Emigração Italiana e Saúde nas Viagens Marítimas (1870–1925) as
Doenças, Condições e Travessias
A travessia transoceânica e a saúde dos emigrantes
A emigração italiana em massa para as Américas, intensificada a partir das últimas décadas do século XIX, constituiu não apenas um fenômeno social e econômico de grandes proporções, mas também um grave desafio sanitário. As longas viagens marítimas, realizadas em condições frequentemente precárias, expuseram milhões de emigrantes a riscos elevados de doenças, sofrimento físico e mortalidade.
Os principais dados disponíveis sobre a saúde dos emigrantes durante as travessias transoceânicas provêm das estatísticas do Commissariato Generale dell’Emigrazione e dos relatórios anuais elaborados por médicos e oficiais da Marinha italiana destacados para o serviço de migração. Esses documentos, embora limitados por critérios imperfeitos de registro e por subnotificações evidentes, permitem reconstruir um panorama consistente das condições sanitárias enfrentadas pelos italianos entre 1903 e 1925, tanto nas viagens de ida quanto nas de retorno da América do Norte e da América do Sul.
É necessário ressaltar que os serviços de saúde voltados à emigração encontravam-se, durante boa parte desse período, mal estruturados e insuficientes, tanto nos portos de embarque quanto a bordo das embarcações. Assim, as estatísticas oficiais refletem mais a dimensão geral do problema sanitário do que a incidência real de patologias específicas, que em muitos casos permaneceram invisíveis aos registros formais.
Condições de viagem antes da legislação sanitária
Antes da promulgação da Lei de 31 de janeiro de 1901, que passou a regulamentar de forma mais rigorosa o transporte marítimo de emigrantes italianos, as travessias eram marcadas por condições alarmantes. A duração média da viagem para as Américas ultrapassava frequentemente trinta dias, realizados em porões superlotados, com ventilação insuficiente e padrões mínimos de higiene ignorados.
Um médico da época sintetizou a situação de maneira contundente ao afirmar que, no transporte de emigrantes, “a higiene e a limpeza estavam em permanente conflito com a especulação econômica: faltavam espaço e ar”. Essa lógica mercantil, priorizando o lucro das companhias de navegação, contribuiu decisivamente para a disseminação de doenças a bordo.
Alojamento, ventilação e água potável
Os emigrantes eram acomodados em beliches dispostos em dois ou três níveis, organizados em corredores estreitos que recebiam ar quase exclusivamente por meio de escotilhas. A altura entre os beliches era insuficiente: variava de cerca de 1,60 m nos níveis superiores a 1,90 m nos inferiores, comprometendo a circulação de ar e favorecendo ambientes abafados e úmidos.
Nessas condições, tornavam-se frequentes as doenças respiratórias, como bronquites, pneumonias e infecções pulmonares, agravadas pela concentração humana e pela má qualidade do ar.
Outro problema grave dizia respeito ao abastecimento de água potável. A água era armazenada em reservatórios metálicos revestidos internamente por cimento. O constante balanço das embarcações fazia com que o revestimento se deteriorasse, turvando a água. Em contato com o ferro oxidado, o líquido adquiria coloração avermelhada, sendo consumido pelos passageiros sem qualquer processo de destilação ou filtragem, uma vez que muitos navios sequer possuíam destiladores a bordo.
Alimentação durante a travessia
A alimentação fornecida aos emigrantes seguia regulamentos formais que, na prática, poucos compreendiam plenamente, sobretudo devido ao elevado índice de analfabetismo. O regime alimentar alternava entre dias considerados “magros” e “gordos”, com cardápios baseados em café, arroz ou massas.
A composição das refeições variava conforme a origem regional predominante a bordo: emigrantes do norte da Itália consumiam mais arroz, enquanto os do sul recebiam com maior frequência pratos à base de macarrão. Do ponto de vista estritamente nutricional, a ração diária oferecida durante a travessia era, paradoxalmente, mais abundante e equilibradado que aquela a que muitos emigrantes estavam habituados em suas regiões de origem, marcadas pela pobreza extrema e por dietas deficientes.
Limites dos registros sanitários oficiais
Os dados estatísticos disponíveis referem-se exclusivamente às doenças identificadas pelos médicos de bordo ou comissários governamentais, excluindo um número significativo de casos não declarados. Muitos emigrantes evitavam procurar atendimento médico por desconfiança da autoridade sanitária, pelo receio de serem impedidos de desembarcar no país de destino ou de serem internados e repatriados.
Além disso, uma parcela expressiva do fluxo migratório escapava totalmente a qualquer controle sanitário, seja por embarcar em portos estrangeiros, por viajar em navios sem serviço médico regular ou por utilizar modalidades semi-privadas de transporte, frequentemente toleradas pelas companhias de navegação.
Dessa forma, qualquer tentativa de mensurar de forma precisa a situação sanitária da emigração transoceânica com base apenas nas fontes oficiais resulta inevitavelmente em números subestimados, que não refletem a real magnitude dos problemas de saúde enfrentados durante a travessia.
Principais doenças registradas (1903–1925)
Apesar das limitações, as estatísticas de saúde do período revelam a persistência de determinadas patologias, tanto nas viagens de ida quanto nas de retorno. Entre as mais frequentes destacam-se:
Sarampo, com alta incidência nas viagens de ida;
Malária, particularmente presente nos deslocamentos rumo à América do Norte e do Sul;
Escabiose (sarna) e condromatose, mais comuns nas viagens para a América do Sul;
Tracoma, tuberculose pulmonar e, em menor escala, ancilostomíase, predominantes nas viagens de retorno.
A ancilostomíase, por exemplo, praticamente inexistente nos registros das viagens de ida, aparece nos retornos, refletindo as condições sanitárias precárias enfrentadas por muitos emigrantes nas áreas rurais das Américas.
Mortalidade, retorno e seleção migratória
As taxas de morbidade e mortalidade, embora não atingissem níveis catastróficos, mostravam-se mais elevadas nas rotas para a América do Sul, onde predominavam deslocamentos familiares, incluindo crianças e idosos, mais vulneráveis às doenças.
Nas repatriações provenientes da América do Norte, os índices mais elevados estavam associados à tuberculose, ao tracoma e a casos de alienação mental, revelando o desgaste físico e psicológico provocado por anos de trabalho extenuante e condições de vida adversas.
É significativo observar que o fluxo migratório para os Estados Unidos era composto majoritariamente por indivíduos em boa condição física e idade produtiva, resultado tanto de um processo de auto-seleção dos emigrantes quanto dos rigorosos exames médicos impostos pelas autoridades norte-americanas nos portos de entrada, como Ellis Island.
Considerações finais
O estudo dos aspectos sanitários da emigração italiana por via marítima revela uma dimensão frequentemente secundarizada da Grande Emigração: o custo humano da travessia. As doenças, o sofrimento e a precariedade das condições de viagem refletem não apenas limitações técnicas da época, mas também profundas desigualdades sociais e a fragilidade das políticas públicas diante de um fenômeno migratório de massa.
Mesmo incompletas, as estatísticas sanitárias do período constituem uma fonte essencial para compreender a relação entre emigração, pobreza, saúde pública e estrutura social das classes populares italianas entre o final do século XIX e o início do século XX — um legado histórico que ainda ecoa na memória das comunidades descendentes espalhadas pelas Américas.
Nota do Autor
A análise dos aspectos sanitários da emigração italiana por via marítima permite lançar luz sobre uma das dimensões mais silenciosas da Grande Emigração: o impacto direto das condições de viagem sobre a saúde das populações deslocadas. Muito além de um simples deslocamento geográfico, a travessia transoceânica constituiu uma experiência marcada por vulnerabilidades físicas, riscos epidemiológicos e profundas desigualdades sociais.
Ao recorrer a estatísticas oficiais, relatórios médicos de bordo e estudos históricos consolidados, este texto busca contextualizar a emigração italiana no quadro mais amplo da saúde pública entre os séculos XIX e XX. As doenças registradas, as limitações dos controles sanitários e a precariedade estrutural dos navios refletem não apenas os limites técnicos da época, mas também as contradições de um sistema migratório orientado pela lógica econômica e pela exploração da mão de obra.
Compreender esses aspectos é essencial para valorizar a trajetória dos emigrantes e reconhecer o custo humano que acompanhou a formação das comunidades italianas nas Américas, cuja herança cultural permanece viva até os dias atuais.
Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta
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