Quando a Polenta Era o Café da Manhã, o Almoço e a Janta
Há lembranças que não têm perfume de flores. Têm cheiro de lenha queimando ainda antes do amanhecer. Têm o vapor espesso que sobe lentamente de um grande tacho de cobre, enquanto uma colher de madeira, já escurecida pelos anos, gira sem descanso sobre uma massa amarela que alimentou mais vidas do que qualquer banquete jamais poderia imaginar. Quem hoje encontra a polenta servida em travessas elegantes, acompanhada de carnes nobres e vinhos generosos, dificilmente imagina que houve um tempo em que ela não era um prato. Era o próprio destino. Era café da manhã, almoço e janta. Era o calendário da sobrevivência.
Os primeiros imigrantes italianos que chegaram às colônias da Serra Gaúcha encontraram uma terra exuberante, mas muda. A floresta oferecia madeira, água e promessas, porém não entregava pão. Antes que as videiras florescessem, antes que os trigais amadurecessem e antes mesmo que os pomares dessem sombra, existia apenas o trabalho. E o trabalho, quando não encontra alimento suficiente, aprende a conversar com a simplicidade.
O milho tornou-se um velho amigo. Adaptou-se depressa às clareiras abertas a machado. Crescia onde o trigo fracassava e onde a saudade não conseguia impedir a esperança. Bastava moê-lo no moinho da comunidade para que se transformasse naquela farinha grossa que, misturada apenas com água e um pouco de sal, produzia a refeição capaz de sustentar uma família inteira.
Não havia escolha. A abundância ainda era uma palavra desconhecida. A mesa dos colonos raramente conhecia carne fresca. As galinhas precisavam botar ovos antes de irem para a panela. Os porcos representavam uma riqueza que só podia ser abatida em ocasiões especiais. O leite era precioso demais para ser desperdiçado. O queijo exigia tempo. A manteiga exigia paciência. A polenta, ao contrário, exigia apenas fogo, farinha e braços fortes.
E braços fortes nunca faltaram naquela gente.
As mulheres despertavam antes do primeiro canto do galo. Enquanto os homens afivelavam o machado à cintura, elas já alimentavam o fogão de pedras com lenha ainda úmida do sereno da noite. A água começava lentamente a ferver. Depois vinha a farinha despejada aos poucos, evitando os grumos que denunciavam a inexperiência. A colher grande trabalhava sem descanso. Não era apenas uma receita. Era um exercício de resistência. Mexer uma panela de polenta significava preparar o dia inteiro de uma família que pisaria barro, derrubaria árvores, carregaria toras e enfrentaria um mundo que ainda estava sendo construído.
Quando finalmente ficava pronta, era despejada sobre uma tábua redonda de madeira. Não havia pratos para todos. Muito menos talheres. A faca ou um fio de barbante dividia a massa fumegante em porções iguais. Cada pedaço carregava uma justiça silenciosa: ninguém comia mais porque era mais velho; todos precisavam sobreviver ao dia seguinte.
Naquela época, a fome não fazia discursos. Apenas sentava-se discretamente à mesa.
A mesma polenta que alimentava o café da manhã voltava ao meio-dia, agora acompanhada, quando havia sorte, de algumas folhas de radicci colhidas na horta ou de um molho simples preparado com tomates da estação. À noite reaparecia outra vez, já endurecida, cortada em fatias e aquecida sobre a chapa do fogão. Às vezes bastava esfregar um dente de alho sobre sua superfície dourada para que o jantar parecesse mais generoso do que realmente era.
As crianças cresceram acreditando que aquele sabor fazia parte da própria natureza. Assim como existia chuva, frio e pinheiros, existia polenta. Não perguntavam quando haveria outra comida. Perguntavam apenas se haveria mais um pedaço.
Curiosamente, ninguém reclamava da monotonia. A repetição era um luxo reservado aos que tinham o que repetir. Para quem conhecia a insegurança das colheitas, comer a mesma refeição três vezes por dia significava, paradoxalmente, uma pequena vitória sobre a miséria.
A polenta tornou-se também uma professora silenciosa. Ensinava economia, porque nada podia ser desperdiçado. Ensinava paciência, porque não admitia pressa. Ensinava união, porque era difícil preparar grandes tachos sozinho. E ensinava humildade, pois lembrava diariamente que o essencial da vida quase sempre nasce das coisas mais simples.
Os anos passaram. As colônias prosperaram. As videiras finalmente produziram vinho. Vieram os parreirais, os salames, os queijos curados, as cantinas, as festas e a fartura que parecia impossível naqueles primeiros tempos. A polenta permaneceu sobre a mesa, mas mudou de posição. Deixou de ser necessidade para tornar-se tradição.
É curioso como a memória humana trabalha. Quando há abundância, esquecemos facilmente o sofrimento que a precedeu. Servimos polenta em restaurantes elegantes, fotografamos o prato, elogiamos sua textura cremosa e discutimos receitas. Poucos imaginam que, escondida atrás daquele amarelo dourado, existe uma história feita de calos, lágrimas e perseverança.
Talvez seja por isso que as nonas nunca permitiam que um pedaço fosse jogado fora. Não era apenas comida. Era respeito. Cada fatia carregava a lembrança dos dias em que a panela precisava alimentar muitos estômagos e quase nenhum sonho parecia possível.
Quem observa uma velha fotografia das primeiras famílias italianas dificilmente percebe o verdadeiro protagonista daquela imagem. Não é o chapéu gasto do colono, nem o vestido escuro da mulher, nem a mata ao fundo. É a invisível certeza de que, ao voltar do trabalho, haveria um tacho sobre o fogão esperando por todos.
A polenta salvou mais do que corpos. Salvou famílias da desesperança. Deu tempo para que as crianças crescessem, para que os parreirais florescessem e para que as pequenas casas de madeira se transformassem em comunidades, igrejas e cidades. Alimentou uma geração inteira até que a terra começasse finalmente a retribuir o suor recebido.
Hoje, quando a mesa está repleta e os netos escolhem entre dezenas de pratos, talvez valha a pena servir uma simples fatia de polenta e permanecer alguns instantes em silêncio. Não pelo sabor, mas pela memória. Porque dentro dela ainda vivem homens que derrubaram florestas, mulheres que enfrentaram o frio antes do nascer do sol e crianças que aprenderam, muito cedo, que a dignidade também pode ser feita de milho, água, sal e esperança.
Há alimentos que saciam a fome. Outros alimentam a história. A polenta conseguiu fazer as duas coisas ao mesmo tempo.
É comum que o olhar contemporâneo associe a polenta à fartura das mesas italianas, às festas típicas e aos restaurantes coloniais onde ela chega acompanhada de carnes, molhos e vinhos. No entanto, essa imagem pertence a um tempo muito posterior ao da grande imigração italiana para o sul do Brasil. Nos primeiros anos das colônias, entre o final do século XIX e o início do século XX, a realidade era bem diferente.
As famílias que desembarcaram na Serra Gaúcha encontraram uma terra fértil, mas inteiramente coberta por matas. Antes que pudessem colher qualquer fruto do próprio trabalho, era necessário derrubar árvores, construir um abrigo, abrir caminhos, preparar o solo e esperar pacientemente pelas primeiras safras. Durante esse longo período, a alimentação era determinada muito mais pela necessidade do que pela tradição.
O milho revelou-se uma das culturas mais adaptáveis às condições locais. Produzia relativamente rápido, resistia ao clima e podia ser armazenado por longos períodos. Transformado em farinha, garantia uma refeição quente, nutritiva e suficiente para sustentar homens, mulheres e crianças submetidos a jornadas exaustivas de trabalho físico. Não se tratava de preferência gastronômica, mas de uma solução prática diante das limitações impostas pela natureza e pela escassez.
Convém lembrar que aqueles colonos chegaram praticamente sem recursos. Muitos haviam vendido tudo o que possuíam para custear a viagem ou haviam contraído dívidas para atravessar o Atlântico. Os primeiros anos foram marcados pela ausência de estradas, pela dificuldade de transporte, pela distância dos mercados e pela quase inexistência de produtos industrializados. Aquilo que hoje se compra facilmente precisava, naquela época, ser produzido pela própria família.
A diversidade alimentar surgiria apenas com o passar dos anos. À medida que os pomares amadureciam, os rebanhos aumentavam, as hortas prosperavam e o comércio se estabelecia entre as colônias, a mesa tornava-se mais variada. Até lá, a simplicidade não era uma escolha cultural, mas uma consequência inevitável das circunstâncias.
Talvez por isso a polenta tenha conquistado um lugar tão profundo na memória dos descendentes de imigrantes. Ela deixou de representar apenas um alimento para tornar-se um símbolo da capacidade humana de resistir às adversidades sem perder a esperança. Cada geração passou a enxergar naquele prato muito mais do que farinha de milho: reconheceu nele o testemunho silencioso do esforço de homens e mulheres que transformaram uma floresta em lar.
Ao escrever esta crônica, procurei recordar justamente esse significado. Não o da polenta celebrada pela culinária, mas o da polenta que sustentou vidas quando quase nada mais existia. Conhecer essa história é compreender que a prosperidade construída pelos imigrantes italianos nasceu de gestos modestos, repetidos todos os dias com coragem, disciplina e uma extraordinária confiança no futuro. Em muitas casas, antes que houvesse abundância, houve apenas trabalho. E, sobre o fogão, um tacho fumegante lembrava diariamente que a esperança também precisava ser alimentada.
Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta
Nenhum comentário:
Postar um comentário