terça-feira, 3 de novembro de 2026

Veneti nel Rio Grande do Sul — A presença, a cultura e o legado da imigração vêneta no Brasil


Veneti nel Rio Grande do Sul — A presença, a cultura e o legado da imigração vêneta no Brasil

"Um livro que preserva a história, a língua e a identidade dos vênetos que reconstruíram suas vidas no Brasil."

O livro I Veneti nel Rio Grande do Sul, publicação da A.D.R.E.V. (Associazione dei Discendenti degli Emigrati Veneti), constitui uma importante referência para o estudo da imigração vêneta no Brasil e, particularmente, para a compreensão da formação histórica e cultural das comunidades de origem italiana no Rio Grande do Sul.

Publicado em 2006, com organização de Giovanni Meo Zilio, o volume integra a coleção Quaderni dell’A.D.R.E.V., n.º 11, e foi editado pela Longo Editore, de Ravenna, em colaboração com a Região do Vêneto.

Mais do que uma publicação sobre o deslocamento de famílias europeias para outro continente, a obra representa um registro da trajetória de uma população que atravessou o oceano levando consigo sua língua, seus costumes, suas tradições e uma maneira própria de compreender o mundo.

Uma obra que reúne história, língua e memória

A publicação foi organizada pelo professor Giovanni Meo Zilio (1923–2006), estudioso das línguas e literaturas hispano-americanas e pesquisador da presença linguística vêneta na América Latina. O livro foi publicado no mesmo ano de seu falecimento e representa um dos resultados de um amplo programa de pesquisas desenvolvido pela ADREV em parceria com o Centro Interuniversitário de Estudos Vênetos, de Veneza. 


A ADREV — Archivio di Documentazione e Ricerca sull’Emigrazione Veneta — tinha como uma de suas finalidades reunir documentos sobre as comunidades vênetas espalhadas pelo mundo, promover pesquisas sobre esses núcleos de descendentes e aproximar pesquisadores, universidades e instituições culturais. O trabalho não se limitava à história da partida: procurava compreender o que aconteceu com a identidade vêneta depois da chegada dos emigrantes aos países de acolhimento.


O volume possui 144 páginas e está dividido em dois grandes campos de investigação: o histórico e o linguístico-etnográfico. Essa organização é particularmente significativa, pois permite compreender a imigração tanto como um acontecimento demográfico e social quanto como um processo de formação cultural.

O conteúdo do livro

1. O setor histórico
A primeira parte reúne dois trabalhos fundamentais:

  • L. De Boni e R. Costa — Ndemo in Merica. I Triveneti nel Rio Grande do Sul. O estudo aborda a presença dos emigrantes provenientes do Trivêneto no Rio Grande do Sul, inserindo a experiência migratória no contexto da colonização e da formação das comunidades italianas.

  • E. L. Bisognin, J. V. Righi e V. Torri — La presenza italiana nella Quarta Colonia del Rio Grande do Sul. Una prospettiva storica. O trabalho examina a presença italiana na Quarta Colônia, oferecendo uma perspectiva histórica sobre a formação daquela importante região de colonização.

2. O setor linguístico-etnográfico
A segunda parte é especialmente importante para quem pesquisa a preservação da língua e da identidade dos descendentes:

  • H. Confortin e Luiz C. Piazzetta — Lingua, cultura, immigrazione italiana nel Rio Grande do Sul. Este é o capítulo de nossa autoria, que ocupa as páginas impressas de 49 a 112. O estudo aborda a relação entre língua, cultura e imigração italiana no Rio Grande do Sul.

  • L. T. Maraschin — Descrizione della parlata dei discendenti di italiani nella città di Santa Maria, nel Rio Grande do Sul. Uma investigação sobre a maneira de falar dos descendentes de italianos em Santa Maria.

  • H. Sangoi Antunes — L’insegnamento bilingue può essere un modello che garantisce la preservazione dei dialetti all’interno di una comunità italo-brasiliana?. Um estudo que coloca em discussão o ensino bilíngue como instrumento de preservação das variedades linguísticas das comunidades ítalo-brasileiras.

O livro encerra-se com uma bibliografia de apoio aos estudos sobre o tema. A distribuição dos capítulos e suas respectivas páginas pode ser conferida no sumário da edição original. 

Consiglio Veneto

A língua como patrimônio dos descendentes

Um dos méritos da obra está em reconhecer que a história da imigração não termina quando o emigrante desembarca no Brasil. A língua que ele trouxe consigo continuou a ser falada dentro das famílias, nas pequenas comunidades, nas relações de vizinhança, no trabalho, nas festas e nas práticas religiosas.
Com o passar das gerações, essa língua sofreu transformações. O contato entre diferentes variedades do vêneto, outros idiomas italianos, o português brasileiro e as condições próprias da vida no Brasil produziu uma realidade linguística singular.
É nesse contexto que devemos compreender o Talian e as demais formas de fala preservadas pelas comunidades de descendentes. Não se trata simplesmente de palavras antigas conservadas por pessoas idosas, mas de um patrimônio cultural construído ao longo de gerações.
A importância desse campo de investigação também aparece no trabalho de Giovanni Meo Zilio. Suas pesquisas linguísticas na América Latina foram acompanhadas de registros sonoros e fotográficos realizados principalmente nas décadas de 1980 e 1990. Parte desse acervo encontra-se atualmente preservada no Centro Interuniversitário de Estudos Vênetos, em Veneza. 

