A Segunda Migração dos Imigrantes Italianos no Rio Grande do Sul
Giovanni segurou firme as rédeas enquanto a carroça começava a vencer lentamente o caminho de terra batida. Era o ano de 1918. Sentado na boleia, lançou um último olhar para a casa paterna, como se quisesse gravar para sempre cada detalhe das paredes, do telhado, do terreiro e das árvores que durante tantos anos haviam sido o cenário de sua vida. Ao seu lado seguia Rosa, sua esposa. Atrás deles, acomodados entre baús, sacos de mantimentos e algumas ferramentas cuidadosamente preservadas, viajavam os três filhos do casal. Todos iniciavam uma jornada que consumiria mais de uma semana até alcançar o norte do Rio Grande do Sul, uma região de ocupação recente, aberta à colonização nas proximidades do Rio Uruguai, conhecida então como Paiol Grande, localidade que mais tarde receberia o nome de José Bonifácio.
A carroça avançava lentamente, mas os pensamentos de Giovanni corriam muito mais depressa do que os bois conseguiam caminhar. Bastou que a velha casa desaparecesse atrás de uma curva para que outra despedida, muito mais antiga, despertasse inteira em sua memória. As lembranças surgiram com a velocidade de um relâmpago, como cenas de um filme projetado dentro da própria alma.
Voltou a ser o menino de quinze anos que, muitos anos antes, deixava para sempre a pequena casa de pedra já castigada pelo tempo, em Fanzolo, uma das pequenas vilas que formavam o comune de Vedelago, na província de Treviso. Ainda conseguia ouvir, com impressionante nitidez, o sino da igreja. O padre Don Luigi ordenara que ele fosse tocado em tom grave, não para anunciar uma morte, mas para marcar uma partida que, para muitos, parecia definitiva. Era um adeus semelhante ao prestado a um velho amigo que jamais retornaria.
Também lhe voltaram à lembrança os abraços demorados dos familiares, os olhos marejados dos vizinhos, os apertos de mão silenciosos dos amigos e a pequena multidão que acompanhou sua família até o momento da partida em direção à estação ferroviária. Dali embarcariam no trem que os levaria até Gênova, onde começaria a travessia do oceano. Poucos falavam durante aquele percurso. As palavras pareciam insuficientes diante da dor de abandonar uma terra onde cada pedra, cada estrada e cada campanário guardavam a história de gerações inteiras.
Giovanni era então o penúltimo dos seis filhos da família Tessari. Crescera cercado pelos irmãos, aprendendo desde muito cedo que a infância dos filhos de camponeses terminava quase ao mesmo tempo em que começava. As mãos ainda pequenas já conheciam o peso da enxada, da foice e dos cestos de colheita. Naquela época, brincar era um privilégio raro, quase sempre interrompido pelas necessidades do trabalho.
Seu pai, Domenico Tessari, era natural de Fanzolo. Homem de poucas palavras e de enorme resistência, carregava nos ombros o peso de uma responsabilidade que parecia crescer a cada ano. Sua mãe, Maria, nascera na vizinha vila de Salvarosa, pertencente ao comune de Castelfranco Veneto. Juntos formavam uma família simples, profundamente ligada à terra, mas sem jamais serem donos dela.
Viviam como meeiros em uma propriedade rural que atravessava sua própria decadência. O solo, antes generoso, tornava-se cada vez menos produtivo. O proprietário das terras residia em Treviso e pouco conhecia das dificuldades enfrentadas por aqueles que cultivavam seus campos. Exigia a parte que lhe cabia na produção, independentemente de a colheita ter sido boa ou ruim.
Ano após ano, as frustrações das safras tornavam-se mais frequentes. As mudanças climáticas alteravam o ritmo das estações, destruíam plantações e comprometiam aquilo que deveria garantir o sustento da família. O pouco que conseguiam colher mal era suficiente para alimentar tantas bocas. Ainda assim, uma parte precisava ser entregue ao patrão. O restante desaparecia rapidamente entre necessidades cada vez mais urgentes. As dívidas acumulavam-se sem piedade, transformando o futuro em uma sucessão de incertezas.
Domenico lutou durante muito tempo para permanecer naquela terra onde seus antepassados haviam vivido. Procurou soluções, ouviu conselhos, conversou com vizinhos que enfrentavam as mesmas dificuldades. Em muitas noites reuniu-se também com o amigo, o padre Don Luigi, homem respeitado por sua prudência e por conhecer de perto o sofrimento das famílias da região. As conversas repetiam sempre as mesmas perguntas e terminavam quase sempre no mesmo silêncio. Permanecer significava aceitar uma vida de pobreza cada vez maior. Partir significava abandonar tudo o que conheciam.
A decisão amadureceu lentamente, como amadurecem as escolhas que mudam para sempre o destino de uma família. Depois de muito refletir, Domenico resolveu emigrar para o Brasil. Não era uma aventura impulsiva nem um sonho de riqueza fácil. Era, acima de tudo, uma tentativa desesperada de oferecer aos filhos aquilo que a terra natal já não conseguia garantir: esperança.
O destino escolhido foi a recém-criada Colônia de Alfredo Chaves, que mais tarde passaria a chamar-se Veranópolis. A possibilidade de adquirir terras próprias parecia quase inacreditável para alguém que durante toda a vida trabalhara em propriedades alheias. Essa oportunidade somente se tornou possível graças ao esforço de um amigo que emigrara alguns anos antes para a Colônia Dona Isabel. Conhecendo a realidade brasileira e as possibilidades oferecidas aos novos colonos, esse amigo intermediou a compra de meia colônia de terras, permitindo que Domenico desse o passo mais importante de toda a sua existência.
Naquele instante, enquanto a carroça seguia lentamente rumo ao norte do Rio Grande do Sul, Giovanni compreendeu que sua vida parecia desenhar um círculo curioso. Anos antes havia sido um menino conduzido pelo pai em busca de um novo começo. Agora era ele quem conduzia a própria família para outra fronteira agrícola, repetindo, em solo brasileiro, a mesma coragem que um dia transformara seus pais em pioneiros. A primeira migração atravessara um oceano. A segunda cruzava serras, rios e matas. Mas, em ambas, havia a mesma convicção silenciosa que acompanhava tantas famílias de imigrantes italianos: a de que a verdadeira pátria de um homem talvez não seja o lugar onde nasceu, mas aquele onde seus filhos poderão construir um futuro melhor.
Os últimos dias da viagem pareceram intermináveis. As estradas tornavam-se apenas trilhas abertas entre a mata, obrigando homens e animais a vencerem barro, pedras e riachos que surgiam a cada curva. Quando finalmente alcançaram a região de Paiol Grande, Giovanni compreendeu que estava diante de uma fronteira muito diferente daquela que encontrara quando chegara menino à antiga Colônia Alfredo Chaves. Ali a floresta ainda dominava quase tudo. Araucárias gigantes erguiam-se como colunas de uma catedral construída pela própria natureza, enquanto o rumor constante das águas do Rio Uruguai e de seus afluentes lembrava que aquela terra ainda pertencia muito mais às matas do que aos homens.
Foi naquele cenário de imensidão quase intocada que Giovanni, conhecido desde a infância pelo apelido de Nelo, decidiu fincar novamente suas raízes. Escolheu um pedaço de terra em uma área de Paiol Grande que, muitos anos mais tarde, daria origem ao município de São Valentim. Como havia acontecido com seus pais décadas antes, o primeiro desafio não foi cultivar a terra, mas conquistar o direito de nela viver. Antes da primeira colheita vieram o machado, a enxada e a força dos braços. Derrubaram árvores, abriram uma clareira, levantaram um abrigo simples de madeira e cobriram-no com tábuas e tabuinhas. Cada tronco abatido parecia anunciar que uma nova vida estava começando.
À noite, quando o silêncio da floresta envolvia a pequena casa recém-construída, Nelo muitas vezes recordava Fanzolo. Pensava na velha casa de pedra de seus pais, no sino da igreja tocado por Don Luigi, na longa viagem até Gênova e na travessia do oceano. Percebia então que a distância percorrida não era medida apenas em quilômetros. A verdadeira viagem era feita dentro do coração. Mais uma vez a família Tessaro havia recomeçado do nada. Mais uma vez o futuro dependia apenas da coragem de transformar mata em lavoura e esperança em realidade.
Os anos passaram, e o pequeno abrigo perdido entre as árvores deu lugar a uma propriedade próspera. Nelo e Rosa constituíram uma grande família, criando oito filhos sob os mesmos valores de trabalho, fé e perseverança que haviam recebido de Domenico e Maria. Parecia que, enfim, a longa caminhada encontrara seu destino definitivo.
Mas a história da família Tessaro ainda não havia terminado.
Assim como as terras do Vêneto haviam se tornado pequenas para Domenico, e as antigas colônias da Serra Gaúcha insuficientes para Nelo, chegou o tempo em que os filhos também precisaram procurar novos horizontes. A propriedade, embora fruto de uma vida inteira de sacrifícios, já não podia sustentar tantas famílias. Novamente as terras disponíveis tornavam-se raras e caras. Novamente a solução era seguir adiante.
Foi assim que alguns daqueles oito filhos retomaram a velha sina da família. Deixaram São Valentim e abriram uma terceira etapa daquela longa epopeia iniciada muito tempo antes em uma pequena vila do Vêneto. Seguiram rumo ao Oeste do Paraná e, mais tarde, às terras distantes do Mato Grosso, levando consigo o mesmo espírito pioneiro que atravessara o Atlântico na geração de seus avós e vencera as florestas do norte gaúcho na geração de seus pais.
Talvez essa seja a verdadeira herança dos Tessaro. Mais do que um sobrenome ou um pedaço de terra, transmitiram de geração em geração a extraordinária capacidade de caminhar sempre em frente. Para eles, a vida nunca foi medida pelo lugar onde nasceram, mas pela coragem de recomeçar quando a necessidade chamava. E assim, de migração em migração, ajudaram a escrever uma silenciosa e grandiosa página da ocupação do Sul e do Centro-Oeste do Brasil.
Nota do Autor
A história narrada nesta crônica reúne acontecimentos que marcaram a vida de milhares de famílias descendentes de imigrantes italianos no sul do Brasil. Os nomes dos personagens são fictícios, mas a trajetória que percorrem é absolutamente verdadeira e se repetiu incontáveis vezes entre os pioneiros que primeiro transformaram as matas da Serra Gaúcha em pequenas propriedades rurais e, uma geração depois, viram seus próprios filhos partir novamente.
Costuma-se imaginar que a imigração terminou quando os navios deixaram de cruzar o Atlântico. Na realidade, para muitos venetos, emigrar tornou-se uma condição permanente da existência. Depois de abandonar a terra natal, reconstruíram a vida no Brasil com um trabalho quase sobre-humano, derrubando florestas, abrindo estradas, construindo casas, igrejas e comunidades inteiras. No entanto, bastaram poucos anos para que surgisse um novo desafio: os filhos cresceram, casaram e formaram suas próprias famílias, enquanto as antigas colônias já não possuíam terras disponíveis.
As propriedades conquistadas com décadas de sacrifício eram pequenas e, divididas entre numerosos herdeiros, deixavam de garantir o sustento de todos. As terras livres haviam praticamente desaparecido e aquelas que restavam alcançavam preços impossíveis para agricultores que dependiam exclusivamente do trabalho da própria família. Permanecer significava, muitas vezes, condenar-se à pobreza. Partir, outra vez, tornava-se a única alternativa.
Foi assim que milhares de descendentes dos primeiros imigrantes repetiram o caminho de seus pais. Não atravessaram um oceano, mas enfrentaram longas jornadas em carroças, abriram picadas em novas florestas, estabeleceram-se em regiões distantes e recomeçaram a vida exatamente como a geração anterior havia feito. Essa segunda migração ajudou a ocupar vastas áreas do norte do Rio Grande do Sul, do oeste de Santa Catarina e, mais tarde, do Paraná, perpetuando um movimento de expansão que moldou grande parte da colonização do Sul do Brasil.
Essa sucessão de partidas revela uma característica profundamente enraizada na cultura daqueles colonos vindos do Vêneto: a extraordinária capacidade de recomeçar. Eles aprenderam que a sobrevivência exigia coragem para abandonar o conhecido, confiança para enfrentar o desconhecido e disposição para reconstruir, quantas vezes fosse necessário, aquilo que a vida insistia em colocar à prova. Talvez esse seja o maior legado deixado por essas famílias: a certeza de que a esperança não é um lugar onde se chega, mas uma estrada que se percorre sempre que o futuro exige um novo começo.
Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta