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sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Nova Milano em 1875 A História dos Pioneiros da Imigração Italiana no RS



Nova Milano em 1875 A História dos Pioneiros da Imigração Italiana no RS

“Em maio de 1875, as famílias pioneiras abriram um capítulo decisivo da história da imigração italiana na Serra Gaúcha.”

A chegada dos primeiros grupos de imigrantes italianos à região de Nova Milano, em maio de 1875, marcou uma etapa fundamental da colonização da Serra Gaúcha. A trajetória das famílias pioneiras ajuda a compreender como se formaram algumas das comunidades que deram origem à identidade ítalo-brasileira do Rio Grande do Sul.

O contexto histórico da imigração italiana no Rio Grande do Sul

A história da imigração italiana no Rio Grande do Sul está profundamente ligada à política de colonização agrícola desenvolvida pelo Império brasileiro durante o século XIX. Naquele período, o governo procurava estabelecer núcleos de pequenos proprietários rurais, ampliar a ocupação de determinadas áreas e estimular a produção agrícola por meio da instalação de famílias imigrantes.

Na Itália, por sua vez, diferentes regiões enfrentavam condições econômicas e sociais que incentivavam a emigração. A dificuldade de acesso à terra, a insuficiência dos rendimentos agrícolas e as limitadas perspectivas de melhoria de vida levaram numerosas famílias a considerar a possibilidade de atravessar o Atlântico.

A decisão de partir não era simples. Significava abandonar a comunidade de origem, separar-se de parentes e amigos e enfrentar uma viagem longa, dispendiosa e repleta de incertezas. Ainda assim, para muitas famílias, a perspectiva de conquistar uma propriedade e proporcionar melhores condições de vida aos filhos justificava o risco.

Foi nesse contexto que se estabeleceu o núcleo colonial associado a Nova Milano, localidade situada no atual município de Farroupilha. A chegada de imigrantes italianos à região, em 1875, tornou-se um dos principais marcos da história da colonização italiana no estado.

A data de 20 de maio de 1875 é tradicionalmente reconhecida como referência da chegada das famílias pioneiras vinculadas a Crippa, Sperafico e Radaelli. O episódio está na origem da identificação histórica de Nova Milano como o Berço da Imigração Italiana no Rio Grande do Sul.

Para compreender a dimensão desse acontecimento, é necessário considerar que a colonização não se resumiu à chegada de um grupo de viajantes. Ela envolveu a abertura de caminhos, a implantação de propriedades agrícolas, a formação de redes de ajuda mútua e a construção gradual de uma nova sociedade.

Leia também: A Emigração Vêneta para o Brasil e a História da Imigração Italiana.

A viagem dos imigrantes e o caminho até Nova Milano

A viagem dos pioneiros começou na Itália e incluiu a travessia marítima até o Brasil. O porto de Gênova era um dos principais pontos de embarque de emigrantes italianos, embora a experiência de cada família dependesse da rota, da embarcação e das condições de transporte disponíveis.

De acordo com a cronologia tradicionalmente associada aos primeiros moradores de Nova Milano, o grupo chegou ao Rio de Janeiro em 9 de março de 1875. Depois, seguiu em direção ao Rio Grande do Sul, passando por Porto Alegre e utilizando o transporte fluvial até São Sebastião do Caí.

A partir dali, o deslocamento em direção à Serra Gaúcha exigia percorrer caminhos terrestres difíceis. A infraestrutura era limitada, e a circulação dependia das condições das trilhas, da vegetação e dos meios de transporte disponíveis.

O destino final não oferecia as estruturas que hoje associamos a uma comunidade estabelecida. As famílias precisavam encontrar abrigo, preparar o terreno, organizar o abastecimento e iniciar o cultivo da terra. A chegada representava, portanto, o começo de uma nova etapa de trabalho e adaptação.

Para os imigrantes, a mudança também implicava aprender a conviver com um ambiente natural diferente daquele que haviam conhecido na Europa. O clima, a vegetação, os recursos disponíveis e as distâncias entre as propriedades influenciavam diretamente a organização da vida cotidiana.

A colonização agrícola dependia da capacidade de transformar o terreno em uma unidade produtiva. A construção de moradias, a preparação das lavouras e a criação de animais exigiam tempo, ferramentas e esforço coletivo.

É importante compreender que o processo não foi instantâneo nem livre de dificuldades. O estabelecimento de uma família em uma nova terra não significava que a segurança econômica estivesse garantida. A sobrevivência dependia das colheitas, das condições de saúde, do acesso aos mercados e da possibilidade de estabelecer relações com outros moradores.

As famílias Crippa, Sperafico e Radaelli

A memória dos primeiros tempos da colonização está ligada a três sobrenomes que atravessaram gerações e passaram a integrar a história de Nova Milano: Crippa, Sperafico e Radaelli.

Essas famílias representam uma dimensão essencial da história migratória. Por trás dos registros de chegada estavam pessoas que precisavam reorganizar sua existência, criar os filhos, estabelecer atividades produtivas e construir relações sociais em uma região ainda em processo de colonização.

Tommaso Radaelli e a tradição vitivinícola

Tommaso Radaelli é lembrado entre os pioneiros que contribuíram para a implantação das primeiras atividades agrícolas na região. Chegou acompanhado da esposa, Maria Pasqualina Pirovano, e do filho, Angelo Fermo.

A tradição histórica local associa seu nome ao desenvolvimento inicial da viticultura na Serra Gaúcha. Segundo os relatos sobre a colonização, em 1877 ele recebeu mudas de videira da família Ruschel, estabelecida em Picada Feliz.

Esse episódio permite compreender como os conhecimentos agrícolas e os materiais necessários ao cultivo circulavam entre os primeiros núcleos de imigrantes. A expansão da viticultura dependia da adaptação das plantas às condições locais, da experiência dos agricultores e da transmissão de técnicas entre famílias.

A importância posterior da produção de uvas e vinhos na economia regional não deve ocultar o caráter gradual desse processo. A viticultura desenvolveu-se ao longo do tempo, em meio a experiências, dificuldades e aperfeiçoamentos sucessivos.

A trajetória atribuída a Radaelli integra a memória de uma transformação econômica que ajudaria a distinguir a Serra Gaúcha de outras regiões agrícolas brasileiras.

Luigi Sperafico e a organização da propriedade familiar

Luigi Sperafico e Angela Rivolti chegaram ao Brasil acompanhados dos filhos. A presença de uma família numerosa era importante para a organização do trabalho rural, especialmente em uma época em que as tarefas agrícolas dependiam intensamente da mão de obra disponível no próprio núcleo doméstico.

A família é associada à localidade de Travessão São José, onde a agricultura constituiu a base da subsistência e da organização econômica.

A propriedade rural desempenhava várias funções simultâneas. Era o lugar de moradia, o espaço de produção dos alimentos e o centro das atividades familiares. Nela se transmitiam conhecimentos, costumes e práticas que ajudavam a preservar vínculos com a cultura de origem.

A pequena agricultura exigia planejamento e adaptação. Era necessário combinar a produção destinada ao consumo doméstico com a obtenção de excedentes que pudessem ser trocados ou vendidos.

O trabalho das famílias colonizadoras também contribuiu para a formação de relações de cooperação entre vizinhos. A ajuda mútua, a circulação de produtos e o compartilhamento de experiências eram importantes para superar as dificuldades dos primeiros anos.

A história dos Sperafico ajuda a compreender por que a pequena propriedade familiar se tornou uma das características marcantes de diversas áreas de colonização italiana no Rio Grande do Sul.

Stefano Crippa e a formação do núcleo comercial

Stefano Crippa, que chegou acompanhado da esposa, Natalina Galliani, e do irmão Carlo, também ocupa lugar na memória da fundação de Nova Milano.

Sua trajetória é associada à agricultura e à instalação de uma casa comercial. A presença de um estabelecimento desse tipo representava uma etapa importante no desenvolvimento da comunidade, pois permitia ampliar o acesso a mercadorias e favorecia a circulação econômica.

A tradição local também atribui a Stefano Crippa a escolha do nome Nova Milano, uma referência à cidade de Milão, na Lombardia. A denominação expressava um vínculo simbólico com a terra de origem e ajudava a conservar referências culturais em um ambiente distante da Itália.

A atribuição do nome revela uma característica recorrente em comunidades de imigrantes: a necessidade de estabelecer continuidades entre a memória do lugar deixado para trás e a realidade construída no país de destino.

O comércio, por sua vez, contribuía para reduzir o isolamento das propriedades agrícolas. À medida que a comunidade crescia, aumentava a necessidade de abastecimento e de pontos de encontro para as relações econômicas e sociais.

Os Crippa, os Sperafico e os Radaelli não esgotam a história da imigração italiana na região. Seus nomes, entretanto, tornaram-se referências importantes para a compreensão dos primeiros tempos da colonização.

Luiz Bugre e os primeiros caminhos da colonização

A história tradicional de Nova Milano também recorda a participação de Luiz Bugre, personagem associado à orientação dos primeiros imigrantes nos caminhos que conduziam à Serra Gaúcha.

Relatos locais descrevem Luiz Bugre como alguém familiarizado com a região e capaz de auxiliar os recém-chegados a encontrar o local de estabelecimento. Sua participação é especialmente relevante para compreender a importância do conhecimento territorial em uma época na qual a circulação dependia de trilhas e passagens de difícil acesso.

Algumas narrativas afirmam que ele havia vivido entre colonos alemães, experiência que teria contribuído para seu conhecimento dos caminhos da região. A tradição também relaciona seu nome à utilização de uma cabana como abrigo inicial dos pioneiros.

Esses detalhes devem ser considerados à luz das fontes históricas disponíveis, distinguindo os elementos documentados das informações transmitidas pela memória local. Essa precaução não diminui o interesse do episódio; ao contrário, permite construir uma narrativa mais rigorosa.

Abrir caminhos era uma tarefa fundamental para a sobrevivência dos núcleos coloniais. Sem vias de circulação, tornava-se difícil transportar ferramentas, alimentos, sementes e materiais para a construção das moradias.

A presença de Luiz Bugre nos relatos também lembra que a colonização ocorreu em um território que possuía uma história anterior à chegada dos imigrantes. Povos indígenas já habitavam e percorriam essas áreas, detendo conhecimentos sobre a paisagem e os recursos naturais.

Por isso, a história da ocupação da Serra Gaúcha deve reconhecer tanto a contribuição dos imigrantes quanto a existência das populações que já viviam na região. A compreensão desse contexto amplia a perspectiva histórica e evita representar a colonização como se tivesse ocorrido em um espaço vazio.

A formação da comunidade e o desenvolvimento agrícola

Os primeiros anos de Nova Milano foram marcados pela necessidade de garantir as condições materiais de sobrevivência. As famílias precisavam preparar o solo, construir moradias e organizar a produção de alimentos em um ambiente com infraestrutura limitada.

O trabalho agrícola ocupava posição central, mas a consolidação de uma comunidade dependia de outras atividades. O comércio, a criação de animais, a troca de produtos e a abertura de caminhos permitiam estabelecer relações entre as propriedades e reduzir as dificuldades decorrentes do isolamento.

A família constituía a unidade fundamental de organização econômica. As tarefas eram distribuídas conforme as necessidades da propriedade e a composição do grupo doméstico. O conhecimento adquirido em uma geração podia ser transmitido aos filhos, contribuindo para a continuidade das atividades agrícolas.

Ao mesmo tempo, os vínculos entre vizinhos favoreciam a construção de uma rede comunitária. A cooperação permitia enfrentar períodos difíceis e criar condições para o desenvolvimento de atividades que ultrapassavam a subsistência imediata.

A cultura também se transformou nesse processo. Os imigrantes trouxeram práticas religiosas, hábitos alimentares, formas de trabalho e variedades linguísticas de suas regiões de origem. Ao longo das gerações, esses elementos foram adaptados à realidade brasileira.

A identidade cultural que se consolidou na Serra Gaúcha não corresponde a uma simples reprodução da vida italiana. Ela resultou do encontro entre tradições regionais europeias e as condições históricas, sociais e econômicas do Brasil.

A língua é um exemplo dessa continuidade transformada. Em diferentes comunidades de descendentes, variedades linguísticas de origem vêneta passaram a conviver com o português e adquiriram características próprias.

Leia também: Talian, o Vêneto Brasileiro e suas Regras de Acentuação.

A importância histórica de Nova Milano

O desenvolvimento da colonização italiana no Rio Grande do Sul ocorreu em etapas, com a chegada de novos grupos e a formação de diferentes núcleos habitacionais. Nova Milano integra a memória desse processo como uma das principais referências da fase inicial da imigração italiana organizada na Serra Gaúcha.

Sua importância está relacionada tanto à cronologia quanto ao significado que a localidade adquiriu para as gerações seguintes. O lugar passou a representar o início de uma experiência coletiva que se ampliou para outras áreas e contribuiu para a formação de comunidades rurais e urbanas.

Ao longo do tempo, a região desenvolveu atividades agrícolas e comerciais que ajudaram a sustentar seu crescimento. A viticultura tornou-se particularmente importante na Serra Gaúcha, embora seu desenvolvimento tenha resultado do trabalho de numerosas famílias e de processos que se estenderam por décadas.

A contribuição dos imigrantes também se manifesta na vida comunitária, nas instituições religiosas e educacionais, nas festas e nas formas de sociabilidade que se desenvolveram nas áreas de colonização.

Farroupilha passou a ser reconhecida pela relação histórica com Nova Milano, e a localidade tornou-se um ponto de referência para a preservação da memória da imigração italiana.

A expressão “Berço da Imigração Italiana” deve ser compreendida nesse contexto histórico: ela identifica um marco da colonização italiana organizada no Rio Grande do Sul, sem significar que a presença de italianos em todas as partes do território brasileiro tenha começado naquele lugar ou naquela data.

A distinção é importante para situar Nova Milano dentro da história mais ampla das migrações italianas, que envolveram diferentes regiões de origem, rotas de viagem e destinos no Brasil.

A memória dos pioneiros e a pesquisa genealógica

Para os descendentes de italianos, Nova Milano possui um significado que ultrapassa os limites da história regional. O estudo das famílias pioneiras pode despertar o interesse pela reconstrução das trajetórias de antepassados que chegaram ao Brasil durante o século XIX ou nas décadas posteriores.

A pesquisa genealógica, entretanto, exige método e atenção aos documentos. Um sobrenome, isoladamente, não é suficiente para comprovar parentesco ou determinar a origem de uma família.

Certidões de nascimento, casamento e óbito, registros paroquiais, listas de passageiros e documentos de propriedade podem oferecer pistas importantes. A comparação entre esses registros permite confirmar datas, identificar localidades e distinguir pessoas que possuíam nomes semelhantes.

Também é necessário considerar as variações de grafia que surgiam durante os registros, as mudanças administrativas e as diferenças entre os sistemas documentais italianos e brasileiros.

Para iniciar essa investigação, consulte o artigo Como Encontrar Registros de Italianos que Imigraram para o Brasil.

Quando o pesquisador consegue identificar o município de origem de um antepassado, a busca pode avançar para os registros civis e religiosos correspondentes ao período. Essa etapa permite relacionar a história da família à realidade social da comunidade italiana de onde ela partiu.

A genealogia torna-se mais significativa quando os documentos são interpretados em seu contexto. Conhecer a data de nascimento de um antepassado é importante, mas compreender as condições em que viveu, as razões que podem ter motivado sua emigração e o ambiente encontrado no Brasil ajuda a reconstruir uma história familiar mais completa.

Nova Milano e a continuidade da história da imigração italiana

Em maio de 1875, as famílias associadas ao núcleo pioneiro de Nova Milano encontraram uma realidade muito diferente daquela que haviam deixado na Itália. A região exigia trabalho, adaptação e a construção gradual das condições necessárias para uma vida estável.

Não era possível prever, naquele momento, a dimensão que a colonização italiana alcançaria na Serra Gaúcha. O que existia era um conjunto de famílias dispostas a estabelecer suas propriedades e a construir novas perspectivas para as gerações seguintes.

A história posterior da região demonstra que a formação de uma comunidade depende de muitos fatores: trabalho agrícola, relações de vizinhança, circulação de mercadorias, transmissão cultural e organização social.

Nova Milano permaneceu na memória coletiva porque representa uma referência concreta desse processo. Sua trajetória conecta a experiência da emigração europeia à formação de uma sociedade regional brasileira marcada pela contribuição de sucessivas gerações de descendentes.

Estudar os pioneiros significa reconhecer a importância de suas experiências sem ignorar as dificuldades da colonização e a história anterior do território. Significa também compreender que a identidade cultural se forma ao longo do tempo, por meio da convivência entre memória, trabalho e transformação social.

Para quem procura conhecer as próprias raízes, Nova Milano oferece uma oportunidade de relacionar a história coletiva às experiências particulares de cada família.

A memória das famílias pioneiras de 1875 continua a fazer parte da história do Rio Grande do Sul. Preservá-la é reconhecer o papel da imigração italiana na formação da Serra Gaúcha e manter abertas as possibilidades de pesquisa para as novas gerações.

Visite também o Portal A Emigração Vêneta, em https://emigrazioneveneta.blogspot.com/, e conheça outros estudos sobre a imigração italiana, a história das comunidades coloniais, a cultura dos descendentes e a pesquisa das origens familiares.

Nota do autor

A história da imigração italiana é formada por acontecimentos coletivos e por milhares de trajetórias familiares. Cada documento encontrado, cada localidade identificada e cada sobrenome corretamente contextualizado ajuda a recuperar uma parte dessa memória. Conhecer as origens não significa apenas olhar para o passado: significa compreender melhor a formação das comunidades e preservar a história que será transmitida às próximas gerações.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta
Autor e pesquisador da Imigração Italiana e histórias familiares



domingo, 25 de outubro de 2026

Italianos em Erechim em 1925 A História da Colonização


Italianos em Erechim em 1925 A História da Colonização no Cinquentenário da Imigração Italiana

"Em 1925, os nomes dos comerciantes, industriais e profissionais italianos de Boa Vista revelavam a força de uma comunidade que ajudava a construir a história de Erechim."

A história da imigração italiana no Rio Grande do Sul não se limita às primeiras colônias estabelecidas na Serra Gaúcha a partir de 1875. Nas décadas seguintes, famílias de imigrantes e seus descendentes avançaram para novas áreas do estado, contribuindo para a formação de comunidades agrícolas, cidades, estabelecimentos comerciais e atividades industriais. Entre esses núcleos de povoamento, Erechim e sua região ocupam um lugar importante.
Em 1925, quando se comemorava o cinquentenário da imigração italiana no Rio Grande do Sul, a região de Boa Vista, atual Erechim, já apresentava intensa atividade econômica e social. Comerciantes, industriais, marceneiros, serralheiros, fotógrafos, sapateiros, alfaiates e carpinteiros de origem italiana participavam da construção de uma sociedade em expansão.
Um documento publicado naquele ano permite recuperar parte dessa história e conhecer os nomes de numerosos italianos e descendentes que trabalhavam nos diferentes distritos do município. Para quem pesquisa a imigração italiana, a genealogia familiar ou a origem de sobrenomes presentes no Alto Uruguai gaúcho, essa relação constitui uma fonte histórica de especial interesse.


Antiga sede da Società Unione e Fratellanza de Erechim, ligada à história da comunidade italiana.
Legenda: A sede da Società Unione e Fratellanza de Erechim recorda a importância da organização comunitária dos imigrantes italianos e de seus descendentes.

A formação de Erechim e a chegada dos imigrantes italianos

A colonização organizada da região ganhou impulso em 1908, quando o governo do Rio Grande do Sul promoveu a criação da Colônia Erechim. A iniciativa fazia parte da política estadual de colonização e distribuição de lotes, destinada a estabelecer famílias em uma região que passaria por profundas transformações econômicas e demográficas.
A ferrovia que ligava o Rio Grande do Sul a São Paulo teve papel fundamental nesse processo. A circulação de pessoas e mercadorias favoreceu o crescimento dos povoados, a chegada de novos moradores e o desenvolvimento das atividades agrícolas e comerciais.
A região era anteriormente vinculada ao município de Passo Fundo. Os trabalhos de colonização envolveram a demarcação de lotes, a organização dos núcleos de povoamento e a atuação da Comissão de Terras e Colonização.
É importante lembrar que a região não era literalmente desabitada. Antes da expansão colonial promovida pelo Estado, o território já era ocupado por populações indígenas e por outros grupos que viviam na região. A colonização modificou profundamente as formas de ocupação da terra e as relações sociais locais.
A partir da implantação dos núcleos coloniais, chegaram imigrantes de diferentes origens europeias, entre eles italianos, poloneses e alemães, além de famílias provenientes de antigas colônias do próprio Rio Grande do Sul.
Para ampliar a pesquisa sobre a presença italiana no estado, consulte também o artigo Relação de Sobrenomes Italianos no Rio Grande do Sul. A relação pode servir como ponto de partida para novas investigações sobre famílias e comunidades de origem italiana.


Grupo de imigrantes em fotografia histórica relacionada à colonização italiana no Rio Grande do Sul.
Legenda: Os imigrantes participaram da formação dos núcleos coloniais, do desenvolvimento agrícola e da construção das primeiras comunidades da região.

Boa Vista em 1925 e os distritos do município

O município foi criado em 30 de abril de 1918, desmembrado de Passo Fundo, tendo sua sede na antiga povoação de Paiol Grande, então denominada Boa Vista. Em 1922, passou a chamar-se Boa Vista do Erechim. A denominação atual, Erechim, foi adotada em 1944.
Assim, em 1925, o município ainda se chamava Boa Vista. Embora tivesse apenas sete anos de existência administrativa, já apresentava uma estrutura econômica diversificada e uma população numerosa, distribuída pela sede e pelos diferentes distritos.
O registro histórico utilizado neste artigo menciona uma população superior a 40 mil habitantes. Esse número deve ser compreendido como uma referência ao conjunto municipal da época, que incluía áreas rurais e diversos núcleos de povoamento, e não apenas à área urbana.
A organização territorial mencionada no documento de 1925 abrangia os seguintes distritos e localidades:

  • 1º Distrito — Boa Vista, anteriormente Paiol Grande, sede do município.

  • 2º Distrito — Erechim, antiga sede da colônia.

  • 3º Distrito — Marcelino Ramos, importante localidade ferroviária.

  • 4º Distrito — Erebango, ligado aos caminhos e ramais ferroviários da região.

  • 5º Distrito — Barro, atual Gaurama.

  • 6º Distrito — 13 de Maio, atual Áurea.

  • 7º Distrito — Rio Novo, atual Aratiba.
    Além desses distritos, o documento menciona Capo-Erê, Viadutos, Floresta, Nova Itália, Três Arroios, Rio Toldo, Formiga e 7 de Setembro, localidades que integravam a geografia humana e econômica da região em diferentes estágios de desenvolvimento.
    Algumas dessas denominações mudaram ao longo do tempo, e a correspondência entre os nomes antigos e os atuais deve ser examinada com atenção em pesquisas históricas e genealógicas. Um nome de localidade encontrado em um documento de 1925 pode não corresponder ao município atual em que se encontra um registro civil.

A indústria italiana em Erechim em 1925

A presença italiana não se limitava à agricultura. Os nomes registrados no documento comemorativo demonstram a participação de imigrantes e descendentes em diferentes atividades industriais, contribuindo para o abastecimento da população e para a circulação de produtos na região.
Entre os estabelecimentos e industriais mencionados estavam:

  • Dal Molin, Sciullo & Cia. — atividade industrial.

  • Saule Pagnoncelli & F.º — refinarias de banha.

  • Giuseppe Bonaldo e Cia. — marcenaria.

  • Bottega & Cia. — comércio de madeiras.

  • Bortolo Balvedi — fábrica de bebidas.

  • Mottin — fábrica de chapéus.

  • Luigi Longo, Cesarino Galli e Irmãos Menta — ferrarias.

  • Virginio Biolo, Demetrio Molon & Cia. e Firmino Ricardi — moinhos.

  • Guerino Casambó — moagem de café.
    Esses registros revelam uma economia que já ultrapassava as necessidades imediatas das propriedades rurais. Oficinas, moinhos, fábricas e estabelecimentos de beneficiamento ajudavam a sustentar o crescimento dos povoados e criavam oportunidades para diferentes ofícios.

Os comerciantes italianos nos distritos de Boa Vista

O comércio era outro componente importante da economia municipal. A lista de 1925 registra dezenas de nomes, muitos deles associados a famílias que podem interessar aos pesquisadores de sobrenomes italianos no Alto Uruguai.

1º Distrito — Boa Vista, antiga Paiol Grande

Entre os comerciantes relacionados estavam Saulle Pagnoncelli & F.º, Achille Caleffi & Cia., Batista Grando, Emilio Grando, Luigi Fossati, F. Giovanni Massignan, Attilio Assoni, Santo Graziotin, Luigi Lise, Achille Grando, Valentino Berto, Umberto Vicari, Antonio Deboni, Antonio Tomaselli, Pietro Bonin, Irmãos Zambonato e Pietro Guerri.

2º Distrito — Erechim, antiga sede da colônia

O documento menciona Ricardo Bordignon, Giuseppe Troglio, F. A. Scussel & Cia., Giacomo Manin, Luigi Piccoli, Guido Giacomozzi e Irmãos, Domenico Donida, Antonio Ascari, Giuseppe Zanardo, Andrea Mafassoni e Gabriele Robinot.

3º Distrito — Marcelino Ramos

Entre os nomes registrados estavam Saule Pagnoncelli, com uma sucursal, Angelo Locatelli, Floriano Zordoni, Guerino Maito, Beniamino Fontana, Domenico Bonetto, Formighieri e Irmãos, Redenzio F. Zordan, Allegreti, relacionado a uma refinaria de banha e fábrica de conservas, e Giuseppe Scaramocin, ligado a uma ferraria a vapor.

5º Distrito — Barro, atual Gaurama

A relação inclui Pedro Lunardi e Irmão, Giuseppe Spon, Giovanni Sponchiado, Giovanni Bordignon, Antonio Lunardi e Irmãos De Pario.

6º Distrito — 13 de Maio, atual Áurea

O comerciante mencionado é Antonio Bos.

7º Distrito — Rio Novo, atual Aratiba

O documento registra Grazetto & Cia. e Luigi Poletto.
A lista não deve ser entendida como um cadastro completo de todos os estabelecimentos existentes. Trata-se dos nomes reunidos em uma publicação comemorativa de 1925, cuja abrangência e critérios de seleção não permitem assegurar que todos os comerciantes da época tenham sido incluídos.

As serrarias e o comércio de madeira

A exploração e o beneficiamento da madeira desempenharam papel relevante na economia da região. A abertura de áreas para agricultura, a construção de moradias e o crescimento dos núcleos urbanos criaram demanda por madeira, serrarias e atividades relacionadas.
O documento de 1925 registra os seguintes nomes.

1º Distrito — Boa Vista

Achille Caleffi & Cia., Angelo Emilio Grando e Irmãos, Achille Grando, Domenico Dal Pasquale, Angelo Cappelletto, Giovanni Rizzon, Luigi Michelon & Cia., Caleffi Scipione, Umberto Vicari, Agostino Passello, Paolo Dal Bianco, Biolo Capra & Cia., Giuseppe Mecca, Giovanni Morosini, Milioni Argenta & Filhos, Vescovi e Meneghetti, Andrea Maggione, Attilio Assani, Grando e Pedrollo, Emilio Zanin, Carlo De Moliner, Giovanni Balvedi, Enrico Barbieri, Irmãos Badalotti, Pietro Bottega e Piazza, Virginio Dell'Igna & Cia., Antonio Valin, Pietro Giaretta, Amadio Mariga & Cia., Angelo Poletto, Bevilacqua Ferrazzo, Meneguzzo e Smaniotto.

2º Distrito — Erechim

Gabriele Balbinotti, Antonio Pertile, Angelo Dall'Agnol, Antonio Pilloni & Cia., Tranquilo De Carli, Ermenegildo Vescovi, Lorenzoni e Bordignon, além de outros nomes não individualizados no registro.

3º Distrito — Marcelino Ramos

Allegretti & Cia., Antonio Brancher, Angelo Brancher e Stefano Bonet.

4º Distrito — Erebango

Emilio Noal e Giuseppe Pizzotto.

5º Distrito — Barro, atual Gaurama

Giovanni Bordignon, Antonio Serena, Pietro Lunardi & Filho, Lunardi Barbieri e Giovanni Zoter & Cia.

6º Distrito — 13 de Maio, atual Áurea

Antonio Lunardi.

7º Distrito — Rio Novo, atual Aratiba

Giovanni Bellani.
A presença desses nomes mostra a dimensão da atividade madeireira no município. Para as famílias que pesquisam a trajetória de um antepassado ligado a uma serraria ou ao comércio de madeira, essas referências podem oferecer um ponto de partida para procurar documentos comerciais, registros municipais, jornais antigos e inventários.

Os profissionais italianos e seus ofícios

A relação publicada em 1925 também registra profissionais de diferentes especialidades. Esses nomes são particularmente úteis para pesquisas familiares porque ajudam a associar uma pessoa a um ofício, uma localidade e um período histórico.

Fotógrafos

Vittorio Lazarotto, Giovanni Antonini e Edoardo Macchiavelli.

Sapateiros

Eugenio Isoton, Giuseppe Incerti e Achille Tomaselli.

Curtumes

Giulio Trombini, Aurelio Caldart, Achille Tomaselli e Antonio Tomaselli.

Alfaiates

Ismaele Pezzini, Guglielmo Pezzana e Alberto Incerti.

Carpinteiros

Alberto Parenti, Giuseppe Cervelin, Giuseppe Alberici, Giuseppe Pigozzo, Francesco Pigozzo, Silvio Viero, Francesco Provenzano, Giuseppe Bortolazzo, Domenico Della Costa e Giulio Valmorbida.
Fotógrafos, sapateiros, curtidores, alfaiates e carpinteiros atendiam às necessidades de uma população que crescia e diversificava suas atividades. A existência desses profissionais também evidencia a importância do trabalho especializado na consolidação dos núcleos urbanos.
Para os descendentes de italianos, um ofício transmitido oralmente pela família pode ser uma pista importante. Saber que um bisavô era carpinteiro, comerciante ou proprietário de uma serraria pode ajudar a distinguir homônimos e orientar a busca por documentos.

Os bancos e a organização econômica do município

A relação de 1925 menciona três instituições bancárias:

  • Banco Pelotense.

  • Banco da Província do Rio Grande do Sul.

  • Banco Nacional do Comércio.
    A presença dessas instituições é outro indicador do desenvolvimento econômico de Boa Vista e de sua integração aos circuitos comerciais do estado. Os bancos participavam de uma economia em que a produção agrícola, o comércio, as atividades industriais e o transporte ferroviário estavam cada vez mais interligados.

Sobrenomes italianos e pesquisa genealógica no Rio Grande do Sul

O documento comemorativo do cinquentenário da imigração italiana no Rio Grande do Sul pode ser útil para quem procura antepassados que viveram em Boa Vista, Erechim e localidades vizinhas no início do século XX.
Uma boa pesquisa genealógica começa pela reunião de pistas e pela comparação entre fontes. O sobrenome, isoladamente, não comprova a origem italiana de uma pessoa nem estabelece parentesco com uma família conhecida.
Para ampliar a investigação, consulte também Sobrenomes Italianos e Vênetos na Linha Palmeiro, Rio Grande do Sul. O artigo oferece outro exemplo de como listas históricas de sobrenomes e localidades podem orientar pesquisas sobre famílias e comunidades de imigração.
O pesquisador pode começar por estas etapas:

  1. Anote o nome exatamente como aparece no documento. Preserve a grafia original e registre possíveis variações para pesquisas posteriores.

  2. Identifique o distrito ou a localidade. A referência territorial pode ajudar a delimitar os registros a consultar.

  3. Procure documentos civis e religiosos. Certidões de nascimento, casamento e óbito, registros paroquiais e inventários podem esclarecer relações familiares.

  4. Pesquise jornais e documentos comerciais. Anúncios, registros de empresas, licenças e notícias locais podem confirmar a atividade profissional de um indivíduo.

  5. Compare os resultados com outras fontes. Homônimos eram comuns, e sobrenomes podem aparecer com grafias diferentes em documentos brasileiros e italianos.
    Outro conteúdo útil é Legados de Honra Os Sobrenomes que Marcaram os Imigrantes Italianos nas Colônias do Rio Grande do Sul, que reúne nomes relacionados às colônias Dona Isabel e Conde d'Eu. A comparação entre listas de diferentes regiões pode ajudar a formular novas perguntas, mas não substitui a comprovação documental de uma ligação familiar.

O valor histórico do álbum comemorativo de 1925

Este relato é um resumo do capítulo referente a Erechim, de autoria de Carlo Mantovani, publicado no álbum comemorativo do Cinquentenário da Colonização Italiana no Rio Grande do Sul, em 1925. A obra foi organizada em dois volumes e reuniu informações sobre a presença italiana em diferentes localidades do estado.
Uma publicação dessa natureza constitui uma fonte histórica importante, mas deve ser utilizada com senso crítico. A relação de nomes pode conter omissões involuntárias, diferenças de grafia ou informações que necessitam de confirmação em outras fontes. Por isso, ela é melhor compreendida como um registro de época, e não como um levantamento necessariamente completo de toda a população italiana.


Estação ferroviária de Erechim em fotografia histórica de 1939.
Legenda: A estação ferroviária, registrada em 1939, recorda a importância dos transportes para a colonização e o desenvolvimento econômico da região.

A contribuição dos imigrantes italianos para a história de Erechim

Em 1925, Boa Vista era um município jovem, mas já possuía uma economia diversificada, com comércio, indústria, serrarias, profissionais especializados e instituições bancárias. Os nomes reunidos no álbum comemorativo mostram como os italianos e seus descendentes participaram dessa transformação, ao lado de imigrantes de outras origens e de populações que já habitavam a região.
Para as famílias que vivem hoje no Alto Uruguai, cada sobrenome dessa relação pode representar uma oportunidade de investigação. Por trás de um comerciante, de um carpinteiro ou de um proprietário de serraria havia uma trajetória individual, uma família e uma rede de relações que ajudaram a construir a comunidade.
Preservar esses nomes é conservar uma parte da memória coletiva. É também oferecer às novas gerações pistas concretas para compreender de onde vieram seus antepassados e como participaram da formação da sociedade em que vivemos.
O objetivo deste registro é justamente esse: valorizar uma fonte histórica de 1925, facilitar sua consulta e manter acessível a memória dos italianos e de seus descendentes que contribuíram para o desenvolvimento de Boa Vista, da atual Erechim e de toda a região.

Nota do autor

Este artigo foi elaborado a partir do resumo do capítulo sobre Erechim, de autoria de Carlo Mantovani, publicado no álbum comemorativo do Cinquentenário da Colonização Italiana no Rio Grande do Sul, em 1925. Os nomes e as atividades profissionais foram preservados conforme a relação histórica disponível, com ajustes de redação e organização para facilitar a leitura. A publicação original deve ser consultada sempre que se pretenda confirmar grafias, dados individuais ou informações complementares.


Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta


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terça-feira, 22 de setembro de 2026

A Carta que Precedeu a Floresta - Imigração Italiana em 1883

 


A Carta que Precedeu a Floresta

Quando Giovanni Bortolon tomou uma folha de papel em São Sebastião, no dia 27 de dezembro de 1883, não imaginava que suas palavras sobreviveriam muito mais do que a própria tinta. Naquele momento, ele acreditava estar escrevendo apenas para os pais, que permaneciam na província de Vicenza. No entanto, registrava um daqueles instantes discretos em que a História muda de direção sem que seus protagonistas percebam. Ao seu lado encontrava-se Lucia Dal Molin. A jovem esposa, que semanas antes parecera frágil demais para enfrentar a travessia do oceano, agora recuperava lentamente a vitalidade. Giovanni observava seu rosto ganhar novamente cor e compreendia que a esperança também podia ser medida pelo brilho dos olhos de quem sobrevivera. Tudo começara em Gênova, na manhã de 22 de novembro de 1883. O porto era um cenário onde milhares de despedidas aconteciam ao mesmo tempo. Homens apertavam as mãos dos pais pela última vez. Mulheres escondiam as lágrimas para que os filhos embarcassem acreditando no futuro. Sacerdotes concediam bênçãos apressadas. O navio parecia carregar muito mais do que passageiros. Levava aldeias inteiras, memórias de gerações e promessas feitas diante de portas que talvez jamais voltassem a se abrir. Nos primeiros dias, Giovanni acreditou que a parte mais difícil havia ficado para trás. Então veio o Atlântico. O mar transformava todos os homens em iguais. Não importava quem possuía terras na província de Vicenza, quem trabalhava como artesão ou quem jamais conhecera a pobreza extrema. Bastavam algumas horas de tempestade para que todas as diferenças desaparecessem diante da força das ondas. Durante dois dias, Lucia Dal Molin permaneceu profundamente debilitada. Giovanni passou noites inteiras observando a esposa lutar contra a exaustão provocada pelo balanço incessante da embarcação. Quando as grandes tempestades finalmente chegaram, até os mais fortes sucumbiram. A embarcação subia e despencava sobre o oceano como uma folha carregada pelo vento. Dos 590 passageiros, apenas cerca de sessenta conseguiram permanecer sem os violentos enjoos que dominavam os conveses. O cheiro de carvão misturava-se ao sal do mar e ao sofrimento humano. Crianças choravam. Velhos rezavam em silêncio. Homens acostumados ao trabalho pesado descobriam que existiam forças impossíveis de enfrentar apenas com coragem. Entretanto, foi justamente naquele ambiente de sofrimento que Giovanni descobriu algo que levaria consigo pelo resto da vida. Quando todos enfrentam o mesmo perigo, a solidariedade deixa de ser virtude e transforma-se em necessidade. Desconhecidos dividiam água, amparavam idosos e sustentavam aqueles que já não conseguiam permanecer de pé. Ninguém perguntava de qual aldeia vinha o outro. O oceano havia criado uma única família formada por pessoas que talvez nunca mais se encontrassem. Depois de dez dias surgiu São Vicente, nas ilhas de Cabo Verde.A parada durou apenas o suficiente para abastecer o navio com carvão. Os passageiros foram convidados a trabalhar. Giovanni aceitou imediatamente. Sob um calor sufocante carregou pesados sacos de carvão durante horas. Ao final do dia recebeu seis francos. Nunca uma quantia tão pequena lhe parecera tão importante. Era o primeiro dinheiro conquistado longe da Itália, sinal de que dali em diante dependeria exclusivamente do próprio esforço. Onze dias mais tarde apareceu o contorno majestoso do Rio de Janeiro. A entrada da baía parecia confirmar todas as histórias contadas pelos agentes de imigração. Montanhas cercavam as águas tranquilas enquanto pequenas embarcações cruzavam lentamente o porto. Mas bastou atravessar os portões da Casa de Imigração da Ilha das Flores para compreender que o Novo Mundo também conhecia a fome. Durante treze dias os alimentos foram escassos. O café da manhã mal sustentava o corpo. A refeição principal era insuficiente para homens que haviam atravessado um oceano inteiro. Muitas vezes Giovanni possuía algumas moedas no bolso, mas não encontrava pão para comprar. A fome revelava outra dimensão da imigração. Ela não destruía apenas as forças do corpo. Colocava diariamente à prova a capacidade de continuar acreditando. Lucia, porém, recuperou-se de maneira surpreendente. Funcionários da hospedaria, sensibilizados com sua juventude, ofereciam-lhe sopa, carne, vinho e outros alimentos que raramente chegavam aos demais passageiros. Giovanni assistia àquela recuperação como quem contempla um acontecimento extraordinário. Aprendeu que, mesmo nos períodos mais difíceis, sempre existiam pessoas capazes de diminuir o sofrimento alheio. Encerrada a permanência na Ilha das Flores, iniciou-se outra etapa da viagem. O navio seguiu para Santa Catarina. Depois alcançou o Rio Grande do Sul. Permaneceu um dia em Rio Grande. Prosseguiu até Pelotas. Finalmente chegou a Porto Alegre, onde outra Casa de Imigração recebeu temporariamente os recém-chegados. Cada cidade representava apenas uma estação de passagem. O verdadeiro destino ainda permanecia escondido no interior da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul. A última etapa aconteceu num pequeno vapor que avançava lentamente pelo rio. Giovanni permanecia longo tempo observando as margens cobertas por árvores desconhecidas. Comparava aquele curso d'água ao rio Agno, da província de Vicenza. Calculava que o rio brasileiro possuía quase um terço a mais de largura. Aquela simples comparação ajudava-o a compreender a grandeza da terra onde começaria uma nova existência. Quando desembarcou em São Sebastião, encontrou um mundo completamente diferente daquele que deixara para trás. As árvores produziam frutas em abundância. Laranjas custavam apenas um centésimo. Melancias, figos, ovos e tantos outros alimentos pareciam brotar naturalmente daquela terra fértil. Era verão. As chuvas chegavam acompanhadas por trovões que faziam estremecer o horizonte. Mesmo assim, o calor mostrava-se mais suportável do que imaginara enquanto ainda vivia na Itália. No dia 28 de dezembro, o governo preparou o transporte que conduziria os imigrantes até as colônias onde receberiam seus lotes. Giovanni desconhecia completamente aquilo que o aguardava. Não imaginava as árvores gigantescas que precisariam ser derrubadas. Nem os caminhos cobertos de barro. Nem o isolamento das primeiras moradias. Nem os invernos rigorosos da serra. Nem as doenças. Nem as noites iluminadas apenas por lampiões. Sabia apenas que caminhava em direção a uma terra onde tudo ainda precisava ser construído. Quando escreveu aos pais, escolheu cuidadosamente aquilo que contaria. Falou das frutas. Do clima. Da beleza das cidades brasileiras. Explicou que entre a Itália e o Brasil existia uma diferença de seis horas. Escondeu a fome. Silenciou sobre o medo. Não mencionou as tempestades nem as noites em que acreditara perder Lucia Dal Molin. Todo filho conhece esse impulso. Os pais envelhecem depressa quando recebem notícias carregadas de sofrimento. No encerramento da carta fez apenas um pedido. Solicitou que fosse celebrada uma missa em honra de Nossa Senhora das Graças, agradecendo pela proteção recebida durante toda a travessia. Não pediu dinheiro. Não reclamou das dificuldades. Não lamentou o destino. Apenas agradeceu por continuar vivo. Naquele gesto simples encontrava-se toda a grandeza da imigração italiana. Os grandes acontecimentos raramente começam nos gabinetes dos governos. Começam quando homens comuns atravessam oceanos, suportam a fome, enfrentam o desconhecido e, apesar de tudo, continuam acreditando que existe um futuro esperando além da próxima montanha. Assim aconteceu com Giovanni Bortolon e Lucia Dal Molin. Assim aconteceu com milhares de famílias da província de Vicenza que passaram por Gênova, Ilha das Flores, Rio de Janeiro, Santa Catarina, Rio Grande, Pelotas, Porto Alegre e São Sebastião antes de alcançarem o interior da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul. As colônias italianas nasceriam dos machados, das sementes e do trabalho. Mas, antes que a primeira árvore fosse derrubada, elas nasceram dentro de cartas como aquela. Porque toda grande colonização começa muito antes da primeira casa. Ela começa no instante em que alguém, distante de sua terra, encontra forças para escrever aos que ficaram dizendo que a esperança sobrevivera ao mar.

Nota do Autor

Esta crônica nasceu a partir de uma carta autêntica preservada em um museu dedicado à imigração italiana no Rio Grande do Sul. Escrita em 27 de dezembro de 1883, ela constitui um dos mais valiosos testemunhos da experiência vivida pelos primeiros imigrantes italianos que deixaram a província de Vicenza em busca de uma nova vida no Brasil.

Embora esta seja uma obra de ficção histórica, ela está profundamente enraizada na documentação original. Os nomes dos personagens foram deliberadamente modificados para preservar a identidade dos protagonistas da correspondência e permitir que a narrativa representasse simbolicamente milhares de outras famílias que viveram experiências semelhantes. Em contrapartida, as datas, os locais percorridos e o contexto histórico foram mantidos conforme registrados na carta que inspirou este texto.

Ao transformar um documento histórico em narrativa literária, procurei dar voz não apenas ao autor daquela correspondência, mas também a uma geração inteira de homens e mulheres que enfrentou a travessia do Atlântico, a fome, as doenças, as incertezas e o desafio de construir um futuro em uma terra coberta por florestas. Muitas vezes, as cartas dos imigrantes revelam mais sobre a colonização do que os próprios documentos oficiais, pois nelas sobrevivem os sentimentos, os medos, a fé e a esperança de pessoas comuns que fizeram a História sem jamais imaginar que um dia seriam lembradas.

Escrever esta crônica foi uma forma de homenagear esses pioneiros e de demonstrar que cada carta preservada em um arquivo ou museu representa muito mais do que um registro familiar: ela é um patrimônio da memória coletiva. Ao permitir que essas palavras atravessem novamente o tempo, espero contribuir para que as novas gerações compreendam que a grande epopeia da imigração italiana não foi construída apenas com machados e plantações, mas também com cartas escritas à luz de lamparinas, carregadas de saudade, coragem e esperança.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta




quarta-feira, 9 de setembro de 2026

O Primeiro Dia na Mata do Rio Grande do Sul - O Encontro dos Imigrantes Italianos com a Floresta Brasileira

 


O Primeiro Dia na Mata do Rio Grande do Sul - O Encontro dos Imigrantes Italianos com a Floresta Brasileira

"Antes de construir casas, os imigrantes precisaram construir coragem; foi ela a primeira morada erguida na mata do Rio Grande do Sul."


Há dias que não terminam quando o sol desaparece. Permanecem vivos durante gerações, escondidos na memória das famílias como uma semente que jamais deixou de germinar. O primeiro dia dos imigrantes italianos na mata do Rio Grande do Sul foi um desses dias.

Até então, a floresta existia apenas como palavra. Falava-se dela ainda nos alojamentos, nos portos, nas longas filas da Hospedaria dos Imigrantes, nas carroças que avançavam lentamente pelas picadas abertas a machado. Diziam que era vasta, escura e sem fim. Mas nenhuma descrição era capaz de preparar um homem acostumado aos campos cultivados do Vêneto para a imensidão verde que finalmente encontrou.

Naquela manhã, a mata parecia não possuir começo nem horizonte. As árvores erguiam-se como colunas de uma catedral construída muito antes de qualquer igreja. Seus troncos desapareciam nas alturas, enquanto cipós desciam como cordas lançadas por um tempo desconhecido. A luz chegava ao chão filtrada por milhares de folhas, criando um silêncio luminoso que intimidava mais do que a própria escuridão.

Quem vinha da Itália conhecia bosques, castanheiros, vinhedos e pequenas matas comunais. Conhecia o rumor dos sinos, o vento atravessando trigais, o canto das andorinhas sobre os telhados de pedra. Na floresta sul-americana, porém, tudo parecia pertencer a outro mundo.

Os sons não ofereciam conforto. Eram avisos.

De repente, um grito atravessava as copas. Logo depois surgia outro, ainda mais estranho. Havia o bater seco de asas invisíveis, o estalar de galhos sem que ninguém pudesse enxergar o animal que os quebrava, o zumbido interminável dos insetos e o murmúrio incessante da água escondida entre pedras e samambaias. À medida que a tarde avançava, cada ruído parecia ganhar uma vida própria.

As crianças, que durante a viagem haviam transformado quase tudo em brincadeira, descobriram ali um medo novo. Agarravam-se às saias das mães, observando cada movimento das folhas como se delas pudesse surgir qualquer criatura imaginada nas antigas histórias contadas pelos avós. Os adultos faziam o mesmo esforço para esconder o próprio receio. Afinal, quando o pai demonstra medo, a casa inteira aprende a tremer.

A floresta brasileira não era hostil porque desejasse expulsá-los. Era apenas indiferente à presença humana. Existia muito antes deles e continuaria existindo caso desistissem de permanecer.

Foi então que começaram a fazer aquilo que sempre sustentou os imigrantes: trabalhar.

Os machados abriram os primeiros golpes na madeira. Cada árvore derrubada exigia horas de esforço coletivo. O cheiro fresco da seiva misturava-se ao perfume úmido da terra revolvida. As mãos ainda marcadas pela longa viagem aprendiam rapidamente outro tipo de cansaço, mais pesado, porém mais digno, porque começava a construir alguma esperança.

Antes da casa, era preciso vencer a primeira noite.

Algumas famílias encontraram abrigo no interior de árvores gigantescas, ocas pelo tempo, onde improvisaram um teto provisório contra o frio e a chuva. Aquelas cavidades, abertas naturalmente durante décadas, transformaram-se por alguns dias em quartos, cozinhas e dormitórios. Não eram moradias. Eram promessas de sobrevivência.

Outros ergueram pequenos ranchos de pau a pique. Cravavam estacas no chão, entrelaçavam galhos finos, preenchiam os espaços com barro retirado das margens dos riachos e cobriam tudo com folhas de palmeiras cuidadosamente sobrepostas para impedir que a água encontrasse passagem. O piso permanecia sendo a própria terra batida, endurecida pelas pisadas da família inteira. Quando chovia durante vários dias, o barro voltava a ser lama e a umidade parecia entrar nos ossos.

Ali dormiam pais, mães, avós e crianças, quase sempre dividindo o mesmo espaço com ferramentas, sementes, poucos móveis improvisados e os raros objetos trazidos da Itália. Um baú, uma imagem de santo, um rosário, uma fotografia amarelada ou uma pequena Bíblia representavam muito mais do que lembranças. Eram as últimas testemunhas de um mundo que o oceano deixara para trás.

À noite, a floresta mudava completamente de voz.

O que durante o dia era apenas exuberância tornava-se mistério. Os bugios faziam ecoar seus chamados graves entre os vales. Corujas riscavam a escuridão com cantos desconhecidos. Algum tatu revolvia folhas secas. Um ouriço caminhava lentamente sobre galhos altos. Vagalumes apareciam entre os arbustos como pequenas lanternas suspensas pelo próprio céu. E, muito distante, talvez uma onça lembrasse a todos que aquela terra ainda possuía antigos donos.

Poucos conseguiam dormir profundamente nas primeiras semanas. O menor estalo fazia imaginar perigos invisíveis. Bastava um galho caído para que alguém despertasse convencido de que algum animal rondava o barraco. As crianças procuravam as mãos dos pais antes mesmo de abrir os olhos.

Mas existe uma estranha qualidade na coragem humana.

Ela quase nunca nasce da ausência do medo. Costuma nascer da impossibilidade de voltar atrás.

Na manhã seguinte, os machados voltavam a trabalhar.

Cada tronco derrubado aumentava um pouco a clareira. Cada pedra retirada permitia preparar um pequeno pedaço de terra para o milho, o feijão ou a videira que um dia talvez lembrasse os vinhedos abandonados na Europa. Cada estaca fincada aproximava a futura casa de madeira.

Essa casa demorava.

Às vezes levava dois, três ou mais anos para ficar pronta. Enquanto isso, o barraco permanecia sendo lar. As crianças cresciam dentro dele. Aprendiam a andar sobre chão de terra, a reconhecer o canto dos pássaros, a distinguir o cheiro da chuva chegando e a perceber que a mata, aos poucos, deixava de ser inimiga para transformar-se em vizinha.

O medo também envelhece.

Aquilo que no primeiro dia parecia assustador tornava-se parte da rotina. O canto do quero-quero anunciava visitantes. O voo das gralhas revelava mudanças no tempo. O bugio deixava de ser monstro para tornar-se apenas mais um habitante da floresta. Até o silêncio adquiria outro significado. Já não era ameaça. Era companhia.

Quando finalmente a pequena casa de madeira ficava pronta, construída com tábuas serradas pelos próprios colonos, telhado firme e uma chaminé simples por onde escapava a fumaça do fogão, ela representava muito mais do que um abrigo. Era a prova de que a floresta aceitara aqueles homens e mulheres como parte de sua paisagem.

Talvez seja por isso que tantos descendentes ainda sintam um respeito quase sagrado pelas árvores antigas. Elas foram testemunhas silenciosas do instante em que seus antepassados deixaram definitivamente de ser viajantes para se tornarem moradores de uma terra desconhecida.

Toda família guarda uma data de nascimento.

As famílias da imigração italiana no Rio Grande do Sul guardam também aquele primeiro dia na mata.

Foi ali, entre o perfume da madeira recém-cortada, o barro nas mãos, o medo escondido nos olhos das crianças e a esperança insistindo em permanecer, que começou uma das mais belas histórias de trabalho, perseverança e pertencimento já escritas sobre esta terra.


Nota do Autor

A história da imigração italiana costuma ser contada a partir das colheitas abundantes, das capelas erguidas pelas comunidades, das casas de madeira que ainda resistem ao tempo e das famílias que prosperaram graças ao trabalho incansável de seus antepassados. Raramente, porém, voltamos o olhar para o instante mais decisivo de toda essa trajetória: o primeiro encontro entre aqueles homens e mulheres e a floresta brasileira.

Foi naquele dia, antes mesmo da primeira lavoura, da primeira videira ou da primeira colheita, que se travou a verdadeira batalha da imigração. Não contra um inimigo humano, mas contra o desconhecido. A mata fechada, os sons jamais ouvidos, os animais invisíveis, a solidão e a consciência de que já não existia caminho de volta exigiram uma coragem que os documentos oficiais quase nunca registraram.

Ao longo das gerações, a memória preservou as casas, os sobrenomes e as fotografias. O medo silencioso daquele primeiro dia, entretanto, foi desaparecendo à medida que a floresta cedia lugar aos campos cultivados e às cidades. Talvez porque o sofrimento raramente seja a herança que os pais desejam legar aos filhos.

Esta crônica nasceu do desejo de devolver visibilidade a esse capítulo quase esquecido da colonização do Rio Grande do Sul. Compreender o que aqueles imigrantes sentiram diante da imensidão da mata é compreender, em sua dimensão mais humana, o extraordinário legado que construíram. Cada comunidade fundada, cada igreja, cada escola, cada parreiral e cada pequena propriedade rural começaram, antes de tudo, com uma noite passada sob um abrigo precário e com a decisão de permanecer onde tudo inspirava incerteza.

Resgatar essa memória não significa apenas prestar homenagem aos pioneiros. Significa reconhecer que a identidade de milhares de famílias brasileiras foi moldada muito antes das vitórias, quando ainda existiam apenas o medo, o trabalho e uma esperança suficientemente forte para transformar uma floresta em lar. É nesse primeiro dia, tantas vezes esquecido pela História, que talvez resida a mais verdadeira grandeza da imigração italiana.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



terça-feira, 8 de setembro de 2026

La nostalgia delle campane – La storia della nostalgia degli emigranti italiani nel Rio Grande do Sul


Le campane che Giuseppe portò oltre l'oceano

"Le campane del paese natale possono essere lontane migliaia di chilometri, ma per chi è emigrato non smettono mai davvero di suonare."

Ci sono nostalgie che abitano negli occhi. Altre vivono nelle mani, ricordando il peso di una zappa o la carezza di un volto amato. Ma esiste una nostalgia ancora più silenziosa e più crudele: quella che si nasconde nei suoni. Pochi si rendono conto che un uomo può attraversare un intero oceano portando dentro l'anima una campana. Non una campana di bronzo, di quelle che pendono dalle antiche torri, ma il suo eco, che si ripete incessantemente nella memoria, come se Dio avesse deciso che certi ricordi non avrebbero mai conosciuto il riposo.

Quando Giuseppe sbarcò nel Rio Grande do Sul, nel 1880, portava con sé poco più di un cambio di abiti, un rosario consumato dalle mani di sua madre e un coraggio che, in realtà, era soltanto l'altro nome della disperazione. Veniva da un piccolo paese in una valle perduta tra le colline dell'Italia settentrionale, dove tutte le case sembravano nascere intorno alla chiesa, come figli protetti dalla stessa madre. Da lì conosceva ogni pietra della piazza, ogni ombra proiettata dai cipressi e, soprattutto, conosceva la voce delle campane.

Per tutta l'infanzia non aveva mai avuto bisogno di guardare un orologio. Erano le campane a svegliare il paese prima dell'alba. Erano loro ad annunciare l'Angelus a mezzogiorno, a chiamare alla messa domenicale, a far tacere gli uomini quando un funerale attraversava le strade strette. Le campane celebravano i matrimoni, piangevano i morti, avvertivano degli incendi, salutavano la festa del patrono e sembravano parlare con il vento che scendeva dalle montagne. In quella terra, il tempo non passava attraverso le lancette; passava attraverso il bronzo.

In Brasile, però, trovò un altro calendario. Le mattine cominciavano con il grido delle ghiandaie azzurre, lo schiocco dei pini sotto il vento minuano e il colpo ritmico delle asce che aprivano radure nella fitta foresta. La foresta era maestosa, ma non conosceva il linguaggio degli uomini. Il suo silenzio era immenso. Bello, forse. Consolatorio, mai.

Nei primi mesi, Giuseppe si svegliava ancora prima dell'alba aspettando di sentire, in lontananza, il vecchio campanile del suo paese. Rimaneva per alcuni secondi immobile sulla branda di legno, sorridendo senza rendersene conto. Poi comprendeva dove si trovava. E allora il silenzio gli cadeva addosso come una seconda notte.

Passarono gli anni. La foresta cedette il posto ai vigneti. La casa di assi si trasformò in una solida costruzione di pietra basaltica. Arrivarono i figli, poi i nipoti. Imparò a ridere di nuovo, a cantare durante la vendemmia, a ringraziare per i buoni raccolti. Divenne un uomo rispettato nella colonia. Chiunque lo avesse visto camminare tra le viti avrebbe creduto di trovarsi davanti a qualcuno pienamente riconciliato con il proprio destino.

Ma nessuno conosce fino in fondo la vita nascosta dentro un altro uomo.

Nelle fredde sere d'inverno, quando la nebbia scendeva lentamente lungo i pendii della serra e il vento faceva scricchiolare i rami dei pini, Giuseppe interrompeva il lavoro senza una ragione apparente. Alzava la testa e rimaneva a guardare un punto invisibile all'orizzonte. I figli immaginavano che stesse osservando il tempo, calcolando l'arrivo della pioggia. La moglie, più saggia, continuava semplicemente a filare la lana. Sapeva che quello sguardo non vedeva il cielo del Brasile.

Ne vedeva un altro.

Era in quel momento che le campane ritornavano.

Non arrivavano attraverso le orecchie, ma attraverso la memoria. Suonavano lente, profonde, esattamente come nella piccola chiesa dalle pietre chiare che sorgeva in cima al paese italiano. Il primo rintocco sembrava attraversare l'intero Atlantico. