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segunda-feira, 10 de agosto de 2026

De Camponeses Pobres a Colonos - A Transformação dos Italianos


Da pobreza nas aldeias do norte da Itália nasceu uma geração de colonos que 
ajudou a construir a identidade do Sul do Brasil.


De Camponeses Pobres a Colonos - A Transformação dos Italianos no Sul do Brasil. 

Eles não cruzaram o oceano para enriquecer. Cruzaram para conquistar aquilo que a velha Europa jamais lhes prometera: o direito de chamar um pedaço de terra de seu.


Houve um tempo em que o horizonte de um camponês do Vêneto terminava na cerca do campo que ele não possuía. A terra era de outro. O suor era seu. A colheita também não lhe pertencia inteiramente. Vivia como meeiro ou jornaleiro, sujeito às vontades dos proprietários, às intempéries do clima e aos impostos que se multiplicaram após a unificação italiana. O sonho não era enriquecer. Era simplesmente comer todos os dias e deixar aos filhos uma existência um pouco menos severa do que a sua. O pão, quando havia, era celebrado com gratidão. A polenta era mais companheira do que alimento. A carne visitava a mesa apenas nas grandes festas religiosas. O vinho, quase sempre ralo, era menos prazer do que consolo.
Talvez por isso aqueles homens não tenham embarcado rumo ao Brasil movidos pela aventura. A aventura é um luxo de quem pode escolher. Eles partiram porque permanecer significava assistir lentamente ao esgotamento da própria esperança. Cada aldeia do Vêneto conhecia histórias de famílias que vendiam o pouco que possuíam para comprar uma passagem ao desconhecido. Vendiam a cama, a carroça, o porco, algumas galinhas, os poucos móveis herdados dos avós. O que não conseguiam vender deixavam para trás, como se uma parte da própria vida permanecesse fechada dentro das velhas casas de pedra.
É curioso pensar que, naqueles dias, atravessar o Atlântico significava mais do que cruzar um oceano. Significava romper o fio invisível que unia gerações. Muitos jamais voltariam a ver a igreja onde foram batizados, a praça onde brincaram quando crianças, o sino que marcava as horas da colheita, o cemitério onde repousavam seus pais. A saudade começava antes mesmo de o navio levantar âncora.
Quando finalmente alcançavam o Sul do Brasil, descobriam que a promessa e a realidade raramente caminhavam de mãos dadas. Em vez dos campos cultivados que imaginavam encontrar, estendia-se diante deles uma floresta quase infinita. Não havia vinhedos, nem oliveiras, nem estradas de pedra. Havia árvores gigantescas, barrancos, rios caudalosos, chuva, frio e um silêncio tão profundo que parecia pertencer a outro mundo.
Foi ali que ocorreu a verdadeira transformação.
Na Itália eram agricultores. No Brasil precisaram tornar-se desbravadores.
Antes de plantar o primeiro pé de milho, tiveram de aprender a derrubar árvores que jamais haviam visto. Antes de colher uvas, precisaram arrancar tocos enormes com ferramentas rudimentares. Antes de construir igrejas, levantaram ranchos cobertos de tabuinhas por onde o vento passava livremente durante os invernos rigorosos da Serra.
Cada metro de terra cultivada representava dias de trabalho brutal.
Cada clareira aberta na mata custava músculos, calos e uma obstinação que hoje parece quase impossível compreender.
Rubem Braga talvez dissesse que certas árvores demoravam séculos para crescer, mas bastavam alguns homens carregando machados e esperança para transformá-las em casas, celeiros e igrejas. E havia algo de profundamente humano nessa luta desigual. Não era uma guerra contra a floresta. Era um lento entendimento entre o homem e a natureza, em que ambos acabavam modificados.
As mãos calejadas daqueles colonos passaram a conhecer madeiras cujos nomes jamais haviam pronunciado na Itália. Araucária. Cedro. Canela. Grápia. O machado tornou-se uma extensão do braço. A enxada, uma continuação da vontade.
Pouco a pouco surgiram pequenas propriedades onde antes existia apenas mata fechada.
Talvez esse tenha sido o maior milagre daquela geração.
Pela primeira vez muitos daqueles homens eram donos da terra que cultivavam.
Pode parecer uma conquista simples aos olhos de quem nasceu cercado por escrituras, registros e cercas. Mas, para um antigo meeiro do Vêneto, possuir alguns hectares significava alterar completamente o destino da família. Já não trabalhava para enriquecer outro homem. Plantava para alimentar os próprios filhos. Cada videira fincada no solo representava uma raiz definitiva. Cada parreira era quase uma declaração silenciosa de permanência.
Entretanto, possuir a terra nunca significou possuir facilidade.
As primeiras colheitas frequentemente fracassavam. As sementes nem sempre vingavam. Havia doenças, acidentes, enchentes, secas, isolamento e uma distância quase intransponível entre as colônias e os centros urbanos. Muitos percorriam quilômetros a pé ou em carroças para vender uma pequena produção de milho, feijão ou vinho. Outros morriam antes de ver a propriedade prosperar.
Mas existia algo que nenhuma dificuldade conseguia destruir.
A família.
Se havia uma riqueza que os imigrantes trouxeram da Itália, essa riqueza não cabia nas malas.
Cabia ao redor da mesa.
Pais, filhos, avós, tios e vizinhos transformavam o trabalho em esforço coletivo. Construía-se uma casa em mutirão. Erguia-se uma capela entre muitas mãos. Compartilhavam-se sementes, ferramentas, alimentos e esperança. A comunidade tornava-se uma grande família espalhada pelos vales.
Não demorou para que surgissem escolas, igrejas, moinhos, cantinas e pequenas casas comerciais. A floresta começava a adquirir sotaque italiano. Os sinos chamavam para a missa. O cheiro do pão recém-assado misturava-se ao perfume da madeira cortada. A polenta, antes símbolo da pobreza europeia, passava lentamente a representar fartura, convivência e identidade.
A ironia da história é delicada.
Aquilo que na Itália lembrava escassez transformou-se, no Brasil, em memória afetiva.
O vinho, que antes era apenas alimento cotidiano, tornou-se cultura.
A língua dos avós sobreviveu entre montanhas distantes do Vêneto.
As festas religiosas continuaram reunindo famílias sob o mesmo céu, embora agora esse céu fosse cruzado pelos pinheiros da Serra Gaúcha.
Com o passar das décadas, os filhos daqueles colonos aprenderam a ler. Os netos abriram pequenas indústrias. Os bisnetos tornaram-se professores, médicos, comerciantes, engenheiros e empresários. O machado cedeu lugar às máquinas. A carroça transformou-se em caminhão. Os antigos caminhos de barro deram origem a cidades prósperas.
Entretanto, reduzir essa história apenas ao sucesso econômico seria cometer uma injustiça.
A verdadeira transformação não ocorreu quando surgiram vinícolas ou cooperativas.
Ela aconteceu muito antes.
Aconteceu no instante em que um homem, acostumado durante toda a vida a cultivar terras alheias, olhou para o pequeno lote coberto de mata e compreendeu que, dali em diante, cada árvore derrubada, cada semente lançada e cada fruto colhido pertenciam à sua família.
Foi nesse momento que o camponês se tornou colono.
E talvez tenha sido ali que também nasceu um novo brasileiro.
Não um homem que abandonou a Itália, mas alguém que carregou a Itália dentro de si enquanto aprendia a amar outra terra. A memória das aldeias, dos sinos, das procissões, das videiras e das cozinhas aquecidas pelo fogo de lenha não desapareceu; atravessou o oceano escondida na alma daqueles imigrantes e reapareceu, transformada, nas encostas da Serra Gaúcha. Eles não reconstruíram apenas suas casas. Reconstruíram um modo de viver, preservando a língua, a fé, o trabalho comunitário e a convicção de que a família era a maior riqueza que um homem podia possuir.
Hoje, quando percorremos as estradas da Serra Gaúcha e contemplamos vinhedos que desenham as encostas, igrejas de pedra que desafiam o tempo e pequenas propriedades transmitidas de pais para filhos, é fácil imaginar que tudo sempre esteve ali. Mas não esteve. Antes do vinho, houve o machado. Antes da cantina, houve o rancho. Antes da fartura, houve a fome. Antes do colono respeitado, existiu o camponês pobre que atravessou o Atlântico levando pouco mais do que uma muda de roupa, um rosário, algumas sementes escondidas entre os pertences e uma esperança maior do que o medo. Talvez seja essa a mais bela herança deixada pelos imigrantes italianos ao Sul do Brasil. Eles provaram que a verdadeira riqueza não nasce da terra, mas da coragem de cultivá-la. E ensinaram, com a própria vida, que existem homens capazes de transformar uma floresta em lar, um sonho em patrimônio e uma travessia em eternidade.


Nota do Autor

Antes de tudo, é preciso desfazer uma ideia muito repetida ao longo dos anos: a de que os imigrantes italianos vieram para o Brasil apenas em busca de riqueza. Na verdade, a imensa maioria deles sequer ousava sonhar com prosperidade. Os camponeses que deixaram o Vêneto, a Lombardia, o Trentino e outras regiões do norte da Itália, entre as décadas de 1870 e 1890, pertenciam às camadas mais humildes da população rural. Muitos eram meeiros, arrendatários ou simples jornaleiros. Cultivavam terras que pertenciam a grandes proprietários e viviam presos a um sistema agrícola que lhes oferecia pouco mais do que a sobrevivência. A possibilidade de adquirir uma propriedade era, para quase todos, praticamente inexistente. A terra permanecia concentrada nas mãos de poucas famílias havia gerações, e a fragmentação das pequenas heranças, o crescimento da população rural e a crise econômica agravada após a unificação italiana tornavam ainda mais remoto qualquer projeto de ascensão social.

Foi justamente essa realidade que tornou extraordinária a transformação vivida no Sul do Brasil. Ao receber um lote colonial, ainda coberto por mata virgem, o imigrante ganhou algo que dificilmente conquistaria em sua terra natal: a oportunidade de tornar-se proprietário. É verdade que aquela terra exigia um preço altíssimo. Era preciso derrubar árvores gigantescas, construir a própria casa, abrir estradas, plantar, enfrentar doenças, isolamento e inúmeras privações. No entanto, todo esse esforço possuía um sentido profundamente novo: cada golpe de machado, cada semente lançada ao solo e cada colheita beneficiavam sua própria família, e não um senhor de terras. Pela primeira vez, o trabalho deixava de enriquecer outro homem para construir o futuro dos próprios filhos.

Essa talvez tenha sido a maior revolução silenciosa produzida pela imigração italiana. Em apenas duas ou três gerações, descendentes de famílias que, na Itália, dificilmente ultrapassariam a condição de camponeses pobres tornaram-se proprietários rurais, comerciantes, industriais, professores, médicos, engenheiros e líderes comunitários. Não foi uma transformação imediata nem isenta de sofrimento, mas uma conquista construída lentamente, sustentada pelo trabalho familiar, pela solidariedade entre vizinhos, pela fé e pela convicção de que o sacrifício do presente abriria caminhos para as gerações futuras. A floresta brasileira ofereceu aquilo que a velha estrutura agrária do norte da Itália lhes negava: a possibilidade concreta de mudar o próprio destino. Talvez por isso a história da imigração italiana seja muito mais do que uma narrativa de deslocamento geográfico. É a história de homens e mulheres que descobriram que a maior riqueza não era a terra em si, mas a liberdade de chamá-la, pela primeira vez, de sua.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Raízes em Dois Mundos


Raízes em Dois Mundos
Da Ligúria às Terras da Califórnia – A Jornada de Antonio Carbone

Antonio Lorenzo Carbone nasceu em Coreglia Ligure, na província de Gênova, em 24 de agosto de 1896. Filho de camponeses, aprendeu desde cedo a dureza da terra, curvando-se sobre vinhedos e campos magros ainda na adolescência. A vida rural não lhe concedia tréguas, mas forjou nele a resistência e o espírito parcimonioso que marcariam toda a sua trajetória.

Com o início da Primeira Guerra Mundial, foi convocado para o serviço militar. Atuou como técnico, abrindo galerias e construindo pontes que sustentavam o avanço dos batalhões. A disciplina, o silêncio das trincheiras e o ruído metálico dos estaleiros de guerra moldaram um jovem que aprendeu a valorizar cada minuto de paz.

O retorno à aldeia não trouxe perspectivas. O solo estreito e as colinas íngremes da Ligúria não ofereciam futuro. Foi então que, ao lado do amigo Marco Cavassa, cujo irmão já trabalhava como embalador de frutas nos Estados Unidos, decidiu buscar destino além do oceano. Embarcaram em Gênova a 20 de julho de 1920 e, após semanas de travessia, chegaram a Nova York no início de agosto.

Antonio seguiu para Ripon, na Califórnia, onde um tio materno, Luigi Parodi, lhe abriu as portas. O jovem camponês não hesitou em aplicar ali seu conhecimento: podava vinhas, alinhava parreirais, colhia uvas nos arredores de Manteca e oferecia sua força em qualquer lavoura que necessitasse de braços. A vida era de sacrifício, mas também de esperança.

Cinco anos mais tarde, em 1925, Antonio e Marco haviam poupado o suficiente para comprar vinte acres de terra em Ripon. O terreno era árido, sem água, mas eles cavaram um poço, levaram eletricidade e ergueram uma pequena casa de madeira, com uma adega subterrânea onde fermentariam o vinho para consumo próprio. Plantaram pêssegos, cerejeiras, nogueiras e novos filares de videiras. Cavalos puxavam o arado; galinhas forneciam carne e ovos. Os produtos eram levados ao mercado de Modesto, primeiro em carroças improvisadas, depois em um furgão usado que mal suportava o peso da colheita.

Marco, porém, cansou-se da vida árdua e regressou à Itália. Antonio, determinado, adquiriu sua parte e tornou-se único proprietário da fazenda. Sozinho, comprou um automóvel Chevrolet Coupé e, consciente de que o futuro exigia mais que trabalho braçal, matriculou-se na escola noturna de Modesto para aprender inglês e conquistar a cidadania americana. Estudava após exaustivos dias de campo, mas não se deixava vencer.

