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sábado, 3 de janeiro de 2026

Gueto Judeu de Veneza a origem, a expansão e o legado na Sereníssima República

 


Gueto Judeu de Veneza a origem, a expansão e o legado na Sereníssima República

Entre os séculos XIII e XVI, grande parte da Europa viveu ondas intensas de perseguições e expulsões da população judaica. Na Inglaterra, a expulsão ocorreu em 1290; na França, em 1394; na Alemanha, em 1470; na Espanha, em 1492; e em Portugal, em 1497. Em contraste com esse cenário de intolerância generalizada, a Sereníssima República de Veneza adotou uma postura mais pragmática e relativamente tolerante, permitindo a presença judaica mediante pagamento de tributos e regulamentações específicas.

Em 1516, o governo veneziano oficializou a criação do primeiro bairro judaico institucionalizado da Europa: o Ghetto degli Ebrei, localizado no sestiere de Cannaregio. Nesse espaço, a comunidade hebraica podia viver sem perseguição direta por parte do Estado ou da Igreja, embora submetida a regras de controle e vigilância. O acesso ao bairro era feito por pontes, cujas portas eram fechadas ao anoitecer e reabertas ao amanhecer, sempre sob guarda armada da República.

Antes mesmo da criação do gueto, Veneza já possuía estruturas similares de controle de estrangeiros, como o Fondaco dei Tedeschi e o Fondaco dei Turchi, onde comerciantes eram obrigados a se recolher durante a noite. A Guerra da Liga de Cambrai intensificou a chegada de judeus à cidade lagunar, o que aumentou o receio da população cristã e levou as autoridades a estabelecer o confinamento obrigatório dessa comunidade na área conhecida como Ghetto Nuovo.

A solução veneziana tornou-se modelo para diversos países europeus. O gueto era uma ilha cercada por canais, acessível por duas pontes vigiadas. Os judeus só podiam circular fora do gueto durante o dia e utilizando sinais distintivos. Apesar dessas restrições, a comunidade cresceu rapidamente, impulsionada por novas ondas migratórias vindas de várias regiões da Europa e do Mediterrâneo.

O aumento populacional levou à construção vertical dos edifícios, que chegaram a atingir até oito andares — uma característica arquitetônica singular de Veneza. Em 1541, as autoridades autorizaram a ampliação do bairro com a criação do Ghetto Vecchio, área anteriormente destinada à indústria bélica. Nesse espaço foram assentados sobretudo judeus de origem levantina, provenientes da Península Ibérica e do Império Otomano. Em 1663, uma nova expansão resultou no Ghetto Nuovissimo, formado por duas ruas estreitas, onde foram construídas sinagogas e escolas que hoje formam um dos mais importantes conjuntos arquitetônicos judaicos da cidade.

Entre a população judaica destacavam-se os judeus ashkenazi, aos quais o governo veneziano concedeu autorização para atuar como médicos e como emprestadores de dinheiro, atividade proibida aos cristãos pela legislação e moral religiosa da época. Ao longo dos séculos, as relações entre a comunidade judaica e o governo veneziano mantiveram-se relativamente estáveis.

Com a queda da Sereníssima República de Veneza em 1797 e a chegada das tropas de Napoleão, foram abolidas as restrições legais impostas aos judeus, encerrando-se a obrigatoriedade de residência no gueto e inaugurando um novo período de integração civil.

Conclusão 

O Gueto Judeu de Veneza representa um marco na história da Europa: um espaço criado para controle social, mas que se transformou em centro de resistência cultural, religiosa e intelectual. Sua história revela como conviviam tolerância econômica, segregação institucional e vitalidade comunitária, tornando-se um dos mais importantes patrimônios históricos da Itália.

Nota do Autor

Escrever sobre o Gueto Judeu de Veneza é uma forma de preservar a memória de um dos capítulos mais complexos da história europeia. O objetivo deste texto é oferecer ao leitor uma visão clara, respeitosa e fundamentada sobre como uma comunidade perseguida em quase toda a Europa encontrou, em Veneza, um espaço de sobrevivência, adaptação e florescimento cultural. Revisitar essa história é essencial para compreender as origens de conceitos modernos de exclusão urbana, identidade religiosa e convivência entre civilizações.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



segunda-feira, 20 de setembro de 2021

O Gueto Judeu de Veneza



O chamado Gueto era o bairro de Veneza onde já a partir de 1516, por ordem do governo da Sereníssima República, deviam morar todos os judeus que viviam na cidade. A presença de judeus suscitava na população certo mal-estar, não só devido a histórica antipatia dos cristãos contra eles, mas, também pela inveja do poder econômico que eles possuíam, uma vez que muitos deles exerciam atividades de banqueiros e usurários, emprestando dinheiro com juros. Quem precisava de um empréstimo devia deixar um bem de maior valor como garantia. A prática da usura era bastante combatida pela igreja católica que a considerava uma atividade condenável, não digna de um cristão, e portanto proibida, porém, tolerada se exercida pelos judeus. No ano de 1516 foi destinada a eles uma pequena porção da cidade, como uma ilha circundada por água, localizada no sestiere (bairro) de Cannaregio que ficou conhecido por Gueto Velho. A origem do nome provavelmente é derivado do fato que nesta zona antigamente existiam algumas fundições públicas cobre e fabricação de pequenos canhões, bombardas, isto é se "gettavano" do verbo getare, o ferro e outros metais fundidos nos moldes. O termo gueto ali criado se firmou em todo o mundo e com o tempo passou a designar os locais onde se concentram as minorias socialmente esclusas de uma comunidade. 

O perímetro do gueto era cercado por altos muros e os moradores estavam proibidos de sairem desses limites durante a noite, ficando reclusos do anoitecer até o amanhecer, contidos por portões e uma grossa corrente que era estendida no canal que o atravessava. Eram também vigiados por guardas armados que controlavam todos os seus movimentos. Em 1541, com a chegada de mais judeus, o gueto precisou ser estendido até uma pequena ilha vizinha, passando então a ser conhecido como Gueto Novo. Em 1663 devido ao crescimento da população que ali vivia, teve que ser ampliado novamente e passou a ser chamado de Gueto Novíssimo. 




Com a queda da República em 1797, pela invasão das tropas napoleônicas, todo o gueto foi aberto e os judeus que ali viviam ficaram livres para se expandir por toda a cidade e participar de todas as atividades de Veneza. 

Pela falta de espaço a disposição da comunidade  judia, as casas do gueto tem uma construção bem característica: algumas delas chegavam a  ter até oito ou nove pavimentos, mas os tetos  dos apartamentos eram bem mais baixos. As sinagogas, também chamadas de escolas, ali construídas  chegaram em número de cinco. 

Grande parte do antigo gueto pode ser ainda hoje visitado e se conserva como o ponto central da comunidade judia da cidade.