“Eles deixaram a Itália para sobreviver, mas trouxeram consigo uma pátria inteira guardada no coração.”
Quando o Mar Quase os Levou - A Emocionante História dos Imigrantes Italianos no Brasil
Uma família italiana diante da tempestade, da saudade e de uma nova vida no Rio Grande do Sul
Em março de 1878, quando as últimas notícias da viagem ainda chegavam às terras da imigração italiana no Rio Grande do Sul, ninguém que tivesse atravessado o Atlântico conseguia falar do mar sem antes baixar os olhos. O oceano não era apenas uma distância entre dois países. Para aqueles homens, mulheres e crianças que deixavam a Itália, o mar era uma fronteira. Atrás dele ficavam as montanhas, os campanários, os cemitérios onde dormiam os antepassados, as casas pobres de pedra, os pequenos vinhedos e as vozes conhecidas que talvez nunca mais fossem ouvidas. À frente havia uma terra que muitos jamais tinham visto e sobre a qual sabiam apenas o que lhes contavam: que existiam matas enormes, rios caudalosos, terras disponíveis e a promessa de uma vida que não encontravam na Europa. Entre os passageiros daquela viagem estava Matteo Bellini, um agricultor de trinta e oito anos, nascido nas proximidades de Vicenza. Com ele viajavam a mulher, Caterina, os filhos Antonio, de onze anos, Lucia, de oito, e o pequeno Pietro, que ainda não completara quatro. Matteo não partira porque desejava conhecer o mundo. Partira porque não podia continuar vivendo onde estava. Naquela Itália empobrecida, a terra que havia sustentado seus pais já não bastava para sustentar seus filhos. A colheita fora ruim. As dívidas haviam crescido. O preço do milho não acompanhava o preço do pão. E cada vez mais famílias falavam da América como quem pronuncia o nome de uma porta. Para Matteo, o Brasil não era um sonho. Era uma necessidade. A família embarcara acreditando que o pior seria deixar a Itália. Descobriria que o pior ainda estava por acontecer. Durante os primeiros dias da travessia, o oceano parecia ter feito um acordo com aqueles estrangeiros. O tempo permanecera relativamente favorável, e muitos passageiros passaram a acreditar que a viagem seria apenas longa, não perigosa. Então o céu mudou. No dia 23 de dezembro, depois de dias de mar aparentemente tranquilo, os passageiros estavam reunidos para a refeição quando o mundo pareceu desaparecer. Primeiro veio um grito. Depois outro. Em seguida, o vento. O navio começou a estremecer como se uma criatura gigantesca tivesse agarrado seu casco com as duas mãos. Pessoas caíram umas sobre as outras. Pratos deslizaram pelo chão. Crianças começaram a chorar. Homens que até então falavam alto ficaram em silêncio. Caterina procurou os filhos. Antonio estava ao seu lado. Lucia segurava o braço do irmão. Pietro, porém, havia desaparecido no meio da confusão. — Pietro! Ela gritou o nome uma vez. Ninguém respondeu. — Pietro! Matteo avançou contra a multidão. O navio inclinou-se violentamente. Por um instante, Caterina teve a impressão de que o chão havia se transformado em uma parede. E então viu o menino. Pietro estava junto à porta, agarrado a uma madeira, enquanto uma mulher tentava protegê-lo com o próprio corpo. Matteo correu. Conseguiu alcançar o filho no instante em que outra onda atingiu o navio. O menino chorava. — Papà! Matteo o apertou contra o peito. — Estou aqui. Mas naquele momento o próprio Matteo não tinha certeza de que continuaria ali por muito tempo. O vento uivava. A água invadia partes do convés. O céu desaparecera atrás de uma massa negra de nuvens, e o oceano parecia não ter fim. Algumas mulheres rezavam. Outras abraçavam os filhos. Homens ajoelhavam-se. As palavras das ladainhas misturavam-se ao barulho do vento e das ondas. Caterina segurou o terço. Não pediu riqueza. Não pediu uma casa. Não pediu sequer que o Brasil fosse uma terra melhor do que a Itália. Pediu apenas que seus filhos chegassem vivos. Naquela noite, enquanto o navio avançava lentamente contra a tempestade, Matteo percebeu algo que nunca mais esqueceria. Aqueles emigrantes não viajavam sozinhos. Cada um carregava consigo uma pequena pátria. Estava nas fotografias guardadas dentro das roupas, nas medalhas dos santos, nos rosários, nas receitas repetidas de memória, nas palavras do dialeto, nas histórias contadas pelos avós e até no pedaço de pão que algumas famílias haviam levado de casa para a viagem. Tudo aquilo poderia ser perdido. Mas ninguém queria deixar a própria história morrer. Quando finalmente o mar se acalmou, os sobreviventes não comemoraram. Ainda não. Havia silêncio demais entre eles. Alguns passageiros haviam adoecido. Outros tinham perdido objetos. Muitos haviam perdido a coragem. Matteo encontrou Caterina junto à amurada. Ela contemplava o horizonte. — Ainda quer ir? — perguntou ele. Ela demorou a responder. — Não sei. Matteo olhou para o mar. — Eu também não. Caterina apertou o terço. — Mas já fomos longe demais para voltar. Não era uma frase de resignação. Era uma sentença. Algumas semanas depois, a família finalmente alcançou as terras do Rio Grande do Sul. O primeiro contato com a nova terra não teve nada da beleza das histórias contadas na Itália. Havia mata. Havia barro. Havia insetos. Havia caminhos difíceis. Havia árvores tão grandes que Matteo precisou inclinar a cabeça para enxergar suas copas. E havia silêncio. Um silêncio diferente daquele dos campos italianos. Na Itália, o silêncio era interrompido pelos sinos das igrejas, pelos animais, pelas vozes dos vizinhos e pelo trabalho nas propriedades próximas. Ali, a floresta parecia guardar sua própria língua. A família foi encaminhada para uma área de colonização na região de Silveira Martins, onde outras famílias italianas começavam a transformar a mata em pequenas propriedades. Matteo recebeu uma parcela de terra. Quando a viu pela primeira vez, permaneceu imóvel. Caterina percebeu sua expressão. — É nossa? Ele assentiu. — É. Ela olhou para a floresta. — Mas não existe casa. — Vamos construir. — Não existe estrada. — Vamos abrir. — Não existe plantação. Matteo olhou para os filhos. — Então vamos plantar. Foi assim que começou. Não com uma casa. Não com uma colheita. Não com prosperidade. Começou com um homem segurando um machado. Nas primeiras semanas, Matteo trabalhava até as mãos sangrarem. Antonio começou a ajudá-lo. Caterina limpava o terreno, preparava a comida e cuidava das crianças. Lucia recolhia lenha. Pietro, pequeno demais para compreender a grandeza daquilo que acontecia, brincava perto da mãe. À noite, todos se reuniam dentro do pequeno abrigo improvisado. Caterina acendia uma vela. E, durante alguns minutos, a família fingia que ainda estava na Itália. Falavam dos parentes. Recordavam a igreja. Repetiam os nomes dos mortos. Lembravam-se da casa que haviam deixado. Até que o vento frio atravessava as frestas da madeira e todos se lembravam de onde estavam. Certa noite, Matteo colocou sobre a mesa um pequeno punhado de terra que havia trazido da Itália. Guardara aquilo durante toda a viagem. Caterina ficou olhando. — Você ainda trouxe isso? — Eu disse que não esqueceríamos. Ela tocou a terra com os dedos. Depois olhou para a floresta. — Talvez nossos filhos esqueçam. Matteo balançou a cabeça. — Então nós contaremos. E contou. Contou sobre as montanhas. Sobre o vinho. Sobre as festas. Sobre os sinos. Sobre o inverno. Sobre os parentes que haviam ficado. Contou sobretudo sobre o lugar de onde vieram. Mas os anos começaram a fazer aquilo que sempre fazem. Transformaram estrangeiros em moradores. A pequena propriedade cresceu. Primeiro vieram o milho e o feijão. Depois algumas videiras. Mais tarde, animais. Antonio tornou-se homem. Lucia casou-se com outro filho de imigrantes. Pietro cresceu falando italiano dentro de casa e aprendendo português fora dela. A floresta que antes parecia ameaçadora passou a fazer parte da paisagem cotidiana. Uma pequena capela surgiu na região. Depois vieram novos caminhos. Mais famílias chegaram. As casas de madeira começaram a aparecer entre as árvores. Os imigrantes perceberam que não estavam apenas sobrevivendo. Estavam construindo uma comunidade. Mas Matteo jamais esqueceu a noite da tempestade. Todos os anos, quando chegava dezembro, ele ficava alguns minutos sozinho diante da propriedade. Olhava para as videiras. Depois para os filhos. E pensava no navio. Certa tarde, Antonio encontrou o pai sentado diante da casa. Matteo já estava velho. As mãos que haviam derrubado árvores tremiam. — Papà, o que está pensando? Matteo demorou a responder. — No mar. O filho sorriu. — Depois de tantos anos? — Depois de tantos anos. Antonio sentou-se ao lado dele. Matteo apontou para a vinha. — Está vendo aquilo? — Estou. — Um dia eu achei que nunca plantaria uma videira aqui. Antonio olhou para as fileiras verdes. — E agora temos mais do que precisamos. Matteo sorriu. — Não. Fez uma pausa. — Agora temos mais do que imaginávamos. Naquela noite, Caterina trouxe à mesa o pão recém-assado. Matteo cortou a primeira fatia. Durante alguns segundos, ficou olhando para ela. Então disse: — Sabe o que eu pensei durante a tempestade? Caterina, já com os cabelos brancos, levantou os olhos. — O quê? — Que morreríamos sem deixar nada. Ela segurou sua mão. Matteo olhou ao redor. A casa. Os filhos. Os netos. As videiras. As ferramentas. As fotografias. O pequeno crucifixo. A terra. — Eu estava errado. Caterina sorriu. — Estava. E naquela palavra havia toda uma vida. A família Bellini não havia trazido riquezas da Itália. Não trouxera terras. Não trouxera segurança. Trouxera apenas algumas roupas, um terço, algumas lembranças, um punhado de terra italiana e a coragem desesperada de quem não tinha outra escolha. Mas havia uma coisa que trouxera consigo sem perceber. A capacidade de começar novamente. Foi essa força que transformou a floresta em lavoura. A lavoura em propriedade. A propriedade em lar. E o lar em memória. Décadas depois, quando Pietro já era avô, seus netos ainda ouviriam a história da tempestade. E ele sempre começaria da mesma maneira: — Quando seu bisavô atravessou o mar, pensou que estava deixando a Itália para trás. Então faria uma pausa. Olharia para as videiras. E completaria: — Mas ninguém deixa completamente a terra onde nasceu. Nós apenas aprendemos a fazê-la florescer em outro lugar. Talvez essa seja a verdadeira história daqueles imigrantes. Eles não vieram simplesmente para o Brasil. Vieram carregando dentro de si aquilo que não podia ser colocado em um baú. Trouxeram os nomes dos mortos. As orações das mães. As canções das aldeias. O gosto do pão. A lembrança dos sinos. A língua dos pais. E a esperança dos filhos. O oceano tentou separá-los de tudo isso. A pobreza tentou expulsá-los. A floresta tentou detê-los. A saudade tentou fazê-los voltar. Mas eles permaneceram. E, entre as colinas do Rio Grande do Sul, fizeram aquilo que talvez seja uma das maiores façanhas de qualquer emigrante: transformaram uma terra desconhecida em pátria para seus filhos sem deixar morrer, dentro de si, a pátria de seus pais.
Nota do autor
Esta narrativa é uma obra de ficção histórica inspirada em uma carta de imigrante datada de 1878, na qual são relatados os momentos de terror vividos durante uma travessia marítima e a oração dos passageiros diante de uma violenta tempestade. Os personagens Matteo Bellini e sua família, assim como os acontecimentos específicos de sua trajetória, foram criados literariamente. A narrativa procura, entretanto, preservar o contexto histórico da imigração italiana e das colônias do Rio Grande do Sul no final da década de 1870.
Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta