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terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Raízes em Dois Mundos


Raízes em Dois Mundos
Da Ligúria às Terras da Califórnia – A Jornada de Antonio Carbone

Antonio Lorenzo Carbone nasceu em Coreglia Ligure, na província de Gênova, em 24 de agosto de 1896. Filho de camponeses, aprendeu desde cedo a dureza da terra, curvando-se sobre vinhedos e campos magros ainda na adolescência. A vida rural não lhe concedia tréguas, mas forjou nele a resistência e o espírito parcimonioso que marcariam toda a sua trajetória.

Com o início da Primeira Guerra Mundial, foi convocado para o serviço militar. Atuou como técnico, abrindo galerias e construindo pontes que sustentavam o avanço dos batalhões. A disciplina, o silêncio das trincheiras e o ruído metálico dos estaleiros de guerra moldaram um jovem que aprendeu a valorizar cada minuto de paz.

O retorno à aldeia não trouxe perspectivas. O solo estreito e as colinas íngremes da Ligúria não ofereciam futuro. Foi então que, ao lado do amigo Marco Cavassa, cujo irmão já trabalhava como embalador de frutas nos Estados Unidos, decidiu buscar destino além do oceano. Embarcaram em Gênova a 20 de julho de 1920 e, após semanas de travessia, chegaram a Nova York no início de agosto.

Antonio seguiu para Ripon, na Califórnia, onde um tio materno, Luigi Parodi, lhe abriu as portas. O jovem camponês não hesitou em aplicar ali seu conhecimento: podava vinhas, alinhava parreirais, colhia uvas nos arredores de Manteca e oferecia sua força em qualquer lavoura que necessitasse de braços. A vida era de sacrifício, mas também de esperança.

Cinco anos mais tarde, em 1925, Antonio e Marco haviam poupado o suficiente para comprar vinte acres de terra em Ripon. O terreno era árido, sem água, mas eles cavaram um poço, levaram eletricidade e ergueram uma pequena casa de madeira, com uma adega subterrânea onde fermentariam o vinho para consumo próprio. Plantaram pêssegos, cerejeiras, nogueiras e novos filares de videiras. Cavalos puxavam o arado; galinhas forneciam carne e ovos. Os produtos eram levados ao mercado de Modesto, primeiro em carroças improvisadas, depois em um furgão usado que mal suportava o peso da colheita.

Marco, porém, cansou-se da vida árdua e regressou à Itália. Antonio, determinado, adquiriu sua parte e tornou-se único proprietário da fazenda. Sozinho, comprou um automóvel Chevrolet Coupé e, consciente de que o futuro exigia mais que trabalho braçal, matriculou-se na escola noturna de Modesto para aprender inglês e conquistar a cidadania americana. Estudava após exaustivos dias de campo, mas não se deixava vencer.

Foi nesse período que conheceu Caterina Traverso, filha de emigrantes da Val Fontanabuona. Nascida nos Estados Unidos, havia retornado com a família à Ligúria ainda criança, antes de reemigrar. Casaram-se na igreja de São Estanislau, em Modesto, poucos meses depois de se reencontrarem na América.

A solidão da fazenda pesava sobre Caterina. Os vizinhos eram distantes e falavam apenas inglês, língua que ela dominava pouco. Encontrava consolo nos afazeres domésticos, no leite da vaca que ordenhava, no queijo que fabricava e nos filhotes de uma gata que lhe faziam companhia. Com o tempo, porém, a vida se tornou menos áspera. Em 1931 nasceu a primeira filha, Teresa, trazendo calor à casa. A chegada da irmã de Caterina, Laura, recém-vinda da Itália, também foi decisiva: auxiliava nos trabalhos agrícolas e no lar, tornando a família mais forte e coesa.

Os anos seguintes foram marcados por conquistas. Em 1935 nasceu Dena e, em 1941, a caçula, Lucia. A fazenda prosperava, mesmo diante das dificuldades. Em 1955 Antonio ampliou suas terras em mais vinte acres, destinados a novos pomares. Uma doença o obrigou a arrancar parte das árvores, mas não o fez desistir. Plantou feijões, tomates, verduras; em seguida reergueu os pêssegos e as cerejeiras, sempre resiliente, sempre confiante de que a terra recompensaria sua dedicação.

Mesmo já idoso, aos 76 anos, arrendou as terras mas jamais as abandonou por completo, ajudando a cultivá-las sempre que podia. O vínculo com o solo era inquebrantável, parte de sua identidade mais profunda.

Em 1964, acompanhado da esposa, retornou pela única vez a Coreglia Ligure. Reviu parentes, percorreu as colinas de sua infância, respirou o ar do mar da Ligúria e retornou em seguida ao vale fértil que agora era sua verdadeira casa.

Antonio Carbone havia sido camponês na Itália e continuou sendo camponês na América. Mas havia uma diferença crucial: na nova terra, conquistou aquilo que em sua aldeia natal parecia impossível — ser dono da terra que cultivava. Compreendeu que a propriedade, os vínculos familiares e a integração com a comunidade eram a essência de sua vida.

Seu mundo girava em torno de Ripon: os mercados de Modesto, a escola onde aprendera inglês, a igreja onde casara, as fazendas vizinhas dos Traverso e dos Cavassa, todos ligados pela memória de uma Ligúria distante.

Faleceu em 20 de julho de 1978, aos 82 anos, cercado pela esposa, pelas filhas e pelo respeito de toda a comunidade. A sua vida foi uma ode silenciosa ao trabalho, à persistência e à pertença a dois mundos que se encontraram na figura de um camponês que cruzou o oceano em busca de dignidade.

Nota do Autor

Esta é uma história inspirada em fatos reais da grande emigração italiana do final do século XIX e início do século XX. Antonio Lorenzo Carbone, tal como apresentado nestas páginas, é um personagem literário criado a partir de um relato autêntico de vida. Alterei nomes, localidades e alguns detalhes para preservar a intimidade das famílias envolvidas, mas mantive o fio central da experiência: o destino de milhares de ligures que deixaram suas colinas estreitas em busca de terra e dignidade no outro lado do oceano.

O percurso de Antonio representa uma geração que atravessou guerras, pobreza e incertezas, mas que encontrou na América uma nova raiz, sem jamais perder o vínculo com a terra natal. Sua existência é um tributo à resiliência camponesa, ao valor da família e à crença de que o trabalho árduo poderia, enfim, abrir as portas da propriedade e da liberdade.

Mais do que uma biografia individual, esta narrativa é também a memória coletiva de tantos imigrantes que construíram, com silêncio e sacrifício, comunidades inteiras no Novo Mundo.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta