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quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Os Lençóis Bordados que Viraram Herança - Imigração Italiana


Os Lençóis Bordados que Viraram Herança

"Nem toda herança cabe em um testamento. Algumas atravessam oceanos dobradas dentro de um velho baú."

Na grande história da imigração italiana para o Brasil costuma-se falar dos navios, das florestas derrubadas, das colônias abertas entre a mata e do suor que transformou pedra e barro em vinhedos. Poucos se lembram, entretanto, das mulheres que embarcaram levando nas malas aquilo que não podia ser comprado na nova terra. Entre essas pequenas riquezas viajavam os lençóis bordados, dobrados cuidadosamente entre as poucas roupas, protegidos como se fossem um pedaço da própria casa.

No Vêneto, nos anos que antecederam as grandes partidas da década de 1870 e das seguintes, havia meninas que começavam a preparar seu enxoval ainda na adolescência. As tardes de inverno eram longas, e enquanto o vento descia frio das montanhas, mães, avós e filhas reuniam-se perto do fogo para bordar flores, ramos de oliveira, pequenas cruzes e iniciais cuidadosamente desenhadas sobre o linho. Cada ponto exigia paciência; cada desenho parecia uma oração silenciosa destinada ao futuro. Nenhuma delas imaginava que aqueles tecidos atravessariam um oceano.

Quando a pobreza apertou as aldeias e a notícia das terras brasileiras começou a percorrer as pequenas comunidades agrícolas, muitas famílias compreenderam que não partiriam levando riquezas, porque simplesmente não as possuíam. Vendiam móveis, ferramentas, animais e até as alianças de casamento. Mas havia objetos que ninguém aceitava negociar. Os lençóis permaneciam dobrados dentro do baú, porque não representavam um bem; representavam a continuidade da família.

Na manhã da despedida, enquanto as carroças seguiam lentamente em direção à estação ferroviária e depois aos portos de embarque, havia mulheres que voltavam uma última vez o olhar para as janelas de suas casas. Não sabiam se algum dia tornariam a vê-las. O que levavam consigo era apenas aquilo que os braços conseguiam carregar. Entre essas poucas coisas repousavam os lençóis bordados durante tantos invernos, impregnados do perfume da madeira dos armários antigos e do cheiro da alfazema seca colocada entre suas dobras.

A travessia do Atlântico não respeitava delicadezas. O sal penetrava por toda parte, a umidade alcançava os baús, as ondas faziam ranger o casco dos vapores e a saudade envelhecia as pessoas muito antes do tempo. Ainda assim, de vez em quando, alguma mulher abria discretamente sua mala apenas para verificar se os lençóis continuavam ali. Não precisava tocá-los. Bastava vê-los para lembrar que existia um lugar chamado lar, mesmo que agora estivesse do outro lado do mar.

Depois do desembarque, vieram as estradas difíceis, as hospedarias cheias, as viagens em carroças, as trilhas abertas na mata e, finalmente, as colônias da Serra Gaúcha e de outras regiões do Sul do Brasil. As primeiras casas eram simples. Muitas tinham paredes de madeira tosca, chão de terra batida e cobertura improvisada. Não havia armários elegantes nem camas trabalhadas. Havia apenas o indispensável para sobreviver. Mesmo assim, quando chegava o domingo ou alguma festa religiosa, aqueles velhos lençóis eram estendidos sobre a cama humilde como quem devolve dignidade à pobreza.

As crianças cresciam sem compreender por que a mãe guardava aqueles tecidos com tanto cuidado. Eram proibidas de brincar com eles. Não podiam rasgá-los nem manchá-los. Achavam exagero tanta vigilância. Somente muitos anos depois entenderiam que aqueles fios haviam sido costurados pelas mãos da avó que nunca conheceram, da bisavó que permanecera na Itália ou de alguma irmã cuja sepultura ficara perdida entre pequenas igrejas de pedra do outro lado do oceano.

O tempo fez aquilo que sempre faz. As florestas recuaram diante das lavouras. As casas de madeira deram lugar às de pedra. Vieram as primeiras videiras, os parreirais carregados, os sinos das capelas, os casamentos, os nascimentos e também os funerais. A língua portuguesa passou a dividir espaço com o velho dialeto vêneto. Muitas lembranças desapareceram. Fotografias amarelaram. Cartas se perderam. Túmulos deixaram de receber visitas. Mas os lençóis continuaram atravessando gerações.

Havia algo de extraordinário naqueles bordados. As linhas já não eram tão brancas. O tecido adquirira a cor suave que somente o tempo sabe oferecer às coisas verdadeiras. Algumas bainhas haviam sido refeitas. Pequenos remendos denunciavam décadas de uso. Ainda assim, nenhuma filha ousava desfazer-se deles. Quando chegava a hora de dividir a herança, quase nunca eram escolhidos pelo valor material. Eram disputados porque guardavam uma memória que não cabia em escritura alguma.

Talvez seja esse o destino das maiores heranças humanas. Elas quase nunca brilham como ouro nem ocupam cofres. Permanecem silenciosas dentro de um baú antigo, envolvidas pelo cheiro do cedro e da lavanda, esperando que alguém as desdobre novamente. E, quando isso acontece, não é apenas um tecido que se abre diante dos olhos. Abrem-se também os caminhos percorridos por homens e mulheres que cruzaram o Atlântico levando nos braços muito menos do que precisavam, mas infinitamente mais do que imaginavam. Porque aqueles lençóis nunca serviram apenas para cobrir camas. Cobriram saudades, protegeram esperanças, enxugaram lágrimas escondidas e ensinaram, sem pronunciar uma única palavra, que uma família continua existindo enquanto for capaz de conservar a delicadeza das pequenas coisas. Talvez por isso ainda sobrevivam em tantas casas de descendentes italianos. Não como simples peças de enxoval, mas como páginas de pano onde a memória bordou, ponto por ponto, a história de uma gente que perdeu a terra onde nasceu, mas jamais perdeu a capacidade de transformar afeto em herança.


Nota do Autor

Ao longo de muitos anos pesquisando a grande imigração italiana para o Brasil, aprendi que a História costuma registrar os grandes acontecimentos, mas raramente se detém sobre os pequenos objetos que acompanharam aqueles homens e mulheres em sua travessia. Os livros contam quantos navios chegaram, quais colônias foram fundadas e quantas famílias cruzaram o Atlântico. Os arquivos preservam listas de passageiros, escrituras de terras e registros de nascimento. Os museus exibem ferramentas, malas, fotografias e documentos. Mas existem heranças silenciosas que quase nunca recebem um lugar na memória coletiva.

Os antigos lençóis bordados pertencem a esse universo discreto. Foram confeccionados muito antes da partida, quando as jovens italianas preparavam o enxoval imaginando um casamento na própria aldeia, sem suspeitar que o destino lhes reservaria um continente distante. Em muitos casos, essas peças atravessaram o oceano dobradas dentro de um baú de madeira e permaneceram por décadas nas casas simples das colônias brasileiras, sobrevivendo ao tempo, às mudanças e às gerações. Não eram valiosas pelo tecido, mas pelas mãos que as bordaram e pelas histórias que passaram a guardar.

Resolvi escrever esta crônica porque, depois de décadas visitando museus da imigração, pesquisando arquivos históricos, conversando com descendentes e lendo cartas, bilhetes e memórias deixadas pelos pioneiros, compreendi que a verdadeira grandeza daquela epopeia também repousa nesses detalhes quase invisíveis. Muitas vezes, uma peça de linho cuidadosamente dobrada revela mais sobre uma família do que um documento oficial. Há emoções que não cabem nas estatísticas nem nos relatórios históricos. Permanecem escondidas nas pequenas coisas que atravessam o tempo em silêncio.

Os personagens desta narrativa são fictícios, assim como suas famílias. Entretanto, o contexto histórico, os costumes descritos e o significado atribuído ao enxoval refletem práticas autênticas da imigração italiana do século XIX, preservadas por relatos familiares, documentos e pela memória de inúmeras comunidades de descendentes espalhadas pelo Sul do Brasil.

Escrever sobre esses lençóis foi, para mim, uma forma de prestar homenagem às mulheres que quase nunca aparecem como protagonistas da História. Enquanto os homens derrubavam a floresta e abriam caminhos, elas preservavam aquilo que nenhuma tempestade podia destruir: a memória da família. Talvez seja justamente por isso que alguns dos maiores tesouros da imigração italiana nunca tenham sido feitos de ouro, mas de linho, linha e paciência. E talvez a verdadeira herança deixada por aquelas mulheres não esteja apenas nos bordados que sobreviveram, mas na delicadeza com que ensinaram seus descendentes a compreender que o amor também pode ser transmitido de geração em geração, dobrado cuidadosamente dentro de um velho baú.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta


👉 Se esta crônica despertou lembranças de sua família, compartilhe-a. Cada leitura ajuda a preservar a memória das mulheres e dos homens que trouxeram consigo não apenas um enxoval, mas uma história de coragem, amor e esperança.


quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Os Lençóis Bordados que Viraram Herança | Imigração Italiana


 

Os Lençóis Bordados que Viraram Herança

"Nem toda herança cabe em um testamento. Algumas atravessam oceanos dobradas dentro de um velho baú."


Na grande história da imigração italiana para o Brasil costuma-se falar dos navios, das florestas derrubadas, das colônias abertas entre a mata e do suor que transformou pedra e barro em vinhedos. Poucos se lembram, entretanto, das mulheres que embarcaram levando nas malas aquilo que não podia ser comprado na nova terra. Entre essas pequenas riquezas viajavam os lençóis bordados, dobrados cuidadosamente entre as poucas roupas, protegidos como se fossem um pedaço da própria casa.

No Vêneto, nos anos que antecederam as grandes partidas da década de 1870 e das seguintes, havia meninas que começavam a preparar seu enxoval ainda na adolescência. As tardes de inverno eram longas, e enquanto o vento descia frio das montanhas, mães, avós e filhas reuniam-se perto do fogo para bordar flores, ramos de oliveira, pequenas cruzes e iniciais cuidadosamente desenhadas sobre o linho. Cada ponto exigia paciência; cada desenho parecia uma oração silenciosa destinada ao futuro. Nenhuma delas imaginava que aqueles tecidos atravessariam um oceano.

Quando a pobreza apertou as aldeias e a notícia das terras brasileiras começou a percorrer as pequenas comunidades agrícolas, muitas famílias compreenderam que não partiriam levando riquezas, porque simplesmente não as possuíam. Vendiam móveis, ferramentas, animais e até as alianças de casamento. Mas havia objetos que ninguém aceitava negociar. Os lençóis permaneciam dobrados dentro do baú, porque não representavam um bem; representavam a continuidade da família.

Na manhã da despedida, enquanto as carroças seguiam lentamente em direção à estação ferroviária e depois aos portos de embarque, havia mulheres que voltavam uma última vez o olhar para as janelas de suas casas. Não sabiam se algum dia tornariam a vê-las. O que levavam consigo era apenas aquilo que os braços conseguiam carregar. Entre essas poucas coisas repousavam os lençóis bordados durante tantos invernos, impregnados do perfume da madeira dos armários antigos e do cheiro da alfazema seca colocada entre suas dobras.

A travessia do Atlântico não respeitava delicadezas. O sal penetrava por toda parte, a umidade alcançava os baús, as ondas faziam ranger o casco dos vapores e a saudade envelhecia as pessoas muito antes do tempo. Ainda assim, de vez em quando, alguma mulher abria discretamente sua mala apenas para verificar se os lençóis continuavam ali. Não precisava tocá-los. Bastava vê-los para lembrar que existia um lugar chamado lar, mesmo que agora estivesse do outro lado do mar.

Depois do desembarque, vieram as estradas difíceis, as hospedarias cheias, as viagens em carroças, as trilhas abertas na mata e, finalmente, as colônias da Serra Gaúcha e de outras regiões do Sul do Brasil. As primeiras casas eram simples. Muitas tinham paredes de madeira tosca, chão de terra batida e cobertura improvisada. Não havia armários elegantes nem camas trabalhadas. Havia apenas o indispensável para sobreviver. Mesmo assim, quando chegava o domingo ou alguma festa religiosa, aqueles velhos lençóis eram estendidos sobre a cama humilde como quem devolve dignidade à pobreza.

As crianças cresciam sem compreender por que a mãe guardava aqueles tecidos com tanto cuidado. Eram proibidas de brincar com eles. Não podiam rasgá-los nem manchá-los. Achavam exagero tanta vigilância. Somente muitos anos depois entenderiam que aqueles fios haviam sido costurados pelas mãos da avó que nunca conheceram, da bisavó que permanecera na Itália ou de alguma irmã cuja sepultura ficara perdida entre pequenas igrejas de pedra do outro lado do oceano.

O tempo fez aquilo que sempre faz. As florestas recuaram diante das lavouras. As casas de madeira deram lugar às de pedra. Vieram as primeiras videiras, os parreirais carregados, os sinos das capelas, os casamentos, os nascimentos e também os funerais. A língua portuguesa passou a dividir espaço com o velho dialeto vêneto. Muitas lembranças desapareceram. Fotografias amarelaram. Cartas se perderam. Túmulos deixaram de receber visitas. Mas os lençóis continuaram atravessando gerações.

Havia algo de extraordinário naqueles bordados. As linhas já não eram tão brancas. O tecido adquirira a cor suave que somente o tempo sabe oferecer às coisas verdadeiras. Algumas bainhas haviam sido refeitas. Pequenos remendos denunciavam décadas de uso. Ainda assim, nenhuma filha ousava desfazer-se deles. Quando chegava a hora de dividir a herança, quase nunca eram escolhidos pelo valor material. Eram disputados porque guardavam uma memória que não cabia em escritura alguma.

Talvez seja esse o destino das maiores heranças humanas. Elas quase nunca brilham como ouro nem ocupam cofres. Permanecem silenciosas dentro de um baú antigo, envolvidas pelo cheiro do cedro e da lavanda, esperando que alguém as desdobre novamente. E, quando isso acontece, não é apenas um tecido que se abre diante dos olhos. Abrem-se também os caminhos percorridos por homens e mulheres que cruzaram o Atlântico levando nos braços muito menos do que precisavam, mas infinitamente mais do que imaginavam. Porque aqueles lençóis nunca serviram apenas para cobrir camas. Cobriram saudades, protegeram esperanças, enxugaram lágrimas escondidas e ensinaram, sem pronunciar uma única palavra, que uma família continua existindo enquanto for capaz de conservar a delicadeza das pequenas coisas. Talvez por isso ainda sobrevivam em tantas casas de descendentes italianos. Não como simples peças de enxoval, mas como páginas de pano onde a memória bordou, ponto por ponto, a história de uma gente que perdeu a terra onde nasceu, mas jamais perdeu a capacidade de transformar afeto em herança.


Nota do Autor

Ao longo de muitos anos pesquisando a grande imigração italiana para o Brasil, aprendi que a História costuma registrar os grandes acontecimentos, mas raramente se detém sobre os pequenos objetos que acompanharam aqueles homens e mulheres em sua travessia. Os livros contam quantos navios chegaram, quais colônias foram fundadas e quantas famílias cruzaram o Atlântico. Os arquivos preservam listas de passageiros, escrituras de terras e registros de nascimento. Os museus exibem ferramentas, malas, fotografias e documentos. Mas existem heranças silenciosas que quase nunca recebem um lugar na memória coletiva.

Os antigos lençóis bordados pertencem a esse universo discreto. Foram confeccionados muito antes da partida, quando as jovens italianas preparavam o enxoval imaginando um casamento na própria aldeia, sem suspeitar que o destino lhes reservaria um continente distante. Em muitos casos, essas peças atravessaram o oceano dobradas dentro de um baú de madeira e permaneceram por décadas nas casas simples das colônias brasileiras, sobrevivendo ao tempo, às mudanças e às gerações. Não eram valiosas pelo tecido, mas pelas mãos que as bordaram e pelas histórias que passaram a guardar.

Resolvi escrever esta crônica porque, depois de décadas visitando museus da imigração, pesquisando arquivos históricos, conversando com descendentes e lendo cartas, bilhetes e memórias deixadas pelos pioneiros, compreendi que a verdadeira grandeza daquela epopeia também repousa nesses detalhes quase invisíveis. Muitas vezes, uma peça de linho cuidadosamente dobrada revela mais sobre uma família do que um documento oficial. Há emoções que não cabem nas estatísticas nem nos relatórios históricos. Permanecem escondidas nas pequenas coisas que atravessam o tempo em silêncio.

Os personagens desta narrativa são fictícios, assim como suas famílias. Entretanto, o contexto histórico, os costumes descritos e o significado atribuído ao enxoval refletem práticas autênticas da imigração italiana do século XIX, preservadas por relatos familiares, documentos e pela memória de inúmeras comunidades de descendentes espalhadas pelo Sul do Brasil.

Escrever sobre esses lençóis foi, para mim, uma forma de prestar homenagem às mulheres que quase nunca aparecem como protagonistas da História. Enquanto os homens derrubavam a floresta e abriam caminhos, elas preservavam aquilo que nenhuma tempestade podia destruir: a memória da família. Talvez seja justamente por isso que alguns dos maiores tesouros da imigração italiana nunca tenham sido feitos de ouro, mas de linho, linha e paciência. E talvez a verdadeira herança deixada por aquelas mulheres não esteja apenas nos bordados que sobreviveram, mas na delicadeza com que ensinaram seus descendentes a compreender que o amor também pode ser transmitido de geração em geração, dobrado cuidadosamente dentro de um velho baú.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta


👉 Se esta crônica despertou lembranças de sua família, compartilhe-a. Cada leitura ajuda a preservar a memória das mulheres e dos homens que trouxeram consigo não apenas um enxoval, mas uma história de coragem, amor e esperança.


segunda-feira, 20 de janeiro de 2025

História de Vida: A Jornada dos Emigrantes



 

História de Vida: 

A Jornada dos Emigrantes


Em 1888, Giovanni e Maria, um jovem casal de agricultores, viviam em Pederobba, um pequeno município na província de Treviso. Com dois filhos pequenos, Luca de seis anos e Sofia de quatro, eles enfrentavam a dura realidade da vida no campo, onde a terra, outrora fértil, começava a falhar. A unificação da Itália trouxe consigo uma crise econômica avassaladora, deixando muitas famílias na pobreza e sem perspectivas.

Giovanni, um homem forte e dedicado, sempre acreditou que o trabalho árduo poderia mudar suas vidas, mas com o passar dos anos, a escassez de trabalho e a miséria crescente abalaram suas convicções. Maria, uma mulher carinhosa e de espírito resiliente, partilhava da preocupação do marido, mas mantinha viva a esperança de um futuro melhor para seus filhos.

Ao ouvir relatos de outros emigrantes que partiram para o Brasil, um país de oportunidades e terras férteis, Giovanni decidiu que era hora de buscar um novo começo. Com o coração apertado, venderam suas poucas posses e se prepararam para a longa jornada rumo à Colônia Dona Isabel, no estado do Rio Grande do Sul.

A viagem de navio foi extenuante e cheia de incertezas. Luca e Sofia, apesar de jovens, sentiam a ansiedade de seus pais e perguntavam constantemente quando chegariam ao novo lar. Giovanni tentava acalmá-los, prometendo que logo estariam em uma terra onde poderiam correr livremente e ajudar na lavoura. Maria, com lágrimas nos olhos, rezava em silêncio, pedindo proteção para sua família.

Após semanas de viagem, finalmente chegaram ao Brasil. A Colônia Dona Isabel, rodeada por montanhas e florestas densas, era um lugar cheio de desafios. As dificuldades iniciais foram muitas: a adaptação ao clima, a falta de infraestrutura e o isolamento. No entanto, Giovanni e Maria, com o apoio mútuo e a força da comunidade de outros imigrantes, começaram a construir sua nova vida.

Giovanni trabalhava de sol a sol, limpando a mata, plantando e construindo sua casa de madeira. Maria cuidava dos filhos e ajudava no que podia, além de ensinar Luca e Sofia a valorizar cada pequeno progresso que faziam. As crianças, envoltas nas tradições da terra natal, cresceram falando o dialeto vêneto, a língua comum entre os imigrantes. A convivência com outras famílias italianas manteve viva essa herança linguística, e o português, embora presente no Brasil, só começou a ser aprendido mais tarde, na idade adulta, quando a integração com a sociedade brasileira se tornou mais necessária.

Com o passar do tempo, a família começou a prosperar. A terra, trabalhada com cuidado e dedicação, começou a dar frutos. A pequena casa, inicialmente modesta, foi sendo ampliada, e a vida, antes marcada pela incerteza, passou a ser pautada pela esperança.

Giovanni e Maria, embora sentissem saudades da Itália, agora reconheciam que a decisão de emigrar havia sido a melhor escolha para garantir um futuro melhor para seus filhos. O sacrifício, as lágrimas e o suor não foram em vão. Na Colônia Dona Isabel, eles encontraram não apenas uma nova terra, mas um novo lar, onde o passado italiano se misturava com o futuro brasileiro, criando uma identidade única e plena de orgulho e realização.



quinta-feira, 14 de novembro de 2024

La Dona e la Spartission de la Tera in Zona de Colonisassion Taliana nel Rio Grande do Sul


La Dona e la Spartission de la Tera in Zona de Colonisassion Taliana nel Rio Grande do Sul


Ne le zone coloniai taliane del Rio Grande do Sul, la spartìa dei beni tra i fiòi e le fiole faceva parte de na tradission che seguiva regole pròprie. La tera, el ben più presioso, zera quasi sempre destinà ai fiòi mas’ci. Par lori, el toco de tera era un’eredità garantìa, tanto che quando un fiol se sposava, el zera sovente premià con i campi da coltivar e con na colónia, dove metèr su casa.

La dona imigrante taliana, con 'l so laoro stragrando, laorava spala a spala co 'l òmo, par mantegner la proprietà e far crèssere i tanti fiòi. Lei la ze stà responsàbile direta par el sussesso de l'imigrassion taliana in ‘ste tere gauchas e par conservar la cultura de la so tera natal, che la zera trasmessa ai fiòi, la ze rivà fin ai nostri dì.

No stante tuto sto impegno, a la dona no ghe vegniva quasi mai riconossùo el dirito a la tera, o, quando 'sta roba capitava, el so parte ne la spartission l'era quasi sempre minore de quel che rivea l'òmo. La tera rara volta faceva parte de l'eredità de la dona imigrante in zona coloniale taliana del Rio Grande do Sul. Se gavea fradèi, per eredità, lei no diventava parona de gnanca un tochetin de tera, se no quando la restava védova o, se ancora scapola e con i veci morti, la restava fiola ùnica, senza fradèi.

Quando capitava la morte de uno de i genitori, la proprietà coloniale, lassada come ùnica eredità, la zera divisa fra i fiòi mas’ci. E quando ‘sta spartission, che dava poca tera a cada uno, lori i la sistemava spesso fra de lori, ma no sempre in pase, comprando el toco de l’altro per cavar l'ostacoli. Par evitar ste desavenze, e se la famèia gavea i messi giusti, i veci cercava, ancora che lori zera vivi, de catar tera par i fiòi mas’ci, uno a uno, man man che i se maridava e formava la so famèia.

Par le tose, quando lore i se sposava, ghe dava en dota, ogni tanto na màchina de cusir e, quasi sempre, na muca da late. Le famèe più riche ghe catava già la tera par i fiòi quando ancora i zera putèi, ani prima che i pensasse al matrimónio. Qualche volta, in famèe pì riche, ghe dava anca due bò ancora picinin, o vedèi, che lori i adestrava pian pian par vardàrli pronti par el futuro, quando lori i sarà òmini paroni de famèia.

La spartission de i beni lassài per eredità se basiava su na division disegual che quasi mai favoriva la dona. Quando un fiol se sposava, el ricivea un toco de tera, quasi sempre una colónia, par laorar e farse la so casa. I genitori la comprava quasi sempre de un visino e, quando no l’aveva, i comprava anca in posti pì lontan. La fiola, poareta, se la gavea fortuna, ricevea qualcosa per la dota: coverte, tovaglie, robe par la cusina, ogni tanto una màchina de cusir o una muca da late. El interessante el ze che parte de ‘sta dota la cusìa lore stesse, con ani de fatiche de note, nei momenti lìbari, spesso tante volte pagà con i pochi schei messi da parte e risparmià con i laoreti par qualquedun o con el guadagno de qualche venda al marcà de ovi o altre robe da lore coltivà.

quinta-feira, 27 de abril de 2023

A Jornada Épica dos Imigrantes Italianos: Desbravando Novos Mundos





𝐀 𝐄𝐌𝐈𝐆𝐑𝐀𝐂̧𝐀̃𝐎 𝐈𝐓𝐀𝐋𝐈𝐀𝐍𝐀


"Digam à eles que deixamos os patrões na Itália e agora somos donos de nossas vidas, temos quanto queremos para comer e beber, além de bons ares, e isto significa muito para mim. Eu também não queria estar mais na Itália, sob aqueles patrões velhacos. Aqui, para encontrar autoridade, são necessárias seis horas de viagem". Trecho de carta de um imigrante italiano na Colônia Caxias, Rio Grande do Sul, enviada para seus familiares na Itália. 





A emigração italiana iniciou em um momento delicado. Por volta de 1860 a 1870, a Itália acabara de concluir a luta pela unificação política, período conhecido como Risorgimento que se caracterizou por muita agitação, lutas armadas e mudanças na política. Sua economia era em grande parte agrária e sofria com o avanço, cada vez mais agressivo, do capitalismo. É nesse contexto que devemos entender o que foi esse verdadeiro êxodo que no curso de alguns anos despovoou a zona rural do país. Foi sem dúvida uma emigração que visou a sobrevivência. Entre 1850 e 1920, mais de um milhão e meio de imigrantes vieram para o Brasil, especialmente São Paulo, para trabalhar como agricultores nas fazendas de café. Alguns fazendeiros notaram que a escravidão estava condenada, e vários experimentos foram realizados com mão de obra provinda da Europa desde os anos 1840 e 1850. Essas experiências foram quase sempre abandonadas devido à resistência dos imigrantes ao grau de exploração que lhes era imposto. A imigração italiana foi de importância decisiva para a história do Brasil. Ela não apenas contribuiu para o progresso econômico do país, mas também para importantes mudanças sociais e culturais. A unificação da Itália e as transformações capitalistas prejudicaram substancialmente os mais pobres da população, forçando-os a emigrar. Muitos trabalhadores rurais ou mesmo pequenos proprietários de terras não conseguiam mais sobreviver com o produto do cultivo de suas terras. Isso ocorria porque eles não podiam competir com os grandes proprietários de terras que forneciam produtos a preços mais baixos no mercado. Além disso, os pequenos proprietários pagavam taxas muito altas de impostos sobre a terra, sem recursos financeiros para tomar empréstimos, o que os tornava cada vez mais endividados. Para os fazendeiros de café do Brasil, o trabalho escravo era a base da produção agrícola e a sua extinção prejudicava muito seus interesses econômicos. 
Com a desintegração do sistema escravagista, a elite cafeeira de São Paulo encorajou a imigração principalmente a partir da Lei do Ventre Livre de 1871. A escassez de escravos já era um problema desde 1850, com a proibição do tráfico de escravos, a Lei Eusébio de Queirós.  
Para os fazendeiros de café do Brasil, o trabalho escravo era a força que movia toda a produção agrícola. A imigração italiana foi fundamental para suprir a demanda de mão de obra após a abolição da escravidão. As leis provinciais de 30 de março de 1871 e 26 de abril de 1872 ajudaram os fazendeiros paulistas a atrair trabalhadores imigrantes, autorizando um apoio financeiro de até 900 contos para as despesas de viagem dos imigrantes. Assim, a imigração subsidiada para São Paulo começou. A miséria que arruinou o campo italiano e a coragem de deixar o país revelaram que o ato de emigrar não apenas implicava em "fazer a América", ou "fare la cucagna", como muitas vezes se dizia. Os emigrantes não eram, em geral, aventureiros em busca de riqueza fácil, mas sim partiam do seu país como forma de se defender contra as condições cruéis impostas pela solidificação do capitalismo no campo italiano. Muitos desses pobres imigrantes diziam: "me vao in Mèrica par magnar" ou "eu vou para a América para poder comer". A imigração representou para a Itália uma solução para a crise de desemprego que assolava o país desde 1870. Em São Paulo e em outros estados do sudeste, a imigração apareceu como uma solução para a desagregação do trabalho escravo nas fazendas. Nos estados do sul, iniciando pelo Rio Grande do Sul, a imigração foi a solução encontrada para povoar grandes extensões de terras, em zonas parcamente habitadas mais próximas de outros países, e, simultaneamente, colonizar a vasta região isolada e ainda coberta de florestas, criando polos de produção agrícola nas colônias criadas, capazes de suprir de alimentos os centros maiores, escoando a produção pela farta rede fluvial vizinha. O lento desenvolvimento industrial na Itália também favoreceu a emigração. Segundo Candeloro, "a emigração foi crucial para o desenvolvimento socioeconômico (...) no período que viu o lançamento do noroeste industrializado da Itália, e continuou como uma condição para o desenvolvimento econômico devido ao desequilíbrio estabelecido entre o norte e o sul do país". 
No início do século XIX, a economia italiana era essencialmente agrícola. Muitas regiões italianas ainda apresentavam características semi-feudais e feudais no período da unificação por volta de 1870. O norte do país era mais industrializado, a agricultura capitalista havia moldado a região, ao contrário do sul, onde a agricultura ainda mostrava vestígios de servidão. A burguesia industrial e comercial, mesmo após a unificação italiana, tinha pouca participação na classe política porque era composta de grandes e médios proprietários de terras. Levou vários anos para o grupo alcançar o controle econômico e político burguês do país, deixando o estado para a fase de acumulação essencialmente industrial. Em áreas com aspectos feudais predominantes, a emigração ocorreu em grande escala. Essas características limitavam qualquer mudança estrutural e a única saída para a população excedente era emigrar. 
Na região do Vêneto a produção rural dependia do trabalho de toda a família. A mão de obra era basicamente dividida em dois grupos: aqueles que trabalhavam para si mesmos, ou seja, os pequenos proprietários de terra, locatários ou meeiros, e aqueles que trabalhavam como empregados. Dentro deste último grupo estavam os braccianti ou trabalhadores braçais, que podiam ser fixos, vinculados à propriedade por meio de um contrato anual, ou temporários diaristas, que trabalhavam apenas em momentos de grande necessidade de mão de obra e recebendo um pagamento diário. Os braccianti, pelo excesso disponível eram os trabalhadores rurais mais explorados. Os pequenos proprietários de terra, locatários ou meeiros vênetos formaram o primeiro contingente de imigrantes. Eles foram os primeiros a deixar a Itália devido às precárias condições de vida. A região do Vêneto durante a fase inicial do grande êxodo pode ser descrita da seguinte forma: o campo era dividido em pequenos lotes com fileiras de árvores onde se agarram às videiras, enquanto os espaços entre elas eram de 8 a 12 metros de largura, eram quase sempre arados e plantados com cereais. O campo reflete fielmente em sua aparência externa o regime de produção imposto pelas condições sociais da região. Ele fornece aos proprietários milho e vinho, aos trabalhadores milho e muito pouco combustível para alimentar os dois animais que, no entanto, precisam arar e fertilizar o solo já tão esgotado. 
O camponês vêneto que possuía terras era praticamente autossuficiente. O trabalho agrícola quase sempre estava associado à indústria doméstica de tecidos ou artigos de vime e palha. A pequena propriedade lhes deu uma ilusão de independência, mas não aconteceu muito progresso depois da unificação, antes pelo contrário viram as suas economias minguarem. As famílias vênetas viviam em pequenos lotes de terra que lhes pertenciam. Eram em média compostas por doze a quinze pessoas, geralmente com dois ou três homens, suas esposas e filhos capazes de trabalhar. O pai era a autoridade máxima e quando ele não podia mais manter o controle, era substituído por seu filho mais velho. Todos se mantinham juntos enquanto a propriedade conseguia fornecer os recursos necessários para a sobrevivência de todos. Eles se alimentavam diariamente principalmente de polenta de farinha de milho, às vezes misturada com algum tipo de verdura. Os pequenos proprietários que eram responsáveis por até seis pessoas tinham em média uma mesa um pouco mais farta, com ovos, vegetais, mesmo assim, raramente comiam carne, quando comiam era de porco, galinhas, peixe, a carne bovina era usada para festas ou quando estavam doentes. 
A emigração italiana representou uma solução para a crise de desemprego que assolou o país desde 1870. Na verdade, as condições de vida dos pequenos agricultores, locatários e meeiros eram praticamente as mesmas condições dos pobres braccianti. Muitos eram forçados a deixar suas terras e trabalhar em outras propriedades para conseguir levar o sustento para a família. Entre eles, era comum a divisão da terra quando os filhos se casavam e isso era repetido geração após geração, retalhando a propriedade em lotes cada vez menores tornando-os assim produtivamente deficitários, não suprindo mais as necessidades das famílias. Este foi um dos principais motivos para o enfraquecimento das famílias e consequente empobrecimento. Até 1885, grandes regiões do Vêneto, onde primeiro se começou a emigrar, tais como Belluno, Treviso, Udine e Vicenza, que eram predominantemente compostas por montanhas e colinas. Em Udine, havia um proprietário para cada dois residentes, um para cada três em Belluno, um para cada quatro em Vicenza, e as propriedades eram insuficientes para sustentar uma família. 
Algumas regiões italianas, especialmente o Vêneto, destacaram-se por serem os principais fornecedores de mão-de-obra para São Paulo, Espírito Santo e para os estados do sul do país. Essa situação era agravada pela falta de melhorias técnicas na agricultura, com métodos de cultivo antiquados já de muito ultrapassados os altos impostos, a variação do clima, as catástrofes naturais, como a devastação das florestas que prejudicavam o sistema fluvial, levando a inundações nas planícies e avalanches nas zonas elevadas. Nas regiões montanhosas e de colinas, a falta de chuvas abalou a já escassa produção agrícola, que sempre fora de subsistência. Agravando o quadro pintado no período de 1873 a 1895, o panorama internacional foi marcado pela crise agrária ou "grande depressão" em todos os países da Europa. Essa crise precipitou a transição do antigo capitalismo individualista de livre concorrência para o capitalismo monopolista imperialista. Este foi um período de amargas lutas pelos mercados consumidores muito disputados, que afetaram a Itália em um cenário dramático de sua unificação política. A agricultura foi duramente afetada pela concorrência de produtos semelhantes importados de outros países que chegavam a preços muito abaixo dos praticados no país como o trigo americano e russo que, apesar do frete, era oferecido a preços muito abaixo do custo de produção na Itália. Assim, como decorrência a produção de trigo declinou, levando consigo o cultivo de outras commodities da agricultura italiana, como milho, arroz e oleaginosas. Portanto, os produtores agrícolas perderam seu lugar no mercado e sua única alternativa foi deixar o campo, afetados por competidores mais poderosos. O jornal L'Amico del Popolo, em 1882, publicou um artigo observando que mais de 20.000 pequenos proprietários haviam desaparecido da Itália naqueles anos, e certamente todos teriam emigrado para a América. Os emigrantes vênetos não deixaram a Itália com a esperança de retornar, como aqueles do sul. Eles foram obrigados a abandonar tudo o que possuíam, animais, utensílios domésticos. Partiam após a colheita do trigo no outono, entre setembro e novembro. Portanto, o primeiro contingente de trabalhadores que chegou a São Paulo foi composto por esses imigrantes. O sistema de assentamento no Brasil igualou todos os imigrantes a um único padrão, as características peculiares do primeiro contingente de imigrantes foram esquecidas. Nos contratos de trabalho, não foram considerados aspectos individuais. O sistema de assentamento acabou com as diferenças externas entre os inquilinos, os meeiros e outros, mas não com a organização interna das famílias, seus hábitos culturais, valores para os camponeses. Os imigrantes italianos assentados nas colônias do sul do país, criadas especialmente para recebê-los eram predominantemente vênetos, lombardos e tiroleses e experimentaram outro tipo de imigração, diferente daqueles que foram para o sudeste do país. No sul do Brasil, imediatamente após a chegada, os imigrantes puderam adquirir por preços bem baixos os seus lotes de terra, por financiamento do próprio governo, com prestações durando vários anos contados após um período de carência de dez anos. Eram áreas enormes, a maioria delas cobertas de mata virgem, da qual tiraram a madeira para a construção de suas casas, cercas, galpões e lenha para os fogões. Na Itália eles jamais poderiam ter sonhado com esta fartura de espaço, com áreas que variavam de 25 a 50 hectares cada uma, no início da colonização. Assim, desde a chegada eles puderam trabalhar nas suas próprias terras, não precisando mais dividir com ninguém o resultado das suas colheitas. Agora não eram mais empregados, não obedeciam mais a um patrão, como tinham feito durante todas as suas vidas, gerações após gerações, no país natal. O sonho da propriedade, um dos fortes motivos que os impulsionou abandonarem a Itália, estava sendo realizado em terras gaúchas. Essa foi, sem dúvida, a grande diferença ocorrida com o processo de imigração italiana implantada no sudeste do país.



Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta
Erechim RS






segunda-feira, 12 de março de 2018

A Herança da terra na zona colonial do Rio Grande do Sul



A mulher imigrante vêneta, ou italiana, com o seu trabalho árduo, participava em pé de igualdade com o homem, na manutenção da propriedade e na educação dos numerosos filhos. Ela foi a responsável direta pelo sucesso da imigração italiana em terras gaúchas e pela conservação da cultura originária, que ao passar para os filhos, pode se conservar até os nossos dias.

Apesar de toda essa importância, à mulher vêneta imigrante, não era reconhecido nenhum direito à terra. A terra não fazia parte da herança da mulher imigrante na zona colonial italiana do Rio Grande do Sul. Se tivesse irmãos, por herança ela nunca se tornava proprietária de um pedaço de terra, o que podia acontecer somente quando ficava viúva ou, se solteira, com a morte dos pais, fosse filha única ou não ter irmãos.

Quando acontecia o falecimento de um dos pais, a propriedade rural, deixada como herança, era dividida somente entre os filhos homens.

Também a divisão dos bens deixados como herança obedecia a uma divisão desigual que quase nunca favorecia a mulher. Quando o filho casava recebia um pedaço de terra para trabalhar e construir a sua casa e a filha, quando muito, recebia alguma coisa para o enxoval. Parte deste foi confeccionado por ela mesmo, em anos de trabalho de noite, no tempo livre e pago desde moça, com pequenos trabalhos manuais ou recursos de pequenas vendas no mercado.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta
Erechim RS