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quinta-feira, 30 de abril de 2026

Quando Homens Foram Trocados por Carvão A Dramática História dos Mineiros Italianos na Bélgica


Quando Homens Foram Trocados por Carvão A Dramática História dos Mineiros Italianos na Bélgica


No ano de 1946, quando a Europa ainda contava os escombros deixados pela Segunda Guerra Mundial, a Itália enfrentava uma crise profunda. Grande parte de sua infraestrutura industrial havia sido destruída, as ferrovias estavam comprometidas e a economia padecia de uma grave escassez de matérias-primas. Entre todas as carências, uma se destacava de modo dramático: o carvão, então essencial para mover fábricas, locomotivas e usinas elétricas.

Foi nesse contexto que o governo italiano celebrou um acordo que permaneceria na memória histórica por sua lógica dura e quase brutal: o envio de trabalhadores em troca de combustível. O tratado, conhecido como Protocollo italo-belga, foi assinado em 23 de junho de 1946 entre a Itália e a Bélgica e posteriormente aprovado pela Assembleia Constituinte italiana em 1947, sendo registrado oficialmente na Gazzetta Ufficiale.

O princípio que sustentava esse acordo era simples e direto. Para cada contingente de mil mineiros italianos enviados às minas belgas, o governo belga comprometia-se a fornecer aproximadamente 2.500 toneladas de carvão à Itália. Não se tratava de uma metáfora, mas de uma cláusula contratual claramente definida em um acordo entre Estados. Em termos práticos, o valor econômico de cada trabalhador equivalia a cerca de vinte e cinco quintais de carvão destinados à reconstrução industrial italiana.

A Bélgica possuía importantes jazidas carboníferas, mas sofria com a falta de mão de obra para explorar suas minas. A Itália, por sua vez, enfrentava altos índices de desemprego e uma crise energética grave. O acordo foi, portanto, apresentado como uma solução simultânea para ambos os países: reduzir o desemprego italiano e suprir a necessidade de trabalhadores nas minas belgas, ao mesmo tempo em que garantiria o fornecimento de carvão indispensável para a recuperação econômica italiana.

Muitos dos homens que aceitaram partir provinham de regiões pobres do nordeste da Itália — especialmente do Vêneto, do Friuli e também do Abruzzo — além de outras áreas rurais do país. Para grande parte deles, a decisão de emigrar não resultava de um ideal de aventura ou de prosperidade, mas de uma necessidade imposta pela pobreza do pós-guerra.

Um dos principais centros de triagem dessa migração foi a cidade de Novara, situada na importante linha ferroviária do Simplon, que ligava o norte da Itália ao território suíço e, posteriormente, ao norte da Europa. Do ponto de vista logístico, tratava-se de um local estratégico para organizar os transportes ferroviários que conduziriam os trabalhadores às regiões mineiras belgas.

Em Novara, os mineiros eram concentrados na Caserma Passalacqua, utilizada como centro de reunião antes da partida. Ali, grupos que frequentemente superavam oitocentas pessoas aguardavam os comboios ferroviários em condições bastante precárias. Durante os rigorosos invernos do imediato pós-guerra, o frio intenso e o aquecimento insuficiente tornavam a permanência nos alojamentos improvisados particularmente difícil. Alguns relatos da época mencionam que, para se protegerem do frio, os próprios trabalhadores chegaram a queimar móveis da caserna — cadeiras, mesas e outros objetos — utilizando o que encontravam para produzir calor enquanto aguardavam o embarque.

Entre 1946 e 1957, aproximadamente 140 mil trabalhadores italianos emigraram para as minas da Bélgica. A maioria foi destinada aos grandes distritos carboníferos do Borinage e da região de Liège. Ali, desciam diariamente às profundezas da terra para trabalhar em galerias escuras, mal ventiladas e permanentemente expostas a perigos como desabamentos, explosões de gás ou incêndios.

Por essa razão, muitos historiadores consideram que esse movimento migratório dificilmente pode ser interpretado sob a perspectiva romantizada frequentemente associada à emigração. Para grande parte desses homens, tratava-se antes de uma consequência direta de um acordo econômico firmado entre governos, no qual a força de trabalho italiana tornou-se parte de uma negociação internacional.

O episódio mais dramático dessa história ocorreu em 8 de agosto de 1956, quando um incêndio devastou a mina de Bois du Cazier, situada na localidade de Marcinelle. A tragédia, conhecida como Desastre de Marcinelle, provocou a morte de 262 trabalhadores. Entre as vítimas estavam 136 italianos — número que, em algumas narrativas, aparece erroneamente reduzido a 84.

O desastre causou profunda comoção na Itália e em toda a Europa. Somente após essa catástrofe o governo italiano passou a reconsiderar os termos do acordo migratório e a exigir mudanças nas condições de segurança nas minas.

Esse episódio permanece até hoje como um dos símbolos mais marcantes do sacrifício da emigração italiana no pós-guerra. Milhares de homens deixaram suas famílias e suas aldeias para trabalhar em condições extremamente duras, contribuindo, muitas vezes à custa da própria vida, para a reconstrução industrial da Europa.

Trata-se de uma página dolorosa da história contemporânea, mas também de um capítulo fundamental da memória das comunidades italianas no exterior, lembrando o preço humano pago por gerações de trabalhadores que partiram em busca de sobrevivência e dignidade longe de sua terra natal. ç

Nota do Autor

Este texto apresenta um dos episódios mais difíceis da história da emigração italiana no século XX. Após a Segunda Guerra Mundial, a Itália enfrentava grave crise econômica e escassez de carvão, essencial para reconstruir sua indústria. Nesse contexto foi firmado, em 1946, um acordo com a Bélgica que previa o envio de trabalhadores italianos para as minas em troca de fornecimento de carvão.

Milhares de homens partiram, sobretudo de regiões pobres da Itália, para trabalhar em condições extremamente duras nas minas belgas. O episódio mais dramático ocorreu em 1956, com a tragédia da mina de Marcinelle, que causou a morte de centenas de trabalhadores, muitos deles italianos. Essa história permanece como símbolo do sacrifício e das dificuldades enfrentadas por gerações de emigrantes italianos na reconstrução da Europa do pós-guerra.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



terça-feira, 16 de maio de 2023

A Pobreza Rural na Itália do Século XIX e a Emigração Para as Américas: Uma Análise do Censo Agrário de 1880

 




"E eu deixo a minha casa, deixo o país e vou para a América para capinar. Parto para fazer fortuna e há um mês não vejo mais terra: só céu e mar. E deixo minha casa, a bela Itália, para ir tão longe, em terra estrangeira. E sob um outro céu e uma outra estrela levo os garotos e a mulher. E lá começa a melancolia pensando no campo onde nasci, naquela velha e santa mãe e em todas as coisas queridas do passado...” Assim escreveu um emigrante italiano.


O escritor e pesquisador italiano Delisio Villa, em seu livro Storia Dimenticata afirma que “Il 1860 è proprio l’anno zero della nostra emigrazione. Nel 1860 inizia la lunga marcia degli italiani alla ricerca di nuovi spazi, in Europa ed in America.” Traduzindo, "O ano de 1860 é realmente o ano zero de nossa emigração. Em 1860 começa a longa marcha dos italianos em busca de novos espaços, na Europa e na América." Esse grande êxodo ou longa marcha durou quase um século, sem que ninguém fizesse esforços concretos para contê-la, parece até que as autoridades de então a estimulava e considerando-a como uma espécie de válvula de pressão, para aliviar a crescente tensão social que ameaçava explodir no país com uma grande guerra civil. Nesse período, mais de trinta milhões de italianos, homens, mulheres e crianças, por conta própria e sem ajuda do estado, foram obrigados a abandonar o seu país para conseguir sobreviver.

No relatório do Censo Agrário, realizado por uma comissão parlamentar especial designada pelo governo italiano em 1880 chegaram a importantes conclusões. O objetivo principal desse censo era coletar informações sobre a distribuição da propriedade da terra na Itália, bem como obter dados sobre a produção agrícola, a situação econômica dos agricultores e outras questões relacionadas à agricultura. O resultado do censo foi usado mais tarde para a formulação de políticas agrárias pelo governo italiano. Entre os principais resultados apurados pelo censo temos:
      • A concentração da propriedade da terra estava nas mãos de poucos proprietários, com cerca de 3% da população possuindo mais da metade da terra cultivável;
      • A presença de uma grande quantidade de pequenas propriedades, mas muitas delas eram insuficientes para sustentar as famílias dos agricultores;
      • A predominância da produção de cereais, em detrimento de outras culturas agrícolas;
      • A existência de muitas terras abandonadas e improdutivas, especialmente no sul da Itália;
      • A presença de um grande número de trabalhadores agrícolas assalariados, que viviam em condições de pobreza e insegurança;
      • A falta de investimentos na modernização da agricultura, com pouca utilização de tecnologia e técnicas agrícolas avançadas;
      • A necessidade de intervenção do Estado para resolver os problemas estruturais da agricultura italiana, através da implementação de reformas agrárias e incentivos para o desenvolvimento da produção agrícola.
Assim, o relator dessa comissão parlamentar descreveu a situação da Itália:

"Nos vales dos Alpes e dos Apeninos, e também nas planícies, especialmente na Itália Meridional, e até mesmo em algumas províncias entre as mais bem cultivadas da alta Itália, surgem casebres onde em um único quarto esfumaçado e sem ar e luz vivem juntos homens, cabras, porcos e galinhas. E tais casebres se contam talvez em centenas de milhares". 

Seguem mais alguns trechos do relatório do referido censo de 1880:

      1. "O sistema de propriedade, com todas as suas complicações, apresenta-se como o mais característico e o mais difundido aspecto do nosso agro. Em torno dele gira toda a economia camponesa, da qual, por sua vez, depende todo o resto das atividades sociais e econômicas do país."
      2. "A grande maioria dos proprietários é formada por pequenos proprietários, que possuem terras insuficientes para suas necessidades e que, para compensar a falta de extensão, têm que se dedicar a trabalhos alheios à agricultura."
      3. "O estado de abandono e descuido em que se encontram muitas terras é uma consequência direta da incapacidade do proprietário de mantê-las e cultivá-las adequadamente."
      4. "O analfabetismo, especialmente nas áreas rurais, é um grande obstáculo para o desenvolvimento da agricultura, já que impede a adoção de novas técnicas e práticas mais eficientes."
      5. "O êxodo rural, que vem ocorrendo em larga escala nas últimas décadas, agrava ainda mais a situação, já que muitas terras ficam abandonadas e não cultivadas, enquanto a população urbana cresce rapidamente."
De acordo com o mesmo Censo Agrário Italiano de 1880, as condições das moradias dos agricultores eram bastante precárias. O relatório apontou que muitas das casas eram pequenas, escuras, úmidas e mal ventiladas, o que levava a problemas de saúde e higiene para os moradores. Além disso, muitas moradias  eram compartilhadas por várias famílias, aumentando a superlotação e as condições insalubres. O documento também menciona que a falta de acesso a água potável e sistemas de saneamento básico eram comuns em muitas áreas rurais da Itália na época.
O Censo Agrário Italiano de 1880 também  constatou que a saúde dos camponeses era bastante precária. As condições sanitárias eram ruins e a mortalidade infantil era alta. Além disso, muitas famílias tinham dificuldades em obter assistência médica adequada, devido à falta de recursos financeiros e à falta de médicos e hospitais nas áreas rurais. A situação era ainda pior para as famílias mais pobres, que muitas vezes viviam em condições insalubres e não tinham acesso a alimentos nutritivos e água potável.

O Censo Agrário de 1880 aborda a questão da pelagra na Itália, que contribuiu para o empobrecimento das populações rurais de muitas regiões, especialmente no Vêneto: 

"A Pelagra ou Mal do Pellegrino é uma doença desconhecida nos países do norte da Europa e da América. Na Itália, é uma das enfermidades mais frequentes e mais cruéis que afetam os camponeses. [...] As causas da Pelagra foram estudadas com grande cuidado pelos médicos. Alguns a atribuem a uma alimentação insuficiente, outros a um regime alimentar inadequado, outros ainda a uma disposição especial do organismo, a influências atmosféricas, e a muitos outros fatores. [...] A Pelagra ataca especialmente os camponeses, que são obrigados a viver em casas úmidas, mal ventiladas e sujas, e que são privados de alimentos nutritivos e variados."

"Os camponeses afetados pela Pelagra tornam-se pálidos, magros e fracos. A pele, especialmente nas partes expostas do corpo, torna-se áspera e descama, como se tivesse sido queimada pelo sol. A seguir, a pele começa a escurecer e a descamar, e o doente sofre com dores e coceiras insuportáveis. Gradualmente, a doença se espalha para outras partes do corpo, como os lábios e as gengivas, causando lesões profundas e dolorosas. A Pelagra pode levar à morte em casos graves." O relatório continua:

"O remédio mais eficaz contra a Pelagra é uma alimentação saudável e nutritiva, especialmente rica em proteínas e vitaminas. No entanto, isso é difícil de conseguir para muitos camponeses, que são pobres e mal alimentados. É necessário, portanto, que o Estado e as autoridades locais intervenham para melhorar as condições de vida dos camponeses, fornecendo-lhes habitações mais saudáveis, promovendo uma agricultura mais moderna e produtiva, e educando-os sobre os princípios básicos de higiene e nutrição."


A literatura que temos disponível sobre as causas internas da onda migratória transoceânica do período 1880-1914 é vasta: podemos resumir esquematicamente o fato de que o fluxo foi determinado por motivos tanto de ordem demográfica (diminuição do índice de mortalidade e estabilização do índice de natalidade após 1870), quanto de ordem econômica (entre estes últimos, o primeiro lugar é assumido, sem dúvida, pela depressão agrícola dos anos 80, que provocou uma crise de disponibilidade alimentar). Mas foi sobretudo a impossibilidade, para os camponeses, de conseguirem dinheiro vivo que impulsionou massas inteiras a atravessar o oceano. Todos esses fenômenos, juntamente com a taxa sobre a farinha, cujo não pagamento podia comportar o confisco da propriedade, resultaram em uma sangria do mundo rural italiano. Entre os anos de 1875 e 1881, foram confiscadas 61.831 pequenas propriedades na Itália pela falta de pagamento da taxa sobre a farinha. Já entre os anos de 1884 e 1901, foram confiscadas 215.759 propriedades. Esse foi um dos fatores que levou a uma grande onda migratória italiana para outros países, principalmente para a América. A "taxa sobre a farinha" era um imposto cobrado sobre a moagem do trigo na Itália. Ela foi introduzida no início do século XIX, durante a ocupação napoleônica da Itália, e depois foi mantida pelos governos italianos que se seguiram. O objetivo inicial da taxa era arrecadar dinheiro para financiar as guerras napoleônicas, mas ela acabou sendo mantida como uma fonte de receita para o governo. A taxa era cobrada dos donos dos moinhos, que eram obrigados a pagar uma quantia em dinheiro para cada saco de farinha que produziam. A taxa era especialmente pesada para os pequenos proprietários de terras e para os camponeses pobres, que tinham que pagar uma grande parte de sua produção em dinheiro para o governo cobrada diretamente no moinho. A falta de pagamento da taxa sobre a farinha poderia levar à apreensão e confisco das propriedades dos camponeses, o que contribuiu para a crescente concentração fundiária na Itália e para a emigração em massa de camponeses italianos para outros países. Os camponeses perdiam suas terras devido à falta de pagamento da taxa sobre a farinha. Esta taxa era cobrada sobre a moagem do trigo e os proprietários de moinhos eram os responsáveis por pagá-la. Porém, muitas vezes, os proprietários de moinhos não repassavam a taxa cobrada dos camponeses que entregavam seu trigo para ser moído. Isso acontecia principalmente nas regiões mais pobres da Itália, onde os camponeses não tinham condições financeiras de arcar com os custos da taxa. Quando o governo descobria que a taxa não havia sido paga, ele poderia confiscar as terras do camponês para cobrir a dívida. Isso acabou levando a uma crescente concentração fundiária na Itália, com um pequeno número de grandes proprietários de terras detendo a maior parte das terras aráveis do país. A perda de suas terras tornou-se uma das principais razões pelas quais os camponeses italianos emigraram em massa para outros países, como o Brasil, Argentina e Estados Unidos, em busca de melhores condições de vida e oportunidades econômicas.


Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta
Erechim RS