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domingo, 3 de março de 2024

O Açúcar em Veneza

 



A influência de Veneza na propagação da cultura da cana-de-açúcar e sua posterior introdução no Caribe tiveram um impacto fundamental na remodelação do comércio e dos padrões alimentares na Europa. Sempre à vanguarda, a Sereníssima República veneziana liderou esse processo por meio de seus visionários observadores e hábeis comerciantes.
A revelação desse elemento remonta a 1099, mérito dos Cruzados, que testemunharam e registraram, próximo a Tripoli, na Síria, as exuberantes canas de tons mel. Um cronista de guerra da época descreveu vividamente: "Os campos eram um mar de canas meladas, apelidadas de açúcar, cultivadas com primor; quando maduras, os nativos as trituravam em pilões, obtendo uma massa que era coletada e deixada para solidificar como neve ou sal fino. Os cruzados as utilizavam em papas, misturando o açúcar ao pão e à água. Durante os cercos em Albânia, em Archas e Marra, nutriam-se dessas deliciosas canas." Até então, a culinária do Oriente era reverenciada por suas especiarias exóticas e sabores singulares, resultando em um florescimento da pesquisa gastronômica, como testemunhado por textos culinários da época. Na Europa, os primeiros livros de receitas surgiram até o século XIII, enquanto no Oriente já havia um catálogo desde o século X. É digno de nota que, entre os séculos XIII e XIV, um tratado de dietética árabe foi vertido para o latim em Veneza por um personagem conhecido como Jamboninus de Cremona, evidenciando a assimilação dos hábitos gastronômicos orientais pelos venezianos.
No ano de 1222, o Doge Ziani expressou preocupação com a falta de peixe e outros alimentos tradicionais, porém Angelo Faliese, procurador de São Marcos, prontamente esclareceu que essa escassez era, na verdade, um reflexo do sucesso veneziano: as abundantes importações do Oriente e o influente papel desempenhado por Veneza no enriquecimento da cultura europeia.

sexta-feira, 9 de julho de 2021

Arsenal de Veneza uma Impressionante Construção

 

Entrada do Arsenale pintura de Canaletto 1732

O Arsenale de Veneza é um antigo complexo de estaleiros e oficinas localizado em uma grande área de Veneza, em sua extremidade oriental e que dá nome de Arsenale para todo aquele bairro veneziano. Foi o coração de uma pujante e bem sucedida indústria naval veneziana já a partir do século XII.  Teve seu máximo esplendor nos séculos XIV e XV quando a Sereníssima ali construía  os imponentes navios mercantes e de guerra. 

Nessa época a República de Veneza enfrentava periodicamente militarmente os turcos no mar Mediterrâneo tendo travado com eles inúmeras batalhas de conquista e manutenção de importantes posições fortificadas  para consolidação das rotas marítimas de comércio.

Localizado em local de difícil acesso por mar, cercada por altos muros, bem vigiados, que o mantinham a salvo de olhares indiscretos de espiões inimigos. 

Graças a sua organização, avançada para época, Veneza foi pioneira, antecipando em vários séculos o conceito moderno de fábrica, com linha de montagem e padronização da maioria dos componentes usados para a construção de grandes barcos. Os milhares de operários que ali então trabalhavam, moravam todos em volta dos grandes muros que cercavam o complexo industrial, o que facilitava o controle e evitava a entrada de espiões. 

O Arsenal era uma engenhosa linha de construção naval, de ciclo completo, ou seja, tudo o que se precisava para a montagem de um navio, tanto mercante como de guerra, eram ali mesmo concebidos, desenhados e fabricados. Inclusive os diversos tipos de canhões eram ali criados, desenhados e fundidos no interior do grande complexo. Os navios de guerra já saiam do arsenal com todo o armamento, pólvora  e munições, inclusive até com as bolachas de marinheiros e outros víveres para a alimentação das tripulações. 

No seu interior também funcionavam além da fundição, as carpintarias, ferrarias  e a fabrica de diversos tipos de munições, a fabricação de cordas e de velas. 


Porta de Entrada do Arsenal do ano 1460 chamada de Porta Magna

O Arsenale ocupava uma área de 48 hectares, grande para a cidade, estimada em 15% de toda Veneza. Entre os diversos setores circulavam pelo seu interior uma média 2000 trabalhadores, conhecidos com "arsenalotti", mas, que nos períodos de guerra, ou naqueles de maior pujança econômica, podiam alcançar a 5000 funcionários. Um número considerável para uma cidade com população média de 100.000 habitantes. 

O Arsenale se manteve inalterado por sete séculos como estaleiro e fábrica de armas, funcionando normalmente após o declínio da Sereníssima República de Veneza. 

Não existe uma data precisa de sua fundação. Estima-se, sem comprovação oficial, que tenha ocorrido no início do século XII, por volta do ano de 1104, logo após a I Cruzada, a mando do  Doge Ordelafo Faliero. 

No entanto, com certeza o primeiro núcleo do Arsenale Vecchio, data da segunda metade do século XII. Em documentos oficiais datados de 1220, mais precisamente um mapa, já nos mostra o grande complexo industrial, rodeado por altos muros encimados por ameias e duas fileiras de pátios cobertos nas laterais da Doca Velha, os quais se comunicavam com a bacia de San Marco através de um estreito canal. 

Durante sete séculos o Arsenale funcionou como estaleiro e fábrica de armas, mesmo após o declínio da República de Veneza. Nos dias atuais cerca de um quarto da sua área pertencente, desde 2013, ao município de Veneza, é usada pela Bienal de Veneza para as suas exposições de arte contemporânea. Uma outra parte do antigo complexo ainda pertence a Marinha Italiana e abriga o Instituto de Estudos Marítimos Militares e o Museu de História Naval.  



Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta
Erechim RS