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sábado, 12 de setembro de 2020

As Condições Sanitárias e as Epidemias a Bordo dos Navios de Emigrantes

Emigrantes no Porto 
Eram denominados pelas companhias de navegação da época, de tonelada humana aqueles milhares de pobres emigrantes que deixavam a Itália depois da metade do século XIX. As condições de vida que esses pobres emigrantes encontravam à bordo eram ainda muito mais precárias do que eles haviam pensado. Agachados no convés, perto da escada, com o prato entre as pernas e um pedaço de pão entre os pés, comiam como mendigos à porta dos conventos. Assim descreveu  em 1908 o que pode ver um inspetor de saúde nos navios de emigrantes. Ele continua dizendo que aquilo era uma grande humilhação e um grave perigo sob o ponto de vista sanitário pois, todos nós podemos imaginar como devia ficar um convés de navio à vapor, no meio do oceano, jogado pelos fortes ventos, enfrentando grandes ondas, onde todo o lixo e dejectos humanos se misturam se espalhando perigosamente por todos os cantos. 

Navio super lotado 

A grande emigração italiana, no período compreendido entre os anos de 1876 a 1915, envolveu diretamente mais de 14 milhões de homens, mulheres e crianças, expulsos de suas casas pela fome, desemprego e falta de perspectiva no futuro, muito  especialmente, depois da crise agrária surgida após 1870. Esse verdadeiro êxodo é somente comparável aquele da fuga dos hebreus do Egito, contados pela bíblia, despovoou inteiras vilas e pequenas cidades do norte e do sul da Itália. No início as mais atingidas eram apenas as comunidades de montanha que precisaram emigrar, pois o tipo de agricultura que praticavam nesses locais era muito atrasada, dando somente para a subsistência, não suportava mais o crescente aumento populacional, agravados por seguidas frustrações de safras por fenômenos naturais, como avalanches e inundações. 

Emigrantes no porto de Gênova 

Primeiramente, nos primeiros 10 anos desse período,  observamos a quase exclusividade da emigração masculina, essa por vários séculos,  já acostumada a migrações sazonais para outros países da Europa, como a França e a Alemanha, mais ricos e desenvolvidos, mas, sempre após algum tempo de permanência, retornavam para as suas casas. Com o crescente agravamento da situação econômica da Itália, os homens passaram emigrar de forma definitiva, mas, desta vez  para países longínquos situados do outro lado do oceano e, logo após conseguirem uma colocação de trabalho, chamavam as esposas, filhos e o restante da família para os encontrar na nova pátria. 

Depois de 1901, mais de 500.000 italianos deixavam a pátria a cada ano, a maioria deles tendo como destino os Estados Unidos e em sua maioria esse torrente humana era constituída de moradores das regiões ao sul da Itália. Os muitos registros da época nos contam da triste partida de navios levando cada um centenas de pobres camponeses e artesãos. 

Epidemia de cólera a bordo

O abastecimento de água nos precários cargueiros apressadamente transformados navios para passageiros era geralmente mantido em barris que eram enchidos na partida.  Caso essa provisão de água fosse contaminada  durante a navegação ou, mesmo, se o alimento fosse contaminado durante o preparo, o risco de propagação da uma grave epidemia entre passageiros e tripulantes seria rápido. As condições higiênicas à bordo desses barcos eram muito precárias especialmente pelo fato deles não terem sido construídos para o transporte de seres humanos mas, sim de mercadorias. Animais vivos também eram embarcados, eles serviriam de alimento para os passageiros e tripulação, eles conviviam nos porões, confinados em jaulas construídas para esse fim. Durante a travessia eles seriam sacrificados à bordo, usando a pouca água disponível para a limpeza, a inexistência de meios adequados para a conservação da carne e a precária higiene  do pessoal de serviço, sendo assim muito grande a possibilidade de contaminação e o aparecimento de uma epidemia. Geralmente, em um ambiente tão restrito como os estreitos alojamentos, sem instalações sanitárias adequadas, com pouca água para a limpeza e sem suficiente ar circulante, onde as pessoas, principalmente, nos porões da terceira classe dos navios, viviam em estreita promiscuidade, as possibilidades de contágio acabavam se somando. 

Os emigrantes no Porto - quadro de Arnaldo Ferragutti 

Em diversas ocasiões surgiram epidemias devastantes que ceifavam a vida dos mais debilitados, as crianças e os mais velhos. Em 1884, no vapor Matteo Bruzzo, que se dirigia para Montevideo com 1333 passageiros à bordo surgiu uma epidemia de cólera que matou 22 passageiros, não tendo permissão para embarcar naquele porto, tendo que retornar para a Italia. O cólera já tinha se manifestado na cidade de Genova, o porto de origem, mas, foi mesmo assim dada a ordem de zarpar. Os operadores de transporte já tinham o conhecimento que a Argentina e o Uruguai já haviam declarado o fechamento dos seus portos para navios provenientes daquele destino. Pensaram que pudessem ficar à bordo em quarentena, o que acabou não acontecendo. Por este fato podemos avaliar a maneira superficial que as companhias de navegação trataram a questão saúde dos emigrantes. 

Passageiros embarcados em navios superlotados 

Nessas longas viagens que levavam os emigrantes não havia somente o perigo de epidemias de cólera, mas também, de febre tifóide, sarampo, difteria e infecções por tuberculose. O navio Carlo Raggio, no ano de 1888, quando em uma das suas viagens para a América do Sul teve 18 de seus passageiros mortos pela fome. Alguns anos depois, em 1894, o mesmo navio contabilizou 206 mortes de passageiros devido principalmente à fome, epidemias de cólera e sarampo. A epidemia desta última doença também foi a causa da morte de 34 passageiros do navio Pará no ano de 1889. 

Emigrantes no convés do navio quadro - quadro Oceano, de Arnaldo Ferragutti 

As condições da vida nos porões e conveses desses navios de emigrantes, onde eles se aglomeravam na mais precária falta de higiene, foram de tal maneira duras para ficarem marcados indelevelmente, muitos anos após na memória daqueles pobres emigrantes e de seus descendentes. No vapor Cachar, com 2000 emigrantes para o Brasil, durante a travessia aconteceram 34 mortes por fome e asfixia. As condições de ventilação nas repartições coletivas da terceira classe eram dramáticas e causavam muitas mortes entre os passageiros. No navio Frisia, com destino ao Brasil no ano de 1889 teve 27 mortos durante a travessia e mais de 300 que adoeceram. Em 1894, no navio Andrea Doria com 1317 passageiros ocorreram 159 mortes e no vapor Vicenzo Florio, com 1321 passageiros, mais 7 mortes. As precárias condições de viagem nesses navios eram conhecidas das autoridades italianas, principalmente pelas cartas com os relatos dos emigrantes. Mesmo assim as companhias de navegação marítima não tiveram problemas para completar a carga, eles enchiam os barcos com mais pessoas que a lotação oficial. 

Emigrantes amontoados a bordo 

Nessa época da grande emigração italiana não existiam ainda os antibióticos e as vacinações para difteria muito deficiente. Para se ter uma ideia do que acontecia com esses pobres infelizes, segue alguns relatos de passageiros dessa viagem. Assim em 1893, a bordo do vapor Remo tendo como destino o Porto do Rio de Janeiro, Brasil, com 1500 emigrantes embarcados, dos quais um grande número deles provenientes de Modena e outras províncias emilianas vizinhas, aconteceram 96 mortes por difteria e cólera. Nos relatos desses emigrantes nos contam que:  "a maioria dos emigrantes ficava sentada ou deitada no chão do navio, enquanto uns dormiam outros comiam". Esse relato continua:  "que o navio zarpou de Gênova em direção a Nápoles, onde por sua vez foram embarcados outros 700 passageiros, atingindo o total de 1500 emigrantes a bordo. Essa super lotação se tornou insuportável e deu origem, ainda no início da viagem, a protestos contra a companhia de navegação e brigas entre aqueles vindos do norte com os que partiram do sul da Itália. Em um cartaz afixado por eles em respirador de popa e encontrado mais tarde estava escrito protestos contra a companhia de navegação". O mesmo relato nos diz que "a comida servida a bordo era muito pobre, o café que serviam, era pura água quente. Na refeição das 11 horas era distribuída uma pequena porção de macarrão em um caldo aguado. A carne servida era pouquíssima e já cortada. Uma outra ração que também era servida em outras ocasiões consistia de um pouco de arroz, com carne salgada cozida e um pouco de lentilhas. Essa pobre alimentação causava dores abdominais e copiosas diarréias. Tudo isso era somado ao desconforto causado pelas condições do mar tropical com fortes e contínuas chuvas. 

Oceano - quadro de Arnaldo Ferragutti 

Os passageiros expostos às intempéries no convés do navio super lotado, tendo que sobreviver às disputas com outros passageiros e autoridades de bordo". Quando em 7 de Setembro de 1893 o vapor Remo estava para ancorar no Porto do Rio de Janeiro, pelo fato de ter havido uma epidemia, com vários mortos à bordo, as autoridades locais do Brasil estavam avaliando a possibilidade de proibir a atracação e ordenarem o retorno para o porto de origem, na Itália. Muitos daqueles imigrantes tinham vendido o pouco que possuíam para comprar os bilhetes da viagem, outros tinham deixado tudo para se reunirem com os cônjuges de filhos já no Brasil. Podemos imaginar a aflição que tomou posse desses passageiros, que após enfrentarem uma viagem tão desesperadora, com tantos problemas, foi anunciado que não poderiam entrar no Brasil. 

Emigrantes amontados no convés do navio durante a travessia 

Na manhã do dia 15 de Setembro, o navio Remo zarpou com destino à Itália com toda a sua carga de sofrimento humano. No dia 4 de Outubro após 50 dias de navegação, sem nunca terem desembarcado, m uma viagem tão dura como a de ida para o Brasil, aqueles pobres emigrantes foram mandados, pelas autoridades italianas, para a Ilha de Asinara, na Sardenha, onde desembarcaram. Ficaram em um período de quarentena e após 10 dias o navio retomou viagem primeiro para Nápoles, onde os passageiros meridionais foram desembarcados e depois rumou para Gênova, onde atracaram em 26 de Outubro. Viagem total de ida e volta do Brasil durou 70 dias e custou a vida de 96 passageiros e algumas centenas de doentes. 

Emigrantes a bordo durante uma travessia 

Proporcionalmente esta viagem não foi a pior delas em número de mortos. A viagem do vapor Carlo Raggio, que inicialmente foi construído para o transporte de carvão, foi apressadamente adaptado para o transporte oceânico de passageiros. Partindo do porto de Gênova e após uma escala em Nápoles, com um total de 1000 passageiros e 16 tripulantes, foi identificada uma epidemia de cólera a bordo. Durante o trajeto teve 211 mortes a bordo, uma para cada 5 passageiros. Nesses navios o cólera era diagnosticado apenas com critérios clínicos.

No outono de 1892, o navio Giulio Cesare, recém construído, estava para deixar o porto de Gênova, para a sua primeira viagem ao Brasil com 900 emigrantes a bordo, quando foi impedido de zarpar devido o aparecimento de uma grave intoxicação que acometeu cerca de 40 dos passageiros que já estavam embarcados, logo após terem consumido a primeira refeição. Na investigação médica que se seguiu pela autoridades portuárias concluiu que se tratava de uma intoxicação alimentar  causada pela recente soldagem e estanhamento das tigelas usadas naquela refeição. 

No final do século XIX o problema da má higienização dos alimentos já se fazia sentir, com o aparecimento frequente de intoxicações alimentares de passageiros e tripulantes. Um regulamento de 1890 já regulava a necessidade de maiores controles com a higienização de alimentos, bebidas e utensílios de cozinha usados nos navios. Infelizmente nesses navios que transportavam emigrantes essas medidas foram transcuradas, como quase tudo que se referia a melhoria da qualidade de vida a bordo. 

Oceano - Quadro de Arnaldo Ferragutti

Alguns anos mais tarde, a mesma empresa de navegação oceânica, se envolveu em outros incidentes semelhantes. Um dos casos foi o do vapor Agordar, com destino ao Brasil, quando, ainda no porto, teve 10 de seus passageiros acometidos por intoxicação alimentar e mais 130 que desistiram da viagem. Ficava assim evidente a incapacidade e a falta de vontade das companhias marítimas  em resolverem este grave problema de melhoria da qualidade dos serviços de bordo. Isso tudo para conservarem os seus lucros e manterem o preço dos bilhetes da passagem competitivos, uma vez que os custos dessas melhorias não conseguiriam repassar para os passageiros. 

As probabilidades de desenvolverem doenças durante a viagem, como a tuberculose, era muito alta. Dormiam empilhados um encima do outro. Muitos relatos de passageiros, principalmente, aqueles de terceira classe, amontoados nos porões dos navios,  testemunham: "Nós, pobres  desgraçados descemos ao porão do navio através de um alçapão, Havia uma grande escuridão e logas filas de beliches de madeira onde tos dormíamos juntos: alemães, italianos, poloneses, suecos, franceses. Lá embaixo não tínhamos água nem luz e já no inicio da viagem muitos ficaram mareados e vomitavam. Ficamos presos como ratos em um buraco, agarrados a suportes de cama ou estruturas de ferro para evitar sermos arrastados pelo balanço do navio, principalmente quando ele enfrentava ventos fortes e grandes ondas". Naqueles navios homens, mulheres e meninas ficavam todos na mesma cama, separados apenas por uma ripa, para evitar rolar uns sobre os outros. 

Emigrantes no Porto a espera do embarque

Durante a longa travessia, em caso de morte de um passageiro, a prática era jogar o corpo no mar o mais rápido possível, de preferência à noite ou nas primeiras luzes da madrugada, para evitar a presença de curiosos, e em seguida providenciar a desinfecção das instalações para prevenir uma possível epidemia. A urgência de se livrar do corpo, passageiro ou tripulante, era muito maior nos casos ocorridos durante a vigência de uma epidemia de doença contagiosa. Nos diários de bordo de navios daquela época e disponíveis para consultas pode-se ter uma ideia do ocorria nesses momentos. Na pressa de se desfazer do corpo, muitos daqueles jogados ao mar podiam ainda não estarem realmente mortos. 


Porto de Santos

Nas viagens para o Brasil e Argentina, também surgiram epidemias de febre amarela, encontradas em navios dos portos brasileiros e argentinos, muito difícil de diferenciar daqueles  sinais e sintomas que apresentavam os passageiros desacostumados ao balanço do navio e os longos períodos no mar. O sarampo também foi uma doença que ocasionou muitas epidemias. Em 1892 um navio norte americano retornando à Gênova, depois de atracar  nos portos de Buenos Aires, Montevideo e Rio de Janeiro, teve uma grave epidemia a bordo. Todas as crianças que viajaram na terceira classe foram infectadas, das quais 5 morreram e 32 passageiros foram desembarcados e hospitalizados em Gênova. 

Neste artigo podemos aquilatar que as condições sanitárias a bordo eram bastante precárias e não raras vezes aquela esperança de conquistar o desejado bem estar, que os tinha sustentado até ali, poderia se esvanecer diante da realidade que encontravam durante a travessia. Mas, a forte decisão de emigrar era muito maior do que o possível sofrimento que os esperava.

A letra de uma canção entoada a bordo pelo emigrantes italianos com destino ao Brasil dizia: 

"Vai ser o que for,

Pior do que está, não será

Vamos tentar nossa sorte.

E já que teremos que morrer, mais cedo ou mais tarde,

Podemos muito bem deixar nossa pele na América como na Europa...

Viva a América! Morte aos Senhores! 

Vamos para o Brasil!

Agora caberá aos proprietários trabalharem a terra". 


Esse era o espírito dos emigrantes italianos que embarcavam nos navios para cruzar o grande e desconhecido oceano. Todo esse indiscritível sofrimento físico e psicológico não reduziram a onda de migração para o novo mundo. 

No segundo decênio do século XX, ao acercasse da I Grande Guerra Mundial ocorreu uma desaceleração do fenômeno migratório. No período entre as duas guerras mundiais a emigração de italianos em busca de trabalho continuou, mas,  com um número bem mais reduzido de emigrantes, principalmente, devido às medidas restritivas adotadas pelos países anfitriões e a política anti-imigração imposta pelo fascismo. 


Dr. Luiz Carlos Piazzetta 

Erechim RS