quinta-feira, 19 de agosto de 2021

Torna Viagem

 


A longa viagem transoceânica, enfrentada pelos nossos antepassados na ânsia por uma vida melhor, foi sem dúvida uma empreitada repleta de situações de risco. Entre elas as doenças transmissíveis que surgissem a bordo podiam rapidamente se transformar em sérias epidemias impossíveis de serem controladas.

Os imigrantes italianos que chegavam ao Brasil  já a partir das últimas décadas do século XIX, deviam obrigatoriamente, como também todos aqueles de outras nacionalidades, passar por uma inspeção de saúde e vistoria das embarcações para o controle de epidemias que pudessem ter ocorrido a bordo, durante a longa travessia. 

Centenas de pessoas mal nutridas, amontoadas em velhos e lentos navios, dividindo, por várias semanas, reduzidos espaços abafados devido a má ventilação, sem instalações higiênicas adequadas e com insuficiência de água para a higiene pessoal, se tornavam presas fáceis para a eclosão e disseminação de doenças infecciosas graves, as quais podiam levar a morte em poucos dias, tais como o tifo, o cólera e outras doenças infantis que causaram inúmeras perdas de vida.

Pensando na proteção da saúde da população das nossas cidades, o governo imperial brasileiro decretou que a entrada de imigrantes no país deveria ser realizada somente pelo porto do Rio de Janeiro. Para isso, construiu na Ilha das Flores uma Hospedaria para Imigrantes, um Lazareto e o Hospital de Isolamento de Jurujuba, tudo com o propósito de minimamente acolher os enfermos e os portadores de moléstias contagiosas em um regime de quarentena.

Por acordos internacionais, os navios que transportavam grande número de passageiros  deveriam sempre ter um médico responsável a bordo e quando surgisse alguma epidemia ele deveria obrigatoriamente informar as autoridades portuárias, no momento do desembarque. Também por esse acordo as companhias de navegação marítima eram obrigadas a manter um relatório minucioso e atualizado dos casos médicos e óbitos ocorridos durante todo o período da viagem. Este relatório, assinado pelo médico de bordo, deveria ser entregue às autoridades sanitárias do porto de desembarque. 

Se em algum navio surgisse alguma epidemia, o capitão deveria, ao entrar no porto, hastear uma bandeira de cor amarela no mastro da embarcação, para indicar a presença de doenças transmissíveis a bordo.   

Esses navios com doenças transmissíveis a bordo não recebiam permissão para atracar no porto e deveriam se manter ao largo, longe da costa, até a decisão das autoridades portuárias, após inspeção pelo serviço sanitário brasileiro. Nos casos que os doentes encontrados eram em grande número, excedendo as capacidades de atendimento organizado pelas autoridades sanitárias do porto, a solução encontrada foi proibir definitivamente a atracação do navio, o qual deveria retornar ao porto de origem, com toda a sua carga de imigrantes. Era a cruel ordem de torna viagem que ninguém queria ouvir. 




Nesses casos extremos os navios eram reabastecidos de água potável, medicamentos e víveres para enfrentarem a longa e frustrante viagem de retorno. Muitos foram os imigrantes italianos que tiveram assim abruptamente interrompidos os seus sonhos de uma nova vida. 

Esse foi o triste destino de quatro navios com imigrantes italianos que chegaram ao Brasil entre os meses de agosto e setembro de 1893, ocasião em que grassava uma grande epidemia de cólera na Europa. 

O navio Remo chegou no porto do Rio de Janeiro  zarpando do Porto de Gênova, fazendo uma escala em Nápoles para o embarque de mais passageiros, todos imigrantes com destino ao Brasil. Transportava um número excessivo de passageiros, muito além da capacidade nominal estabelecida para aquele tipo de navio. Transportava um total de 1494 passageiros, a maioria imigrantes.  Na travessia surgiu uma grave epidemia de cólera a bordo, ocasionando várias mortes. Ao chegar no Brasil não recebeu permissão para entrar no Porto do Rio de Janeiro recebendo ordens das autoridades portuárias para permanecer ancorado longe da costa. Após a inspeção realizada pelas autoridades sanitárias do porto foi obrigado a retornar para Itália com todos os seus passageiros e tripulação. 

O navio Andrea Doria chegou ao Porto do Rio de Janeiro em 12 de setembro de 1893 pelos mesmos motivos também não obteve a permissão para desembarcar os seus passageiros. Durante a travessia tinham ocorrido 91 casos de cólera a bordo e assim o navio recebeu a ordem de retornar ao porto de origem, frustando todos aqueles imigrantes e suas famílias. 

No dia 16 de setembro do mesmo ano foi a vez do navio Vicenzo Florio ser proibido de desembarcar os seus passageiros devido o surgimento de uma epidemia a bordo enquanto atravessava o oceano com destino ao Brasil. Este navio também foi proibido de desembarcar os passageiros ou qualquer membro da tripulação e teve que empreender a viagem de volta ao porto de origem.

No dia 24 de agosto de 1893 o navio italiano Carlo R. chegou ao Porto do Rio de Janeiro com o triste saldo de 100 mortos a bordo causados por um epidemia de cólera e um número muito maior de doentes contaminados. Relatos das autoridades sanitárias e portuárias brasileiras que vistoriaram esse navio nos dão conta que dele exalava um odor insuportável. Não podendo desembarcar seus passageiros no Rio de Janeiro, recebeu ordens de retornar para o porto de origem, levando consigo toda aquela carga de doentes e os seus sonhos de uma nova vida.




Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta
Erechim RS





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