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segunda-feira, 17 de março de 2025

A Jornada dos Irmãos Morette: Italianos que Forjaram um Legado em São Paulo



A Jornada dos Irmãos Morette: 
Italianos que Forjaram um Legado em São Paulo

Em 1878, no final do século XIX, em uma pequena vila nas planícies de Mantova, na Lombardia, Itália, os irmãos Giuseppe e Angelo  Morette passavam seus dias ajudando os pais no cultivo da pequena propriedade rural da família. A vida apesar de tranquila, não dava sinais de  trazer melhorias nas condições financeiras daqueles pobres agricultores. Apesar do pai ser proprietário do pequeno terreno, herdado dos seus antepassados, e o fato de estarem financeiramente muito melhores que a maioria dos outros habitantes do lugar, não os faziam imunes ao que estava acontecendo em todo o país, especialmente no período que se seguiu a unificação da Itália em um único reino. O crescente aumento dos preços dos produtos que precisavam adquirir, impulsionados por uma inflação crônica, somados a criação de novos impostos e,  principalmente, pela concorrência com os grãos importados, tornavam insustentável a continuação daquele trabalho na agricultura, já considerado sem futuro para os pequenos produtores. As frustrações seguidas de safras, devido alterações climáticas, agravavam a situação na zona rural também na Lombardia. Inúmeros outros produtores rurais, até mais abastados que eles, já tinham vendido as suas propriedades e partido em emigração para outros países, tanto vizinhos da Itália como, principalmente, para a distante América. O desejo de melhorar de vida, de fugir daquela falta de perspectiva de futuro e o desejo de aventura  estava gravado em seus corações.
Em 1893, movidos por histórias de sucesso no Brasil contadas pelas cartas que chegavam dos emigrantes, Giuseppe, que era o irmão mais velho, e Angelo, o caçula, decidiram embarcar em uma jornada incerta. Com a benção dos pais deixaram para trás sua família, esperando que a promessa de terras distantes e oportunidades os recompensasse. Para os pais asseguraram que assim que se estabelecessem no Brasil mandariam dinheiro para as passagens para eles os encontrar.
Depois de uma longa e tumultuada viagem, que durou um mês, chegaram no interior de São Paulo, onde começaram a vida em uma terra estrangeira. Aos poucos, com tenacidade foram construindo suas vidas em solo brasileiro. Com o pouco dinheiro que o pai lhes deu Giuseppe se aventurou no comércio local, abrindo uma pequena loja para venda de secos e molhados  que se tornou uma referência na cidade. Mais tarde ele também investiu em uma olaria, fabricando tijolos e telhas para atender  as necessidades de uma cidade em constante crescimento.
Angelo, por outro lado, viu uma oportunidade na criação suínos que os engordava e vendia para uma fábrica de salames e banha de uma cidade vizinha. Suas atividades muito contribuíram  para o desenvolvimento da economia local. Depois de cinco anos, como tinham prometido, mandaram dinheiro para os pais que então passaram a morar no Brasil.
Em 1913, Giuseppe, agora casado e pai de seis filhos, decidiu fazer uma viagem de volta à Itália para rever parentes e amigos que ainda lá moravam. Infelizmente, sua visita coincidiu com o início da Primeira Guerra Mundial, e ele foi recrutado, deixando para trás sua família e seu comércio. Só conseguiu retornar ao Brasil em 1919, onde foi recebido com alegria pela esposa e filhos, incluindo o seu sétimo filho, que recebeu por isso o nome de Settimo, que ainda não conhecia.
Nos anos que se seguiram, Giuseppe fez várias viagens à Itália, uma das quais acompanhado pelo filho mais velho Attilio, que permaneceu na península por três anos, absorvendo a cultura de seus ancestrais.
Infelizmente, em 1930, uma tragédia abalou a família Morette quando Angelo faleceu prematuramente, deixando para trás sua esposa e sete filhos. A família se uniu para superar a adversidade, mantendo o legado de trabalho árduo e perseverança deixado por Angelo.
Hoje, os descendentes dos irmãos Giuseppe e Angelo Morette estão espalhados em diversas cidades dos estados de São Paulo e Paraná, preservando as tradições e histórias de seus antepassados italianos, que deixaram sua marca na história da região.






domingo, 9 de março de 2025

Veneza: A Importante Metrópole Portuária do Renascimento Europeu

Palazzo Cà Foscari 


No século XVI, a República de Veneza surgia na aurora da era moderna com sua cidade e território totalmente estruturados e delineados em todos os seus aspectos essenciais, conforme registrados por duas obras gráficas cruciais: a vista de Jacopo de Barbari, datada de 1500, e o mapa da laguna elaborado por Benedetto Bordone em 1528. O que Veneza realizou foi, acima de tudo, uma obra de embelezamento formal e autocelebração através das contribuições de renomados arquitetos, como Sammicheli (responsável pelas defesas marítimas), Sansovino (Piazza San Marco), Palladio e Longhena (Bacia de San Marco). Embora essas obras de grande magnitude não conseguissem obscurecer a crise política, econômica e social enfrentada pelo estado, especialmente quando a Sereníssima se deparava com o mais grave desafio ambiental de sua história: o assoreamento da laguna causado pela sedimentação dos rios, colocando em risco sua função vital como porto. Veneza é mais do que uma cidade construída sobre a água; é uma cidade nascida dentro dela, uma metrópole anfíbia, erguida com uma clara vocação portuária. Seu principal curso d'água, o Grande Canal, era o coração pulsante dos "docks", onde os edifícios, as chamadas "casas-armazéns", eram estruturas comerciais destinadas à descarga e armazenamento de mercadorias, ao mesmo tempo em que serviam como moradias. Até o final do século XVI, a Ponte de Rialto era a única travessia sobre o Grande Canal e, surpreendentemente, funcionava como uma ponte levadiça. A transição para a atual ponte de pedra, construída entre 1588 e 1591, simbolizou o encerramento de sua função portuária, marcando uma nova era para esse importante curso d'água. Seus três principais núcleos urbanos, São Marcos, Rialto e Arsenale, além de serem centros portuários com funções distintas, representavam a essência desse aspecto. Contudo, todo o tecido urbano, especialmente as regiões periféricas em contato com a laguna, compartilhava dessa característica peculiar, seja em suas margens, docas, estaleiros, armazéns, hospitais ou fortificações. Neste contexto, a planta perspectiva de De Barbari se revela uma fonte de informações valiosas: cais de diferentes tamanhos são nitidamente marcados ao longo da costa dos Schiavoni e ao longo do canal da Giudecca, próximos aos armazéns do Sale, de Santa Agnese, dos Gesuati e especialmente na ponta de Santa Marta. Além disso, feixes de madeira flutuante são visíveis nas proximidades de São João e Paulo. Essa madeira provinha do Cadore, transportada pelo rio Piave e pela laguna ao norte, sendo esta região o ponto de chegada das rotas fluviais de Treviso e do norte. Os estaleiros, onde eram construídos barcos e navios, são destacados com evidência especial dentro das muralhas do Arsenale, em São Moisés, ao longo do Grande Canal, em São Gregório, e nas áreas de Santa Agnese, no Canal da Giudecca, e, por fim, no lado norte, atrás de São Lúcia. De grande importância eram os armazéns. Edifícios desse tipo, de considerável imponência, são visíveis não apenas na xilogravura de De Barbari (os celeiros de Terranova e São Marcos, os armazéns da alfândega e do Sale), mas também em uma bela vista perspectiva do século XVII, a de Alberti de 1686, que apresenta dois edifícios às margens do canal do Arsenale identificados respectivamente como "Casa dos fornos e do biscoito público" e "armazéns públicos", estes últimos formando uma construção equivalente em tamanho ao Palácio Ducal. Para realçar ainda mais a importância de Veneza como porto internacional, na planta de De Barbari, encontramos o "Hospital dos Marinheiros" e os três pontos fortificados da cidade, destacados pelas grandes muralhas ameadas que cercam o Arsenale, a Ponta da Alfândega e a extremidade leste da Giudecca, representando a entrada na cidade vindo dos portos de Malamocco e Chioggia. Como epicentro do comércio do Oriente para a Europa, a Sereníssima destacava-se como o principal polo para cultura, comércio e diplomacia em todo o continente europeu! Isso se devia aos comerciantes, mercadores, armadores e artesãos venezianos, indivíduos com uma mentalidade aberta para outras culturas, e à cidade hospitaleira e curiosa.


segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

O Palio das Repúblicas Marítimas


 


No passado, as mais poderosas repúblicas marítimas italianas rivalizavam pelo controle dos mares, uma competição que não apenas beneficiou cada estado italiano, mas também enriqueceu seu conhecimento e ampliou suas rotas comerciais com mercadorias refinadas anteriormente desconhecidas. Em 1955, os representantes dessas quatro cidades se uniram para organizar a celebração desses magníficos exemplos de habilidade marítima e comercial, por meio de uma regata. As repúblicas marítimas de Amalfi, Pisa e Gênova surgem como os antagonistas mais diretos no caminho do desenvolvimento mercantil de Veneza no vasto cenário de interesses do Mediterrâneo Oriental. 

Essas cidades frequentemente se envolviam em conflitos armados, caracterizados por uma rivalidade acirrada, especialmente com Gênova, que se manteve como rival de Veneza por mais tempo após o declínio de Amalfi e Pisa. Amalfi antecedeu a Sereníssima nos mercados orientais, especialmente com os sarracenos, com quem enfrentou duras batalhas para estabelecer uma série de privilégios comerciais invejados por outras repúblicas marinhas. A rivalidade entre Amalfi e Veneza era evidente principalmente nas transações nos portos da Ásia Menor, especialmente com Constantinopla, onde Amalfi possuía, desde o século XII, seu próprio cais e bairro, próximo ao dos venezianos.

Além disso, a pequena república se orgulha de ter produzido a "tabula amalfitana", a primeira codificação das leis marítimas que despertaram grande interesse no campo do direito comercial. No entanto, no século XIII, o poder de Amalfi começou a declinar devido à luta incansável de Pisa, que levou a rivalidade ao extremo.