O Fundador da Colônia
Santa Lúcia das Encostas, Província do Rio Grande – 1885 a 1932
O vapor atracou no porto de Rio Grande ao entardecer, envolto pela névoa salgada que subia das águas frias do sul. Aquilo que para muitos era apenas o fim da travessia, para Lorenzo Bellanto era o início de um projeto. Toscano de nascimento, contador de formação e filho de um pequeno fabricante de papel em Lucca, ele chegava ao Brasil não com a ideia de sobreviver, mas de construir.
Ao lado do amigo e sócio, Federico Salvini, Lorenzo seguiu viagem até Porto Alegre, onde a língua portuguesa soava estranha, mas os mapas e as promessas de terra pareciam generosos. De lá, compraram um carro de boi e contrataram dois peões caboclos que os guiaram por dias de lama e poeira, montanha acima, até um planalto escondido entre as encostas da serra: Santa Lúcia das Encostas. Havia uma trilha que terminava ali — e além dela, apenas o esforço humano seria capaz de abrir caminho.
A colônia era ainda um amontoado de cabanas de pinho, com um pequeno moinho d’água e meia dúzia de famílias vindas da Lombardia. Lorenzo instalou-se com discrição, mas logo se destacou ao abrir uma pequena casa de comércio. Vendia sal, querosene, ferramentas e tecidos. As famílias vinham de léguas para adquirir o que antes só era possível encontrar na capital. Ele anotava tudo em um caderno de couro — cada débito, cada promessa, cada semente de confiança.
Federico decidiu abrir uma filial em Nova Capoeira, uma colônia vizinha. Dividiram as tarefas. Lorenzo permaneceria em Santa Lúcia, onde a falta de autoridades oficiais o transformou, aos poucos, em referência para conciliações, escritura de terras, envio de cartas à Itália e até celebração de casamentos. O consulado italiano do Rio Grande do Sul o nomeou agente oficioso da região, um cargo informal, mas de grande peso entre os imigrantes.
Maria Braganze, sua esposa, era uma veneziana discreta, de fala baixa e inteligência aguda. Era ela quem lia as cartas dos colonos analfabetos, traduzia recados do consulado, confortava viúvas e alfabetizava crianças à sombra de um galpão improvisado. Foi dela a ideia de fundar a primeira escola da colônia, e dele o esforço de erguer as paredes com madeira serrada à mão, telhas de barro e janelas trazidas da cidade.
Com o tempo, Santa Lúcia deixou de ser apenas um povoado. Lorenzo organizou os documentos necessários, viajou a cavalo até Porto Alegre para convencer autoridades e conseguiu, em 1897, a elevação da colônia à categoria de município. A chegada dos irmãos maristas, trazidos por sua intercessão junto ao bispado, marcou a fundação do Ginásio São Jerônimo, o primeiro centro de estudos avançados da região, onde os filhos dos lavradores aprendiam latim, geometria e história universal.
Mas não bastava educar. Era preciso cuidar. Lorenzo fundou também a Sociedade de Socorro Fraterno Dom Amedeo, inspirada nos modelos mutualistas do norte da Itália. A sociedade amparava viúvas, pagava funerais, cuidava dos órfãos e prestava os primeiros atendimentos médicos aos feridos por ferramentas ou pelas febres do mato. Foi ele também quem trouxe os dois primeiros médicos da cidade, um genovês cismado e um brasileiro mulato que atendia a cavalo e falava com os bichos.
Ao longo de quase meio século, Lorenzo foi o eixo discreto de uma engrenagem que girava por causa de sua persistência. Quando morreu, em 1932, aos 74 anos, Santa Lúcia das Encostas já contava com prefeitura, banco, hospital, escola secundária e duas cooperativas agrícolas. O pequeno armazém de lona que ele erguera havia dado lugar a um edifício de dois andares com balcões de mármore e vitrais alemães. Mas em seu testamento, pediu que nada levasse seu nome — nem ruas, nem praças.
O povo não atendeu. No ano seguinte, a praça principal passou a se chamar Praça Bellanto, contra a vontade da família. No silêncio das tardes de verão, é possível ouvir ali o eco dos passos de um homem que chegou sem levantar poeira, mas soube, tijolo por tijolo, desenhar o futuro de um povo inteiro.
Nota do Autor
Embora esta narrativa seja fruto da imaginação, ela nasce firmemente enraizada na realidade histórica da imigração italiana no sul do Brasil. As personagens, seus conflitos e realizações são fictícios, mas muitos dos eventos, costumes e estruturas sociais que os cercam refletem com fidelidade o contexto vivido por milhares de famílias italianas que, a partir de 1875, cruzaram o oceano em busca de uma nova vida nas encostas da Serra Gaúcha.
A cidade de Santa Lúcia das Encostas, bem como a colônia de Nova Capoeira, são invenções literárias. No entanto, foram inspiradas diretamente em localidades reais, como Veranópolis (antiga Roça Reúna e Alfredo Chaves), Fagundes Varela, Nova Prata e outras comunidades profundamente marcadas pelo esforço coletivo dos imigrantes italianos. Os feitos atribuídos ao protagonista Lorenzo Bellanti ecoam a trajetória de figuras reais que deixaram uma marca silenciosa porém duradoura em escolas, hospitais, associações de socorro mútuo e prefeituras nascente.
Em um momento da história em que as instituições públicas eram frágeis e distantes, muitos desses pioneiros ocuparam um espaço essencial na mediação de conflitos, na promoção da educação, na organização da vida comunitária e no incentivo à solidariedade entre compatriotas. Eles foram comerciantes, líderes informais, tradutore, construtores do invisível. Esta obra é, portanto, uma homenagem a todos aqueles cujos nomes não aparecem nos livros de história, mas que literalmente ergueram do chão as cidades que hoje prosperam.
As liberdades tomadas com os nomes, datas e locais têm como único propósito preservar a integridade literária da narrativa e evitar a apropriação indevida de biografias específicas. Nada aqui deve ser lido como um relato histórico fiel, mas sim como uma tentativa de captar o espírito de uma época — e de um povo.
Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta

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