pric.unive.it

Giovanni Meo Zilio e sua ligação com o Rio Grande do Sul

A relação do professor Meo Zilio com as comunidades vênetas brasileiras não foi apenas bibliográfica. Ele esteve pessoalmente no Rio Grande do Sul, onde realizou pesquisas, ouviu os descendentes e registrou manifestações da língua falada no cotidiano.
Um documento particularmente interessante é sua conferência realizada em 1996, em Três Arroios, na região do Alto Uruguai. Na ocasião, dirigiu-se a um público formado por descendentes de emigrantes vênetos, muitos dos quais ainda falavam a língua transmitida por seus pais e avós.
Em sua apresentação, Meo Zilio explicou que havia vindo da Itália para estudar aquela língua que, no Brasil, muitos chamavam de dialeto Talian, mas que possuía, segundo ele, características e dignidade de uma verdadeira língua.
O Portal A Emigração Vêneta já publicou o registro dessa conferência, que permite conhecer um pouco melhor o pensamento do pesquisador e sua relação com os descendentes brasileiros: Palestra do Prof. Giovanni Meo Zilio em Três Arroios, RS, no ano de 1996.
A existência desse registro sonoro e documental é particularmente valiosa. Ele demonstra que a preservação da língua não depende somente de livros e estudos acadêmicos: depende também da memória dos falantes e do reconhecimento de que sua maneira de falar faz parte da história de suas famílias.

Uma publicação que merece ser conhecida

O livro Veneti in Rio Grande do Sul tem importância que ultrapassa seu formato de publicação acadêmica. Reúne pesquisadores, diferentes campos de conhecimento e experiências de comunidades que ajudaram a construir uma das mais expressivas presenças de descendentes de italianos no Brasil.
Para os pesquisadores da imigração, oferece referências históricas e linguísticas. Para os genealogistas, fornece elementos para compreender o ambiente social e cultural no qual viveram seus antepassados. Para os descendentes, ajuda a reconhecer que a língua ouvida em casa, os costumes familiares e as tradições transmitidas pelos mais velhos não surgiram por acaso: são parte de uma história coletiva.
Também é importante compreender que a identidade dos descendentes não permaneceu congelada no tempo. Ela se transformou no encontro entre a herança vêneta e a realidade brasileira, produzindo uma cultura própria, com características que merecem ser estudadas e preservadas.
É justamente essa perspectiva que torna a publicação da ADREV tão relevante: documentar não apenas a saída dos emigrantes do Vêneto, mas também a continuidade de sua história do outro lado do oceano.

O significado da publicação para a pesquisa da imigração

Há um aspecto que merece destaque especial. O livro não foi concebido apenas para apresentar resultados acadêmicos isolados. Na nota introdutória, Giovanni Meo Zilio explica que o volume reúne resultados parciais de pesquisas sobre a emigração vêneta nos estados do Sul do Brasil: Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. Os materiais também deveriam servir de base para estudos posteriores e constituir fontes de informação para pesquisadores e interessados no assunto. 

Consiglio Veneto


Essa preocupação permanece atual. Muitas famílias descendentes de italianos conhecem histórias transmitidas pelos avós, mas não dispõem de informações suficientes para relacioná-las ao contexto histórico da emigração. Publicações como esta ajudam a preencher essa lacuna.
No Portal A Emigração Vêneta, outros documentos e estudos complementam essa leitura, como A imigração vêneta no Rio Grande do Sul — a cultura e a língua, Entrevistas do Prof. Giovanni Meo Zilio com os descendentes de vênetos, O início da 4ª Colônia Italiana no Rio Grande do Sul e O Brasil Venetófono e as condições gerais da primeira emigração. São leituras que ajudam a compreender as diferentes dimensões desse extraordinário processo histórico.

Uma memória que precisa continuar sendo preservada

A imigração vêneta deixou marcas profundas no Rio Grande do Sul. Está presente nos sobrenomes, nas comunidades, na arquitetura, na religiosidade, na alimentação, nas festas populares e, sobretudo, na língua que atravessou gerações.
O trabalho reunido por Giovanni Meo Zilio e pelos demais pesquisadores da ADREV constitui uma contribuição importante para que essa história não se perca.
Para nós, descendentes e pesquisadores, preservar essa memória significa também reconhecer o valor daqueles homens e mulheres que deixaram suas aldeias, atravessaram o oceano e construíram uma nova vida no Brasil.
O livro Veneti in Rio Grande do Sul é, portanto, mais do que um registro da emigração. É um testemunho da continuidade de uma cultura e da capacidade de um povo de conservar suas raízes mesmo longe de sua terra de origem.
A distância separou os emigrantes do Vêneto, mas não conseguiu apagar a língua, a memória e a identidade que trouxeram consigo.

Nota do Autor

Minha participação nesta publicação, ao lado da professora H. Confortin, como coautor do capítulo Lingua, cultura, immigrazione italiana nel Rio Grande do Sul, representou uma oportunidade especialmente significativa de contribuir para o registro e a valorização de um patrimônio que também faz parte da minha própria trajetória de vida e de pesquisa. Ao longo de décadas de dedicação à história da imigração italiana, compreendi que preservar a memória dos nossos antepassados significa muito mais do que recuperar datas, nomes e lugares. Significa reconhecer a língua que falaram, os valores que transmitiram e a cultura que, mesmo longe da terra de origem, souberam conservar e transformar. Ver esse trabalho integrado a uma publicação da ADREV, sob a organização do professor Giovanni Meo Zilio, é motivo de particular satisfação. Permanece a convicção de que documentar e compartilhar esse legado é uma responsabilidade cultural que devemos às gerações que nos precederam e àquelas que ainda virão.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta