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segunda-feira, 20 de abril de 2026

As Pasque Veronesi e a Insurreição de Verona em 1797


As Pasque Veronesi e a Insurreição de Verona em 1797


Há momentos na história em que uma cidade inteira deixa de ser apenas cenário e se transforma em protagonista. Verona, na primavera de 1797, viveu um desses instantes raros, em que o destino coletivo foi decidido não nos gabinetes, mas nas ruas, nas praças e no som dos sinos.

Desde o ano anterior, a presença das tropas francesas — parte da campanha de Campanha Italiana de Napoleão — pesava sobre a cidade. Confiscos de bens, abusos militares e tensões políticas minavam o cotidiano. A antiga ordem da República de Veneza já se encontrava fragilizada, e Verona, ocupada desde 1796, tornara-se um território inquieto, onde o ressentimento crescia silenciosamente. 

Foi então que, na manhã de 17 de abril de 1797 — segunda-feira de Páscoa — a faísca se acendeu. Um incidente aparentemente banal entre soldados e locais rapidamente se transformou em rebelião aberta. O que era tensão tornou-se fúria. O que era murmúrio virou grito.

Ao meio-dia, em plena Piazza delle Erbe, o clamor ecoou:

“All’armi! Viva San Marco!”

A cidade levantou-se.

Sinos começaram a repicar, convocando não apenas combatentes, mas um povo inteiro. Artesãos, camponeses, cidadãos comuns — muitos sem treinamento militar — avançaram contra as patrulhas francesas. Em poucas horas, mais de mil soldados inimigos foram colocados fora de combate, surpreendidos pela violência e rapidez da insurreição. 

Os franceses recuaram para as fortificações — castelos que dominavam a cidade, como o Castelvecchio e outras posições estratégicas — enquanto os veroneses, movidos por um ardor quase visceral, passaram à ofensiva. A luta espalhou-se pelas ruas estreitas, subiu aos telhados, invadiu casas. Não era apenas uma batalha: era uma explosão coletiva contra meses de opressão.

A atmosfera, segundo relatos da época, misturava medo e exaltação. Havia terror, sem dúvida — mas também uma forma intensa de patriotismo, ainda que não plenamente formulado como nas revoluções modernas. Era o apego à fé, à tradição e à autonomia local que impulsionava aquela multidão. Muitos historiadores apontam, inclusive, que a rejeição às ideias jacobinas e às políticas anticlericais francesas teve papel importante na revolta. 

Durante dias, Verona resistiu. A cidade tornou-se um campo de batalha contínuo entre 17 e 25 de abril. A insurreição, contudo, não estava isolada: fazia parte de um amplo movimento antifrancês que atravessava a península italiana naquele período turbulento. 

Mas o desfecho já se desenhava no horizonte.

Cercada por cerca de 15 mil soldados franceses enviados como reforço, Verona viu-se sufocada. A resistência, por mais feroz que fosse, não podia competir com a máquina militar napoleônica. Em 25 de abril, a cidade rendeu-se. 

O preço foi severo.

Seguiram-se represálias exemplares: pesadas indenizações, saques de obras de arte, confisco de bens e humilhações políticas. Igrejas foram privadas de suas riquezas; patrimônios culturais desapareceram; cidadãos enfrentaram julgamentos e execuções. 

Ainda assim, o significado das Pasque Veronesi ultrapassa o resultado militar. Tal como as Vésperas Sicilianas ou, mais tarde, as Cinco Jornadas de Milão, esse episódio foi interpretado como símbolo de resistência popular. A diferença — como observaram cronistas posteriores — é que Verona não conheceu a vitória, mas sim uma derrota carregada de dignidade histórica.

No fim, o que permanece não é apenas o sangue derramado na praça, mas o eco daquele gesto coletivo: uma cidade que, por alguns dias, recusou-se a aceitar a inevitabilidade da dominação.

As Pasque Veronesi não foram apenas uma revolta. Foram a afirmação de que, mesmo diante de um império em ascensão, havia ainda povos dispostos a lutar — não por cálculo político, mas por identidade, fé e liberdade.


Nota do Autor

Há episódios na história que, embora circunscritos a um tempo e a um espaço específicos, transcendem sua geografia e tornam-se expressão universal da condição humana diante da opressão. As Pasque Veronesi, ocorridas em abril de 1797, pertencem a essa categoria rara de acontecimentos em que o gesto coletivo de um povo revela mais do que um simples levante: revela uma consciência histórica em formação, ainda que instintiva, ainda que não plenamente articulada em linguagem política moderna.

