terça-feira, 21 de abril de 2026

Tenho 82 anos e uma Carta Real que Está Fazendo Filhos Chorarem

 



Tenho 82 anos e uma Carta Real que Está Fazendo Filhos Chorarem


Tenho 82 anos
Quatro filhos, onze netos, dois bisnetos…
e um quarto de doze metros quadrados.

A vida inteira coube em mim.
Agora, eu é que caibo em um espaço pequeno, silencioso e organizado.

Já não tenho minha casa.
Não tenho mais minhas coisas, nem o cheiro dos meus móveis, nem o barulho da minha cozinha.
Em troca, tenho quem arrume minha cama, prepare minhas refeições e cuide da minha pressão.
Dizem que estou bem assistida.

E estou.

Mas ninguém mede a saudade.

Sinto falta do som da vida acontecendo sem pedir licença.
Das risadas altas, das pequenas brigas, dos abraços apertados que vinham do nada.
Hoje, alguns dos meus vêm me ver de vez em quando — a cada quinze dias, talvez.
Outros, a cada alguns meses.
E há aqueles que, aos poucos, foram se tornando apenas rostos nas fotografias.

Antes, minhas mãos criavam.
Eu cozinhava para todos — cada prato tinha história.
Bordava com paciência, ponto por ponto, como quem eterniza o tempo.
Hoje, minhas mãos resolvem sudoku.
Os números não abraçam, mas preenchem o silêncio.

Os dias aqui são parecidos.
Rotinas, atividades, horários.
Às vezes ajudo alguém mais frágil do que eu, mas aprendi a não me apegar demais.
As pessoas desaparecem daqui com frequência.
E a ausência, aqui dentro, chega sempre em silêncio.

Dizem que estamos vivendo mais.

Mas, às vezes, me pergunto: viver mais… para quê?

Quando a tarde pesa, abro minha pequena caixa de lembranças.
Ali estão fotos, pequenos objetos, fragmentos de uma vida inteira.
Fico olhando cada rosto, tentando sentir de novo aquilo que o tempo levou embora.

E então entendo.

O que mais dói não é a idade.
Não é o corpo cansado.
Não é nem o fim se aproximando.

É a distância.

Se esta carta chegar a alguém, que sirva de lembrete:

A família não é apenas algo que construímos no passado.
É algo que precisa ser cuidado no presente.

Criamos filhos com o melhor de nós.
Damos tempo, energia, amor — damos a vida inteira.

E, no fim, o que mais esperamos…
é que esse amor encontre o caminho de volta.

Tenho 82 anos.
Quatro filhos, onze netos, dois bisnetos…
e um quarto de doze metros quadrados.

A vida inteira coube em mim.
Agora, eu é que caibo em um espaço pequeno, silencioso e organizado.

Já não tenho minha casa.
Não tenho mais minhas coisas, nem o cheiro dos meus móveis, nem o barulho da minha cozinha.
Em troca, tenho quem arrume minha cama, prepare minhas refeições e cuide da minha pressão.
Dizem que estou bem assistida.

E estou.

Mas ninguém mede a saudade.

Sinto falta do som da vida acontecendo sem pedir licença.
Das risadas altas, das pequenas brigas, dos abraços apertados que vinham do nada.
Hoje, alguns dos meus vêm me ver de vez em quando — a cada quinze dias, talvez.
Outros, a cada alguns meses.
E há aqueles que, aos poucos, foram se tornando apenas rostos nas fotografias.

Antes, minhas mãos criavam.
Eu cozinhava para todos — cada prato tinha história.
Bordava com paciência, ponto por ponto, como quem eterniza o tempo.
Hoje, minhas mãos resolvem sudoku.
Os números não abraçam, mas preenchem o silêncio.

Os dias aqui são parecidos.
Rotinas, atividades, horários.
Às vezes ajudo alguém mais frágil do que eu, mas aprendi a não me apegar demais.
As pessoas desaparecem daqui com frequência.
E a ausência, aqui dentro, chega sempre em silêncio.

Dizem que estamos vivendo mais.

Mas, às vezes, me pergunto: viver mais… para quê?

Quando a tarde pesa, abro minha pequena caixa de lembranças.
Ali estão fotos, pequenos objetos, fragmentos de uma vida inteira.
Fico olhando cada rosto, tentando sentir de novo aquilo que o tempo levou embora.

E então entendo.

O que mais dói não é a idade.
Não é o corpo cansado.
Não é nem o fim se aproximando.

É a distância.

Se esta carta chegar a alguém, que sirva de lembrete:

A família não é apenas algo que construímos no passado.
É algo que precisa ser cuidado no presente.

Criamos filhos com o melhor de nós.
Damos tempo, energia, amor — damos a vida inteira.

E, no fim, o que mais esperamos…
é que esse amor encontre o caminho de volta.

Nota do Autor

Esta narrativa nasce do silêncio — não o silêncio da ausência absoluta, mas aquele mais sutil e devastador: o silêncio das presenças que já não chegam, das visitas que se tornam raras, dos afetos que, pouco a pouco, se distanciam sem anúncio.

Embora apresentada como ficção, esta carta ecoa uma realidade incontornável do nosso tempo. Em uma era que celebra a longevidade como conquista, raramente nos detemos sobre o que significa, de fato, viver mais — especialmente quando os vínculos que sustentam a existência começam a se diluir. O envelhecimento, aqui, não é retratado como decadência física, mas como um processo profundamente humano de deslocamento afetivo.
A personagem que conduz estas linhas não é apenas uma voz isolada, mas a síntese de muitas histórias reais — mães, pais, avós — que dedicaram suas vidas à construção de uma família e que, ao final da jornada, enfrentam não a falta de cuidados materiais, mas a escassez daquilo que mais importa: presença, escuta e pertencimento.
Há, nesta escrita, uma tentativa deliberada de preservar a dignidade do tempo vivido. Cada memória evocada, cada gesto lembrado, cada ausência sentida, compõe um testemunho silencioso de amor — um amor que não desaparece, mas que espera, com paciência quase infinita, ser reconhecido novamente.
Mais do que provocar emoção, este texto busca despertar consciência. Ele nos convida a revisitar nossos próprios vínculos, a repensar nossas ausências cotidianas e a compreender que o afeto, quando negligenciado, não se perde de imediato — ele se transforma em distância.
Se, ao final da leitura, algo inquietar o leitor, então esta história terá cumprido seu propósito mais profundo: lembrar que o amor, para permanecer vivo, precisa encontrar caminhos de volta — enquanto ainda há tempo.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta




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