Foi nesse período que conheceu Caterina Traverso, filha de emigrantes da Val Fontanabuona. Nascida nos Estados Unidos, havia retornado com a família à Ligúria ainda criança, antes de reemigrar. Casaram-se na igreja de São Estanislau, em Modesto, poucos meses depois de se reencontrarem na América.

A solidão da fazenda pesava sobre Caterina. Os vizinhos eram distantes e falavam apenas inglês, língua que ela dominava pouco. Encontrava consolo nos afazeres domésticos, no leite da vaca que ordenhava, no queijo que fabricava e nos filhotes de uma gata que lhe faziam companhia. Com o tempo, porém, a vida se tornou menos áspera. Em 1931 nasceu a primeira filha, Teresa, trazendo calor à casa. A chegada da irmã de Caterina, Laura, recém-vinda da Itália, também foi decisiva: auxiliava nos trabalhos agrícolas e no lar, tornando a família mais forte e coesa.

Os anos seguintes foram marcados por conquistas. Em 1935 nasceu Dena e, em 1941, a caçula, Lucia. A fazenda prosperava, mesmo diante das dificuldades. Em 1955 Antonio ampliou suas terras em mais vinte acres, destinados a novos pomares. Uma doença o obrigou a arrancar parte das árvores, mas não o fez desistir. Plantou feijões, tomates, verduras; em seguida reergueu os pêssegos e as cerejeiras, sempre resiliente, sempre confiante de que a terra recompensaria sua dedicação.

Mesmo já idoso, aos 76 anos, arrendou as terras mas jamais as abandonou por completo, ajudando a cultivá-las sempre que podia. O vínculo com o solo era inquebrantável, parte de sua identidade mais profunda.

Em 1964, acompanhado da esposa, retornou pela única vez a Coreglia Ligure. Reviu parentes, percorreu as colinas de sua infância, respirou o ar do mar da Ligúria e retornou em seguida ao vale fértil que agora era sua verdadeira casa.

Antonio Carbone havia sido camponês na Itália e continuou sendo camponês na América. Mas havia uma diferença crucial: na nova terra, conquistou aquilo que em sua aldeia natal parecia impossível — ser dono da terra que cultivava. Compreendeu que a propriedade, os vínculos familiares e a integração com a comunidade eram a essência de sua vida.

Seu mundo girava em torno de Ripon: os mercados de Modesto, a escola onde aprendera inglês, a igreja onde casara, as fazendas vizinhas dos Traverso e dos Cavassa, todos ligados pela memória de uma Ligúria distante.

Faleceu em 20 de julho de 1978, aos 82 anos, cercado pela esposa, pelas filhas e pelo respeito de toda a comunidade. A sua vida foi uma ode silenciosa ao trabalho, à persistência e à pertença a dois mundos que se encontraram na figura de um camponês que cruzou o oceano em busca de dignidade.

Nota do Autor

Esta é uma história inspirada em fatos reais da grande emigração italiana do final do século XIX e início do século XX. Antonio Lorenzo Carbone, tal como apresentado nestas páginas, é um personagem literário criado a partir de um relato autêntico de vida. Alterei nomes, localidades e alguns detalhes para preservar a intimidade das famílias envolvidas, mas mantive o fio central da experiência: o destino de milhares de ligures que deixaram suas colinas estreitas em busca de terra e dignidade no outro lado do oceano.

O percurso de Antonio representa uma geração que atravessou guerras, pobreza e incertezas, mas que encontrou na América uma nova raiz, sem jamais perder o vínculo com a terra natal. Sua existência é um tributo à resiliência camponesa, ao valor da família e à crença de que o trabalho árduo poderia, enfim, abrir as portas da propriedade e da liberdade.

Mais do que uma biografia individual, esta narrativa é também a memória coletiva de tantos imigrantes que construíram, com silêncio e sacrifício, comunidades inteiras no Novo Mundo.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta




sábado, 21 de fevereiro de 2026

O Pelagrosário de Mogliano Veneto e a Luta Contra a Pelagra no Vêneto

 

Consultório Médico do Pelagrosário de Mogliano Veneto em finais do século XIX

O Pelagrosário de Mogliano Veneto e a Luta Contra a Pelagra no Vêneto


No final do século XIX, o Vêneto rural vivia uma das maiores crises sociais e sanitárias de sua história. A pobreza extrema, aliada a uma alimentação quase exclusiva à base de polenta, levou milhares de camponeses a adoecerem de pelagra. Foi nesse cenário que nasceu, em 1883, em Mogliano Veneto, província de Treviso, o que ficaria conhecido como o primeiro Pelagrosário da Itália.

A iniciativa partiu do engenheiro e político Costante Gris, então prefeito de Mogliano. Sensível ao drama dos trabalhadores rurais, Gris criou em 1882 a Società Italiana di Patronato per i Pellagrosi, mobilizando proprietários de terra, médicos, religiosos e autoridades locais para enfrentar a epidemia. O objetivo era claro: retirar os doentes do abandono e oferecer tratamento, alimentação adequada e dignidade.

No ano seguinte, em 31 de outubro de 1883, a Sociedade adquiriu a Villa Torni, transformando-a no Pelagrosário de Mogliano Veneto. A instituição foi inaugurada como um centro especializado para acolher pessoas em estágios iniciais da pelagra, quando ainda havia chance real de recuperação. O tratamento baseava-se sobretudo na correção da dieta: leite, carne, ovos e pão substituíam a polenta pobre em nutrientes.

O Pellagrosário não era apenas um hospital. Ele funcionava também como casa de trabalho e reeducação alimentar, onde os internos participavam de atividades agrícolas e manuais, integradas à terapia. O famoso médico Cesare Lombroso chegou a ser presidente honorário da Sociedade, o que deu visibilidade nacional ao projeto.

Durante as décadas de 1890 e 1900, o Pelagrosário de Mogliano passou a receber doentes de vários municípios da região de Treviso. Em pouco tempo, tornou-se referência no combate à pelagra em todo o norte da Itália. Com a progressiva diminuição da doença no início do século XX, a instituição foi sendo adaptada para outras funções assistenciais, incluindo abrigo para idosos e pessoas com transtornos mentais considerados “crônicos e tranquilos”.

A história do Pelagrosário de Mogliano Veneto é mais do que a história de um prédio ou de uma instituição médica. Ela representa o esforço coletivo de uma comunidade para enfrentar a miséria, a fome e o abandono. Para muitos camponeses vênetos — os mesmos que mais tarde emigrariam para o Brasil, Argentina e outros países — o Pelagrosário foi o primeiro sinal de que a dor deles começava, enfim, a ser vista.

Hoje, lembrar do Pelagrosário é também lembrar das raízes de uma diáspora. É reconhecer que por trás de cada sobrenome italiano nas colônias do Brasil houve, antes, fome, doença, resistência — e, em Mogliano Veneto, também solidariedade organizada.

Nota do Autor

Este texto nasce da memória.
Não apenas da memória dos livros e dos arquivos, mas da memória que atravessou o oceano dentro das famílias. Muitos dos primeiros emigrantes vênetos que chegaram ao Brasil — ou seus pais, irmãos, vizinhos — passaram pelo Pelagrosário de Mogliano Veneto. Ali conheceram a fragilidade do corpo, o medo da doença… mas também a dignidade de serem cuidados quando tudo parecia perdido.

Ao escrever sobre essa instituição, não falo apenas de paredes e datas. Falo de gente. De homens e mulheres que carregaram nas costas o peso da miséria, mas também a força de recomeçar. Falo de uma geração que sobreviveu à pelagra para depois sobreviver ao exílio, à mata, à saudade e ao trabalho duro nas colônias do Brasil.

Se você é descendente de vênetos, talvez esta história não seja apenas “história”.
Talvez seja o eco de algo que viveu na sua família — um silêncio antigo, uma dor não dita, uma coragem herdada.

Que este texto sirva como homenagem.
Aos que sofreram.
Aos que resistiram.
E aos que transformaram dor em raiz, e raiz em futuro.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta


quinta-feira, 27 de novembro de 2025

El Destin del Pòpolo Vèneto: Tra la Fame e la Speransa – La Saga de l’Emigrassion par el Brasil


El Destin del Pòpolo Vèneto: Tra la Fame e la Speransa – La Saga de l’Emigrassion par el Brasil


Zoani da lontan lu el ga sentì stòrie de la grandessa passà de Venèssia, de quando el Vèneto ´l zera el sentro de ´na potenta repùblica marinai. Lu no ´l ga mai vissù quei tempi gloriosi, ma el ze cressù sora la ombra de la povartà e de la crise che i ga dominà la region quando  la Serenìsima la ga cascà ´ntel 1797. El so nono, lu el zera stà testimònio del fin de Venèssia sora le man de Napoleon, ghe contava che la vita la zera mèio prima de l' invasiòn francesa e del domìnio del impèrio Austro-Ungàrico che i ze vignesto dopo.

Desso, ´ntel 1875, Zoani, che el gavea trenta ani, vardea i campi dissecà de el Vèneto e se domandea come che el so pòpolo ghe zera rivà a ´na povartà così granda. Con la so mòier Maria, el vivea na vita de dificoltà come mezadro, laorando tere che no le zera mia sue e sempre sogeto a la volontà e i caprìssi de el gastaldo, el crùdele impiegato de la proprietà. Zera na esistensa de servitù, ndove che el fruto de el laor fadicoso de Zoani e Maria no bastea mia gnanca par sfamar i so fiòi.

La Itàlia, dopo la union ´ntel 1861, soto el governo de i Savoia, prometea un futuro mèio, ma par i contadin vèneti, sta promessa la parea sempre pi lontan. Zoani sentia i rumori ´nte le fiere e ´nte le cese: "Con la Serenìssima se disnava e si senava, con el Cesco Bepi apena si senava, ma romai con i Savoia, no se magnava gnanca el disnar e la sena." La fame, che devastea la region da desséni, la continuea implacàbile. Le tasse sempre pì alte, la mancansa de laor e le racolte che i ´ndea male, i fasea crèsser el disispero.

El prete Piero, el piovan de la pìcola vila ndove che la famèia de Zoani vivea, vardava la soferensa de i so parochian. Con el cuor pesà, el gavea deciso de aiutar in un'altro modo: el ga scominsià a parlar, ´nte le messe e ´nte i incontri, su l'emigrassion per el Brasil. Là, diseva lu, ghe zera tere fèrtili e vaste in Mèrica, ndove che i contadin i podea tegner ´na vita dignitosa, lontan da l’opression de i gran siori e da la fame che lori patia.

Zoani e Maria i sentia le stòrie con scètissismo. Partir par na tera sconossua, da l'altro lato del ossean, ghe parea pì un incubo che ´na solussion. Ma, con el tempo che passea e le condission ´ntel Vèneto che solo ´ndea pegior, l'idea de emigrar la gavea siapà pi forsa. Zoani no´l podea pì ignorar el fato che restar volea dir condanar la so famèia a la fame e a la povartà.

La decision de ´ndarse la ze stà siapà ´na sera freda de inverno, dopo ´na altra pòvera racolta. Zoani e Maria i ga vendù quel poco che i gavea e, con n'altre famèie de la vila, i se ga organizà par partir. El prete Piero, che continuava a guidar la comunità con la so fede incrolàbile, ghe ga promesso de guidarli spiritualmente in quel che i ´ndea verso el Novo Mondo.

El viaio fin al porto de Zénoa lu el ze stà lungo e fadigoso. I ga lassà drio tuto quel che i conossea: la casa sèmplisse, i visin e i amissi, e i ricordi de ´na vita che, ancora che dura, la zera familiar. El porto de Zenoa el zera pien de altri emigranti, tuti con la stessa speransa de scampar via da la povartà par costruir ´na vita pì mèio.

La nave che i portea ´ntel Brasil la zera na imbarcassion granda, molto vècia e pien de zente. Zoani e Maria, con i so fiòi, i ga provà a tegner viva la speransa, ma le condission sora el vapore la zera terìbili. La alimentassion zera poca e de mala qualità, e le malatie, lori i passea le note sveglià, preocupà par el futuro che i aspetea.

Dopo setimane de ´na traversia difìssile, finalmente i ga vardar el porto de Santos. La vision de la tera ferma ghe ga portà solievo, ma ancora un novo tipo de paura. El Brasil el zera vasto e sconossù, e Zoani savea che la lota la zera pena scominsià. La prima fermada la ze stà a Rio de Janeiro, ndove che i ga pasà par file longhe de ispession e formalità prima de ´ndarse fin el sud de el Brasil, dove el governo brasilian i ghe ga promesso tere par i emigranti.

El viaio verso l´ interno de el paese el ze stà strasiante. La natura selvàdega intorno ghe contrastava con la vegetassion dissecà che i gavea lassà drìo ´ntel Vèneto. Zoani e Maria i ze stà portà, con altri emigranti, verso ´na colónia pena creà ´ntela region de la ciamà Serra Gaúcha, ndove le tere le zera fèrtili, ma coèrte da foreste dense che bisognea disboscar prima che i podesse piantar cualcosa.

´Ntei primi mesi, la vita la ze stà na batàia constante contro la natura e ´l isolamento. Zoani, Maria e i so fiòi, insieme con i altri coloni, i ga laorà duramente par ripulir la tera, mèter su le case sèmplisse e piantar le prime racolte. Zera na vita de sacrifìssi, ma diversa da l’opressiòn de el passà. Adesso, lori i gavea la libartà de laorar par lori stessi, ancora che questo voléa dir un peso pì grande.

La comunità de emigranti la cressea, e no ostante le dificoltà, i gavea siapà radìse. Le tradission taliane zera mantegnù vive ´nte le feste religiose, ´nte le canssoni e ´ntel  modo di magnar che i podea preparar, quando la racolta ghe lo permetea. El prete Piero continuava a éssar un guida spiritual, condussendo messe e portando conforto a quei che i gavea nostalgia de l’Itàlia.

Zoani, però, ancora portea ´na profonda nostalgia de la so tera natia. El Vèneto, con tute le so dificoltà, el zera el paese dove che lu zera nato e cressù. Sovente el se trovava a pensar ai campi che i gavea lassà drìo e a le persone che no´l vardarìa pì. Ma, vardando i so fiòi, adesso pì forti e sani, savea che el gavea fato la scelta giusta.

I ani i ga passà, e la colónia la ze prosperà. Zoani e Maria, con tanto sforso, i ze rivà a far produsir la tera, e le so racolte gavea siapà pì de quel che ghe servia par sopravìver. I so fiòi parlea portugués polito, e, ancora che le radisi taliane  zera mantegnù, la nova generassion gavea siapà a integrarse ´ntela vita brasilian.

Le dificoltà no ze mai sparì del tuto, ma el sacrifìssio de Zoani e Maria el ga portà ´na vita pì dignitosa de quel che lori podea imaginar in Itàlia. El Brasile, con tute le so sfide, ghe gavè ofrì cualcosa che el Vèneto no´l podea pì darghe: la speransa.

Zoani no´l s’è mai desmentegà de la so tera natia. Sempre che el vento sofiava ´ntei campi ´nte la colónia, el se ricordea de le coline del Vèneto, de le tradission del so pupà e de la vita che gavea lassà drìo. Ma el savèa che el futuro el zera lì, ´nte la tera brasilian che lu e Maria gavea aiutà a coltivar.

E cusì, ´ntel cuor del Rio Grande do Sul Zoani e la so famèia i ga construì ´na nova stòria, segnà dal sacrifìssio, de la sopravivensa, ma anche de la speransa de un doman pì mèio.

Nota d´Autor

Sta stòria la ze nassù par onorar la vita dura ma coraiosa de quei vèneti che, tra fame, misèria e soni de libartà, i ga lassà la so tera par catar un futuro novo in Mèrica. No ze ´na crónaca precisa, ma un raconto che vol render onore a la forsa, la fede e la speransa de un pòpolo che, con sacrifìssio e laor, el ga piantà radìse nove sensa desmentegar le vècie. Sta òpera la ze scrita en talian par ricordar, sensa retòrica, el camin de chi che i ga portà con sé el profumo de la tera vèneta e la ga mescolà con l’odor de la tera brasilian.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta










quinta-feira, 6 de julho de 2023

Criação do bicho-da-seda pelas mãos dos camponeses: O legado têxtil no Vêneto e Lombardia no século XIX

 


Nas regiões do Vêneto e Lombardia, no mês de junho, terminava o ciclo de criação de bichos-da-seda. Por volta do meio de junho, os casulos começam a se formar, e era hora de removê-los dos galhos e enchê-los em cestos para vendê-los. O casulo amadurecia em oito dias, após os quais as mulheres realizavam a colheita, ou seja, a separação dos casulos dos galhos e a separação subsequente dos perfeitos dos que apresentavam imperfeições tais como manchas, casulo duplo e furos causados pelo nascimento das borboletas. Era uma colheita que trazia muita satisfação: eram os primeiros recursos monetários a entrar em casa, antes da colheita do trigo. Em anos bons, os casulos rendiam bons lucros: houve famílias que, com os lucros de apenas uma safra excelente de casulos, puderam comprar um animal para o estábulo, realizar compras desejadas há tempos ou pagar as dívidas contraídas no inverno.
O bicho-da-seda era criado pelas famílias camponesas, que cultivavam amoreiras (Morus) para alimentar a criação. Essa é uma espécie de planta nativa da Ásia, mas também encontrada naturalmente na África e na América do Norte. Ela inclui árvores ou arbustos de porte médio. As folhas são caducas, alternadas, com formato oval ou em forma de coração na base, com bordas denteadas. A amoreira-branca (Morus alba), espécie nativa da Ásia Central e Oriental, foi importada para a Europa junto com o bicho-da-seda, pois este é ávido por suas folhas. A amoreira-negra (Morus nigra L.), originária da Ásia Menor e Irã, foi introduzida na Europa provavelmente no século XVI. Ela possui folhas menores do que a amoreira-branca e produz frutos de cor negra-violácea saborosos.
As espécies do gênero Morus são cultivadas para diversos fins: Os frutos (amoras pretas e amoras brancas, que são comestíveis); as folhas são utilizadas na sericicultura como alimento básico para a criação dos bichos-da-seda, como plantas ornamentais e também para obtenção de madeira de trabalho, boa lenha para queimar, varas flexíveis e vime para a fabricação de cestos.
As etapas do complexo trabalho de criação do bicho-da-seda, uma espécie de borboleta da família Bombycidae originária do norte da China, que se alimenta exclusivamente de folhas de amoreira, geralmente começavam na segunda metade de abril com a compra dos ovos, que eram mantidos em ambiente doméstico quente aguardando a eclosão, que exigia uma temperatura superior a 15°C e um local bem ventilado e quente. Por esse motivo, o local mais adequado era o estábulo. Os odores de amônia do estábulo não prejudicavam os ovos, que eram colocados em uma cesta pendurada no teto e coberta com tecido para protegê-los de insetos. As famílias camponesas abastadas utilizavam uma incubadora ventilada e aquecida por uma lâmpada. A eclosão ocorria após cerca de 18 dias, e as "lagartas" cinzentas, acinzentadas ou listradas eram colocadas em grades, tábuas ou esteiras com estrutura de madeira e fundo de palha, arame ou tábuas de madeira ou vime, e eram alimentadas com folhas de amoreira finamente picadas. Nos primeiros dias, o trabalho se limitava à coleta e fragmentação de uma quantidade adequada de folhas de amoreira bem secas, frescas e limpas, e à substituição, pelo menos a cada 48 horas, das folhas de papel que coletavam as fezes acima do plano das grades.
À medida que as larvas de bicho-da-seda cresciam, aumentava seu apetite e o trabalho para cuidar delas se tornava mais intenso. Seu desenvolvimento não era uniforme, pois passavam por quatro mudas, fases em que descartavam a cutícula externa para substituí-la por uma maior. Nos últimos dez dias do ciclo, o trabalho se tornava extremamente intenso, cansativo e muitas vezes complicado devido a eventos imprevistos, como mudanças bruscas de temperatura causadas pelo mau tempo e doenças graves ou mortais que poderiam comprometer todo o processo de criação.
No estágio final de desenvolvimento, as larvas do bicho-da-seda se alimentavam vorazmente. Depois, por volta do 30º dia, elas paravam de se alimentar e começavam a mover a cabeça em movimentos oscilantes, indicando que estava chegando a hora de começarem a tecer o casulo. Nesse ponto, a família preparava uma "floresta" composta por ramos entrelaçados e a colocava em celeiros ou sótãos especialmente escurecidos para criar o ambiente ideal. Após montar a "floresta" e colocar as larvas, os criadores esperavam por uma colheita abundante. As larvas começavam a tecer o casulo, enrolando-se nele e passando pela transformação de pupa para borboleta. O bicho-da-seda produzia a seda em duas glândulas localizadas dentro do corpo. A seda era composta por proteínas coletadas nessas glândulas e o bicho-da-seda a excretava por duas aberturas localizadas ao lado da boca, chamadas de sericteres. A baba extremamente fina, ao entrar em contato com o ar, solidificava-se e, guiada por movimentos em forma de oito da cabeça, se organizava em camadas formando um casulo de seda bruta, composto por um único fio contínuo de seda com comprimento variando de 300 a 900 metros. Microscopicamente, o fio era composto por duas proteínas: dois fios de fibroína paralelos revestidos por sericina. Para utilizar a seda, era necessário intervir antes que a borboleta emergisse do casulo, pois a secreção avermelhada emitida pelo inseto logo após a eclosão, o mecônio iria manchar irreversivelmente a seda, fazendo-a perder algumas de suas características distintas, como brancura e brilho. O bicho-da-seda levava de três a quatro dias para preparar o casulo, composto por cerca de vinte a trinta camadas concêntricas formadas por um único fio contínuo. Em seguida, ele se transformava em crisálida e, posteriormente, em borboleta. Se a metamorfose fosse concluída e a larva se transformasse em mariposa, o inseto adulto saía do casulo perfurando-o, utilizando um líquido e suas patas, tornando o fio de seda inutilizável. Consequentemente, os criadores jogavam os casulos em água fervente para matar o inseto antes que isso ocorresse, ou os casulos eram secos em secadores apropriados para posterior filamento.
A imersão em água fervente permitia o desembaraçamento do fio de seda, parcialmente dissolvendo a camada proteica de sericina que envolvia o fio. Assim, antes da eclosão, começava o trabalho dos criadores, que coletavam os casulos brancos. Os casulos eram vendidos para fábricas de fiação, que se encarregavam de transformá-los em fios; alternativamente, essa atividade era realizada em casa: os casulos, imersos em água fervente em bacias, eram despidos manualmente da sericina que revestia o fio de seda, que então era desembaraçado e enrolado em bobinas.
Alguns casulos eram guardados para permitir a reprodução do bicho-da-seda. A mariposa do bicho-da-seda era e ainda é incapaz de voar e se alimentar. Essa espécie de inseto existe agora apenas como resultado de uma seleção explícita feita pelo ser humano e provavelmente perdeu grande parte de suas características originais. Por exemplo, a larva é incapaz de sobreviver em campo aberto em uma amoreira; sua pele é branca e carece da camuflagem necessária, o que a torna uma presa fácil para animais.

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