O Homem que Construiu uma Igreja Antes da Própria Casa
Uma história da imigração italiana no Rio Grande do Sul
"Antes de levantar as paredes da própria casa, ele ajudou a erguer o lugar onde nasceria uma comunidade inteira."
Belluno, Reino da Itália, março de 1878.
Quando Angelo Vianello terminou de encaixar a última viga do telhado da pequena igreja de San Bartolomeo, desceu lentamente do andaime, retirou o chapéu e passou a mão sobre a madeira recém-aparelhada. Não havia pregos aparentes, folgas entre as juntas nem desalinhamentos. Desde menino aprendera com o pai que uma igreja deveria atravessar gerações sem pedir licença ao tempo. A madeira podia envelhecer, escurecer e até ranger durante os invernos, mas jamais deveria perder a dignidade. Angelo tinha trinta e quatro anos e era conhecido em toda a região como maestro d'ascia, mestre carpinteiro capaz de transformar troncos brutos em telhados que pareciam desafiar os ventos das montanhas. Era um ofício respeitado, mas já não bastava para alimentar a família. A Itália recém-unificada continuava pobre. Os impostos aumentavam, as encomendas diminuíam e os proprietários rurais retardavam qualquer construção que não fosse absolutamente necessária. Havia dias em que Angelo voltava para casa com as mãos cheias de serragem e os bolsos completamente vazios.
Sua esposa, Lucia Zanet, nunca lhe perguntou quanto dinheiro trouxera. Bastava olhar seus olhos cansados para compreender a resposta. Tinham três filhos pequenos e um quarto estava para nascer. A oficina herdada do pai permanecia organizada como um altar: plainas, formões, serras e esquadros pendiam da parede exatamente onde o velho Vianello os deixara antes de morrer. Angelo acreditava que ferramentas também guardavam memória. Cada cabo polido pelo uso carregava o suor de homens que haviam construído casas, celeiros e campanários por toda a Província de Belluno. Mas ferramentas não compravam farinha, nem pagavam impostos.
Foi no início daquele verão que chegou à vila uma carta enviada por um primo distante estabelecido na Colônia Caxias, no sul do Brasil. O papel atravessara o Atlântico dobrado quatro vezes e ainda conservava manchas de umidade. A caligrafia dizia que a mata era fechada, o trabalho brutal e os invernos inesperadamente frios, mas acrescentava uma frase que fez Angelo permanecer longos minutos em silêncio: "Aqui falta tudo, menos terra. E homens que saibam construir." Naquela noite, pela primeira vez, ele falou em emigrar.
Os meses seguintes foram consumidos pelas despedidas invisíveis. Vendeu a oficina a um jovem aprendiz, entregou as ferramentas mais pesadas ao irmão mais novo e escolheu apenas aquelas que caberiam em um baú de madeira: um machado de corte fino, duas plainas, um formão, um esquadro de ferro, um serrote dobrável e um pequeno martelo cuja cabeça fora forjada pelo próprio pai. Quando um vizinho perguntou por que levava tantas ferramentas para um país coberto por florestas, Angelo respondeu apenas que árvores não se transformavam sozinhas em casas.
No porto de Gênova, em setembro de 1878, descobriu que milhares de pessoas carregavam a mesma esperança embrulhada em malas semelhantes à sua. Havia mulheres abraçadas a imagens de santos, crianças que jamais tinham visto o mar e homens que fingiam coragem enquanto observavam o tamanho do vapor ancorado. O navio partiu ao entardecer. À medida que o litoral desaparecia, Angelo percebeu que não sentia medo do oceano. Temia apenas esquecer o som dos sinos de sua aldeia.
A travessia ensinou que o Atlântico era capaz de reduzir todos os homens à mesma condição. Carpinteiros, camponeses, pedreiros e ferreiros dividiam a mesma água escassa, a mesma comida pobre e o mesmo cheiro de madeira úmida misturado ao sal. Houve tempestades que fizeram o casco gemer durante noites inteiras. Houve febres, enterros no mar e crianças que nasceram antes de conhecer qualquer continente. Angelo ocupava as horas afiando silenciosamente suas ferramentas. Alguns zombavam daquele cuidado. Outros diziam que era inútil preparar instrumentos para um lugar desconhecido. Ele apenas respondia que uma ferramenta bem conservada era uma promessa de futuro.
Quando desembarcaram em Porto Alegre, seguiram em carroças durante dias até alcançar as colônias da Serra. O funcionário do governo entregou-lhe um mapa rudimentar indicando o lote que receberia. Angelo caminhou entre pinheiros, canelas e cedros gigantes até encontrar o marco de madeira que delimitava sua propriedade. Ficou longo tempo observando a floresta. Não enxergava uma fazenda. Não via um campo. Via apenas árvores antigas que pareciam existir desde antes da chegada dos primeiros homens àquelas montanhas. Compreendeu que recebera menos uma terra do que uma tarefa.
Os primeiros meses consumiram todas as forças da comunidade. As famílias construíram ranchos cobertos por folhas, abriram pequenas clareiras, improvisaram roças e aprenderam que a mata escondia muito mais do que madeira. Havia serpentes, enxames, temporais repentinos e um barro vermelho que prendia as botas como se desejasse impedir qualquer avanço. Angelo passava os dias ajudando os vizinhos a levantar paredes e telhados. Conhecia os encaixes corretos, distribuía o peso das vigas e escolhia a madeira adequada para cada estrutura. Quando finalmente chegou sua vez de construir a própria casa, todos imaginaram que ele começaria imediatamente.
Na manhã seguinte, porém, reuniu os colonos junto a um enorme cedro derrubado dias antes. Sem discursos longos, desenhou no chão um retângulo com a ponta do machado. Explicou que ali seria construída uma pequena capela de madeira. Alguns homens estranharam a ideia. Havia famílias vivendo em abrigos improvisados, crianças dormindo sobre o chão batido e mulheres cozinhando sob coberturas de galhos. Parecia absurdo erguer uma igreja antes que todos possuíssem uma casa definitiva.
Angelo ouviu cada argumento sem interromper ninguém. Depois pegou uma viga recém-aparelhada, colocou-a sobre os ombros e caminhou sozinho até o local marcado. Não pronunciou outra palavra. A resposta estava naquele gesto. Um a um, os demais homens começaram a acompanhá-lo. Ao final da tarde, dezenas de vigas já estavam alinhadas no terreno. Na semana seguinte, mulheres preparavam refeições para os trabalhadores enquanto adolescentes buscavam pedras para o alicerce. As crianças recolhiam lascas de madeira para alimentar o fogo. Sem perceber, toda a comunidade construía algo que pertenceria igualmente a todos.
A pequena capela ficou pronta antes do início do inverno. Não possuía torre, vitrais nem bancos suficientes. O altar era uma mesa de madeira polida pelo próprio Angelo. O crucifixo fora entalhado por ele durante as noites, à luz de um lampião de querosene. O sino ainda não existia. Quando chegava a hora da oração, bastava bater três vezes contra uma chapa de ferro pendurada na entrada. O som espalhava-se pela mata e era suficiente para reunir famílias que caminhavam quilômetros por picadas abertas a machado.
Somente depois da capela concluída Angelo iniciou a construção da própria casa. Levantou-a com a mesma precisão das igrejas que construíra na Itália. Lucia costumava dizer que o marido media as vigas como quem escrevia uma oração. Anos mais tarde, quando novas famílias chegaram à colônia, a pequena capela tornou-se escola durante a semana, cartório improvisado nos casamentos, abrigo durante tempestades e lugar onde se discutiam estradas, pontes e plantações. Em torno dela nasceram armazéns, ferrarias, casas comerciais e novas moradias. Sem que ninguém percebesse, a futura vila cresceu ao redor da construção que um dia parecera um luxo desnecessário.
Quarenta anos depois, a velha capela de madeira foi substituída por uma igreja de pedra. Os filhos dos pioneiros já falavam português e o talian com naturalidade. Os netos quase não compreendiam o dialeto dos avós. A antiga clareira transformara-se em praça, e onde antes existiam apenas picadas havia ruas, comércio e crianças correndo depois da missa. Durante a inauguração da nova matriz, um sacerdote perguntou aos moradores mais antigos quem havia construído a primeira igreja da comunidade. Poucos responderam de imediato. O tempo tinha o hábito de apagar os nomes daqueles que levantavam os alicerces.
Angelo Vianello morreu no inverno seguinte, aos setenta e cinco anos. Em sua oficina, cuidadosamente organizada como no tempo do pai, encontraram apenas um pedaço de madeira de cedro com uma frase gravada à ponta de formão. Não era um ensinamento para os filhos nem um testamento. Era apenas a certeza simples de um homem que compreendera o verdadeiro significado da colonização:
"Uma casa protege uma família. Uma igreja ensina um povo a permanecer unido."
Nota do Autor
Ao longo de muitos anos pesquisando a imigração italiana, aprendi que as grandes histórias quase nunca estão nos documentos oficiais. Os registros de desembarque, as listas de passageiros, os livros de terras e os relatórios governamentais nos informam datas, nomes e números, mas permanecem em silêncio sobre aquilo que realmente edificou as primeiras comunidades: a solidariedade, a fé e o trabalho coletivo.
O Homem que Construiu uma Igreja Antes da Própria Casa é uma obra de ficção. Angelo Vianello, sua família e os acontecimentos aqui narrados são personagens e situações criados literariamente. No entanto, a essência da história é profundamente verdadeira.
Em praticamente todas as colônias italianas do Rio Grande do Sul, a capela foi muito mais do que um templo religioso. Antes da existência de escolas, cartórios, salões comunitários ou sedes administrativas, era nela que os colonos rezavam, discutiam os problemas da comunidade, organizavam mutirões, acolhiam recém-chegados, celebravam casamentos, batizados e despediam-se dos que partiam. Em muitas localidades, a igreja tornou-se o verdadeiro marco fundador em torno do qual nasceram as futuras vilas e cidades.
Também é historicamente verdadeiro que muitos dos primeiros imigrantes trouxeram da Itália ofícios especializados — carpinteiros, pedreiros, ferreiros, canteiros, marceneiros e construtores — conhecimentos que foram decisivos para transformar a floresta em comunidades organizadas. Sem esses homens e mulheres, a colonização da Serra Gaúcha teria seguido um caminho muito diferente.
Escrevi esta narrativa para prestar homenagem a esses pioneiros anônimos, cujos nomes raramente aparecem nos livros de História, mas cuja obra permanece viva nas igrejas centenárias, nas praças, nas escolas e nas cidades que ajudaram a erguer. Muitas vezes lembramos os grandes líderes, os administradores e os políticos; quase nunca lembramos daqueles que serraram a primeira tábua, levantaram a primeira viga ou colocaram a primeira pedra.
Se, ao terminar esta leitura, o leitor olhar para a antiga igreja de sua comunidade e imaginar que, antes das paredes de pedra, existiu uma pequena capela de madeira construída por mãos calejadas de imigrantes, então esta história terá cumprido seu propósito.
Dr. Luiz C. B. Piazzetta
👉 Se esta história lembrou a trajetória de seus antepassados, compartilhe-a. Cada igreja centenária da Serra Gaúcha guarda, entre suas pedras e vigas, o trabalho silencioso dos imigrantes que construíram muito mais do que templos: construíram comunidades.