdadeira calamidade social.
Décadas mais tarde, outros problemas relacionados à alimentação e às condições de vida também marcariam profundamente o Vêneto. Um exemplo é a pelagra, a doença da pobreza no Vêneto, que atingiu especialmente as populações mais pobres.
Para compreender o contexto político em que esse documento foi produzido, vale também conhecer nossa publicação sobre os Vênetos e as transformações políticas que sucederam à Sereníssima.
A história de Veneza e de seu antigo domínio também pode ser compreendida através de suas tradições, festas e instituições, como mostramos em Capodanno Veneto – Ano Novo Vêneto e A Batalha de Lepanto – La Battaglia di Lepanto.

Quando um antigo livro paroquial se transforma em fonte de história

A descoberta desse documento nos ensina algo muito importante: a história de um povo não está guardada somente nos grandes palácios, nos arquivos de Estado ou nos documentos das autoridades.
Ela também permanece nas pequenas comunidades, nos antigos livros de batismo, casamento e óbito, nas anotações dos párocos e nas páginas amareladas de registros que atravessaram séculos.
Às vezes, uma simples anotação pode revelar mais sobre a vida de uma população do que muitas páginas de uma narrativa histórica convencional.
Foi o que aconteceu com esse testemunho de 1779.
Graças à atenção de Cezar Scolari, à preservação realizada pelo padre Cristiano Cera e ao trabalho de leitura, decifração e tradução, conseguimos recuperar uma memória que poderia continuar esquecida entre as páginas de um antigo livro paroquial.
É uma pequena contribuição para que a história do Vêneto não seja conhecida apenas por seus doges, suas batalhas, seus palácios e suas grandes realizações comerciais, mas também pelas dificuldades, esperanças e sofrimentos das pessoas comuns que construíram aquela sociedade.
Afinal, a história de um povo também está escrita nas páginas que quase ninguém teve a oportunidade de ler.
Procure também no Portal emigrazioneveneta.blogspot.com.

Nota do Autor

Há documentos que nos emocionam não pela grandiosidade de seus acontecimentos, mas pela proximidade humana que conseguem estabelecer com pessoas que viveram há séculos.
Este é um deles.
Quando recebi a cópia daquele antigo registro paroquial, percebi imediatamente que estava diante de algo especial. Não se tratava de uma simples anotação religiosa, mas de um testemunho sobre a vida de nossos antepassados vênetos durante uma calamidade que havia marcado profundamente sua existência.
Foram necessários meses de trabalho para compreender a escrita antiga, decifrar as palavras e realizar a tradução. O esforço valeu a pena.
Agradeço especialmente a Cezar Scolari, cuja atenção permitiu que esse documento chegasse até nós.
Minha intenção, ao recuperar e divulgar esse relato, é contribuir para que a memória histórica do Vêneto permaneça acessível às novas gerações, inclusive aos descendentes daqueles que um dia precisaram abandonar sua terra natal.


Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta