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domingo, 1 de março de 2026

O Ritual do "Batar Marso" e a Chegada da Primavera no Vêneto

 


O Ritual do "Batar Marso" e a Chegada da Primavera no Vêneto


Historicamente, o dia 1º de março tinha um valor especial no Vêneto e se comemorava o Ano Novo. Isso porque, na antiga República de Veneza, o ano não começava em janeiro, mas sim em março — o chamado more veneto. Esse costume causou muita confusão entre historiadores, sobretudo estrangeiros, que por não considerarem essa contagem acabaram datando certos acontecimentos com um ano de erro.

Março era visto como o verdadeiro ponto de virada entre o inverno e a primavera, um momento decisivo para o ciclo agrícola. Em várias regiões do norte da Itália — como Piemonte, Lombardia e Romagna — existiam rituais semelhantes, conhecidos como a Chiamata di Marzo ou os Lumi di Marzo. Essas práticas aconteciam geralmente nos últimos dias de fevereiro (às vezes apenas no último dia do mês) para “chamar” a nova estação, já que era em março que os campos voltariam a produzir após o repouso do inverno.

No Vêneto, essa tradição se manifestava no costume chamado batar marso. Crianças — e em certos lugares também adultos — percorriam o vilarejo e o campo fazendo grande barulho com panelas, latas, bastões e outros objetos. O ruído simbolizava o despertar da terra, como se fosse um modo de acordá-la do sono frio do inverno e prepará-la para uma boa colheita.

No Trevisano, repetia-se uma fórmula popular que dizia algo como:

“Fora marso, che april el ze qua, fora l’erba che no val gnente.”
“Fora março, que abril está aqui, fora a erva que não presta.”

Os relatos mostram que os jovens saíam em pequenos grupos pelas ruas batendo em objetos e gritando versos para expulsar o mês de março e apressar a chegada da primavera. Em alguns lugares, a prática ocorria na noite do próprio dia 1º de março; em outros, já começava nos últimos dias de fevereiro; e em certas localidades se estendia por quase todo o mês.

Quanto à área de difusão, o batar marso era comum na planície e nas colinas do Vêneto centro-ocidental, sobretudo na região de Treviso e nas áreas do Miranese e da Riviera del Brenta. Curiosamente, essa tradição quase não aparece no Vêneto Oriental, além da linha do rio Piave. Ainda assim, com variações de data e forma, ritos semelhantes também existiram no Bellunese e em outras zonas da região.

Nota Explicativa

Este texto vai além do simples registro histórico. Ele nasce como um gesto de escuta e reverência à memória dos que viveram em íntima ligação com a terra e com o tempo. Ao falar do ¨batar marso", evocamos não apenas um ritual, mas a sensibilidade de comunidades que sabiam reconhecer, nas estações, o ritmo profundo da vida.

Cada barulho feito pelas crianças, cada verso entoado no fim do inverno, era uma forma de esperança dita em voz alta. Era o modo de afirmar que a existência não se rende ao frio, mas insiste em florescer.

Recontar essa tradição é reacender vínculos. É lembrar que cultura também é herança viva: aquilo que atravessa gerações, sustentado pela palavra, pelo trabalho e pela memória.

Dr. Luiz C. B. Piazzetta




segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

El Fogon

 


El Fogon

 

Parlo del fogon de sti ani,

parlo del fogon a legna,

parlo del fogolar d’italiani,

quel fogon su ’l qual se impara tute le robe de ’na famèia.

Sensa el fogon, no saremia gnanca vivi.

Sensa el fogon, no se podea portar avanti gnente.

Sensa el fogon, no se podea manco magnar.

El fogon a legna,

chel vecio, grande, de maton consumà dai ani,

el zera come ’n pare:

duro, testa grossa, ma sempre lì,

sempre pronto a scaldar ’l cuor de chi che ghe stà intorno.

El fogon el zera ’l cuor de casa,

come ’na barca che no se rovesa mai.

Sempre a scaldar la famèia,

sempre a ciamar drento tuti i parenti —

che i sia strachi de zugà, sudà,

o che i vegnia da la piantaion con el fredo ’nte le òsse.

El fogon el zera anca ’n maestro:

el insegnava ai primi italiani le prime parole del Brasil,

con la fiama che brusa,

con le mame che movea el brondin,

con le none che contea stòrie par no far pianser i putei.

D’inverno o d’istà,

tute le matin scomìnsia così:

el nono, la nona e ’l fogon.

El papà, la mama co el so cimarón.

I fiòi, la casa de legna,

i gati, la polenta, el pan par i tosati.

Quante patate magnà,

quante ridada, quante piandada,

e anca quante brusada, perché el fogon no perdona.

Ma ogni brusada zera ’na memòria.

Ogni bronsa zera ’na stòria.

La polenta sbulenta ’nte la cusìna,

con el fumo che sa de bon.

Intorno, la famèia:

streta, rumorosa, viva.

E là, ’nte la luse calda del fogon,

se imparava a star inseme,

a no molar,

a tegnerse drento come ’na famèia vera.

Parché el fuogon, sì, el scalda,

ma el ricorda.

El ricorda tuti quei che no ghe ze pì,

tuti quei che i ga lassà impronte ’nte la cusina,

sui muri, sui tochi de legna,

e anca ’nte i nostri cuor.

El fogon no el ze massa ’na màchina:

el ze ´n armàrio de memòrie.

E fintanto che ’na famèa la ga la bronsa viva,

gnente, gnente del mondo se pol considerar perdù.


Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta