Espaço destinado aos temas referentes principalmente ao Vêneto e a sua grande emigração. Iniciada no final do século XIX até a metade do século XX, este movimento durou quase cem anos e envolveu milhões de homens, mulheres e crianças que, naquele período difícil para toda a Itália, precisaram abandonar suas casas, seus familiares, seus amigos e a sua terra natal em busca de uma vida melhor em lugares desconhecidos do outro lado oceano. Contato com o autor luizcpiazzetta@gmail.com
sexta-feira, 31 de julho de 2020
Os Primitivos Veneti
terça-feira, 28 de julho de 2020
Caterina Cornèr Uma Rainha em Asolo
Caterina Cornaro, ou Caterina Cornèr na língua vêneta, nasceu em Veneza no ano de 1454, em uma família antiga e nobre, a Cornèr, uma das doze famílias mais importantes. Era filha de Marco Di Giorgio Cornèr e de Fiorenza di Nicolò Crispo, duquesa de Nasso, esta neta pelo lado materno do Imperador Giovanni IV de Trebisonda. Caterina foi educada em Pádua e era muito famosa por sua beleza.
Em Veneza, entre os séculos XV e XVI, duas são as figuras femininas mais proeminentes do patriciado: Bianca Cappello, Grã-duquesa da Toscana e Caterina Cornaro. Entre os dois, a escolhida para se casar com Jacques II de Lusignano, é Caterina, nascida de uma antiga família que haviam grandes interesses econômicos na ilha de Chipre, além disso, ostentava pelo lado materno um parentesco com a dinastia imperial Bizantino dos Comnenos.
Foi claramente um casamento de conveniência tanto para a família Cornèr, a quem uma filha rainha conferia uma posição de alto privilégio social, quanto para o rei, nascido ilegítimo sempre temendo com as intrigas do pretendente legítimo.
Também entre os interesses dos Cornèr na ilha de Chipre, constavam importantes plantações de cana-de-açúcar, algodão, linho, cânhamo e trigo. Outros membros da família Cornèr, chamados Psicopio, também habitavam a ilha desde o início do século XIV e possuíam vastas terras, incluindo o grande feudo de Episkopi.
Em 1468, o tio paterno de Caterina, Andrea Cornèr, amigo íntimo do rei de Chipre, Giacomo II de Lusignano, um jovem de 30 anos de idade, combinou o casamento de Caterina com ele, prometendo-lhe também a proteção de Veneza. Isso foi muito importante porque mesmo filho de Jean II, este pertencente a uma dinastia de cruzados originários de Poitou e possuidor também do título de rei de Jerusalém, embora naquela época já sob completo domínio dos muçulmanos, fôra contra outros herdeiros e estes ainda contestavam seu direito ao trono. Giacomo II vivia bastante inseguro com o futuro do seu reinado e a alegada proteção de Veneza seria de grande valia.
O noivado ocorreu em Veneza em julho de 1468, durante uma cerimônia suntuosa, na presença do representante do noivo, embaixador Filippo Mistahel. Caterina, foi declarada "filha adotiva da República" pelo Senado veneziano - uma honra nunca dada a nenhuma mulher antes dela - e recebeu um dote de 100.000 ducados de ouro; além disso, a família Cornèr adquiriu direitos e privilégios sobre as cidades de Famagusta e Cerines. Mas foi somente em 1472 que Catarina foi trazida para Chipre.
Imediatamente após a morte do rei, seu marido, em Famagusta, houve um tumulto, promovido pelos inúmeros pretendentes para substituir Caterina, tal como a cunhada Carlotta, casada com Ludovico di Savoia, que se considerava a herdeira "legítima" do trono.
Foi à partir desse momento que Veneza passou a intervir orientando a política de Caterina, que governava Chipre, auxiliada por um Conselho de Regência, formado pelo seu tio Andrea Cornèr e mais dois primos. Após a tomada do poder da ilha por Veneza, a nobreza cipriota passou a ser regida pelo Conselho Maior da Ilha, com 145 membros, no qual os patrícios venezianos que se estabeleceram em Chipre estavam em maioria.
Em 14 de novembro do mesmo ano de 1473, um grupo de nobres catalães, tendo o arcebispo de Nicósia à frente, invadiu o Palácio Real e, no quarto da rainha, assassinou o seu tio Andrea, seu primo Marco Bembo, o médico real e um servo. Caterina foi tomada como refém e vigiada, após ser forçada a entregar o dinheiro, as jóias e o selo oficial do estado. Os rebeldes pretendiam casar a pequena Carlotta, filha natural do rei Jacques II com Alfonso de Aragão, filho de Fernando, Rei de Nápoles, forçando Catarina e o filho recém-nascido Jacques III a cederem seus direitos como rei.
Veneza, como combinado, reagiu rapidamente e em 23 de novembro, dez galeras sob as ordens de Vettore Soranzo aportam em Famagusta com o exército veneziano, sob o comando do capitão-general Pietro Mocenigo, pronta para combate. As tropas venezianas desembarcaram rapidamente e ocuparam a cidade, fazendo os conspiradores fugirem. A Serenissima tinha ordenado que à partir de agora a rainha seria auxiliada por um Provedor e dois conselheiros, patrícios venezianos. As tropas ficariam sob as ordens do Provedor e as guarnições venezianas passavam a controlar Famagusta e Kyrenia. No entanto, nenhuma decisão poderia ser tomada sem o consentimento da rainha e apenas seus estandartes seriam hasteados nas fortalezas. Apesar de tudo, a rainha estava cada vez mais isolada, situação que piorou quando da morte de seu pai Marco Cornèr, ocorrido em Veneza, ocasião em que a sua mãe Fiorenza Crispo também deixou a ilha.
Em 21 de fevereiro de 1487, o Senado veneziano decidiu que o Reino de Chipre seria anexado aos domínios da República da Sereníssima. O Conselho dos Dez foi encarregado do planejamento e execução da missão, tendo em vista que as ameaças de Alfonso de Aragão, eram cada vez mais inquietantes e causava muita preocupação para Veneza.
Em 28 de outubro de 1488, o Conselho dos Dez da Sereníssima reiteraram a ordem ao capitão-general Francesco Priuli de trazer Caterina de volta para Veneza, inicialmente tentando persuadi-la, mas também depois a ameaçando, se fosse necessário. Em caso de recusa em retornar deveriam avisá-la de que ela poderia ser tratada como rebelde e que as suas mordomias seriam retiradas. Ao mesmo tempo, ordenam que Giorgio Cornèr, irmão de Caterina, se juntasse ao capitão-geral em Chipre e que exerça toda a sua influência para convencer sua irmã a abdicar em favor de Veneza. Giorgio percebeu que sua irmã não estava disposta a obedecer e assim passou para as ameaças, lembrando que o exército veneziano tinha chegado, e ela perderia neste caso todas as vantagens que teria para sua família caso não aceitasse em abdicar. Enfim, ele conseguiu convencê-la.
Em 26 de fevereiro de 1489 em Famagusta, após um solene "te Deum", a bandeira de Lusignano é abaixada e a bandeira de San Marco é erguida nos mastros. A cerimônia foi repetida na presença da rainha em todas as cidades cipriotas, incluindo Nicósia. E em 18 de março, vestida de preto, a rainha deixa a ilha de Chipre para sempre.
Veneza foi muito generosa com sua "filha", dando-lhe uma memorável boas-vindas em 6 de junho de 1489. Foi conduzida pelo Bucintoro, a embarcação oficial da Sereníssima, onde Catherine foi acolhida pelo Doge Agostino Barbarigo. Depois de uma forte tempestade, mas de curta duração, a comitiva dirigiu-se em procissão, acompanhada pelo repicar de sinos, até a Basílica de São Marcos, onde foi celebrado um ato solene no qual Catarina renovou a abdicação da coroa de Chipre em favor da Sereníssima, entregando-a para o mandatário supremo da República de Veneza.
Desde então, todos os anos, no dia 5 de setembro, em Veneza, é celebrada a data com a Regata Histórica em memória a aquela cerimônias de boas vindas reservadas à rainha de Chipre.
Em seguida, seguiram-se suntuosas honrarias também para o seu irmão Giorgio, pelo fato de ter conseguido a desistência de Caterina do reino de Chipre, os banquetes duraram três dias. O Senado Veneziano também presenteou Caterina com a posse de Asolo e a permissão para manter o título de "Rainha de Jerusalém Chipre e Armênia". Asolo então era uma pequena cidade na área da Marca Trevisana, onde ainda se incluíam trinta e três aldeias.
Em 10 de outubro de 1489, em sua viagem de Veneza à Asolo, a ex-rainha conheceu, perto da cidade de Treviso, a dois embaixadores asolanos, que lhe deram a primeira saudação em nome da comunidade. Na noite de 11 de outubro foi recebida na praça de Asolo pelas autoridades locais, pelos cidadãos mais ilustres e uma grande multidão que acorreu para vê-la, seguindo para a catedral onde foi oficiado um ato religioso e cantado o Te Deum. As festividade de acolhimento se estenderam por vários dias.
Caterina chegou a Asolo acompanhada por um pequeno séquito: um capelão cipriota, seus dois secretários, um médico, dois chanceleres e um mordomo e até de alguns nobres como Nicolò Priuli, prefeito em Asolo, de 1489 a 1497 e Filippo Cornaro, um meio-irmão de Caterina, que se tornará chanceler real em Asolo.
Uma vez instalada em Asolo, Caterina logo estabeleceu laços de amizade com os expoentes das famílias asolanas e acolheu em torno da corte escritores famosos como Pietro Bembo, futuro cardeal.
Catarina reinou por 20 anos com seu séquito no Palazzo Pretorio, hoje um belíssimo castelo em estilo medieval, que ainda preserva a torre do relógio, a torre cortada e a sala de audiências da rainha. Ela também adorava uma suntuosa vila construída em Altivole, localidade vizinha de Asolo, que Bembo havia chamado de "il Barco", um local de prazer e caça.
Cornaro passava seu tempo entre obras piedosas e beneficentes, além de doações para parentes, amigos e a igreja de Asolo. Criou uma casa de penhores e não negligenciou das atividades mundanas, como o casamento da fiel dama de honra Alvisa, com Floriano de Floriani, no castelo de Asolo em 1494.
Caterina costumava ir a Veneza, não muito longe de Asolo. Lá ela também frequentava a magnífica vila de seu irmão Giorgio, em Murano, considerada uma elegante propriedade de férias ao longo do século XVI. Neste local, no ano de 1493, Caterina recebeu Isabella d'Este Gonzaga, marquesa de Mantua e mais tarde Beatrice Sforza, duquesa de Milão. Nesta vila, o humanista Andrea Navagero plantou um jardim botânico raro, o primeiro da Europa.
Da mesma forma, em Veneza, recebia esplendidamente seus convidados no belo Palazzo situado no Grande Canal, que Giorgio a havia disponibilizado, após a morte de sua mãe.
Uma outra propriedade ficava em San Cassiano, onde a rainha de Chipre abriu os salões de seu palácio para celebrar casamentos de netos com damas e senhores de linhagem nobre, como o casamento de seu sobrinho Filippo Cappello com Andriana Marcello.
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Túmulo de Caterina Cornaro |
Com o tempo, a saúde de Caterina se tornou bastante precária e em 18 de maio de 1508, ela foi atingida por uma "dor tipo cólica muito séria". Cada dia mais doente e enfraquecida morreu em em Veneza em 10 de Julho de 1510. A Sereníssima reservou-lhe grandiosas pompas fúnebres, tendo sido sepultada na Basílica dos Santos Apóstolos em Veneza, no túmulo da família.
A ilha de Chipre permaneceu em mãos venezianas até a derrota para os turcos em 1571 com a queda de Famagusta.
Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta
Erechim RS
segunda-feira, 27 de julho de 2020
Treviso e a sua História
O nome de Treviso, ou Tarvisium, tem duas possíveis interpretações. A primeira derivando da palavra céltica Tarvos, ou touro, seguida da desinência latina isium. A outra interpretação nos fala que poderia ser derivado de uma tribo proto veneta de origem ilírica, que teria por primeiro habitado a região.
O primeiro assentamento provavelmente se deu ao entorno da Igreja de Santo Andrea, ainda antes dos romanos. Com a chegada desses Tarvisium passou a ser um importante centro comercial e a população adquirindo a cidadania romana.
Treviso teve uma história complexa mas com contínua evolução sócio econômica. Foi poupada das destruições causadas pela invasão dos hunos, comandados por Átila. Teve um grande progresso por ocasião da invasão dos Godos e dos Longobardos, que promoveram a cidade em um ducado. A seguir com o domínio Carolíngio, continuou progredindo após a construção de uma casa da moeda, sinal de grande prestígio, chegando no século IX como uma florente cidade.
No ano de 911, infelizmente, foi devastada pelo húngaros e à partir de então na sua reconstrução como município teve o reconhecimento do Imperador Federico Barbarossa no ano de 1164.
Apesar de parecer favorável ao império, também aderiu a Liga Veronesa e também a Liga Lombarda. Combateu em Legnano e fez a Paz de Constanza, demonstrando definitivamente a sua posição bem definida no cenário político da região.
À partir de então teve início um período de progresso para Treviso tanto econômico como cultural, se transformando em meta para poetas e trovadores, que a narraram em suas obras exaltando as suas características e a beleza da cidade. Nesse periodo surgiu a denominação de "Marca gioiosa et amorosa".
No ano de de 1237 Romano d'Ezzelino e Alberico se apossaram da cidade e puseram fim a este período de paz e tranquilidade em que Treviso vivia. Em seguida a morte, e desaparecimento, deles a cidade voltou a ser livre, mas logo começaram novas guerras entre os guelfos e gibelinos. Guelfi e Ghibellini eram duas facções que se opunham entre si na política italiana na época da baixa idade média, particularmente entre o século XII até o nascimento das Signorie no século XIV. Nesta luta os Ghibellini apoiavam o império (de Federico I) e os Guelfi aqueles que estavam do lado do papado. O chefe dos guelfi era Gherardo da Camino, que se transformou em senhor de Treviso no ano de 1283 administrando com astúcia a cidade.
Treviso seguindo a sua saga, passou para o domínio de Gorizia e de outros vigários imperiais. Em 1328 passou para as mãos da senhoria dos Scaligeri ate 1339, quando então passou para as mãos da Sereníssima Republica de Veneza, para alegria dos trevisanos.
Em 1381 a cidade foi governada por Leopoldo da Áustria que por sua vez a vendeu para a senhoria dos Carraresi de Pádua.
Por motivos estratégicos a Senhoria dos Visconti se empossaram da cidade exercendo rígido controle até 1389 quando a população de Treviso, já exausta dessa contínua alternância de senhores, passou espontaneamente para os domínios de Veneza e com ela seguiu o seu destino em uma longa e duradoura paz.
Assim a cidade dividiu a sua sorte com aquela de Veneza até o ano de 1797, quando esta foi derrotada e invadida pelo exército de Napoleão. Treviso passou pela dominação da Áustria e depois em 1805 ao Reino da Itália, retornando em 1813 para Áustria. Em 1848 acompanhou Veneza na revolta contra os austríacos mas em 14 de Junho desse ano teve que se render. Em 15 de Julho de 1866 retornou ao Reino da Itália.
Já na I Grande Guerra a cidade sofreu bastante devido a bombardeios aéreos que destruíram parte da cidade. Anos depois, com o advento da II Guerra Mundial, os trevisanos também voltaram a sofrer com bombardeios americanos que causaram milhares de vítimas e causando a destruição de prédios públicos e monumentos de grande valor histórico para a cidade.
Desde os tempos antigos Treviso era dotada de um grande muro, muito danificado e em fase de restauração, que servia de proteção ao centro histórico da cidade.
Um outro elemento basilar na evolução de Treviso é observada na sua religião. Segundo historiadores ao cristianismo se fez presente no Vêneto já no final do I século, trazidas por algum soldado das legiões romanas que combateram na Ásia e na cidade iniciou pouco a pouco a reunir adeptos, afirmando-se no século IV em seguida a conversão de Constantino, que o decretou religião oficial do Império. São também do século IV as ações dos primeiros santos cultuados pela cidade como: São Liberal, patrono da cidade de Treviso e os santos Teonisto, Tabra e Tabrato, martirizados no final do século IV.
sábado, 25 de julho de 2020
Asolo e a sua História
Em época romana se chamava Acelum, ocasião em que assistiu um período de grande crescimento especialmente entre os séculos I a.C. e I d.C., quando então foi promovida à categoria de municipium romano.
Descobrimentos arqueológicos atestam a presença de termas, de um aqueduto, um Foro e um teatro, mostrando a sua importância nessa época.
Um relato dos fatos ocorridos na cidade até o século XIX ficou marcado no antigo relógio de pendulo escondido atrás do balcão de uma enoteca na rua Browning, próximo ao teatro dos Rinnovati, onde estão anotadas as datas da importantes da história da cidade à partir do início do século XIX.
sexta-feira, 24 de julho de 2020
Belluno e a sua História
quinta-feira, 23 de julho de 2020
Castelo de Zumelle a Mel
quarta-feira, 22 de julho de 2020
Alimentos e Bebidas no Início da Era Moderna
terça-feira, 21 de julho de 2020
Os Nobres na Sociedade Italiana do Século XIX
Entre os privilégios da nobreza, estava o de governar um território, mas, depois da revolução francesa a aristocracia perdeu esse poder, que passou então ao Estado, com suas leis e burocracia.
Como os nobres reagiram nas várias regiões que formavam a Itália no século XIX?
No norte e na Toscana, parte da nobreza rapidamente se modernizou, incorporando as novas ideias, tentando investir a sua riqueza nos novos setores da economia que surgiam.
No Estado da Igreja e no Reino das Duas Sicílias, no entanto, isso raramente aconteceu: a grande maioria dos nobres se fechou para qualquer forma de modernização, mantendo geralmente o prestígio e a riqueza.
Seja como for, os nobres ainda formavam uma classe social separada das demais do século XIX.
segunda-feira, 20 de julho de 2020
O Clero na Itália do Século XIX
Nos anos 1800, além de padres, bispos e cardeais comuns, no clero ainda existiam eremitas e capelães, ou seja, sacerdotes que viviam em um oratório ou ermita, abades e padres sem paróquia.
Eles eram reconhecidos por sua barba desgrenhada, roupas velhas e mal cuidadas, cajado de peregrino e caixa de esmolas, Eles foram desaparecendo aos poucos, ao longo do século, devido novas diretrizes da Igreja, como a reforma do clero mudando bastante a vida deles. A necessidade de formação teológica, com estudos sendo realizados cada vez mais em seminários, capazes de dar a preparação necessária para aqueles que queriam ser sacerdotes.
No século 19 um homem se tornava sacerdote por muitas razões além daquelas que aconteciam nos séculos anteriores. De fato, se até os anos do século XVIII o sacerdócio era escolhido através de estratégias familiares ou pelo rapaz ter privilégios sociais e econômicos, nos anos do século XIX a carreira eclesiástica era escolhida principalmente porque o candidato queria se comprometer em trabalhar e a fazer o bem para sociedade.
Essa mudança na escolha para o sacerdócio significa que o número de padres sofreu uma diminuição, especialmente após o ano de 1848, também porque o padrão de vida dos padres de uma paróquia era agora bastante modesto, semelhante ao dos professores do ensino fundamental.
Uma figura típica do "padre comprometido" foi Dom Giovanni Bosco, que fundou em 1846, nos arredores de Turim, o primeiro oratório, de San Francesco di Sales, ou oratório salesiano.
Esses locais de formação religiosa e ensino se espalharam rapidamente por várias regiões e eram voltados principalmente para jovens das classes menos favorecidas, aos quais era oferecido um local controlado de socialização, para contrastar a perda dos valores tradicionais que agora ocorria com a expansão da industrialização.
Quase na mesma época, Giuseppe Cottolengo, em 1862, fundou a pequena casa da providência divina que acolhia os pobres e doentes rejeitados pelos hospitais e mais tarde aqueles incapazes.
Deve-se dizer, no entanto, que no século XIX a igreja foi liberal apenas por um curto período, isso por volta de 1848, e que sua abertura à sociedade com as escolas de Dom Bosco e o hospital de Cottolengo, contrastava com o novo estado italiano, que se considerava a única entidade que lidava com os vários problemas da sociedade.
De fato, as relações entre o papa e o estado secular eram bastantes difíceis, principalmente quando Roma foi conquistada e se tornou a capital do Reino da Itália, ocasião em que ao papa restou apenas o Vaticano.
Entretanto a Roma eclesiástica em 1870 ainda era muito poderosa, tendo 206 conventos entre homens e mulheres, 350 igrejas, 250 oratórios, cerca de sessenta paróquias e aproximadamente 8000 religiosos.