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quarta-feira, 8 de julho de 2026

A Devoção à Madonna de Monte Berico pelos Imigrantes Vicentinos - Fé e Imigração Italiana

 


A Devoção à Madonna de Monte Berico pelos Imigrantes Vicentinos


"Há imagens que atravessam oceanos. A Madonna de Monte Berico atravessou também o coração de um povo e permaneceu viva na memória de seus descendentes."

Às vezes penso que os santos também emigraram. Não embarcaram nos navios, é verdade. Não enfrentaram o balanço do Atlântico nem conheceram a escuridão dos porões onde tantas famílias dormiam abraçadas à esperança. Vieram de outra maneira. Vieram dentro das malas de madeira, escondidos entre um terço de contas gastas, uma fotografia já desbotada, uma medalha de cobre ou uma pequena estampa cuidadosamente dobrada entre as páginas de um livro de orações. Foi assim que a Madonna de Monte Berico atravessou o oceano. Não precisou de passaporte. Bastou-lhe a fé.

Conheci, certa vez, uma senhora muito idosa, filha de imigrantes vindos da província de Vicenza. Morava numa casa simples, cercada por videiras, roseiras e árvores que pareciam conversar baixinho com o vento das tardes de verão. Na parede da sala havia uma pequena imagem da Madonna. Não era grande nem chamava a atenção de quem entrasse pela primeira vez. Mas bastava perguntar por ela para que toda a casa voltasse a falar italiano.
— Veio com a nonna — respondeu ela, sorrindo com a serenidade de quem guarda um segredo antigo.
Depois fez silêncio.
Há silêncios que contam mais do que muitos livros.
Enquanto seus olhos permaneciam presos àquela pequena imagem, tive a impressão de que a distância entre o Monte Berico e a Serra Gaúcha deixava de existir. A geografia rendia-se à memória. Os quilômetros desapareciam diante daquilo que apenas a saudade é capaz de construir. Naquele instante compreendi que existem caminhos que não aparecem nos mapas. São percorridos apenas pelo coração.
Sempre achei curioso que os homens consigam transportar justamente aquilo que não pesa. A terra onde nasceram pesa demais para caber numa bagagem. Também não cabem a casa da infância, os sinos da igreja, o cheiro do pão recém-saído do forno, as ruas estreitas de Vicenza nem a luz dourada que, ao entardecer, cobre as colinas do Vêneto. Mas a esperança cabe. A lembrança cabe. A fé cabe. E uma pequena imagem da Madonna cabe com facilidade entre algumas roupas e poucos objetos indispensáveis.
Talvez por isso tantos vicentinos tenham atravessado o oceano trazendo consigo a devoção à Madonna de Monte Berico. Não porque imaginassem que a Virgem precisasse mudar de país, mas porque sabiam que o coração humano necessita reconhecer um rosto familiar quando tudo ao redor se torna desconhecido. A mata era outra. O céu parecia diferente. As montanhas tinham outro desenho. As palavras soavam estranhas. Havia noites em que a saudade devia ser maior do que o próprio cansaço. Então bastava acender uma vela diante daquela imagem para que, por alguns instantes, o Brasil se aproximasse da Itália.
As primeiras capelas construídas pelos imigrantes eram pobres. Feitas de madeira ainda cheirando à floresta recém-aberta, possuíam altares simples, bancos ásperos e frestas por onde o vento do inverno entrava sem pedir licença. Não havia riqueza alguma naquelas construções. Mas havia uma dignidade silenciosa que nenhuma catedral de mármore poderia oferecer. Em quase todas ardia uma vela diante da Madonna. Era uma chama pequena, quase tímida, mas suficiente para manter acesa a esperança de uma comunidade inteira.
Imagino aquelas famílias reunidas depois de um dia exaustivo derrubando árvores, abrindo picadas, construindo casas e preparando a terra para o plantio. As mãos feridas, as roupas cobertas de barro, o corpo vencido pelo trabalho. Ainda assim encontravam forças para rezar. Não pediam fortuna. Não sonhavam com grandezas. Pediam apenas saúde para os filhos, chuva no tempo certo, uma boa colheita e coragem para enfrentar mais um amanhecer. Talvez seja exatamente isso a fé: não a certeza de que os milagres acontecerão, mas a disposição de continuar caminhando mesmo quando eles parecem demorar.
O tempo passou. Os navios desapareceram dos portos. As malas de madeira apodreceram. Muitas casas deram lugar a outras mais modernas. As estradas de chão transformaram-se em asfalto. Os netos aprenderam novas profissões e os bisnetos já falam um italiano que existe mais na memória do que na língua. No entanto, muitas daquelas antigas imagens continuam ocupando o mesmo lugar na sala ou na pequena capela da família. Algumas escureceram com o passar das décadas. Outras perderam parte da pintura. Há molduras gastas, pequenas rachaduras e marcas deixadas pelos dedos de tantas gerações. Curiosamente, ninguém parece desejar restaurá-las completamente. Talvez porque as cicatrizes também contem histórias.
Sempre que entro numa igreja erguida pelos imigrantes italianos gosto menos de observar a arquitetura do que os rostos das pessoas durante a oração. Há um instante quase invisível em que muitos levantam os olhos para a imagem da Madonna exatamente como seus avós faziam do outro lado do oceano. É um gesto breve. Quase imperceptível. Mas é nele que a imigração continua viva. Nem sempre a história sobrevive nos grandes monumentos. Muitas vezes ela permanece escondida num simples movimento dos olhos ou numa oração repetida em voz baixa.
Talvez seja por isso que certas devoções atravessem os séculos sem perder a força. Elas não pertencem apenas à religião. Pertencem à memória, à identidade e ao afeto. Tornam-se uma ponte invisível entre a terra que ficou para trás e a terra que acolheu quem teve coragem de partir. Enquanto houver alguém que acenda uma vela diante da Madonna de Monte Berico, não será apenas uma chama iluminando uma imagem. Será uma família inteira reencontrando, por alguns instantes, o caminho de casa. Porque existem pátrias que cabem dentro de um mapa. Outras, muito maiores, continuam vivendo silenciosamente dentro da fé e da lembrança.

Nota do Autor

Ao pesquisar a imigração italiana para o Brasil, é comum encontrarmos números, datas, listas de navios, decretos, estatísticas e relatos sobre as enormes dificuldades enfrentadas pelos pioneiros. Tudo isso é indispensável para compreender a dimensão histórica daquele extraordinário movimento humano. No entanto, existe uma história muito mais silenciosa, raramente registrada nos documentos oficiais: a história da fé que atravessou o oceano junto com os imigrantes.

Os vicentinos não trouxeram apenas ferramentas, sementes ou alguns poucos pertences cuidadosamente acomodados nas malas de madeira. Trouxeram também aquilo que lhes permitia continuar acreditando quando quase tudo ao redor parecia incerto. Entre essas heranças invisíveis estava a profunda devoção à Madonna de Monte Berico, cuja presença ultrapassava o significado religioso para tornar-se um vínculo afetivo com a terra deixada para trás, com a família, com a infância e com a própria identidade.

Escolhi escrever esta crônica porque acredito que a imigração italiana não pode ser compreendida apenas pelos caminhos da economia, da política ou da colonização. Ela também foi construída pela espiritualidade, pelas pequenas imagens colocadas sobre um móvel da sala, pelas velas acesas ao cair da noite, pelas orações rezadas em dialeto e pela esperança que sustentou milhares de famílias diante das incertezas de uma nova vida.

Mais do que narrar uma devoção mariana, este texto procura refletir sobre a extraordinária capacidade que a memória possui de atravessar gerações. Algumas heranças chegam até nós por meio da terra cultivada, das casas construídas ou dos sobrenomes que carregamos. Outras permanecem vivas em gestos quase imperceptíveis: um sinal da cruz antes das refeições, uma oração ensinada pelos avós, uma antiga imagem preservada com carinho ou uma vela acesa diante da Madonna de Monte Berico.

Escrevi esta crônica porque acredito que existem patrimônios que não podem ser medidos nem fotografados. Eles vivem na alma das famílias. E enquanto houver alguém que recordar, rezar ou simplesmente emocionar-se diante da história daqueles que atravessaram o Atlântico levando a fé como companheira de viagem, a verdadeira imigração italiana continuará acontecendo, silenciosamente, dentro da memória de seus descendentes.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta