domingo, 31 de maio de 2026

Entre a Esperança e o Mar Proibido



Entre a Esperança e o Mar Proibido
A jornada interrompida de Romoaldo Benaduzzi e a promessa de Santa Catarina


No final de novembro de 1889, Romoaldo Benaduzzi sentiu desabar sobre seus ombros o peso de uma injustiça. O governo do Reino d´Itália, de forma abrupta, proibira a concessão de passagens gratuitas para o Brasil. Durante meses, ele havia se preparado, reunido documentos e alimentado a esperança de partir com a família rumo a Santa Catarina. Tudo fora anulado de um só golpe, sem explicação. 

O golpe foi mais duro porque a Itália ainda em crise economica o que continuava não oferecendo segurança no futuro. O linho mal rendera um terço da safra, o trigo estava perdido sob tempestades, e as vinhas, açoitados por doenças e pelas neblinas, dariam vinho tão escasso que se tornaria artigo de luxo. As colheitas fracassavam, a fome rondava os vilarejos, e cada inverno parecia mais cruel que o anterior. Em Casalbuttano e Corte de Cortese, onde Romoaldo se estabelecera após deixar a terra natal, as famílias sobreviviam com pão negro e esperança rarefeita. A carta do governo que cancelava o embarque parecia uma sentença: ficar e perecer. Mas Romoaldo não se deixou esmagar. Continuou economizando o que podia, vendeu o pouco que possuía e resistiu, sempre à espera de que a emigração fosse reaberta. Meses depois, a notícia enfim chegou: os navios voltariam a levar famílias rumo ao Atlântico. 

Na primavera seguinte, Romoaldo deixou Cremona em definitivo. Em Gênova, o porto fervilhava com multidões ansiosas, carregando malas de couro já gastas, grandes baús de madeira, sacos com pertences, imagens de santos, crucifixos e um medo silencioso. O vapor Colombo que os recebeu estava superlotado. A travessia até a América durou trinta dias de suplício: enjoo incessante, corredores cheios de tosses e choro de crianças, porões abafados onde o ar rareava. Muitos adoeceram, alguns quase morreram, mas cada nascer do sol sobre o oceano reacendia a convicção de que a terra prometida estava próxima.

Quando o navio enfim entrou na baía do Rio de Janeiro, a visão foi arrebatadora. As montanhas cobertas de verde pareciam muralhas erguidas sobre o mar, o calor tropical sufocava, mas havia uma beleza desmedida na nova terra. Durante três dias, Romoaldo e a família permaneceram na Hospedaria de Imigrantes, entre a confusão de línguas e sabores, aguardando nova embarcação para seguir viagem.

O transbordo veio com o vapor Maranhão, que partia em direção ao sul. No convés, dezenas de famílias italianas se amontoavam, algumas destinadas a Paranaguá, outras para mais distante, ao porto de Rio Grande. Romoaldo e os seus chegaram no porto de Desterro em Santa Catarina, onde desembarcaram entre colonos igualmente desorientados, mas unidos pela mesma esperança.

A terra que encontraram na Colônia Azambuja não era a que haviam sonhado. A mata cerrada parecia invencível, as casas inexistiam, as picadas eram abertas apenas a facão. O rancho de troncos que ergueram serviu de abrigo precário contra chuvas, insetos e noites escuras, cortadas por ruídos de animais desconhecidos. Nos primeiros anos, a luta foi contra a natureza e contra as febres tropicais que ceifavam vidas sem piedade. Muitos foram enterrados em silêncio atrás da capela improvisada, mas cada clareira aberta era uma vitória.

Aos poucos, a colônia tomou forma. O milho e a mandioca garantiram alimento, as primeiras mudas de videira trazidas da Itália vingaram nas encostas e começaram a dar vinho. Casas de madeira substituíram choças, estradas de terra uniram lotes distantes, escolas improvisadas ensinaram crianças a escrever. O idioma italiano, seus vários dialetos enchiam o ar, misturados ao português que se infiltrava nas gerações mais novas.

Romoaldo envelheceu acompanhando de perto esse progresso que avançava devagar, mas de forma inegável. Já não tinha a força de outrora para manejar o machado com firmeza contra os troncos da mata, e suas mãos, outrora calejadas pelo trabalho árduo, tremiam ao tentar levantar uma enxada. Contudo, bastava erguer os olhos e ver os netos correndo livres pelos campos que ele um dia abrira à custa de suor, dor e perseverança, para que um sentimento de vitória silenciosa se apoderasse dele. Aquela terra, que no início lhe parecera hostil e infinita, agora se tornara o palco de novas vidas, herdeiras de seu sacrifício.
Seu orgulho encontrava-se, sobretudo, no vinho que fluía das próprias videiras, cultivadas com paciência quase obstinada. O sabor era rústico, marcado pelas imperfeições da terra e pela simplicidade das técnicas herdadas, mas era também intenso e generoso, como se carregasse na cor rubra cada lágrima derramada e cada esperança mantida. As jarras cheias, repartidas em família, eram o sinal de que a tradição não se perdera — ao contrário, estava mais viva do que nunca, transmitida de geração em geração, assim como ele havia sonhado nos dias mais duros da sua juventude.

Nos últimos anos, transformara-se quase num patriarca silencioso, desses cuja autoridade não precisa de palavras para ser reconhecida. Sua presença era discreta, mas constante, tanto nas reuniões comunitárias quanto nas colheitas, quando sua figura curvada pela idade ainda se erguia no meio dos mais jovens, lembrando-lhes que o trabalho só fazia sentido se fosse partilhado. Preferia permanecer à margem das decisões práticas, mas bastava um gesto seu, um levantar de sobrancelhas ou o prolongado silêncio entre uma fala e outra, para que todos compreendessem a medida exata do que devia ser feito.
Nos finais de tarde, buscava o abrigo da sombra fresca do parreiral, onde a vida parecia correr mais devagar. Gostava de fechar os olhos por instantes, respirando fundo o cheiro doce da terra misturado ao aroma forte das videiras. Passava os dedos enrugados sobre os cachos pesados de uva, como se tocasse em um tesouro moldado por suas próprias mãos e pelo tempo. Cada bago que se desprendia entre os seus dedos trazia de volta memórias da juventude, dos primeiros sulcos abertos na terra ingrata, das estações em que a fome rondara sua casa e ele, teimoso, recusara-se a desistir.
Para ele, aqueles frutos não eram apenas colheita: eram um testamento silencioso. O vigor das parreiras testemunhava que sua luta não fora em vão. Tudo o que suportara — a distância da pátria, as privações, as perdas — estava agora inscrito no tronco retorcido das videiras e nos sorrisos das gerações que vinham depois. Ali, sob aquele parreiral que se tornara parte de sua própria identidade, compreendia que já não precisava falar muito: sua vida inteira falava por ele.

Quando morreu, numa tarde abafada de verão, a notícia espalhou-se pela colônia como se fosse um luto comum a todos. O cortejo percorreu os mesmos caminhos de terra que ele tantas vezes abrira com a enxada nos ombros, acompanhado pelo som contido dos sinos da pequena capela. Foi sepultado ali mesmo, no coração da comunidade que ajudara a fundar, cercado pelas videiras que ainda guardavam o perfume da última colheita. Sobre sua sepultura, ergueu-se apenas uma cruz simples de madeira, despojada como a sua própria vida, diante da capela erguida anos antes pelo esforço coletivo de homens e mulheres que, como ele, acreditaram que o futuro podia nascer do nada.
Não deixou riquezas nem propriedades vastas, mas algo muito maior: um legado invisível e duradouro. Deixou a prova de que a esperança é capaz de atravessar gerações, resistindo ao peso do tempo, às dores da fome, à solidão da terra estrangeira e até mesmo à recusa de um governo que, em sua indiferença, nunca imaginou que aqueles colonos fossem capazes de permanecer. O que ficara dele não estava nos bens materiais, mas no gesto repetido de plantar, na coragem de resistir e no exemplo silencioso de acreditar até o fim.

E assim, desde a recusa amarga de 1889, quando o governo lhe negara terras e esperança, até a conquista definitiva de um pedaço de chão em Santa Catarina, Romoaldo Benaduzzi conseguiu transformar o peso do destino em herança duradoura. Aquilo que começou como desalento e incerteza converteu-se, ao longo dos anos, em trabalho, raízes e pertencimento. Sua vida ficou gravada não apenas nos campos que cultivou com esforço paciente, mas também na memória viva das gerações que dele herdaram a coragem. Foram essas gerações que, guiadas pelo exemplo silencioso de Romoaldo, continuaram a ampliar os limites da colônia e a escrever, dia após dia, novos capítulos da longa saga dos imigrantes italianos no Brasil.

Nota do Autor

Esta história nasceu a partir de uma carta real escrita no final do século XIX, em que um emigrante italiano relatava as dificuldades enfrentadas para deixar sua terra natal e alcançar o Brasil. Embora os fatos históricos — como a suspensão da emigração em 1889, a longa travessia de trinta dias até o porto do Rio de Janeiro, o embarque posterior no navio Maranhão e a instalação em Santa Catarina — sejam autênticos, todos os nomes foram alterados para preservar a identidade original. 
O personagem central, Romoaldo Benaduzzi, representa milhares de homens e mulheres que viveram a mesma experiência de frustração, coragem e renascimento em terras brasileiras. Sua trajetória é uma síntese daquilo que tantas famílias italianas enfrentaram: a espera pela chance de emigrar, a viagem em condições precárias, a chegada em portos desconhecidos e a luta diária contra a selva, as doenças e a solidão. Mais do que narrar a vida de um colono, este livro busca homenagear a memória coletiva dos imigrantes que moldaram a paisagem cultural, econômica e humana de Santa Catarina e de todo o Brasil meridional. Ao escrever esta obra, minha intenção foi dar voz àqueles que partiram em silêncio, deixando para trás aldeias e campos na Itália, e que, mesmo diante da recusa e do abandono, não desistiram de perseguir um futuro para seus descendentes. O legado de Romoaldo Benaduzzi é, assim, o legado de todos os que fizeram da esperança um destino.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta




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