Espaço destinado aos temas referentes principalmente ao Vêneto e a sua grande emigração. Iniciada no final do século XIX até a metade do século XX, este movimento durou quase cem anos e envolveu milhões de homens, mulheres e crianças que, naquele período difícil para toda a Itália, precisaram abandonar suas casas, seus familiares, seus amigos e a sua terra natal em busca de uma vida melhor em lugares desconhecidos do outro lado oceano. Contato com o autor luizcpiazzetta@gmail.com
sábado, 30 de abril de 2022
I Veneti in Rio Grande do Sul
segunda-feira, 25 de abril de 2022
As Quatro Fases da Imigração Italiana
Para fins de estudo, podemos dividir a imigração italiana em quatro grandes fases, distribuindo-as no tempo, de acordo com seu aparecimento.
A primeira fase podemos facilmente situar entre os anos de 1875 até o último ano do século XIX. Nos primeiros anos ela se direcionou para os países mais desenvolvidos e ricos na própria Europa, como a França e a Alemanha. Países esses nos quais, já de longa data os italianos encontravam trabalho, principalmente, durante os meses de inverno, com pouco trabalho na lavoura.
Era a chamada "immigrazione golondrina", em analogia aqueles pássaros migratórios que, todos os anos migravam e retornavam para as suas casas.
O número de novos emigrantes foi rapidamente aumentando e gradativamente os tradicionais países europeus de migração não tinham mais condições de absorver tanta gente.
Assim, foi necessário encontrar outros países, mesmo localizados mais distantes, do outro lado do oceano, que naqueles tempos passavam por grande desenvolvimento econômico com uma crescente necessidade de mão de obra.
Assim fluxo migratório italiano passou a se dirigir para os jovens países da América do Sul, especialmente o Brasil e a Argentina. Alguns poucos foram atraídos para América do Norte.
Através de movimentos organizados, muitas vezes subsidiados pelos governos desses países, os italianos foram emigrando. Também um grande número deles saíram de forma clandestina da Itália, viajando por conta própria, seguindo a grande onda, rumo ao tão sonhado el Dorado.
Nessa época, influenciados pela enganosa propaganda de recrutamento, o Brasil era considerado a "terra della cuccagna", o local onde todos ficariam ricos em pouco tempo.
Para eles a cucagna nada mais era que um futuro melhor para si e para seus filhos, a possibilidade real para se tornarem proprietários de um pedaço de terra e não mais dividirem a colheita com um patrão.
Logo ao desembarcarem na terra prometida caíam na realidade e se davam conta do ardil usado pela propaganda de recrutamento.
Calcula-se, com base nos registros das grandes companhias de navegação e nos arquivos daqueles países que receberam esses imigrantes, que cerca de 5 milhões de homens, mulheres e crianças italianas nesse periodo deixaram definitivamente a Itália.
Número muito grande em relação a população total da Itália, que nesse período estava entorno de 30 milhões de habitantes. Quase 15% da sua população!
Os fatores que levaram a esse verdadeiro êxodo, segundo Deliso Villa, somente comparado aqueles dos hebreus em sua fuga do Egito, foram principalmente aqueles de natureza sócio econômicos, em um país pobre, recém unificado, que não mais conseguia dar uma vida digna para os seus cidadãos.
Entre uma guerra civil sanguinosa, especialmente, os vênetos preferiram o caminho da emigração como forma de protesto, deixando para trás as terras onde nasceram, as suas pequenas casas, os seus amigos e entes queridos, para na maior parte das vezes, nunca mais tornarem a vê-los.
A segunda fase compreende o período entre os anos de 1900 até 1914, quando eclodiu a I Grande Guerra Mundial. Entre esses anos deixaram a Itália um número calculado de 9 milhões de pessoas, o equivalente aproximadamente a um quarto da população total do país.
Nessa fase predominaram os emigrantes do centro sul da Itália, expulsos de suas terras devido inúmeros fatores, entre eles o empobrecimento cada vez maior do campo e, sem encontrarem uma alternativa de trabalho no setor industrial, ainda incipiente, foram obrigados a emigrar.
A terceira fase está situada no período compreendido entre o fim da primeira guerra mundial em 1918 e o início da segunda grande guerra em 1939.
Essa fase se caracterizou por oscilações da economia de vários países europeus e americanos, o crack da bolsa de 1929 e a ascensão do fascismo, com a sua política contrária a emigração, fez com que se arrefecesse o fluxo de saída dos italianos para países extra europeus.
A tentativa grotesca de expansionismo fascista, nos moldes imperialistas já obsoletos, se caracterizou por movimentos migratórios de milhares de italianos em direção ao norte da África.
Na Europa, a emigração italiana ficou restrita principalmente à França e à Alemanha, para onde se dirigiram em milhares após o fim dos conflitos da primeira grande guerra.
Nesse período de vinte anos, segundo estimativas oficiais, cerca de 3 milhões de italianos abandonam o país.
A quarta fase é aquela qua se seguiu ao fim da segunda grande guerra em 1945 até 1970, período no qual a Itália e todo o mundo experimentou profundas mudanças econômicas sociais e políticas.
Nesses 25 anos voltou a crescer o fluxo emigratório italiano, especialmente de habitantes do sul do país, região que demorou um pouco mais para acompanhar o crescimento econômico da Itália pós guerra.
Os destinos preferidos nesse período foram para os tradicionais países da Europa: França, Alemanha, Suiça e Bélgica. Aqueles fluxos destinados para além do oceano seguiram para os países sulamericanos e agora também para a Austrália.
Nesse período os dados oficiais estimam que cerca de 7 milhões de italianos deixaram o país.
Em cem anos à partir da unificação italiana, deixaram o país cerca de 30 milhões de pessoas, que se estabeleceram em novas terras, fixando-se em diversas partes do mundo e após um período inicial de grandes dificuldades e provações a grande maioria deles encontrou a tão sonhada cucagna.
Hoje os italianos e seus descendentes espalhados pelo mundo já somam mais de cem milhões de pessoas, um número total maior que a população atual da Itália.
Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta
Erechim RS
quinta-feira, 21 de abril de 2022
As Vilas Palladianas no Vêneto
A Villa Capra, conhecida mais tarde por La Retonda, se ergue em uma pequena colina perto de Vicenza. É talvez a mais conhecida e famosa de todas as vilas projetadas por Andrea Palladio. Foi construída nos primeiros anos da segunda metade do século XVI e recebeu este nome por ter sido comissionada por Monsenhor Almerico Capra, para ser a sua residência. É hoje uma construção reconhecida pela UNESCO como patrimônio mundial da humanidade.
Localizada em Agugliaro, província de Vicenza, construída para Biagio Saraceno entorno de 1548.
segunda-feira, 18 de abril de 2022
As Remessas de Recursos dos Imigrantes Italianos para a Itália
Remessas são os rendimentos que os emigrantes enviavam para a Itália em moedas de ouro e vales postais. Eram utilizados para quitar dívidas, elevar o padrão de vida da família e também para pequenos investimentos em terras. Depósitos postais e bancários, compra de títulos remunerados e instrumentos de crédito. Aumento das reservas de ouro italiano, contribuição para os ativos da balança de pagamentos italiana.
De fato, os emigrantes, durante o seu período de trabalho no exterior, enviaram de lá grande parte das suas poupanças, tanto para investimento, principalmente em terras, como também para melhorar as condições de vida dos seus entes queridos que permaneceram em casa. Será graças a essas grandes remessas que a emigração italiana representou um importante instrumento para o nascimento do capitalismo e da industrialização italianos, a que a Itália se valeu para seu próprio desenvolvimento econômico. A importância dessas remessas para impulsionar a incipiente economia italiana, podemos avaliar pelas declarações de um ministro no parlamento do país que se referia a elas como "un vero ruscello d'oro" (um verdadeiro riozinho de ouro).
Nos últimos anos do século XIX e as primeiras décadas do século XX, as remessas de valores realizadas pelos milhares de emigrantes italianos espalhados pelo mundo desempenharam um papel fundamental na história econômica italiana, atuando como uma espécie de carta na manga da sua industrialização em particular na fase de decolagem industrial durante a era Giolitti. Este foi um momento muito delicado para um país que chegava atrasado à industrialização e em muitas ocasiões precisava importar bens de consumo e capitais, mas, por outro lado ainda não conseguia garantir exportações de igual valor, tendo assim um grande déficit na balança de pagamentos. As remessas, enviadas pelos emigrantes para os seus parentes que permaneceram na Itália, chegaram a cobrir, nesses anos, mais da metade da parte ativa do balanço de pagamentos, o que possibilitava fazer frente à importação de matérias-primas e bens de capital indispensáveis às necessidades cada vez maiores da produção industrial. Por outro lado, as numerosas comunidades de emigrantes italianos no exterior, uma vez transplantadas para os países de destino, abriram ou alargaram as portas dos mercados locais para as exportações italianas, da alimentação aos têxteis. As remessas, embora tenham tido maior importância na fase de decolagem industrial, assumem importância também em outras fases do crescimento econômico caracterizadas por um déficit comercial crescente, como por exemplo nos anos entre 1955 e 1963. Nos primeiros 15 anos do século XX, o montante de remessas vindas das comunidades italianas no exterior excedia a receita anual tributada diretamente pelo Estado italiano. Nesse mesmo período, existia a figura do emigrante temporário, um jovem do sexo masculino de família de pequenos agricultores, deixando uma família em precárias condições econômicas. Esta condição familiar e social determinava uma forte propensão à economizar para ajudar os seus entes queridos que permaneceram na Itália.
No caso do sul da Itália, já a partir de 1865, quando a fome castigava a muito tempo os seus casebres, os pequenos agricultores das províncias meridionais foram empurrados, em direção à emigração, como um último e desesperado remédio. Os primeiros a emigrarem foram os homens solteiros e os viúvos, depois os pais de família. Nesse tempo eram frequentes os despachos do exterior de vales postais, desde os países onde os que já tinham emigrado estavam assentados, para os membros da família que permaneceram no locais de origem. No começo as remessas chegavam à Itália por vale postal, mas os correios só existiam nas grandes cidades e muitas vezes estavam ausentes nos centros de mineração e das fazendas de café onde os emigrantes italianos tinham sido levados. No caso da emigração italiana para os Estados Unidos, os funcionários falavam inglês e isso se constituía em um sério obstáculo para pessoas que só falavam seu dialeto de origem. Dos 25 a 30 milhões de dólares que no ano de 1893 o Comitê de Emigração do senado americano acreditava terem sido enviados para a Itália, apenas alguns milhões passaram pelos correios americanos. Para o grosso das remessas, outros canais foram usados: às vezes as notas eram fechadas em envelopes comuns de cartas, mas, principalmente, através de pequenos bancos italianos, muitas vezes nos limites da legalidade. Os abusos e fraudes foram numerosos e foram relatados pelo Departamento do Trabalho e pela imprensa dos Estados Unidos. Muitas vezes, personagens ambíguos que haviam se improvisado como banqueiros recebiam mais de uma comissão, trapaceavam de várias maneiras e às vezes desapareciam com o dinheiro confiado. Em 1894, em Boston, cerca de 4 banqueiros haviam se tornado os protagonistas de grandes golpes, apropriando-se de grandes somas de depósito para serem remetidas à Itália. No entanto, é preciso enfatizar que nem todos os bancos estavam envolvidos em fraudes, havia também os convencionais. Por exemplo, uma agência napolitana de um banco suíço, que recebia anualmente uma média de 30 a 45 milhões de liras, diretamente de suas agências instaladas nos Estados Unidos. Uma lei promulgada em fevereiro de 1901 interveio exatamente para proteger as economias dos emigrantes e facilitar o fluxo de remessas para a Itália. O Banco di Napoli foi encarregado de substituir os chamados "banqueiros italianos" com serviços próprios em todos os centros onde as comunidades italianas estavam presentes, o que reduziu os custos de envio das remessas. A referida lei pretendia proteger os imigrantes e as suas poupanças, mas, também incentivar a chegada de remessas, tão importantes para a economia italiana da época. Um levantamento mais preciso feito nesses anos pelo Banco da Itália mostrou que as remessas no período ultrapassavam em muito 400 milhões por ano, aos quais se deve somar os valores enviados por vale postal, através de bancos italianos e as remessas que os emigrantes enviaram através de cartas às suas famílias na Itália, chegando a um total de mais de 500 milhões por ano. Destes, pelo menos 350 milhões foram para as regiões do Sul da Itália, protagonistas da emigração naquele período.
Essas remessas foram usadas para:
1- Parar a queda. Não se tratava de tentar melhorar a situação financeira da família, mas de saldar dívidas bloqueando assim a queda social. As dívidas a pagar podem ser as devidas a proprietários ou ainda aquelas contraídas para financiar a emigração, muitas vezes recorrendo a verdadeiros usurários. Só depois disso foi possível tentar sair da situação de subconsumo alimentar.
2- Consolidar o status. Significava pagar impostos em dia e comprar uma casa.
3- Elevar o status. É uma questão de expandir e diferenciar o consumo de alimentos, comprar gado, ampliar a propriedade comprando terras.
4- Depósitos de remessas em correios, contas correntes ou títulos remunerados; compras de títulos de dívida pública ou depósitos em bancos locais.
Após o nascimento do Reino da Itália, aconteceu o primeiro censo demográfico (1861), segundo o qual os italianos eram mais de 24 milhões. Os primeiros dados relativos à emigração também emergiram das estatísticas nacionais: os italianos residentes no exterior eram 220.000, dos quais cerca de 120.000 na Europa e na África mediterrânea (especialmente Tunísia e Egito) e cerca de 100.000 nas duas Américas. Especificamente, o Anuário Estatístico de 1861 registrou 220.000 italianos residentes no exterior, dos quais 77.000 na França, 14.000 na Suíça, 12.000 no Egito, aproximadamente 6.000 na Tunísia, 100.000 nas duas Américas (47.000 nos Estados Unidos, aproximadamente 18.000 no Brasil e na Argentina), e também foi registrado que, na grande maioria, os emigrantes eram das províncias do centro-norte.
sexta-feira, 15 de abril de 2022
Os Agricultores Italianos no Brasil
quarta-feira, 13 de abril de 2022
Os Sobrenomes no Vêneto

segunda-feira, 11 de abril de 2022
A Prática Médica nas Colônias Italianas do Rio Grande do Sul
Durante todo o período imperial o Brasil teve uma grande escassez de médicos com formação universitária, que continuou mesmo ainda quando já no período da república, e foi especialmente mais sentida no interior da província do Rio Grande do Sul, onde estavam instaladas as diversas colônias de imigrantes italianos.
Nos primeiros anos da imigração, quando alguém adoecia era tratado por membros da própria família, geralmente os mais idosos, usando chás e outros procedimentos apreendidos ainda quando na Itália, como algumas simpatias, e transmitidos oralmente nas várias gerações. Quase sempre se tratava de pequenos ferimentos, fraturas de costelas, intoxicações alimentares, doenças virais da infância ou mesmo as causadas por picadas de animais peçonhentos.
Quando o doente não melhorava ou a doença era mais grave como uma grande fratura de membros, eram levados para serem tratados pelo curandeiro, a benzedeira ou os chamados "giustaossi".
sábado, 9 de abril de 2022
O Decreto Prinetti e a Imigração Italiana
Tendo em vista o grande número de denúncias provenientes do Brasil feitas por imigrantes italianos e padres, especialmente aqueles encaminhados para a província de São Paulo, o governo italiano, depois de aprovação do Comissariado Geral da Emigração emitiu, em 26 de março de 1902, o chamado Decreto Prinetti, que proibia a emigração subvencionada para o Brasil.
Esta portaria ministerial recebeu o nome do então Ministro do Exterior da Itália, Giulio Prinetti. A sua aprovação se deu devido a um relatório sobre as condições de trabalho a que estava sujeitos os imigrantes italianos nas fazendas brasileiras.
O relatório denunciava as situações a que estavam sendo submetidos os imigrantes nas fazendas de café.
O decreto proibia a emigração subsidiada para o Brasil, porém, não restringiu a migração expontânea: aqueles italianos que quisessem emigrar para o Brasil teriam que comprar suas próprias passagens e não mais depender da passagem paga pelo governo brasileiro.
Nas últimas décadas do século XIX, várias companhias de navegação, não somente aquelas italiana, obtiveram licença do governo italiano para transportar imigrantes que tinhas as passagens pagas pelo governo da Província de São Paulo. A esse processo dava-se o nome de emigração subsidiada.
O Brasil, com a abolição da escravidão, perdia boa parte da mão de obra para as suas grandes plantações de café, algodão e cana de açúcar. O aliciamento de agricultores italianos foi a solução encontrada.
Rapidamente as companhias de navegação passaram a aliciar camponeses por toda a Itália através de uma grande rede de agentes que, com mentiras faziam a cabeça dos mais pobres para emigrarem. Era o início de um novo modelo de tráfego humano.
Durante muitos anos o governo não se importou com a emigração, mesmo quando estavam partindo milhares de agricultores. Pelo contrário, via com bons olhos e até incentivava a colossal partida naquele momento de depressão econômica pois, seriam evitados distúrbios internos que aquela massa de desempregados descontentes certamente provocaria, mantendo-se assim o equilíbrio social.
Também viam com satisfação que os emigrantes, com as suas regulares remessas de valores, engordavam a economia italiana.
Os colonos italianos ao chegarem nas fazendas encontravam péssimas condições de vida, locais isolados distantes dos centros urbanos, sem assistência médica, sem escola para os filhos, moradias pequenas e insalubres sem as mínimas condições de higiene.
No trabalho os imigrantes sofriam abusos, inclusive com violências e uso de chicotes, dos capatazes e também de alguns fazendeiros, acostumados até então a lidar somente com escravos e não com seres humanos livres.
Durante os trabalhos nas lavouras os capatazes vigiavam os colonos durante toda a jornada. Da mesma forma eram também vigiadas as suas atividades familiares e sociais.
Os imigrantes eram também explorados economicamente sofrendo multas por motivos fúteis, retenção do salário, confisco de seus produtos e adulteração de pesos e medidas.
Não havia para o colono qualquer proteção legal contra esses abusos praticados pelos fazendeiros.
À partir desse decreto o Brasil deixou de ser um destino atraente para os emigrantes italianos, principalmente para o estado de São Paulo, que sentiu economicamente a brusca queda na migração italiana.
Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta
Erechim RS