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sábado, 21 de fevereiro de 2026

O Pelagrosário de Mogliano Veneto e a Luta Contra a Pelagra no Vêneto

 

Consultório Médico do Pelagrosário de Mogliano Veneto em finais do século XIX

O Pelagrosário de Mogliano Veneto e a Luta Contra a Pelagra no Vêneto


No final do século XIX, o Vêneto rural vivia uma das maiores crises sociais e sanitárias de sua história. A pobreza extrema, aliada a uma alimentação quase exclusiva à base de polenta, levou milhares de camponeses a adoecerem de pelagra. Foi nesse cenário que nasceu, em 1883, em Mogliano Veneto, província de Treviso, o que ficaria conhecido como o primeiro Pelagrosário da Itália.

A iniciativa partiu do engenheiro e político Costante Gris, então prefeito de Mogliano. Sensível ao drama dos trabalhadores rurais, Gris criou em 1882 a Società Italiana di Patronato per i Pellagrosi, mobilizando proprietários de terra, médicos, religiosos e autoridades locais para enfrentar a epidemia. O objetivo era claro: retirar os doentes do abandono e oferecer tratamento, alimentação adequada e dignidade.

No ano seguinte, em 31 de outubro de 1883, a Sociedade adquiriu a Villa Torni, transformando-a no Pelagrosário de Mogliano Veneto. A instituição foi inaugurada como um centro especializado para acolher pessoas em estágios iniciais da pelagra, quando ainda havia chance real de recuperação. O tratamento baseava-se sobretudo na correção da dieta: leite, carne, ovos e pão substituíam a polenta pobre em nutrientes.

O Pellagrosário não era apenas um hospital. Ele funcionava também como casa de trabalho e reeducação alimentar, onde os internos participavam de atividades agrícolas e manuais, integradas à terapia. O famoso médico Cesare Lombroso chegou a ser presidente honorário da Sociedade, o que deu visibilidade nacional ao projeto.

Durante as décadas de 1890 e 1900, o Pelagrosário de Mogliano passou a receber doentes de vários municípios da região de Treviso. Em pouco tempo, tornou-se referência no combate à pelagra em todo o norte da Itália. Com a progressiva diminuição da doença no início do século XX, a instituição foi sendo adaptada para outras funções assistenciais, incluindo abrigo para idosos e pessoas com transtornos mentais considerados “crônicos e tranquilos”.

A história do Pelagrosário de Mogliano Veneto é mais do que a história de um prédio ou de uma instituição médica. Ela representa o esforço coletivo de uma comunidade para enfrentar a miséria, a fome e o abandono. Para muitos camponeses vênetos — os mesmos que mais tarde emigrariam para o Brasil, Argentina e outros países — o Pelagrosário foi o primeiro sinal de que a dor deles começava, enfim, a ser vista.

Hoje, lembrar do Pelagrosário é também lembrar das raízes de uma diáspora. É reconhecer que por trás de cada sobrenome italiano nas colônias do Brasil houve, antes, fome, doença, resistência — e, em Mogliano Veneto, também solidariedade organizada.

Nota do Autor

Este texto nasce da memória.
Não apenas da memória dos livros e dos arquivos, mas da memória que atravessou o oceano dentro das famílias. Muitos dos primeiros emigrantes vênetos que chegaram ao Brasil — ou seus pais, irmãos, vizinhos — passaram pelo Pelagrosário de Mogliano Veneto. Ali conheceram a fragilidade do corpo, o medo da doença… mas também a dignidade de serem cuidados quando tudo parecia perdido.

Ao escrever sobre essa instituição, não falo apenas de paredes e datas. Falo de gente. De homens e mulheres que carregaram nas costas o peso da miséria, mas também a força de recomeçar. Falo de uma geração que sobreviveu à pelagra para depois sobreviver ao exílio, à mata, à saudade e ao trabalho duro nas colônias do Brasil.

Se você é descendente de vênetos, talvez esta história não seja apenas “história”.
Talvez seja o eco de algo que viveu na sua família — um silêncio antigo, uma dor não dita, uma coragem herdada.

Que este texto sirva como homenagem.
Aos que sofreram.
Aos que resistiram.
E aos que transformaram dor em raiz, e raiz em futuro.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta