Mostrando postagens com marcador nomes dos avós. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador nomes dos avós. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

O Costume de Dar o Nome dos Avós aos Netos - Uma Bela Tradição que Atravessou o Oceano

 


O Costume de Dar o Nome dos Avós aos Netos

"Há nomes que não pertencem às pessoas. Pertencem às famílias. E algumas famílias aprenderam a fazê-los atravessar séculos."

Existem heranças que não cabem dentro de um baú de madeira. Não ocupam espaço numa gaveta, não aparecem nos inventários, não podem ser vendidas nem repartidas entre os filhos. São invisíveis. Ainda assim, atravessam gerações com mais firmeza do que as casas de pedra, mais resistência do que as videiras antigas e mais fidelidade do que a própria memória.
Uma delas era o costume, tão profundamente enraizado no Vêneto, de dar aos netos o nome dos avós.
Hoje isso pode parecer apenas uma escolha carinhosa. Naquele tempo, porém, era muito mais do que isso. Era uma tradição respeitada quase como uma lei silenciosa das famílias. Ninguém precisava escrevê-la. Bastava nascer uma criança para todos saberem qual seria o seu nome.
O primeiro menino quase sempre recebia o nome do avô paterno. O segundo herdava o nome do avô materno. Entre as meninas, a primeira levava o nome da avó paterna; a segunda, o da avó materna. Havia pequenas diferenças entre uma aldeia e outra, mas a essência permanecia a mesma: cada geração tinha o dever de conduzir adiante os nomes daqueles que vieram antes.
Era um gesto de amor, mas também de continuidade.
Os antigos venezianos compreendiam algo que o mundo moderno parece ter esquecido: um nome não serve apenas para distinguir uma pessoa das outras. Um nome também conserva uma história.
Quando um avô ainda estava vivo e ouvia que o primeiro neto receberia exatamente o seu nome, seus olhos adquiriam um brilho discreto, desses que só aparecem em quem compreende que a vida encontrou um jeito delicado de continuar. Era como assistir ao próprio futuro correndo pelo quintal antes mesmo de a velhice terminar seu trabalho.
Havia orgulho, mas não vaidade.
Havia gratidão.
Era como se a família dissesse ao velho agricultor, sem necessidade de palavras, que os anos gastos entre as videiras, os invernos enfrentados, as colheitas difíceis e o pão conquistado com tanto esforço não desapareceriam com ele.
Continuariam vivos sempre que alguém chamasse aquela criança.
Quando o avô já havia partido antes do nascimento do neto, o significado era ainda mais profundo. Dar-lhe o mesmo nome era devolver um lugar à sua lembrança dentro da casa. O ausente voltava a ocupar a mesa, não com o peso da saudade, mas com a leveza de um menino que começava a descobrir o mundo.
Era uma maneira singela de dizer que a morte podia levar um homem, mas jamais conseguiria levar seu nome.
E havia outro costume que hoje causa estranheza. Nos tempos em que tantas crianças morriam ainda pequenas, se um filho partisse cedo, muitas famílias davam ao próximo bebê exatamente o mesmo nome. Não por falta de imaginação, muito menos por desejar substituir quem havia partido. Faziam isso porque acreditavam que aquele nome precisava permanecer vivo na família. O nome sobrevivia, mesmo quando a vida havia sido breve.
Os antigos não enxergavam os nomes como propriedade de uma pessoa.
Os nomes pertenciam à linhagem.
Talvez por isso os avós observassem os netos demoradamente. Não enxergavam apenas um menino ou uma menina. Viam uma continuidade. Como se Deus tivesse escrito a mesma palavra duas vezes, separando uma da outra apenas por algumas décadas.
Nas cozinhas das casas vênetas, enquanto a polenta fumegava sobre a mesa e o vinho era servido em canecas simples, bastava alguém chamar por Giovanni, Antonio, Giuseppe, Maria, Caterina, Rosa ou Angela para que duas pessoas levantassem a cabeça ao mesmo tempo.
O avô sorria.
O neto também.
A confusão nunca incomodava ninguém.
Era quase uma alegria.
Para distinguir um do outro, surgiam os apelidos carinhosos do dialeto vêneto. O velho Giovanni tornava-se Giovanni vecchio, enquanto o menino passava a ser Giovannino. Giuseppe virava Bepi. Antonio era chamado de Tonin. Maria transformava-se em Mariéta. Assim, o nome permanecia o mesmo, mas a ternura encontrava maneiras de diferenciá-los.
Esses diminutivos acabavam sendo quase tão importantes quanto o próprio nome, porque carregavam a intimidade das famílias e o calor das pequenas aldeias espalhadas entre as colinas do Vêneto.
Havia ainda uma crença silenciosa que poucos escreviam, mas quase todos sentiam. Quem recebia o nome do avô herdava também a obrigação de honrá-lo. Esperava-se que fosse trabalhador como ele, honesto como ele, respeitador da palavra dada, fiel à família e à fé. O nome não era apenas uma homenagem. Era também uma responsabilidade.
Talvez por isso muitos homens envelhecessem procurando ser dignos do próprio nome.
Então veio a grande emigração.
As colheitas já não bastavam. A pobreza apertava as aldeias. Milhares de famílias venderam vacas, ferramentas, pedaços de terra e móveis para comprar uma passagem rumo ao Brasil.
Quase tudo ficou para trás.
As casas de pedra.
Os sinos das igrejas.
As videiras.
As montanhas.
Os cemitérios onde descansavam os antepassados.
Mas houve uma riqueza que atravessou o Atlântico sem ocupar um único palmo dentro dos navios.
Os nomes.
Enquanto as malas carregavam poucas roupas, eram os nomes que transportavam a verdadeira herança das famílias. Nenhum fiscal podia confiscá-los. Nenhuma tempestade podia afundá-los. Nenhuma distância conseguia apagá-los.
Quando nasceram os primeiros filhos em terras brasileiras, no meio das matas do Rio Grande do Sul, de Santa Catarina, do Paraná e de São Paulo, os imigrantes repetiram exatamente o que seus pais haviam feito durante séculos.
O primeiro menino tornou-se Giovanni como o nono.
A primeira menina recebeu o nome de Maria como a nona.
Era uma forma de reconstruir, dentro de uma casa de madeira coberta de tabuinhas, a aldeia que permanecera do outro lado do oceano.
A floresta era brasileira.
A terra era brasileira.
O céu era brasileiro.
Mas, quando uma mãe chamava o filho pelo nome do avô, por um instante, o Vêneto inteiro parecia responder.
Os anos passaram. Alguns nomes foram adaptados ao português. Outros mudaram de pronúncia. Muitos apelidos do dialeto desapareceram pouco a pouco. As novas gerações misturaram culturas, costumes e idiomas.
Mas a tradição resistiu.
Ainda hoje há famílias em que um Pietro segura pela mão outro Pietro. Um Angelo sorri para um pequeno Angelo. Uma Rosa embala outra Rosa. E talvez nenhum deles perceba que, naquele simples chamado, existe uma corrente invisível ligando pessoas que jamais se conheceram.
Os historiadores costumam dizer que a imigração preservou a língua, a culinária, a religião e os costumes.
Talvez tenham razão.
Mas existe algo que eles raramente escrevem.
Os nomes também emigraram.
E talvez tenham sido os viajantes mais fiéis de todos.
Porque nunca precisaram de passaporte.
Nunca ocuparam um lugar no porão do navio.
Nunca conheceram a saudade.
Apenas atravessaram o oceano escondidos no coração das famílias.
Às vezes imagino uma pequena casa de madeira no interior do Brasil, numa tarde de domingo. A nona chama o neto para o almoço. Pronuncia o nome que já pertenceu ao marido, ao sogro ou ao próprio pai. O menino responde sem perceber que acaba de despertar uma memória adormecida há mais de um século.
Nesse instante, sem que ninguém veja, uma aldeia do Vêneto parece abrir novamente suas janelas. Os sinos voltam a tocar. As videiras balançam ao vento. Um velho agricultor sorri diante da porta de sua casa, como se tivesse acabado de ouvir alguém chamá-lo outra vez.
Talvez seja esse o verdadeiro sentido daquele antigo costume.
Não era apenas escolher um nome.
Era ensinar que o amor também pode ser herdado.
E que há pessoas que nunca morrem completamente, porque continuam sendo chamadas, todos os dias, pela voz inocente de uma criança.


Nota do Autor

Entre as muitas heranças trazidas pelos imigrantes italianos ao Brasil, poucas sobreviveram de maneira tão silenciosa quanto o costume de dar aos netos os nomes dos avós. Hoje ele ainda existe em muitas famílias, mas quase sempre é visto apenas como uma escolha afetiva. Poucos sabem que, durante séculos, especialmente nas vilas do Vêneto, essa prática seguia uma ordem bastante definida e fazia parte da própria organização familiar.
Nas comunidades rurais vênetas dos séculos XVIII e XIX, o primeiro filho homem geralmente recebia o nome do avô paterno; o segundo, o do avô materno. Entre as meninas, a primeira costumava receber o nome da avó paterna e a segunda, o da avó materna. Embora houvesse pequenas variações regionais, esse modelo era amplamente difundido e acabou sendo levado pelos emigrantes para o Brasil, onde permaneceu vivo por muitas décadas.
Não se tratava apenas de uma homenagem. O nome representava continuidade, pertencimento e memória. Ao receber o nome do avô ou da avó, a criança passava a integrar uma corrente que unia várias gerações. Muitos acreditavam, inclusive, que ela herdava simbolicamente as virtudes daquele antepassado: a honestidade, a capacidade para o trabalho, a fé, a coragem diante das dificuldades e o compromisso com a família.
Outra característica pouco conhecida é que, em tempos de elevada mortalidade infantil, não era raro que um casal desse ao filho nascido depois o mesmo nome de uma criança falecida. À primeira vista isso pode causar estranhamento ao leitor contemporâneo, mas, para aquelas famílias, o nome pertencia à linhagem e não apenas ao indivíduo. Preservá-lo significava preservar a própria identidade da família.
Esse costume também ajuda a explicar uma curiosidade frequente encontrada por quem pesquisa genealogia italiana. Em muitas árvores genealógicas aparecem vários Giovannis, Giuseppes, Antonios, Marias, Catarinas ou Rosas repetidos ao longo das gerações. Longe de ser falta de criatividade, essa repetição era uma forma consciente de manter vivos os laços entre o passado, o presente e o futuro.
Escolhi escrever sobre esse tema porque ele costuma passar despercebido. Falamos muito dos navios, das malas de madeira, das longas viagens, da pobreza, das colônias, das matas e do trabalho dos imigrantes. Tudo isso merece ser lembrado. No entanto, as grandes histórias também são feitas de pequenos gestos, e poucos gestos foram tão permanentes quanto aquele de um pai e de uma mãe que olhavam para o filho recém-nascido e decidiam chamá-lo pelo nome do nono ou da nona.
Talvez seja justamente por sua simplicidade que essa tradição tenha sido esquecida. Ela não deixou monumentos, não aparece nos livros escolares, não recebeu placas comemorativas nem está gravada em estátuas. Sobrevive apenas na intimidade das famílias e, muitas vezes, sem que seus próprios descendentes conheçam sua origem.
Escrever esta crônica foi uma forma de prestar homenagem não apenas aos nossos antepassados, mas também aos nomes que eles nos confiaram. Porque os sobrenomes contam de onde viemos, mas os nomes próprios revelam quem escolhemos nunca esquecer.
Se, depois desta leitura, algum leitor perguntar ao pai, à mãe, ao avô ou à avó por que recebeu determinado nome, este texto já terá cumprido sua missão. Às vezes, uma simples resposta é capaz de abrir a porta de uma história que atravessou um oceano inteiro para chegar até nós.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta