Entre os séculos XIII e XVI, grande parte da Europa viveu ondas intensas de perseguições e expulsões da população judaica. Na Inglaterra, a expulsão ocorreu em 1290; na França, em 1394; na Alemanha, em 1470; na Espanha, em 1492; e em Portugal, em 1497. Em contraste com esse cenário de intolerância generalizada, a Sereníssima República de Veneza adotou uma postura mais pragmática e relativamente tolerante, permitindo a presença judaica mediante pagamento de tributos e regulamentações específicas.
Em 1516, o governo veneziano oficializou a criação do primeiro bairro judaico institucionalizado da Europa: o Ghetto degli Ebrei, localizado no sestiere de Cannaregio. Nesse espaço, a comunidade hebraica podia viver sem perseguição direta por parte do Estado ou da Igreja, embora submetida a regras de controle e vigilância. O acesso ao bairro era feito por pontes, cujas portas eram fechadas ao anoitecer e reabertas ao amanhecer, sempre sob guarda armada da República.
Antes mesmo da criação do gueto, Veneza já possuía estruturas similares de controle de estrangeiros, como o Fondaco dei Tedeschi e o Fondaco dei Turchi, onde comerciantes eram obrigados a se recolher durante a noite. A Guerra da Liga de Cambrai intensificou a chegada de judeus à cidade lagunar, o que aumentou o receio da população cristã e levou as autoridades a estabelecer o confinamento obrigatório dessa comunidade na área conhecida como Ghetto Nuovo.
A solução veneziana tornou-se modelo para diversos países europeus. O gueto era uma ilha cercada por canais, acessível por duas pontes vigiadas. Os judeus só podiam circular fora do gueto durante o dia e utilizando sinais distintivos. Apesar dessas restrições, a comunidade cresceu rapidamente, impulsionada por novas ondas migratórias vindas de várias regiões da Europa e do Mediterrâneo.
O aumento populacional levou à construção vertical dos edifícios, que chegaram a atingir até oito andares — uma característica arquitetônica singular de Veneza. Em 1541, as autoridades autorizaram a ampliação do bairro com a criação do Ghetto Vecchio, área anteriormente destinada à indústria bélica. Nesse espaço foram assentados sobretudo judeus de origem levantina, provenientes da Península Ibérica e do Império Otomano. Em 1663, uma nova expansão resultou no Ghetto Nuovissimo, formado por duas ruas estreitas, onde foram construídas sinagogas e escolas que hoje formam um dos mais importantes conjuntos arquitetônicos judaicos da cidade.
Entre a população judaica destacavam-se os judeus ashkenazi, aos quais o governo veneziano concedeu autorização para atuar como médicos e como emprestadores de dinheiro, atividade proibida aos cristãos pela legislação e moral religiosa da época. Ao longo dos séculos, as relações entre a comunidade judaica e o governo veneziano mantiveram-se relativamente estáveis.
Com a queda da Sereníssima República de Veneza em 1797 e a chegada das tropas de Napoleão, foram abolidas as restrições legais impostas aos judeus, encerrando-se a obrigatoriedade de residência no gueto e inaugurando um novo período de integração civil.
Conclusão
O Gueto Judeu de Veneza representa um marco na história da Europa: um espaço criado para controle social, mas que se transformou em centro de resistência cultural, religiosa e intelectual. Sua história revela como conviviam tolerância econômica, segregação institucional e vitalidade comunitária, tornando-se um dos mais importantes patrimônios históricos da Itália.
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