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sábado, 25 de julho de 2026

Itália Dividida - Pobreza, Unificação e a Saída em Massa no Século XIX

 


Itália Dividida - Pobreza, Unificação e a Saída em Massa no Século XIX

"Antes de cruzarem o oceano, milhões de italianos precisaram abandonar muito mais do que sua terra: deixaram para trás uma pátria recém-nascida, marcada pela pobreza, pela desigualdade e pela esperança de um futuro que parecia impossível".


A história da grande emigração italiana não pode ser compreendida apenas como a narrativa de milhões de pessoas que cruzaram oceanos em busca de uma nova vida. Antes de representar um movimento migratório, ela foi a consequência de profundas transformações políticas, econômicas e sociais que marcaram a península Itálica durante o século XIX. A partida de famílias inteiras não nasceu de um desejo de aventura, mas da necessidade de sobreviver em uma nação recém-unificada que ainda carregava as cicatrizes de séculos de fragmentação política, desigualdade regional e pobreza estrutural. 
Durante grande parte da Idade Moderna, a Itália não existia como um Estado nacional. A península era dividida entre diversos reinos, ducados, repúblicas e territórios submetidos à influência de potências estrangeiras, especialmente o Império Austríaco. O Reino do Piemonte-Sardenha, o Reino das Duas Sicílias, os Estados Pontifícios, o Ducado de Parma, o Ducado de Módena, a Toscana e a República de Veneza possuíam governos próprios, sistemas fiscais distintos, moedas diferentes e até barreiras alfandegárias internas. Essa fragmentação dificultava o desenvolvimento de um mercado nacional integrado e impedia a formação de uma identidade política comum. 
Foi nesse contexto que surgiu o Risorgimento, movimento político e cultural que buscava a unificação italiana. Inspirados pelos ideais liberais e nacionalistas difundidos após a Revolução Francesa, intelectuais, militares e políticos passaram a defender a criação de um Estado unificado. Personagens como Giuseppe Mazzini, Camillo Benso di Cavour, Giuseppe Garibaldi e o rei Vítor Emanuel II desempenharam papéis decisivos nesse processo. Entre guerras, negociações diplomáticas e revoluções populares, a unificação consolidou-se em 1861 com a proclamação do Reino da Itália, sendo completada em 1870 com a incorporação de Roma. 
Entretanto, a unidade política não significou prosperidade imediata. O novo Estado herdou enormes desafios administrativos e econômicos. As antigas fronteiras desapareceram, mas permaneceram profundas diferenças entre as regiões. O Norte apresentava maior dinamismo econômico, algum desenvolvimento industrial e infraestrutura relativamente mais avançada. O Sul, por sua vez, permanecia fortemente agrícola, marcado pelo latifúndio, pela baixa produtividade, pelo analfabetismo e por elevados índices de pobreza. Essa desigualdade regional tornou-se uma das características permanentes da história italiana e ficou conhecida como a "Questão Meridional". 
Mesmo em áreas do Norte, especialmente nas regiões do Vêneto, Friuli e Trentino, a situação dos pequenos agricultores estava longe de ser confortável. A maioria das famílias vivia da agricultura de subsistência em propriedades extremamente reduzidas, frequentemente divididas entre os herdeiros ao longo das gerações. Esse processo de fragmentação das terras diminuía continuamente a capacidade produtiva das pequenas explorações rurais. Muitas famílias já não conseguiam retirar do solo alimento suficiente para sua própria sobrevivência. 
Ao mesmo tempo, a unificação trouxe uma reorganização fiscal que aumentou o peso dos impostos sobre a população rural. A construção do novo Estado exigia recursos para manter o exército, ampliar a administração pública e desenvolver obras de infraestrutura. Para milhões de camponeses, contudo, essas mudanças significaram apenas novos tributos, sem que melhorias concretas chegassem às pequenas comunidades agrícolas. A pobreza persistia, enquanto o custo de vida aumentava e as oportunidades permaneciam escassas. 
A agricultura enfrentava ainda sucessivas crises. Colheitas ruins, doenças que atingiam os vinhedos, oscilações no preço dos produtos agrícolas e a crescente concorrência internacional reduziram ainda mais a renda dos trabalhadores rurais. Em várias regiões, a fome tornou-se uma realidade recorrente. Muitas famílias dependiam exclusivamente da produção anual e qualquer perda provocada por secas, geadas ou pragas podia significar meses de extrema privação. 
O crescimento demográfico agravava esse cenário. A população italiana aumentava rapidamente enquanto as oportunidades de trabalho não acompanhavam esse ritmo. A industrialização ainda era limitada e concentrava-se em poucas cidades do Norte, incapaz de absorver a massa de trabalhadores excedentes do campo. Milhares de jovens percebiam que dificilmente conseguiriam formar uma família ou adquirir terras permanecendo em suas aldeias de origem. 
Outro elemento importante foi a própria construção da identidade nacional. Muitos habitantes da península não se consideravam italianos no sentido moderno da palavra. Identificavam-se principalmente com sua aldeia, sua província ou sua região. Falavam dialetos muitas vezes incompreensíveis entre si e possuíam tradições locais profundamente enraizadas. A célebre frase atribuída a Massimo d'Azeglio — "Fizemos a Itália; agora precisamos fazer os italianos" — sintetiza a dificuldade enfrentada pelo novo Estado em transformar uma população regionalizada em uma nação unificada. 
Foi nesse ambiente de incertezas que a emigração começou a ser vista como uma alternativa concreta. Inicialmente, muitos italianos dirigiram-se para países europeus, como França, Suíça e Alemanha, realizando migrações temporárias. Porém, a partir da década de 1870, as Américas passaram a exercer enorme atração. Países como Brasil, Argentina, Estados Unidos e Uruguai ofereciam oportunidades de trabalho, disponibilidade de terras em determinadas regiões e campanhas oficiais destinadas a atrair trabalhadores europeus. 
A decisão de emigrar dificilmente era simples. Representava abandonar a terra onde gerações da mesma família haviam vivido durante séculos, despedir-se de parentes, santos padroeiros, igrejas, cemitérios e costumes profundamente ligados à identidade local. Muitos emigrantes vendiam praticamente todos os seus bens para financiar a viagem. Outros recorriam a empréstimos ou aceitavam contratos intermediados por agentes de emigração que prometiam oportunidades nem sempre correspondentes à realidade encontrada além-mar. 
Entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX, milhões de italianos deixaram definitivamente sua terra natal, protagonizando um dos maiores movimentos migratórios espontâneos da história contemporânea. Esse fenômeno alterou profundamente tanto a Itália quanto os países de destino. Nas comunidades italianas espalhadas pelo mundo, preservaram-se dialetos, tradições religiosas, festas populares, receitas, músicas e formas de organização familiar que ajudaram a manter viva a memória da terra de origem. 
Compreender a pobreza que marcou a Itália recém-unificada é compreender também a dimensão humana da emigração. Cada navio que deixava os portos de Gênova, Nápoles ou Palermo transportava muito mais do que passageiros. Levava consigo histórias interrompidas, esperanças reconstruídas e o desejo silencioso de transformar sofrimento em futuro. A grande diáspora italiana nasceu da combinação entre dificuldades econômicas, transformações políticas e coragem individual. Foi justamente dessa experiência de perda, trabalho e perseverança que surgiu uma das mais extraordinárias heranças culturais deixadas pelos italianos em diversos continentes, especialmente nas Américas.

Nota do Autor

Compreender as causas da grande emigração italiana significa olhar além das listas de passageiros e dos registros oficiais. Antes de embarcarem rumo às Américas, milhões de homens, mulheres e crianças enfrentaram uma realidade marcada pela pobreza, pelas profundas desigualdades regionais e pelas incertezas de uma nação recém-unificada. Conhecer esse contexto é compreender que a imigração italiana não foi apenas um movimento demográfico, mas uma das maiores experiências humanas da história contemporânea. Ao preservar essa memória, homenageamos não apenas aqueles que partiram, mas também as gerações que transformaram sacrifício em legado e fizeram da identidade italiana um patrimônio vivo em tantos países, especialmente no Brasil. 

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta





terça-feira, 5 de novembro de 2024

Fin de 'l Sècolo XIX - Perìodo de Povertà Granda in Itàlia

 



Fin de 'l Sècolo XIX - Perìodo de Povertà Granda in Itàlia


In Itàlia a la fin del sècolo XIX, la misèria e 'l fame i zera presentà in miàia de famèie, dal nord al sud de la penìnsula. Segundo la "Investigassion Agrària Jacini", che la parlava del mondo agrìcolo italian, la ga dito:

"Ne i vali de le Alpi e de i Apenini, ne le pianure del sud de Itàlia e anca in qualche provìnsia pì ben coltivada del nord, ghe ze catà 'sti casoti ndove, in una stansa 'nfumegà, sensa ària e sensa lume, i vive inseme omo, capre, porchi e gali. E 'sti casoti i se conta forse in sentenare de miàia per tuto el Paese."

Sempre ne l'istessa investigassion agrària Jacini ghe se trova anca 'sto raconto:

"La stala ze la parte principale de la casa del contadino picinin; ze anca el posto par el bestiame, el salon e el santoàrio de la famèia. Ze nte la stala che lori passa i lunghi inverni; ze là che la dona de casa la ciama parenti e amici; ze là che la famèia laora, se diverte, magna e dorme. Mentre le done le cusìa, le ramendàa e giràa el fuso, i òmeni i se meteva a zugar a carte o a contar stòrie"

Ancora dai raconti de 'sta investigassion:

"El consumo essessivo e quasi esclusivo de polenta, con na mèdia de 33 chili per persona l'ano, qualche volta anca de pì ´ntele provìnsie del nord, portava spesso a la pelagra, che la zera conossuda come malatia dei '3 D': dermatite, diarrea e demènsia. El pì grande ospedal dei pelagrosi in Itàlia el zera a Mogliano Veneto, in provìnsia de Treviso."

De novo par 'sta investigassion de l'època:

"Xe tanto dura la vita ´nte la pianura padana e ´nte la zona de la pedemontana vèneta e lombarda che, nei posti con i vigneti, i piceni contadini i ghe mete el vin a 'sta dieta poara, fata de polenta sensa gusto tuti i giorni. Par darghe un poco de gusto, ogni membro de la fameja ghe passava ‘na volta sora un toco de arenche affumegà. ‘El vin fa sangue,’ i diseva. Secòndo la "Revista Vèneta de Scienze Mèdiche", sitada da Eduardo Pittalis nel so libro "Dale Tre Venéssie al Nordest", fra i sècoli XIX e XX, in una ricerca su dodose mila studenti de elementari in provìnsia, solo tre mila no beve, cinquemila beve robe alte de gradassion alcòlica e nove mìa beve de continuo vin, con el meso che ne abusava."

La povertà, negli ùltimi desseni del sècolo XIX, la ze tanta, spiega Marco Porcella nel libro "La fatica e la Mèrica", che una gran fonte de guadagno par le famèie de contadini zera el sacrifìssio de le done (le bàlie) par crescer i orfani al posto del stato. Spiega:

"I zera òrfani, fiòli quasi sempre ilegìtimi, che no mancava mai ne le grandi sità, abandonà ne le "Rode" (degli orfanatèi). Nei paesi picini, ndove no ghe zera "Rode" dei orfanatèi, i putéi i zera abandonà sui scalini de le cese, sui porti de i pàroci o anca in man de le ostetriche. Tanti de lori i zera denutriti, infredolì, e qualche volta nati prematuri, i muriva ntei primi zorni. In perìodo sensa epidemie, ghe se calculava una mortalità infantil del 33%. Nte le sità, la maior parte de lori i zera abandonà parchè se credeva che 'el fiol de la colpa' portasse malatie a le bàlie e dunque ai so fiòi, tipo la sifìlide, diagnosticà come causa de morte. Dopo un ano, el 'fiol de late' diventava 'fiol de pan' e el podèa vegner su fino a dodese ani, dopodiché el ospedale se ne disinteressava."

Nei racconti del mèdico Luigi Alpago Novello, che laorava tra i picini agricoltori in provìnsia de Treviso, a la metà del sécolo XIX, el ze descrito come, par famèie poare, ze paragonata l’importanza de i membri maladi rispeto ai animali che ghe davea sostegno. El dotore disi:

"I membri de na famèia i ze valorà par quel che i podea far de ben par tuto el grupo. La morte de chi no pol laorar, o de chi ze malato e restà sempre in leto, ze meno importante de un animale grande, no dirò una vaca o un boe, ma anca solo na pecora o na capra. Se un boe se ga amalà, la famèia la ze disperà e core dal veterinàrio – se ze gratis – o da un curador, e i fa tuto quel che el disi. Tanti i va anca tanto distante par portar el veterinàrio par 'l vitel che no ga la voia de magnar'. Invese i làssia che i putéi i vaga a mal e i muri sensa ciamar 'l dotore, e tante volte no i segue gnanca quel che el ghe ordinà."

I progresi de la medicina e le campagne de igiene par tuto el Véneto, sopratuto durante la dominassion austrìaca, i ga fato sì che in 1911 l’età mèdia de morte la ze aumentà da solo sei ani e meso a trenta ani. Però, la mortalità infantìl restava altìsima. Sempre in 1911, i putéi soto i sinque ani i rapresentava el 38% de tuti i morti.



quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

A Itália e a Investigação Agrária

Inchiesta agraria del Veneto (Investigação Agrária do Vêneto) 1882



Em 1887 a Itália ainda era um pequeno país, atrasado, pobre e com muitos problemas sociais de difícil solução. Somente em 1860 foi criado o Reino da Itália e Roma tinha passado a ser a sua capital em 1870. Até então a Itália era formada de pequenos reinos e ducados de convivência entre eles bastante complexa, nem sempre pacífica. A unificação desse ainda jovem reino se fez as custas de muitas lutas, de encontros e desencontros e do sacrifício do seu heterogêneo povo, especialmente aqueles mais pobres. As autoridades do governo estavam tendo muitas dificuldades para equilibrar a ainda débil economia italiana. Para tentar sanar esse imenso problema, passaram a vender inúmeras propriedades do estado, bens da Igreja, e concessões de estradas de ferro. Foram criados vários novos impostos, como aquele odiado pelo povo, que incidia sobre a moagem de grãos, o qual devia ser recolhido diretamente nos moinhos e o imposto sobre o sal. Esses impostos,  que a princípio sujeitavam toda a população, gravavam de maneira mais pesada os mais pobres, entre eles os pequenos agricultores e os artesãos, que pagaram com seu sangue e suor o peso da criação do novo reino. 




Na jovem Itália tudo estava por ser feito pelo Estado, com funcionários ainda sem prática e com pouca experiência administrativa. Faltavam escolas, estradas, pontes, hospitais, enfim toda a infraestrutura necessária para o funcionamento do país, além de precisar tentar  a harmonização e unificação das inúmeras línguas faladas no reino, as várias formas de aplicar a justiça, as várias moedas que circulavam, os vários procedimentos aduaneiros usados em todo o reino e unificar as diversas forças militares ainda existentes. 




Na Itália de 1887 várias doenças epidêmicas matavam a população como a malária que assolava em grandes áreas do reino e a pelagra, uma doença carencial causada pela subalimentação, pela falta crônica de algumas vitaminas e elementos necessários à vida. Pelas cifras oficiais dadas a conhecer pelas autoridades pode-se ver que os números são de um verdadeiro massacre da população, sendo que as mais atingidas eram as crianças de até 5 anos de idade. Nesse período a Itália tinha uma alta mortalidade infantil, vítimas da   grande escassez de alimentação, da higiene precária e da falta de recursos financeiros para serem examinados por médicos. 

Quando a Itália foi unificada existiam pouquíssimas fábricas, o trabalho era feito em casa, segundo um velho hábito de manufatura artesanal, ainda hoje presente em várias regiões da Itália e também nos países que receberam a emigração italiana, como o Brasil meridional. 

Em 1887 a Itália era um país cuja economia se baseava quase exclusivamente na agricultura. Segundo alguns dados, de uma população de 30 milhões  de habitantes, 21 milhões era formado por pequenos agricultores. Praticavam ainda uma forma de cultivo ainda muito atrasada em relação a outros países da própria Europa. Usavam superados equipamentos agrícolas, herdados dos avós, não tratavam a agricultura como uma prática capaz de gerar economia e progresso. A grande maioria dos pequenos agricultores nascia, vivia e morria na mesma propriedade rural, à sombra da mesma torre de igreja, como os seus antepassados, imersos em hábitos e tabus ancestrais. Na maioria das propriedades rurais, ainda se praticava uma agricultura de subsistência, cultivada essencialmente para saciar as suas necessidades básicas imediatas e não para a comercialização do excedente. Em alguns pontos planície vêneta   se iniciava alguns exemplos de um capitalismo agrário mais desenvolvido, com o aparecimento de algumas propriedades rurais em que se praticava o múltiplo cultivo agrícola associado a formação de pastos para a criação de animais para o abate e produção de queijos.  Somente na região do Piemonte a agricultura conheceu níveis de qualidade aproximados ao de outros países europeus. 



Nessa época a economia da Itália se arrastava, perdendo a concorrência para os produtos importados como o trigo, o milho, o vinho que chegavam de outros países, principalmente Estados Unidos e França, a preço muito mais baixo do que aquele produzido no país. A consequência mais visível disso era o desemprego em massa no campo, a diminuição do salário pago aos diaristas e pequenos artesãos, que agora começavam a se amontoar  frente as igrejas, nas praças das pequenas vilas, esperando por um trabalho. O desestímulo desses homens magros e de rostos encavados era muito grande especialmente para aqueles que não estavam conseguindo levar alimentos suficientes para casa. A fome já rondava um grande número de lares.  

A Itália se apresentava ao mundo como um país pobre e analfabeto, sem recursos naturais, como ferro e carvão, para suprir a incipiente industrialização. Um país onde a renda média do trabalhador era apenas um quarto daquela inglesa e um terço da francesa. 

Uma aprofundada investigação agrária, ordenada pelo parlamento italiano, dirigida pelo conde Stefano Jacini, expoente deputado da democracia cristã, que durou entre os anos de 1861 e 1886, apresentou suas conclusões em 15 volumes. Nas suas páginas podemos ter uma verdadeira radiografia das reais condições da agricultura italiana nas diversas regiões aqueles primeiros anos do novo Reino. Nele podemos ver que a vida na Itália era bem difícil, com pouco trabalho, e quando esse havia era mal pago, o povo sem dinheiro para as suas necessidades básicas, como para levar um doente ao médico ou comprar os remédios receitados. Lá se pode ver que em muitos lugares, tanto do sul como do norte da península, as crianças eram colocadas a venda em praça pública, comercializadas come se fossem uma mercadoria qualquer. A descrição das condições de vida do povo italiano, onde milhares de pobres ainda viviam em cavernas escavadas na rocha e em e pequenos e úmidos casebres. 

Resumo 

O Inquérito sobre as condições da classe agrícola na Itália, decretado pela lei de 15 de março de 1877, representa a documentação mais completa sobre o estado da economia agrícola da Itália pós-unificação. Os atos da investigação, publicados de 1881 a 1890, foram resumidos no relatório final do presidente da junta, senador Stefano Jacini, que denunciou o desinteresse dos diversos governos que haviam conduzido o país para a agricultura, que também fornecia ao Estado a maior parte da renda nacional, sem receber em troca nem capital, nem estímulos ou incentivos para seu desenvolvimento. A investigação, que teve por objeto as características da propriedade fundiária, as colheitas e métodos de cultivo, as condições de vida dos camponeses, revelou que vinte anos após a unificação, permaneceram diferentes realidades ambientais e produtivas, vinculadas aos costumes, usos e culturas diferentes: áreas limitadas de cultivo intensivo, caracterizadas pelo uso de fertilizantes e maquinário agrícola e pela disponibilidade de capital e espírito empreendedor, contrastadas grandes áreas não cultivadas ou pouco produtivas, devido aos métodos arcaicos de cultivo adotados, e infinitas gradações entre os dois extremos. Além disso, o país tinha apenas uma área cultivável limitada, que também estava sujeita à seca e à malária. Era necessário, portanto, aumentar a área de produção por meio de reflorestamento e recuperação de terras, usar meios de cultivo mais modernos, maiores fertilizantes químicos e irrigação, implementar uma rotação de culturas mais eficaz, aumentar árvores e vegetais. Jacini era um conservador, de fé liberal, mas diante da crise agrária dos anos 1980, causada pela competição do trigo americano, argumentou a necessidade de defender a produção nacional com um leve protecionismo aduaneiro e pediu ao governo que reduzisse a carga tributária e uma compromisso financeiro substancial para o setor agrícola. 














terça-feira, 3 de abril de 2018

Final do Século XIX - Período de Extrema Pobreza na Itália



Na Itália do final do século XIX a miséria e fome estavam presentes em milhares de famílias de norte a sul da península. Segundo a chamada Investigação Agrária Jacini sobre o mundo agrícola italiano e publicada à partir de 1880 já nos relatava:

Nos vales alpinos e naqueles dos apeninos, nas planícies da Itália meridional e também em algumas províncias melhor cultivadas do norte, existem casebres onde em um único aposento enfumaçado, sem circulação de ar e sem iluminação, vivem juntos homens, cabras, porcos e galinhas.
E  esses casebres se contam talvez em centenas de milhares por todo o país”.

Ainda na mesma investigação agrária Jacini podemos encontrar:

A estrebaria é a parte principal da casa do pequeno agricultor, é ao mesmo tempo o local para o gado, o salão e o santuário da família. É na estrebaria que passam os longos invernos; é lá que a dona de casa recebe os parentes e amigos; é lá que a família trabalha, se diverte, come e dorme. Enquanto as mulheres costuram, remendam e giram o fuso, os homens jogam cartas ou passam o tempo contando casos”.

Continuando nos relatos da mesma pesquisa:

O consumo excessivo e quase exclusivo de polenta, onde na média cada pessoa consumia 33 K ao ano, as vezes mais nas províncias do norte, a pelagra era uma doença muito prevalente. Era conhecida por doença dos 3 D: dermatite, diarreia e demência. O principal pelagrosário italiano estava em Mogliano Veneto, na província de Treviso”.




Ainda de acordo com a mesma investigação sobre o mundo agrícola entorno do ano de 1880 podemos ler:

Era muito dura a vida na planície padana e na região da “pedemontana” vêneta e lombarda que nos lugares onde existiam parreiras os pequenos agricultores acrescentavam o vinho a dieta muito pobre, sempre à base de polenta sem gosto, que para melhorar o sabor a passavam cada membro da família a sua vez, sobre um pedaço de arenque defumado. O vinho faz sangue diziam! Segundo a Revista Vêneta de Ciências  Médicas citada por Eduardo Pittalis, no seu livro Dalle Tre Venezie al Nordest, entre os séculos XIX e XX, em uma pesquisa entre doze mil estudantes primários da província somente três mil não bebem, cinco mil bebem bebidas com alta graduação alcoólica  e nove mil bebem regularmente vinho, sendo que a metade abusa”.


A pobreza nos últimos decênios do século XIX era tal, explica Marco Porcella no livro La fatica e la Merica, que uma fonte de ganho das famílias que trabalhavam na agricultura, era devido totalmente ao sacrifício das mulheres (amas de leite) em criar os órfãos no lugar do estado. Explica:

eram os órfãos, filhos quase sempre ilegítimos, que nas grandes cidades nunca faltavam, abandonados nas Rodas (dos orfanatos). Nas pequenas cidades onde não havia a Roda dos orfanatos, as crianças eram abandonadas nos degraus das igrejas, nas portas dos párocos ou ainda mesmo nas mãos das parteiras. Uma boa parte deles estavam desnutridos, enregelados, alguns prematuros, morriam nos primeiros dias. Em períodos de ausência de epidemias ou outras circunstâncias excepcionais se calculava uma mortalidade infantil na ordem de 33%. Nas cidades a maioria deles eram abandonados devido a crenças das amas de leite que eles poderiam transmitir doenças para os seus filhos verdadeiros. Se acreditava que o “filho da culpa” transmitisse à ama de leite e portanto ao irmão de leite, filho legítimo, doenças como a sífilis, que na verdade vinha diagnosticada como causa da morte. Transcorrido um ano a criança “de leite” se transformava em “criança de pão” e podia ser criado até os doze anos de idade, depois do que o hospital cessava qualquer responsabilidade.

Nos relatos do médico Luigi Alpago Novello, que trabalhava entre os pequenos agricultores na província de Treviso na segunda metade do século XIX, fruto da necessidade mais absoluta, podemos aquilatar a importância que, nas famílias carentes, se dava então aos membros doentes em relação aos animais que forneciam o sustento para todos. Diz o médico em seu relato:

Os membros de uma família são avaliados em razão do que podem produzir para o grupo, daquilo de útil que podem trazer para todos. A morte daqueles que são incapazes ou pouco adaptados para o trabalho, ou aqueles que portadores de doenças incapacitantes ficam limitados ao leito por muito tempo, são de menor importância e a dor da sua morte é muito menor, não direi de grande animal, uma vaca ou um boi, mas de uma simples ovelha ou cabra. Se adoece um bovino a família fica em desesperação e correm para o veterinário – se gratuito – ou a um curador e executam todas as ordens por ele dadas. Frequentemente percorrem muitos quilômetros para chamar o veterinário para que venha consultar o vitelo “que tem pouca vontade de comer”. Por outro lado deixam adoecer e morrer as crianças sem qualquer chamado do médico e muitas vezes sem ao menos executar as suas prescrições’.


Os avanços da medicina e as campanhas de higiene em toda Itália, e particularmente no Vêneto durante a dominação austríaca, fizeram com que em 1911 a idade média dos óbitos subisse, de apenas seis anos e meio para trinta anos. Entretanto a mortalidade infantil continuava altíssima. No mesmo ano de 1911 as crianças abaixo de cinco anos representavam 38% do total de mortos.


Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta

Erechim RS