O Pão, o Fogo e o Castelo
A vida de uma família camponesa em Exilles no inverno de 1340
"Antes da peste, antes das grandes guerras, havia simplesmente a luta de uma família para chegar viva à primavera."
Exilles, Alta Val di Susa, janeiro de 1340
Naquele janeiro de 1340, a neve chegou antes do amanhecer e continuou caindo depois que a noite já havia tomado conta das montanhas. Não era uma neve delicada, dessas que pousam sobre os telhados como um véu. Era uma neve pesada, persistente, empurrada pelo vento contra as paredes, acumulando-se nos beirais, tapando os caminhos e fazendo desaparecer, pouco a pouco, as marcas dos passos do dia anterior. Exilles parecia encolhida dentro da própria montanha. O pequeno povoado, apertado entre as encostas da Alta Val di Susa, vivia à sombra da grande fortificação erguida sobre a rocha. O castelo dominava a passagem como se tivesse sido colocado ali não apenas para vigiar homens, cavalos e mercadorias, mas para lembrar a todos que naquela estreita garganta dos Alpes havia alguém acima de todos os outros. A estrada do Monginevro, que subia em direção às terras além das montanhas e à Provença, era uma das razões de existir daquele lugar. Por ela passavam homens armados, mercadores, viajantes, animais de carga e notícias de terras distantes. No verão, a estrada trazia movimento. No inverno, muitas vezes trazia apenas silêncio. O castelo, porém, permanecia. Em 1339, apenas um ano antes dos acontecimentos desta história, uma descrição já registrava a complexidade de sua estrutura: muralhas, torres, dependências, armazéns, estábulos e espaços defensivos capazes de acolher os habitantes e seus animais em caso de ameaça. Era mais que uma casa senhorial. Era uma fortaleza de estrada. E, para os pobres que viviam abaixo dela, era também a presença permanente de um poder que não precisava aparecer todos os dias para ser lembrado. Na parte mais baixa do povoado, onde a neve era pisada até transformar-se numa lama congelada, havia uma pequena morada que pouco diferia das demais. Suas paredes eram de pedra irregular misturada a terra e materiais vegetais; a madeira sustentava parte da estrutura e, sobre ela, placas de pedra — as lose, as lajes tão características das construções alpinas — protegiam o teto. Não era uma casa como imaginamos hoje quando dizemos casa. Era abrigo. Era lugar de dormir, cozinhar, guardar o pouco que possuíam, proteger os animais e esperar que o inverno terminasse. Ali vivia Peire, de trinta e um anos. Nos registros de uma época em que os nomes ainda não obedeciam às regras dos cartórios modernos, poderia aparecer como Peire, filho de Arnaut, ou Peire de Exilles. O homem que o chamava pelo nome não precisava de mais nada para saber quem ele era. Peire era casado com Auda, de vinte e nove anos. Tinham um menino de sete anos, Guilhem, e uma menina de quatro, Alix. Com eles vivia também a mãe de Auda, Ysabel, viúva de cinquenta e cinco anos. Cinquenta e cinco anos não significavam necessariamente velhice, mas naquele mundo de doenças, acidentes, trabalho físico, alimentação irregular e mortes precoces, uma mulher daquela idade era vista como alguém que já atravessara uma parte considerável da vida. Ysabel carregava o corpo curvado não apenas pela idade, mas por anos de trabalho. Suas mãos tinham a pele grossa e rachada, e havia nelas a memória de incontáveis invernos. Depois da morte do marido, não possuíra outra alternativa senão juntar-se à filha. Não trouxera dote, terras ou dinheiro. Trouxera apenas duas coisas: experiência e braços ainda capazes de trabalhar. Naquele mundo, isso já era alguma riqueza. Dentro da pequena casa havia pouco espaço. A família dormia sobre palha seca colocada sobre uma estrutura rudimentar de madeira. Havia um fogo no centro ou junto a uma das paredes, dependendo da disposição da morada, e a fumaça encontrava saída por uma abertura imperfeita. O ar era pesado. Cheirava a fumaça, lã, couro, palha, comida, suor e animais. O inverno obrigava os pobres a aceitar aquilo que em outra estação pareceria insuportável. Uma pequena cabra permanecia dentro do abrigo durante parte da noite. Algumas aves tinham lugar junto à parede. Quando o frio se tornava demasiado severo, os animais eram mantidos tão perto da família quanto a organização da casa permitia. Isso não era uma peculiaridade universal das casas alpinas — a convivência entre pessoas e animais variava muito de região para região —, mas soluções de abrigo conjunto eram conhecidas em ambientes rurais e montanhosos, sobretudo para proteger o gado durante os meses mais difíceis. Para Peire, porém, os animais significavam mais do que calor ou companhia. Uma cabra era leite. Uma galinha era ovo. Um porco, se houvesse um, poderia representar alimento para semanas. Um animal perdido durante o inverno não era uma perda sentimental. Era uma parte da sobrevivência da família arrancada de suas mãos. O frio era um inimigo, mas a fome era ainda pior. O homem conhecia bem a diferença entre ambos. O frio podia ser enfrentado com fogo, palha, lã, pele e proximidade. A fome não obedecia a nenhuma dessas coisas. O inverno começara muito antes de janeiro. Durante o verão, Peire havia cortado capim e ajudado a recolher feno. Auda havia trabalhado na horta e nos pequenos cultivos, além de cuidar das crianças, dos animais e das tarefas da casa. Ysabel conhecia o segredo de conservar aquilo que podia ser conservado: secar, salgar, guardar, economizar. No entanto, nenhuma família pobre armazenava comida suficiente para esquecer o medo da primavera. Todos sabiam que os últimos sacos de cereal deveriam ser administrados com prudência. Um pouco a mais por dia significava uma semana a menos de alimento no fim da estação. O grão era contado quase como se contavam as moedas. E, quando o pão diminuía, aumentava a importância da sopa, das raízes, dos cereais misturados, do leite, das ervas secas e de tudo aquilo que pudesse preencher o estômago. A vida camponesa medieval não era feita apenas de agricultura. Era uma luta permanente para combinar terra, criação de animais, lenha, água, conservação de alimentos e trabalho. Naquela manhã, Peire acordou antes dos demais. Não porque tivesse relógio. Não porque alguém tivesse tocado um sino para chamá-lo. Acordou porque o corpo aprendera a reconhecer a hora pelo frio, pela respiração, pelo silêncio e pela necessidade. O fogo havia diminuído. A madeira que restava era pouca. Peire permaneceu alguns instantes imóvel, ouvindo o vento bater contra a casa. Ao lado dele, Auda dormia. Mais adiante, o menino Guilhem estava encolhido sob uma cobertura de lã. Alix dormia junto da mãe. Ysabel respirava devagar. Peire estendeu a mão e sentiu o frio no ar. Depois levantou-se. Não havia escolha. O trabalho esperava. Mesmo no inverno. Mesmo com neve. Mesmo quando a terra parecia morta. Naquelas montanhas, o senhor não desaparecia porque a neve cobria os campos. O castelo continuava precisando de lenha, animais alimentados, caminhos conservados, paredes reparadas, mercadorias transportadas e homens disponíveis para os serviços que lhes eram exigidos. Exilles fazia parte do domínio delfinal. O poder superior pertencia então a Humberto II de Viennois, Delfino de Viennois, que sucedera ao irmão Guigues VIII em 1333. Humberto II não vivia naquela pequena casa. Tampouco permanecia habitualmente em Exilles. O poder senhorial era exercido por uma cadeia de autoridades, oficiais e castelães. A ordem podia vir de muito longe e, ainda assim, chegar à porta de um camponês. Era esse um dos grandes mistérios do mundo medieval: homens que jamais haviam visto o rosto do soberano podiam passar a vida inteira obedecendo às consequências de decisões tomadas por ele. Peire conhecia bem essa realidade. Não se considerava escravo. Tinha seus filhos. Tinha sua pequena morada. Possuía algumas ferramentas. Cultivava aquilo que lhe era permitido cultivar e criava seus animais. Mas também sabia que sua vida não lhe pertencia inteiramente. Havia censos, obrigações, jornadas de trabalho e deveres comunitários. Os habitantes das comunidades alpinas do Delfinado já haviam conquistado certas franquias e direitos que diferenciavam sua situação de uma servidão absoluta. Ainda assim, a dependência política e econômica era concreta, e o poder senhorial podia pesar sobre decisões fundamentais da existência. Peire lembrava-se particularmente do dia em que pedira autorização para casar-se com Auda. Ela não era de Exilles. Vinha de uma aldeia vizinha. Hoje, um casamento entre dois jovens de comunidades próximas pareceria uma questão pertencente apenas às famílias e à Igreja. Naquele mundo, porém, as obrigações senhoriais podiam interferir profundamente na vida dos dependentes. Peire precisara apresentar seu pedido, explicar de onde vinha a mulher, quem eram seus pais e qual seria sua condição. Esperara. Temera. E só depois de obtida a autorização necessária pôde levar Auda para sua casa. Talvez ninguém naquele dia tivesse pensado no amor. Ou talvez o amor estivesse precisamente naquilo que nenhum documento registrava: a insistência de Peire em conseguir aquela mulher, a espera de Auda, o medo das duas famílias e a esperança de construir uma vida juntos. Porque os pobres também amavam. Apenas tinham menos espaço para permitir que o amor desafiasse as circunstâncias. Auda não perguntava ao marido se ele amava o castelo. Sabia que não. Sabia também que ele o respeitava. Não por admiração. Por necessidade. O homem que dependia da terra do senhor aprendia cedo a diferença entre respeito, medo e prudência. Peire não era rebelde. Tampouco era submisso de coração. Era prudente. E a prudência era uma forma de sobrevivência. Depois de alimentar os animais, saiu. A neve chegava-lhe quase aos joelhos em alguns pontos. O menino Guilhem queria acompanhá-lo, mas Peire mandou que permanecesse em casa. — Ainda não, filho. Um dia você irá. Mas hoje fique com sua mãe. Guilhem ficou olhando o pai desaparecer na brancura. Tinha sete anos e já conhecia a palavra trabalho. Não conhecia ainda a palavra futuro. Para ele, futuro era aquilo que aconteceria depois que o pai voltasse. Peire caminhou até a área onde outros homens já começavam suas tarefas. Alguns carregavam lenha. Outros limpavam trechos de passagem. Havia serviços relacionados ao domínio senhorial e às necessidades da fortificação. A própria construção e manutenção das estruturas defensivas de Exilles envolvera o trabalho dos montanheses, inclusive através de corveias, como mostram referências históricas à participação dos habitantes locais nos trabalhos da fortaleza. Naquele dia, Peire deveria ajudar no transporte de madeira. Não era um trabalho heroico. Não haveria canções sobre aquilo. Não haveria cronistas anotando seu nome. Um homem cortava. Outro carregava. Um terceiro abria passagem. As mãos rachavam. O couro das botas endurecia. A neve entrava pelas roupas. Ao meio-dia, ninguém sabia se havia realmente passado metade do dia ou apenas algumas horas. O sol, quando aparecia, não aquecia. E quando as montanhas o escondiam, o frio parecia subir do chão. Enquanto os homens trabalhavam, o castelo permanecia acima deles. Grande, escuro, imóvel. Peire olhou para suas muralhas e pensou que aquele lugar tinha pedra suficiente para atravessar muitas gerações. Ele talvez não. Auda talvez não. Guilhem talvez. Alix talvez. As pedras sobreviveriam a todos eles. Essa ideia o assustava. Porque significava que a vida de um homem pobre podia passar como passa a fumaça por uma abertura no teto. Por um instante está ali. Depois desaparece. Na casa, Auda ocupava-se das crianças. Alix começara a tossir. Não era uma tosse grave, mas toda doença em uma casa pobre era recebida com inquietação. Auda aproximou a menina do fogo e cobriu-lhe os ombros. Ysabel preparou uma bebida quente com aquilo que possuíam. Ervas, água, alguma coisa que pudesse aliviar a garganta. Não havia médico à porta. Não havia farmácia. Não havia promessa de cura. Havia experiência, fé e tentativa. A religião penetrava todos os aspectos daquela existência. Deus não estava distante como uma ideia teológica. Estava no pão, na doença, no parto, na morte, no medo da tempestade, na colheita, na viagem de um parente e no sino da igreja. O cristianismo medieval oferecia explicações para o sofrimento que a vida cotidiana não conseguia explicar. Auda rezava porque não rezar seria quase impossível. Ysabel rezava porque já enterrara o marido. Peire rezava porque precisava acreditar que o trabalho de suas mãos não terminaria simplesmente no silêncio. Guilhem rezava porque aprendera com a mãe. E Alix, pequena demais para entender a teologia, juntava as mãos porque via os outros fazendo o mesmo. À noite, a família se reunia em torno do fogo. O jantar era simples. Não havia abundância. O pão precisava durar. A sopa precisava alimentar cinco pessoas. O pouco leite disponível deveria ser dividido. Peire chegou cansado. Sentou-se. Tirou as botas. Auda olhou para as mãos dele. — Estão sangrando. — Não é nada. Ela não respondeu. Sabia que era algo. Só não havia o que fazer. O silêncio daquela família era feito de coisas que não podiam ser consertadas. Guilhem perguntou ao pai se um dia teria um animal só seu. Peire olhou para ele. — Se Deus quiser. Era assim que se falava do futuro. “Se Deus quiser.” Não havia mapas de carreira. Não havia escolas esperando por crianças pobres. Não havia certeza de que Guilhem seria mais rico que o pai. Talvez fosse camponês. Talvez pastor. Talvez ajudante de um artesão. Talvez soldado. Talvez morresse antes de chegar aos vinte anos. O futuro de uma criança camponesa era uma estrada coberta de neve: podia-se enxergar apenas os primeiros passos. Auda perguntou a Peire se a neve continuaria. — Amanhã talvez pare. — E depois? — Depois teremos de trabalhar. Ysabel sorriu sem humor. — É isso que existe depois. Trabalho. Peire olhou para ela. A velha viúva tinha cinquenta e cinco anos e conhecia a verdade daquela frase melhor que todos. Na juventude, talvez tivesse sonhado. Depois casara. Tivera filhos. Trabalhara. Enterrara o marido. Agora ajudava a filha. O mundo lhe ensinara que a vida raramente perguntava o que uma pessoa desejava. Quase sempre perguntava apenas o que ela conseguia suportar. A noite chegava cedo. Aqui, porém, é preciso imaginar o céu medieval com cuidado. Não se deve dizer que o sol necessariamente se punha às três da tarde: a latitude de Exilles não permitiria isso no sentido astronômico. Mas, num vale alpino estreito, as montanhas podiam retirar a luz direta muito antes do pôr do sol, e no inverno as horas de luminosidade útil eram poucas. Sem iluminação elétrica, a noite possuía uma presença que hoje quase desapareceu. A família dependia do fogo, de pequenas chamas e de uma luz escassa. Era natural que o dia doméstico terminasse cedo. O costume conhecido em muitas fontes medievais e posteriores como primeiro e segundo sono se encaixa nesse mundo de noites longas, embora não se possa afirmar que todos dormissem rigorosamente dessa maneira. Depois da refeição, conversaram pouco. Auda verificou as crianças. Ysabel mexeu no fogo. Peire colocou mais um pedaço de madeira. A família não podia desperdiçar combustível. A lenha que ardia naquela noite fora cortada com esforço e deveria durar. O primeiro sono veio cedo. Não havia razão para permanecer acordado apenas para contemplar a escuridão. O corpo estava cansado. A casa estava fria. As pessoas deitavam-se próximas umas das outras, cobertas por lã, palha e tecidos ásperos. O sono era uma fuga temporária do mundo. Mas, horas depois, algo mudou. Peire abriu os olhos. A casa estava quase completamente escura. O fogo havia virado brasas. Durante alguns instantes ele não soube se era meia-noite ou mais tarde. Escutou a respiração dos outros. Ouviu o vento. Levantou-se devagar. Auda também despertou. — Que horas são? — perguntou. Peire sorriu. — Quem sabe? Não havia relógio. Havia apenas a noite. Esse intervalo entre o primeiro e o segundo sono é uma das imagens mais fascinantes da vida pré-industrial. Fontes históricas registram referências a um primeiro sono, seguido por um período de vigília, e depois um segundo sono até a manhã. Nesse intervalo, algumas pessoas rezavam, refletiam, cuidavam do fogo, conversavam, realizavam pequenas tarefas domésticas ou simplesmente permaneciam deitadas em silêncio. Não é correto imaginar uma regra universal, nem afirmar que todos os camponeses de Exilles faziam exatamente isso; mas a prática de sono segmentado possui evidência textual suficiente para ser incorporada com cautela a uma reconstrução histórica. Peire acrescentou uma acha ao fogo. Auda sentou-se. Ysabel também havia acordado. — Sonhei com meu marido — disse ela. Ninguém perguntou o que ele fizera no sonho. Naquele momento da noite, sonhos podiam ser lembrados e comentados com uma intensidade que hoje talvez pareça estranha. A família falou baixo. Não havia muito o que fazer. Não podiam sair pela aldeia. A noite alpina era perigosa. Não havia iluminação pública, e a escuridão transformava cada caminho em risco. Assim, aquele intervalo podia ser usado para coisas simples: rezar, conversar, cuidar do fogo, verificar uma criança, amamentar, fazer uma pequena tarefa, recordar um morto. Auda rezou. Peire ficou olhando as brasas. Ysabel falou do marido. Durante alguns minutos, os três esqueceram o castelo. Esqueceram o senhor. Esqueceram o frio. Esqueceram a dívida, o cereal e o trabalho do dia seguinte. Havia apenas aquela pequena família reunida no escuro. Depois voltaram ao segundo sono. E a manhã chegou devagar. Primeiro, uma mudança quase imperceptível no céu. Depois, a luz encontrou a parte superior das montanhas. Finalmente, a aldeia começou a recuperar suas formas. Os telhados. As paredes. A torre. A estrada. A fumaça. O mundo. Guilhem acordou primeiro. Foi até a porta e abriu uma pequena fresta. O frio entrou como uma lâmina. — Pai! — gritou. Peire já estava acordado. — O que foi? — A neve está mais alta. Peire aproximou-se. Olhou para fora. Estava mesmo. Mais uma noite havia coberto Exilles. Mais uma noite havia acrescentado peso aos telhados. Mais uma noite havia apagado os rastros. Peire respirou fundo. — Então vamos precisar trabalhar mais. Guilhem não compreendeu a gravidade daquela frase. Um dia compreenderia. A vida não mudaria porque ele desejava que mudasse. Mudaria apenas quando algo maior que sua vontade se impusesse sobre ela. Talvez uma má colheita. Talvez uma doença. Talvez uma guerra. Talvez uma oportunidade. Talvez uma morte. Talvez um casamento. Talvez uma estrada. Naquela manhã, porém, ele era apenas um menino de sete anos olhando para a neve. Peire colocou-lhe a mão no ombro. — Você vai aprender tudo o que eu sei. Guilhem ergueu os olhos. — Para ser como você? O pai demorou a responder. — Não. Para conseguir viver. A frase ficou entre os dois. Talvez fosse a coisa mais próxima de uma herança que Peire pudesse oferecer. Ao longo dos dias seguintes, a família continuou. Peire trabalhava. Auda trabalhava. Ysabel trabalhava. As crianças ajudavam conforme podiam. A neve era retirada dos acessos. Os animais eram alimentados. O pouco alimento era contado. A lenha era economizada. As mãos continuavam rachadas. O castelo continuava acima deles. O sino da igreja continuava marcando as horas que eles não podiam medir de outra maneira. E, como acontecia com tantas famílias pobres, a vida seguia sem que ninguém escrevesse sobre ela. Mas havia uma coisa que Peire começou a perceber naquele inverno. A pobreza não era somente não possuir dinheiro. Era não possuir escolha. Era acordar sabendo que alguém poderia exigir seu trabalho. Era depender da colheita, da neve, do animal, da doença e da vontade daqueles que possuíam mais poder. Era saber que o casamento precisava ser autorizado, que a terra podia estar submetida a obrigações e que uma viagem para outra aldeia podia significar abandonar tudo aquilo que se conhecia. Mas pobreza também era outra coisa. Era a capacidade de transformar quase nada em alguma coisa. Um punhado de grãos virava sopa. Um pedaço de lã virava proteção. Uma acha de lenha virava calor. Uma cabra virava leite. Um velho tecido virava coberta. Uma oração virava coragem. E cinco pessoas apertadas em uma pequena casa conseguiam, por mais uma noite, permanecer juntas. Foi assim que o inverno de 1340 passou por Exilles. Não como uma grande batalha. Não como uma história de reis. Não como uma aventura de cavaleiros. Passou sobre as casas pobres como passam todos os grandes acontecimentos da história sobre aqueles que raramente aparecem nos livros: deixando marcas profundas em pessoas cujos nomes quase nunca são lembrados. Peire não sabia que, poucos anos depois, o mundo que conhecia seria atingido por uma catástrofe que ninguém naquela pequena casa poderia imaginar. A grande peste ainda não havia chegado à Itália em 1340. A devastadora pandemia europeia só alcançaria o Ocidente a partir de 1347-1348. Naquele janeiro, portanto, Peire, Auda, Guilhem, Alix e Ysabel ainda viviam num mundo que acreditavam conhecer. O pior inimigo que conseguiam imaginar era a fome. A doença era antiga. A guerra era possível. A morte fazia parte da vida. Mas ninguém naquela casa sabia que dentro de poucos anos a morte caminharia pelas estradas que atravessavam os Alpes. Ninguém sabia que mercadores, soldados e viajantes carregariam consigo algo invisível. Ninguém sabia que as montanhas, que pareciam tão altas e tão protetoras, não eram uma barreira contra a história. Naquele momento, porém, o futuro ainda estava escondido atrás da neve. E talvez tenha sido essa a única forma de esperança que aquela família conheceu: não saber o que viria. Naquela noite, quando o primeiro sono chegou novamente, Peire ouviu a respiração de seus filhos. Auda estava ao seu lado. Ysabel dormia perto do fogo. Do lado de fora, o vento passava pelas vielas tortuosas de Exilles e batia contra as muralhas do castelo. Peire fechou os olhos. Não sabia se Guilhem teria terra. Não sabia com quem Alix se casaria. Não sabia quanto tempo Ysabel ainda viveria. Não sabia se continuaria casado com Auda por muitos anos ou se a morte os separaria cedo. Não sabia sequer se a pequena casa continuaria de pé na primavera. Mas sabia uma coisa. Naquela noite, estavam todos juntos. E, para um homem que possuía quase nada, isso talvez fosse a forma mais preciosa de riqueza que o século XIV permitia possuir.
Nota do Autor
Esta história é uma obra de ficção histórica ambientada em Exilles, na Alta Val di Susa, no Piemonte, em janeiro de 1340. Os personagens — Peire, Auda, Guilhem, Alix e Ysabel — são fictícios, assim como os acontecimentos particulares narrados em torno dessa família. Entretanto, procurei situá-los dentro das condições históricas, sociais, econômicas, religiosas e geográficas que efetivamente caracterizavam Exilles e as comunidades alpinas do século XIV.
Exilles não foi escolhida por acaso. Situada num estreito setor da Alta Val di Susa, junto à antiga rota que atravessava os Alpes pelo Monginevro em direção à França e à Provença, a localidade possuía uma importância muito maior do que seu pequeno tamanho poderia sugerir. Seu castelo era uma verdadeira fortaleza de passagem, destinado ao controle estratégico da estrada, à defesa do território e à vigilância do movimento de pessoas e mercadorias. Uma descrição de 1339, apenas um ano antes do período em que esta narrativa se desenvolve, já revela uma estrutura fortificada complexa, com muralhas, torres, dependências, estábulos, fornos, cisterna e uma capela. Portanto, quando o leitor encontra o castelo dominando a paisagem, não deve imaginá-lo simplesmente como o palácio confortável de um nobre vivendo em luxo. O Forte de Exilles medieval era, antes de tudo, uma estrutura militar e estratégica.
Outro ponto importante diz respeito à expressão “servo da gleba”. Ela foi empregada na narrativa para tornar compreensível ao leitor moderno a situação de dependência em que muitos camponeses medievais viviam. Entretanto, é necessário evitar uma associação automática com escravidão. Um camponês dependente do século XIV não era simplesmente propriedade pessoal de seu senhor. Em diversas regiões da Europa, inclusive no norte da Itália e nos territórios alpinos, existiam situações jurídicas muito diferentes entre si: homens sujeitos a censos, corveias, obrigações de trabalho, prestações em produtos, limitações de mobilidade e jurisdição senhorial, ao lado de comunidades que possuíam determinados direitos e franquias. A realidade era, portanto, muito mais complexa do que a imagem popular de um homem acorrentado à terra.
Em Exilles e no espaço delfinal, as comunidades alpinas já possuíam tradições e direitos próprios. Isso não significa que fossem livres no sentido moderno da palavra. O poder senhorial continuava presente e podia interferir em aspectos importantes da vida cotidiana. Trabalho, utilização das terras e dos bosques, obrigações econômicas, passagem de mercadorias, manutenção de caminhos e outras prestações podiam colocar o camponês numa relação de dependência bastante pesada. É nesse contexto que deve ser compreendida a situação de Peire e Auda.
Também é importante esclarecer a questão do senhor do castelo. Em 1340, Exilles fazia parte do Delfinado, e a autoridade superior era exercida por Humberto II de Viennois, o último Delfino independente, que governou o Delfinado entre 1333 e 1349. Isso não significa, porém, que Humberto II estivesse pessoalmente vivendo no castelo de Exilles. A administração cotidiana da fortificação e do território era exercida por oficiais e pelo castelão. Como não encontrei documentação suficientemente segura para identificar pelo nome o castelão que se encontrava em Exilles especificamente em janeiro de 1340, preferi não inventar um personagem histórico e apresentá-lo como se fosse verdadeiro. Na narrativa, ele permanece simplesmente como o castelão.
Outra cautela diz respeito aos nomes. No século XIV, a identificação das pessoas ainda não obedecia ao sistema moderno de nome e sobrenome hereditário que hoje conhecemos. Um homem podia ser identificado pelo nome próprio, pelo nome do pai, pela localidade de origem ou por algum apelativo. A transmissão hereditária dos sobrenomes já existia em muitas partes da Europa, mas seu uso e sua estabilidade variavam enormemente conforme a região e a condição social. Por essa razão, os nomes utilizados nesta história procuram refletir o ambiente linguístico alpino medieval sem fingir que uma família pobre de Exilles necessariamente possuísse um sobrenome fixo exatamente como uma família contemporânea.
Também não é adequado chamar simplesmente os habitantes de Exilles de “lombardos”. A região fazia parte de um espaço alpino de grande diversidade cultural e linguística. Exilles encontrava-se no âmbito histórico do Delfinado e possuía fortes características alpinas e occitanas. A língua e a identidade local não podem ser reduzidas às classificações nacionais modernas de “italianos”, “franceses” ou “lombardos”. Essas categorias, aplicadas automaticamente ao século XIV, podem produzir uma imagem histórica enganosa. Os habitantes se reconheciam de tudo por suas comunidades, vínculos familiares, territórios e relações senhoriais, dentro de um mundo político muito diferente dos Estados nacionais que surgiriam posteriormente. Como os demais habitantes de sua terra, pertencia a uma população alpina cuja fala local fazia parte do mundo occitano.
A descrição do frio e do inverno também merece uma explicação. Exilles está situada num vale alpino elevado e estreito, cercado por montanhas. A neve e o frio eram elementos reais da vida cotidiana. A ausência de iluminação elétrica e, pela pobreza em que viviam, também velas eram um luxo não permitido, fazia com que a escuridão tivesse uma importância completamente diferente daquela que possui para nós. Uma família pobre dependia essencialmente da luz do dia e, depois do anoitecer, do fogo, de pequenas chamas e de outras fontes extremamente limitadas de iluminação. Por isso, a vida doméstica podia terminar muito mais cedo do que estamos acostumados a imaginar.
É nesse contexto que aparece o chamado “primeiro e segundo sono”. Há documentação histórica indicando que, no mundo pré-industrial, era conhecido um padrão de sono dividido: as pessoas podiam dormir durante algumas horas, despertar no meio da noite e permanecer acordadas por algum tempo antes de voltar a dormir até a manhã. Durante esse intervalo, podiam rezar, conversar, cuidar do fogo, realizar pequenas tarefas domésticas ou simplesmente permanecer em repouso. Contudo, seria incorreto afirmar que todos os habitantes medievais dormiam obrigatoriamente dessa maneira, todas as noites. A história não fornece base suficiente para transformar o primeiro e o segundo sono numa regra universal. Na narrativa, ele é apresentado como uma prática possível e historicamente documentada, incorporada à vida daquela família dentro das longas noites de inverno.
A presença dos animais dentro ou junto das habitações rurais deve igualmente ser entendida dentro das condições materiais da época. Em ambientes alpinos, proteger os animais durante os períodos mais severos do inverno era fundamental. Uma cabra, uma vaca, algumas aves ou outros animais representavam alimento, leite, ovos, força de trabalho e patrimônio. A proximidade entre seres humanos e animais, portanto, não era necessariamente uma questão de conforto ou higiene segundo os padrões atuais, mas muitas vezes uma estratégia de sobrevivência.
A alimentação daquela família também foi deliberadamente apresentada sem abundância. Para a maioria dos camponeses pobres, sobreviver ao inverno significava administrar cuidadosamente aquilo que havia sido produzido ou armazenado durante as estações anteriores. Cereais, pão, leite, legumes, raízes, ervas, alimentos secos e aquilo que os animais podiam fornecer formavam uma parte importante da alimentação. A preocupação não era apenas “ter comida”, mas fazê-la durar até que a primavera permitisse retomar uma produção mais abundante.
A religião ocupava igualmente um lugar muito diferente daquele que ocupa para grande parte da sociedade contemporânea. Para aquelas pessoas, a fé não era necessariamente uma atividade reservada a determinado dia da semana. Ela estava relacionada ao nascimento, ao casamento, à doença, à morte, às colheitas, às viagens, ao clima e às incertezas da existência. Rezar pela saúde de uma criança ou pela sobrevivência durante o inverno fazia parte de uma maneira de compreender o mundo na qual o sagrado e a vida cotidiana estavam profundamente entrelaçados.
Finalmente, há uma razão histórica para a escolha do ano 1340. A história foi colocada deliberadamente alguns anos antes da Peste Negra, que alcançaria a Europa a partir de 1347 e a Itália a partir de 1348. Peire, Auda, seus filhos e Ysabel ainda vivem, portanto, num mundo anterior àquela grande ruptura demográfica. Eles não sabem o que está por vir. Essa ignorância é importante para a narrativa: enquanto se preocupam com a neve, a lenha, o alimento, o trabalho e o poder do castelo, uma transformação gigantesca ainda está escondida no futuro.
Esta é, enfim, uma história sobre pessoas que quase nunca aparecem nos grandes livros de história. Não são reis, cavaleiros ou grandes senhores. São homens, mulheres e crianças que acordavam cedo, trabalhavam com as mãos, obedeciam a autoridades superiores, criavam animais, enfrentavam o inverno, enterravam seus mortos e esperavam pela próxima primavera. Seus nomes talvez jamais tenham chegado até nós. Mas foram pessoas como elas que sustentaram, geração após geração, as pequenas comunidades alpinas que atravessaram a Idade Média.
É justamente por isso que esta história é ficção, mas não pretende ser fantasia. Onde existem documentos, eles orientam a narrativa. Onde os documentos não permitem saber exatamente o que aconteceu, a imaginação procura preencher o silêncio sem contrariar aquilo que conhecemos sobre o lugar, a época e as condições de vida. O objetivo não é fazer o leitor acreditar que Peire e sua família existiram, mas permitir que, por algumas páginas, ele possa imaginar com respeito e humanidade como poderia ter sido viver um inverno em Exilles no ano de 1340.
Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta
Autor e pesquisador da Imigração Italiana e histórias familiares