Inserida no contexto das campanhas italianas conduzidas por Napoleão Bonaparte, a insurreição de Verona não pode ser compreendida apenas como um episódio isolado de violência urbana. Ela foi, antes, o reflexo de tensões acumuladas entre uma população profundamente enraizada em suas tradições — religiosas, sociais e culturais — e a presença de um poder estrangeiro que, sob o signo da modernidade revolucionária, impunha transformações rápidas, muitas vezes percebidas como agressões à ordem estabelecida.

A antiga República de Veneza, já em seus últimos suspiros, não possuía mais a força necessária para proteger plenamente seus territórios, e Verona tornou-se palco de um confronto desigual entre o ímpeto popular e a máquina militar francesa. Ainda assim, por alguns dias, a cidade afirmou sua vontade de existir segundo seus próprios valores, recusando-se a aceitar passivamente o curso dos acontecimentos.

A história, contudo, raramente recompensa a coragem com a vitória. Tal como em outros momentos emblemáticos — a exemplo das Vésperas Sicilianas — Verona conheceu a glória do gesto, mas não o triunfo duradouro. A derrota que se seguiu não apagou, entretanto, a intensidade daquele instante em que homens e mulheres comuns decidiram enfrentar um poder que julgavam injusto.

Este texto não pretende apenas narrar fatos, mas restituir, na medida do possível, a densidade humana daquele abril distante. Porque, mais do que números ou estratégias militares, o que permanece é o eco de uma decisão coletiva: a de não se curvar sem resistência.

Se hoje revisitamos as Pasque Veronesi, não o fazemos apenas por dever de memória, mas por reconhecer nelas um fragmento da eterna luta entre domínio e liberdade — uma luta que, sob diferentes formas, atravessa os séculos e continua a interpelar a consciência dos povos.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



terça-feira, 7 de abril de 2026

O Assassinato da Condessa Onigo e o Colapso da Nobreza Rural no Vêneto em 1903


O Assassinato da Condessa Onigo e o Colapso da Nobreza Rural no Vêneto em 1903


O Delito que Abalou o Vêneto

No início do século XX, o Vêneto ainda carregava, com visível desgaste, as marcas de uma estrutura social herdada de séculos. A terra permanecia concentrada nas mãos de poucos, enquanto a maioria sobrevivia em condições precárias, dependente de uma economia rural instável e frequentemente cruel.

Foi nesse cenário que viveu Zenobia Teodolinda Costanza Onigo, última herdeira direta da linhagem aristocrática. Detentora de vastas propriedades, sua figura simbolizava não apenas riqueza, mas a permanência de uma ordem social que já começava a ruir.

Embora frequentemente associada à Pederobba, onde a família mantinha raízes históricas, o episódio que marcaria definitivamente seu nome ocorreu em Treviso, no dia 11 de março de 1903.

A tensão invisível no campo

Entre os trabalhadores rurais, acumulavam-se dificuldades que raramente encontravam resposta. A pobreza era agravada por colheitas incertas, doenças e dívidas constantes.

Nesse contexto surge a figura de Pietro Bianchet, jovem marcado pela miséria. Documentos da época o descrevem como analfabeto, em condições de extrema precariedade e atingido pela pelagra.

Nos dias que antecederam o crime, registros indicam que Bianchet enfrentava perdas materiais severas após intempéries que comprometeram sua subsistência. Em busca de auxílio, dirigiu-se à condessa.

Os pedidos — de ajuda, de recursos, de compreensão — não foram atendidos.

Esse ponto é central: houve solicitações negadas em um contexto de necessidade extrema.

O dia 11 de março de 1903

Na tarde daquele dia, por volta das 16 horas, a condessa encontrava-se nos jardins de sua residência em Treviso, acompanhada por um administrador.

Ali estavam também trabalhadores rurais, entre eles Bianchet, com cerca de 26 anos de idade.

O encontro não foi planejado como confronto, mas tornou-se decisivo.

Segundo os registros históricos, após uma repreensão dirigida ao camponês, este reagiu de forma súbita. Empunhando uma ferramenta agrícola — identificada nas fontes como uma scure — desferiu golpes fatais contra a condessa.

A morte ocorreu no local.

Fatos documentados:

  • Local: Treviso
  • Data: 11 de março de 1903
  • Autor: Pietro Bianchet
  • Arma: ferramenta agrícola cortante
  • Julgamento em Veneza
  • Condenação: 8 anos e 9 meses
  • Reconhecimento de semi-inimputabilidade - (físicamente debilitado pela pelagra)

O impacto imediato

Bianchet foi detido no mesmo dia, sem tentativa de fuga relevante.

Entretanto, o que se seguiu não correspondeu ao padrão esperado de condenação social absoluta. Na verdade houve uma forte divisão social, apoio popular ao assassino e tensão pública real

Parte da opinião pública passou a interpretar o crime sob uma ótica social. Registros jornalísticos e estudos posteriores indicam que o caso foi visto, por muitos, como consequência direta das condições de miséria enfrentadas pelos trabalhadores rurais.

O crime gerou debate — não apenas indignação.

Consequências duradouras

A morte de Teodolinda Onigo teve efeitos concretos.

Sem herdeiros diretos capazes de manter a mesma posição, a linhagem perdeu sua centralidade histórica. Parte do patrimônio foi destinada a instituições assistenciais (Opere Pie).

Em Pederobba, onde a presença da família era profundamente enraizada, o episódio permaneceu como marco simbólico.

Mais do que um crime, representou a ruptura entre uma aristocracia tradicional e uma população rural submetida a condições cada vez mais difíceis.

Um episódio além do crime

A análise histórica desse acontecimento vai além do ato violento.

Ele é frequentemente interpretado como expressão de um contexto maior, no qual tensões sociais acumuladas encontraram uma forma extrema de manifestação.

Sem romantizações, os fatos permitem uma conclusão sólida:

O assassinato da condessa foi também um reflexo direto das condições sociais do Vêneto rural no início do século XX.

Nota do autor

Este texto foi elaborado a partir de registros históricos documentados sobre o caso ocorrido em 1903, com base em fontes italianas e estudos dedicados ao episódio, evitando a inclusão de elementos ficcionais ou interpretações não comprovadas.

A escolha de revisitar esse acontecimento, mais de um século depois, não se deve apenas à sua relevância histórica, mas também ao seu significado dentro de uma realidade que marcou profundamente a vida de milhares de famílias italianas.

Pederobba, na região de Treviso, onde o crime ocorreu, é também parte da trajetória familiar do autor, cujo avô paterno ali nasceu. Essa ligação não altera o rigor histórico aqui adotado, mas oferece uma perspectiva particular: a de quem observa o passado não como algo distante, mas como herança viva, transmitida entre gerações.

Revisitar esse episódio, portanto, é também compreender melhor o contexto social que moldou decisões, destinos e deslocamentos — inclusive aqueles que levaram tantos italianos a buscar um novo futuro fora de sua terra de origem.

A narrativa apresentada busca, assim, equilibrar fidelidade histórica e construção literária, mantendo o compromisso com os fatos, mas reconhecendo que a história, quando bem contada, também é uma forma de preservar a memória.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



domingo, 9 de março de 2025

Veneza: A Importante Metrópole Portuária do Renascimento Europeu

Palazzo Cà Foscari 


No século XVI, a República de Veneza surgia na aurora da era moderna com sua cidade e território totalmente estruturados e delineados em todos os seus aspectos essenciais, conforme registrados por duas obras gráficas cruciais: a vista de Jacopo de Barbari, datada de 1500, e o mapa da laguna elaborado por Benedetto Bordone em 1528. O que Veneza realizou foi, acima de tudo, uma obra de embelezamento formal e autocelebração através das contribuições de renomados arquitetos, como Sammicheli (responsável pelas defesas marítimas), Sansovino (Piazza San Marco), Palladio e Longhena (Bacia de San Marco). Embora essas obras de grande magnitude não conseguissem obscurecer a crise política, econômica e social enfrentada pelo estado, especialmente quando a Sereníssima se deparava com o mais grave desafio ambiental de sua história: o assoreamento da laguna causado pela sedimentação dos rios, colocando em risco sua função vital como porto. Veneza é mais do que uma cidade construída sobre a água; é uma cidade nascida dentro dela, uma metrópole anfíbia, erguida com uma clara vocação portuária. Seu principal curso d'água, o Grande Canal, era o coração pulsante dos "docks", onde os edifícios, as chamadas "casas-armazéns", eram estruturas comerciais destinadas à descarga e armazenamento de mercadorias, ao mesmo tempo em que serviam como moradias. Até o final do século XVI, a Ponte de Rialto era a única travessia sobre o Grande Canal e, surpreendentemente, funcionava como uma ponte levadiça. A transição para a atual ponte de pedra, construída entre 1588 e 1591, simbolizou o encerramento de sua função portuária, marcando uma nova era para esse importante curso d'água. Seus três principais núcleos urbanos, São Marcos, Rialto e Arsenale, além de serem centros portuários com funções distintas, representavam a essência desse aspecto. Contudo, todo o tecido urbano, especialmente as regiões periféricas em contato com a laguna, compartilhava dessa característica peculiar, seja em suas margens, docas, estaleiros, armazéns, hospitais ou fortificações. Neste contexto, a planta perspectiva de De Barbari se revela uma fonte de informações valiosas: cais de diferentes tamanhos são nitidamente marcados ao longo da costa dos Schiavoni e ao longo do canal da Giudecca, próximos aos armazéns do Sale, de Santa Agnese, dos Gesuati e especialmente na ponta de Santa Marta. Além disso, feixes de madeira flutuante são visíveis nas proximidades de São João e Paulo. Essa madeira provinha do Cadore, transportada pelo rio Piave e pela laguna ao norte, sendo esta região o ponto de chegada das rotas fluviais de Treviso e do norte. Os estaleiros, onde eram construídos barcos e navios, são destacados com evidência especial dentro das muralhas do Arsenale, em São Moisés, ao longo do Grande Canal, em São Gregório, e nas áreas de Santa Agnese, no Canal da Giudecca, e, por fim, no lado norte, atrás de São Lúcia. De grande importância eram os armazéns. Edifícios desse tipo, de considerável imponência, são visíveis não apenas na xilogravura de De Barbari (os celeiros de Terranova e São Marcos, os armazéns da alfândega e do Sale), mas também em uma bela vista perspectiva do século XVII, a de Alberti de 1686, que apresenta dois edifícios às margens do canal do Arsenale identificados respectivamente como "Casa dos fornos e do biscoito público" e "armazéns públicos", estes últimos formando uma construção equivalente em tamanho ao Palácio Ducal. Para realçar ainda mais a importância de Veneza como porto internacional, na planta de De Barbari, encontramos o "Hospital dos Marinheiros" e os três pontos fortificados da cidade, destacados pelas grandes muralhas ameadas que cercam o Arsenale, a Ponta da Alfândega e a extremidade leste da Giudecca, representando a entrada na cidade vindo dos portos de Malamocco e Chioggia. Como epicentro do comércio do Oriente para a Europa, a Sereníssima destacava-se como o principal polo para cultura, comércio e diplomacia em todo o continente europeu! Isso se devia aos comerciantes, mercadores, armadores e artesãos venezianos, indivíduos com uma mentalidade aberta para outras culturas, e à cidade hospitaleira e curiosa.


domingo, 19 de maio de 2024

Precursores da Grande Emigração




A Saga dos Vendedores Ambulantes Itinerantes na Itália

Partiam a pé, carregando nas costas uma grande caixa de madeira sustentada por duas alças de couro. Dentro dela, guardavam uma variedade de itens coloridos: imagens religiosas, baralhos de cartas, a imagens conhecidas também como cromo. Suas jornadas os levavam por caminhos longínquos, distanciando-se de casa por meses, até anos. Eles vendiam estampas coloridas de paisagens ou santos, produzidas pela renomada impressora Remondini de Bassano del Grappa, que alcançavam os cantos mais remotos do país: uma editora de destaque naquela época, dominando o setor mundialmente. O habitantes da zona em torno a Bassano del Grappa, encontrava nesse trabalho uma forma de amenizar a extrema pobreza em que viviam. Partiam de Asiago, da Valstagna, de Fastro, de Crespano, de Possagno e tantas outras. Deixavam as suas pobres casas e ganhavam a Europa.

A profissão de vendedor ambulante era bastante comum na região do Bassanese, entre os séculos 17 e 18. Destacava-se quem comercializava as estampas de Remondini de casa em casa, pelas vilas e cidades na Península e no vasto Império Austríaco, onde eram conhecidos como cromer (Krommer), na França, Suíça, Inglaterra, Dinamarca, Alemanha, Polônia, até mesmo em São Petersburgo e além. Esses "viajantes comerciais" foram pioneiros que deram lugar para as futuras ondas de emigrantes que se seguiram, passando a seguir, pelas "rondine", uma forma de migração sazonal, que aproveitava a diminuição do trabalho nos campos, deslocamento dentro da própria Europa, que antecedeu a emigração definitiva. Eles anteciparam, em cerca de cem anos, o gigantesco êxodo que levaria milhões de italianos ao Novo Mundo nos séculos seguintes.

Algumas décadas se passaram e os vendedores das populares estampas transformaram-se em vendedores de cerâmica, vidro e cristal, conhecidos como "maiolini". Carregando consigo as caixas nas costas, amarradas por cintos de couro, eles percorriam a pé, vendendo seus produtos de porta em porta, passando por vilas e cidades, oferecendo taças, garrafas, jarros e cristais. Eram numerosos também os "maiolini" na primeira metade do século 18, principalmente nas regiões montanhosas e nos vales. Experimentaram um período de sorte que logo se dissipou. O trabalho árduo e arriscado os mantinha longe de casa, levando uma vida errante. Alguns nunca mais retornaram; outros, saqueados por bandidos, foram forçados a desistir. Mas muitos, ao final, estabeleceram-se onde chegaram, montando suas próprias lojas. Ainda hoje há alguns (na Lombardia, no Veneto, na Emília, no Tirol...) que revivem os tempos da emigração a pé, com a caixa nas costas.

Em poucos anos, começaram a surgir os primeiros sinais de transformação profunda no velho continente. A Europa estava em expansão: construíam-se estradas, galerias, pontes, e uma impressionante rede ferroviária. Para realizar essas grandes obras públicas, centenas de milhares de trabalhadores migravam de um país para outro. Foi nesse contexto de movimentos a pé, de migração temporária que a emigração italiana deu seus primeiros passos e se consolidou.






domingo, 3 de março de 2024

O Açúcar em Veneza

 



A influência de Veneza na propagação da cultura da cana-de-açúcar e sua posterior introdução no Caribe tiveram um impacto fundamental na remodelação do comércio e dos padrões alimentares na Europa. Sempre à vanguarda, a Sereníssima República veneziana liderou esse processo por meio de seus visionários observadores e hábeis comerciantes.
A revelação desse elemento remonta a 1099, mérito dos Cruzados, que testemunharam e registraram, próximo a Tripoli, na Síria, as exuberantes canas de tons mel. Um cronista de guerra da época descreveu vividamente: "Os campos eram um mar de canas meladas, apelidadas de açúcar, cultivadas com primor; quando maduras, os nativos as trituravam em pilões, obtendo uma massa que era coletada e deixada para solidificar como neve ou sal fino. Os cruzados as utilizavam em papas, misturando o açúcar ao pão e à água. Durante os cercos em Albânia, em Archas e Marra, nutriam-se dessas deliciosas canas." Até então, a culinária do Oriente era reverenciada por suas especiarias exóticas e sabores singulares, resultando em um florescimento da pesquisa gastronômica, como testemunhado por textos culinários da época. Na Europa, os primeiros livros de receitas surgiram até o século XIII, enquanto no Oriente já havia um catálogo desde o século X. É digno de nota que, entre os séculos XIII e XIV, um tratado de dietética árabe foi vertido para o latim em Veneza por um personagem conhecido como Jamboninus de Cremona, evidenciando a assimilação dos hábitos gastronômicos orientais pelos venezianos.
No ano de 1222, o Doge Ziani expressou preocupação com a falta de peixe e outros alimentos tradicionais, porém Angelo Faliese, procurador de São Marcos, prontamente esclareceu que essa escassez era, na verdade, um reflexo do sucesso veneziano: as abundantes importações do Oriente e o influente papel desempenhado por Veneza no enriquecimento da cultura europeia.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

A Emigração Europeia para os EUA no Século XIX: Motivos, Mudanças e Impactos

 



A grande migração em massa da Europa para os Estados Unidos no século XIX teve como origem a grande crise agrária dos anos 1870 que afetou mais de 5 milhões de pessoas e foi em grande parte individual e masculina. O objetivo era buscar trabalho nos prósperos setores industriais americanos, muito mais desenvolvidos do que os europeus. As condições de origem dos migrantes europeus não eram tão críticas a ponto de obrigá-los a partir, tanto que a maioria se adaptou às condições de vida oferecidas em seu continente ou, no máximo, recorreu à migração interna.
O início da possibilidade de emigração para as Américas foi impulsionado pelo progresso naval na segunda metade do século XIX, com navios de casco metálico e cada vez maiores, o que reduziu tanto o custo, antes impraticável para um emigrante pobre, quanto a periculosidade da viagem. A data simbólica do início da emigração italiana para as Américas pode ser considerada 4 de outubro de 1852, quando foi fundada em Gênova a Companhia Transatlântica para a navegação a vapor com as Américas, cujo principal acionista era Vittorio Emanuele II da Sardenha. Esta companhia encomendou aos estaleiros navais de Blackwall os grandes navios a vapor gêmeos Genova, lançado em 12 de abril de 1856, e Torino, lançado em 21 de maio seguinte.
Neste período, ocorreram várias mudanças na migração transatlântica, com caráter social, laboral e comportamental. Houve uma transição da migração de famílias inteiras para a de indivíduos isolados, da migração para o estabelecimento rural para o trabalho nos setores industriais e, por fim, da emigração definitiva para uma emigração temporária, com uma espécie de "trabalho pendular" transatlântico. Essas tendências foram reforçadas pelas novas contratações de trabalho do tipo urbano-industrial nos EUA. Além disso, na Europa, havia a ideia difundida de uma maior liberdade e oportunidade de realização pessoal, bem como melhores chances de casamento no Novo Mundo. O século XIX ainda via vivo o sonho de muitos de conquistar riquezas nas terras americanas, para depois reinvesti-las ao retornar à pátria. No entanto, a migração de retorno foi escassa porque enfrentava altos custos e condições difíceis de viagem transatlântica, além de ser viável apenas se a migração fosse individual e não envolvesse o grupo familiar como um todo.
A emigração europeia para os Estados Unidos foi desigual, pois tinha diferentes objetivos e muitas vezes consistia em uma emigração individual com o propósito final de retorno à Europa depois de juntar algumas economias.



quinta-feira, 27 de abril de 2023

A Jornada Épica dos Imigrantes Italianos: Desbravando Novos Mundos





𝐀 𝐄𝐌𝐈𝐆𝐑𝐀𝐂̧𝐀̃𝐎 𝐈𝐓𝐀𝐋𝐈𝐀𝐍𝐀


"Digam à eles que deixamos os patrões na Itália e agora somos donos de nossas vidas, temos quanto queremos para comer e beber, além de bons ares, e isto significa muito para mim. Eu também não queria estar mais na Itália, sob aqueles patrões velhacos. Aqui, para encontrar autoridade, são necessárias seis horas de viagem". Trecho de carta de um imigrante italiano na Colônia Caxias, Rio Grande do Sul, enviada para seus familiares na Itália. 





A emigração italiana iniciou em um momento delicado. Por volta de 1860 a 1870, a Itália acabara de concluir a luta pela unificação política, período conhecido como Risorgimento que se caracterizou por muita agitação, lutas armadas e mudanças na política. Sua economia era em grande parte agrária e sofria com o avanço, cada vez mais agressivo, do capitalismo. É nesse contexto que devemos entender o que foi esse verdadeiro êxodo que no curso de alguns anos despovoou a zona rural do país. Foi sem dúvida uma emigração que visou a sobrevivência. Entre 1850 e 1920, mais de um milhão e meio de imigrantes vieram para o Brasil, especialmente São Paulo, para trabalhar como agricultores nas fazendas de café. Alguns fazendeiros notaram que a escravidão estava condenada, e vários experimentos foram realizados com mão de obra provinda da Europa desde os anos 1840 e 1850. Essas experiências foram quase sempre abandonadas devido à resistência dos imigrantes ao grau de exploração que lhes era imposto. A imigração italiana foi de importância decisiva para a história do Brasil. Ela não apenas contribuiu para o progresso econômico do país, mas também para importantes mudanças sociais e culturais. A unificação da Itália e as transformações capitalistas prejudicaram substancialmente os mais pobres da população, forçando-os a emigrar. Muitos trabalhadores rurais ou mesmo pequenos proprietários de terras não conseguiam mais sobreviver com o produto do cultivo de suas terras. Isso ocorria porque eles não podiam competir com os grandes proprietários de terras que forneciam produtos a preços mais baixos no mercado. Além disso, os pequenos proprietários pagavam taxas muito altas de impostos sobre a terra, sem recursos financeiros para tomar empréstimos, o que os tornava cada vez mais endividados. Para os fazendeiros de café do Brasil, o trabalho escravo era a base da produção agrícola e a sua extinção prejudicava muito seus interesses econômicos. 
Com a desintegração do sistema escravagista, a elite cafeeira de São Paulo encorajou a imigração principalmente a partir da Lei do Ventre Livre de 1871. A escassez de escravos já era um problema desde 1850, com a proibição do tráfico de escravos, a Lei Eusébio de Queirós.  
Para os fazendeiros de café do Brasil, o trabalho escravo era a força que movia toda a produção agrícola. A imigração italiana foi fundamental para suprir a demanda de mão de obra após a abolição da escravidão. As leis provinciais de 30 de março de 1871 e 26 de abril de 1872 ajudaram os fazendeiros paulistas a atrair trabalhadores imigrantes, autorizando um apoio financeiro de até 900 contos para as despesas de viagem dos imigrantes. Assim, a imigração subsidiada para São Paulo começou. A miséria que arruinou o campo italiano e a coragem de deixar o país revelaram que o ato de emigrar não apenas implicava em "fazer a América", ou "fare la cucagna", como muitas vezes se dizia. Os emigrantes não eram, em geral, aventureiros em busca de riqueza fácil, mas sim partiam do seu país como forma de se defender contra as condições cruéis impostas pela solidificação do capitalismo no campo italiano. Muitos desses pobres imigrantes diziam: "me vao in Mèrica par magnar" ou "eu vou para a América para poder comer". A imigração representou para a Itália uma solução para a crise de desemprego que assolava o país desde 1870. Em São Paulo e em outros estados do sudeste, a imigração apareceu como uma solução para a desagregação do trabalho escravo nas fazendas. Nos estados do sul, iniciando pelo Rio Grande do Sul, a imigração foi a solução encontrada para povoar grandes extensões de terras, em zonas parcamente habitadas mais próximas de outros países, e, simultaneamente, colonizar a vasta região isolada e ainda coberta de florestas, criando polos de produção agrícola nas colônias criadas, capazes de suprir de alimentos os centros maiores, escoando a produção pela farta rede fluvial vizinha. O lento desenvolvimento industrial na Itália também favoreceu a emigração. Segundo Candeloro, "a emigração foi crucial para o desenvolvimento socioeconômico (...) no período que viu o lançamento do noroeste industrializado da Itália, e continuou como uma condição para o desenvolvimento econômico devido ao desequilíbrio estabelecido entre o norte e o sul do país". 
No início do século XIX, a economia italiana era essencialmente agrícola. Muitas regiões italianas ainda apresentavam características semi-feudais e feudais no período da unificação por volta de 1870. O norte do país era mais industrializado, a agricultura capitalista havia moldado a região, ao contrário do sul, onde a agricultura ainda mostrava vestígios de servidão. A burguesia industrial e comercial, mesmo após a unificação italiana, tinha pouca participação na classe política porque era composta de grandes e médios proprietários de terras. Levou vários anos para o grupo alcançar o controle econômico e político burguês do país, deixando o estado para a fase de acumulação essencialmente industrial. Em áreas com aspectos feudais predominantes, a emigração ocorreu em grande escala. Essas características limitavam qualquer mudança estrutural e a única saída para a população excedente era emigrar. 
Na região do Vêneto a produção rural dependia do trabalho de toda a família. A mão de obra era basicamente dividida em dois grupos: aqueles que trabalhavam para si mesmos, ou seja, os pequenos proprietários de terra, locatários ou meeiros, e aqueles que trabalhavam como empregados. Dentro deste último grupo estavam os braccianti ou trabalhadores braçais, que podiam ser fixos, vinculados à propriedade por meio de um contrato anual, ou temporários diaristas, que trabalhavam apenas em momentos de grande necessidade de mão de obra e recebendo um pagamento diário. Os braccianti, pelo excesso disponível eram os trabalhadores rurais mais explorados. Os pequenos proprietários de terra, locatários ou meeiros vênetos formaram o primeiro contingente de imigrantes. Eles foram os primeiros a deixar a Itália devido às precárias condições de vida. A região do Vêneto durante a fase inicial do grande êxodo pode ser descrita da seguinte forma: o campo era dividido em pequenos lotes com fileiras de árvores onde se agarram às videiras, enquanto os espaços entre elas eram de 8 a 12 metros de largura, eram quase sempre arados e plantados com cereais. O campo reflete fielmente em sua aparência externa o regime de produção imposto pelas condições sociais da região. Ele fornece aos proprietários milho e vinho, aos trabalhadores milho e muito pouco combustível para alimentar os dois animais que, no entanto, precisam arar e fertilizar o solo já tão esgotado. 
O camponês vêneto que possuía terras era praticamente autossuficiente. O trabalho agrícola quase sempre estava associado à indústria doméstica de tecidos ou artigos de vime e palha. A pequena propriedade lhes deu uma ilusão de independência, mas não aconteceu muito progresso depois da unificação, antes pelo contrário viram as suas economias minguarem. As famílias vênetas viviam em pequenos lotes de terra que lhes pertenciam. Eram em média compostas por doze a quinze pessoas, geralmente com dois ou três homens, suas esposas e filhos capazes de trabalhar. O pai era a autoridade máxima e quando ele não podia mais manter o controle, era substituído por seu filho mais velho. Todos se mantinham juntos enquanto a propriedade conseguia fornecer os recursos necessários para a sobrevivência de todos. Eles se alimentavam diariamente principalmente de polenta de farinha de milho, às vezes misturada com algum tipo de verdura. Os pequenos proprietários que eram responsáveis por até seis pessoas tinham em média uma mesa um pouco mais farta, com ovos, vegetais, mesmo assim, raramente comiam carne, quando comiam era de porco, galinhas, peixe, a carne bovina era usada para festas ou quando estavam doentes. 
A emigração italiana representou uma solução para a crise de desemprego que assolou o país desde 1870. Na verdade, as condições de vida dos pequenos agricultores, locatários e meeiros eram praticamente as mesmas condições dos pobres braccianti. Muitos eram forçados a deixar suas terras e trabalhar em outras propriedades para conseguir levar o sustento para a família. Entre eles, era comum a divisão da terra quando os filhos se casavam e isso era repetido geração após geração, retalhando a propriedade em lotes cada vez menores tornando-os assim produtivamente deficitários, não suprindo mais as necessidades das famílias. Este foi um dos principais motivos para o enfraquecimento das famílias e consequente empobrecimento. Até 1885, grandes regiões do Vêneto, onde primeiro se começou a emigrar, tais como Belluno, Treviso, Udine e Vicenza, que eram predominantemente compostas por montanhas e colinas. Em Udine, havia um proprietário para cada dois residentes, um para cada três em Belluno, um para cada quatro em Vicenza, e as propriedades eram insuficientes para sustentar uma família. 
Algumas regiões italianas, especialmente o Vêneto, destacaram-se por serem os principais fornecedores de mão-de-obra para São Paulo, Espírito Santo e para os estados do sul do país. Essa situação era agravada pela falta de melhorias técnicas na agricultura, com métodos de cultivo antiquados já de muito ultrapassados os altos impostos, a variação do clima, as catástrofes naturais, como a devastação das florestas que prejudicavam o sistema fluvial, levando a inundações nas planícies e avalanches nas zonas elevadas. Nas regiões montanhosas e de colinas, a falta de chuvas abalou a já escassa produção agrícola, que sempre fora de subsistência. Agravando o quadro pintado no período de 1873 a 1895, o panorama internacional foi marcado pela crise agrária ou "grande depressão" em todos os países da Europa. Essa crise precipitou a transição do antigo capitalismo individualista de livre concorrência para o capitalismo monopolista imperialista. Este foi um período de amargas lutas pelos mercados consumidores muito disputados, que afetaram a Itália em um cenário dramático de sua unificação política. A agricultura foi duramente afetada pela concorrência de produtos semelhantes importados de outros países que chegavam a preços muito abaixo dos praticados no país como o trigo americano e russo que, apesar do frete, era oferecido a preços muito abaixo do custo de produção na Itália. Assim, como decorrência a produção de trigo declinou, levando consigo o cultivo de outras commodities da agricultura italiana, como milho, arroz e oleaginosas. Portanto, os produtores agrícolas perderam seu lugar no mercado e sua única alternativa foi deixar o campo, afetados por competidores mais poderosos. O jornal L'Amico del Popolo, em 1882, publicou um artigo observando que mais de 20.000 pequenos proprietários haviam desaparecido da Itália naqueles anos, e certamente todos teriam emigrado para a América. Os emigrantes vênetos não deixaram a Itália com a esperança de retornar, como aqueles do sul. Eles foram obrigados a abandonar tudo o que possuíam, animais, utensílios domésticos. Partiam após a colheita do trigo no outono, entre setembro e novembro. Portanto, o primeiro contingente de trabalhadores que chegou a São Paulo foi composto por esses imigrantes. O sistema de assentamento no Brasil igualou todos os imigrantes a um único padrão, as características peculiares do primeiro contingente de imigrantes foram esquecidas. Nos contratos de trabalho, não foram considerados aspectos individuais. O sistema de assentamento acabou com as diferenças externas entre os inquilinos, os meeiros e outros, mas não com a organização interna das famílias, seus hábitos culturais, valores para os camponeses. Os imigrantes italianos assentados nas colônias do sul do país, criadas especialmente para recebê-los eram predominantemente vênetos, lombardos e tiroleses e experimentaram outro tipo de imigração, diferente daqueles que foram para o sudeste do país. No sul do Brasil, imediatamente após a chegada, os imigrantes puderam adquirir por preços bem baixos os seus lotes de terra, por financiamento do próprio governo, com prestações durando vários anos contados após um período de carência de dez anos. Eram áreas enormes, a maioria delas cobertas de mata virgem, da qual tiraram a madeira para a construção de suas casas, cercas, galpões e lenha para os fogões. Na Itália eles jamais poderiam ter sonhado com esta fartura de espaço, com áreas que variavam de 25 a 50 hectares cada uma, no início da colonização. Assim, desde a chegada eles puderam trabalhar nas suas próprias terras, não precisando mais dividir com ninguém o resultado das suas colheitas. Agora não eram mais empregados, não obedeciam mais a um patrão, como tinham feito durante todas as suas vidas, gerações após gerações, no país natal. O sonho da propriedade, um dos fortes motivos que os impulsionou abandonarem a Itália, estava sendo realizado em terras gaúchas. Essa foi, sem dúvida, a grande diferença ocorrida com o processo de imigração italiana implantada no sudeste do país.



Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta
Erechim RS