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sábado, 28 de fevereiro de 2026

Ano Novo Veneto 1º de Março a Tradição da Sereníssima República de Veneza


 

Ano Novo Veneto 1º de Março a Tradição da Sereníssima República de Veneza


  • Ano Novo Veneto: quando o ano começava em 1º de março na Sereníssima República

Durante séculos, no território da antiga República de Veneza, o calendário seguia uma lógica própria. Para os venezianos da Sereníssima, o ano civil não se iniciava em 1º de janeiro, mas sim em 1º de março. Essa tradição, conhecida como Capodanno Veneto ou registrada nos documentos como More Veneto (segundo o costume vêneto), marcou profundamente a organização administrativa e cultural do Estado veneziano.

Muito mais do que uma curiosidade histórica, o Ano Novo Veneto revela a autonomia institucional e a identidade singular de uma das repúblicas mais duradouras da Europa.

  • A origem romana do início do ano em março

A escolha do 1º de março remonta ao calendário romano arcaico, no qual o ano começava em março (Martius), mês dedicado ao deus Marte. Esse período simbolizava o reinício das atividades militares e agrícolas após o inverno.

Originalmente, o calendário romano tinha dez meses, iniciando em março e encerrando em dezembro. Por isso os nomes:

  • Setembro (septem = sete)

  • Outubro (octo = oito)

  • Novembro (novem = nove)

  • Dezembro (decem = dez)

Posteriormente, com as reformas do calendário romano (inclusive a reforma juliana de 46 a.C.), o início oficial do ano foi transferido para janeiro. No entanto, em diversas regiões da Europa medieval, persistiram sistemas locais de contagem do ano civil — e Veneza foi uma das que preservou o início em março por mais tempo.

  • O “More Veneto” nos documentos oficiais

Nos documentos da República de Veneza era comum encontrar a expressão “more veneto”, indicando que aquela data estava registrada segundo o uso veneziano.

Isso significa que os meses de janeiro e fevereiro pertenciam, para efeitos legais e administrativos, ao ano anterior. Assim, por exemplo, o que hoje consideraríamos fevereiro de 1600 ainda seria, no sistema veneziano, fevereiro de 1599.

Esse sistema esteve em vigor até 1797, ano da queda da República de Veneza diante das campanhas napoleônicas. A partir de então, consolidou-se definitivamente o uso do calendário com início em 1º de janeiro.

  • O simbolismo do 1º de março

Além da função administrativa, o 1º de março possuía forte significado simbólico.

Ele marcava:

  • O declínio do inverno

  • A aproximação da primavera

  • O renascimento dos campos

  • A retomada plena das atividades agrícolas

Em uma sociedade profundamente vinculada à terra e aos ciclos naturais, iniciar o ano quando a natureza despertava era coerente com a mentalidade coletiva.

Em algumas localidades do Vêneto, registram-se tradições populares associadas ao período, como manifestações rituais destinadas a afastar simbolicamente o inverno e celebrar o retorno da luz e da fertilidade.

  • Identidade histórica e memória cultural

O Ano Novo Veneto tornou-se, na contemporaneidade, um símbolo cultural. Diversas associações históricas e movimentos de valorização regional recordam o 1º de março como marco identitário da antiga Sereníssima.

Mais do que um sistema cronológico, o Capodanno Veneto representa:

  • A autonomia administrativa veneziana

  • A longevidade institucional da República

  • A singularidade cultural do Vêneto

  • A relação entre calendário e natureza

Calendários não são apenas instrumentos técnicos: são expressões de organização social e visão de mundo.

  • A herança entre os descendentes

Para descendentes de vênetos espalhados pelo mundo — especialmente no Brasil, onde a imigração do século XIX levou milhares de famílias do Vêneto para o Sul e Sudeste — o 1º de março possui valor simbólico adicional.

Recordar o Ano Novo Veneto significa:

  • Compreender datas antigas em registros históricos

  • Reafirmar a identidade cultural vêneta

  • Valorizar a herança da Sereníssima

  • Manter viva a memória das tradições ancestrais

Entre comunidades que preservam o talian e costumes herdados da imigração, a data tornou-se ocasião de celebração cultural e reflexão histórica.

  • Uma tradição que atravessou séculos

Durante quase mil anos, a República de Veneza organizou o tempo segundo seu próprio costume. Essa prática atravessou reformas calendáricas e mudanças políticas, permanecendo até o fim do Estado veneziano.

O Ano Novo Veneto nos recorda que o tempo civil não é apenas uma convenção matemática — é também construção cultural.

Celebrar o 1º de março como início do ano é, ainda hoje, no Veneto, um gesto de memória histórica e pertencimento identitário. 

  • A Tradição no Brasil
Embora o 1º de março tenha sido durante séculos o início oficial do ano na República de Veneza, essa tradição não se consolidou entre os imigrantes vênetos no Brasil porque possuía natureza predominantemente civil e administrativa, sem constituir uma grande festividade religiosa estruturada. Após a queda da Sereníssima, em 1797, o calendário com início em 1º de janeiro tornou-se definitivamente dominante, e o antigo costume perdeu sua função institucional, sobrevivendo mais como referência histórica do que como prática social ativa. Quando a grande imigração começou, no final do século XIX, os vênetos já viviam plenamente sob o calendário comum europeu. No contexto da colonização brasileira, priorizaram-se tradições ligadas à fé, à família, ao trabalho agrícola e à vida comunitária — elementos essenciais à sobrevivência e à coesão social — enquanto um costume cronológico sem forte expressão ritual acabou não sendo transmitido às gerações seguintes.

  • Nota do Autor

Este texto busca resgatar não apenas uma curiosidade histórica, mas um elemento profundo da identidade vêneta. O Ano Novo Veneto é expressão de uma civilização que soube organizar o tempo segundo sua própria lógica cultural e política. Ao recordar o 1º de março como início do ano na Sereníssima, celebramos também a memória dos antepassados que levaram consigo essa herança para além do Adriático, mantendo viva, nos gestos e na tradição, a alma do Vêneto.

D. Luiz Carlos B. Piazzetta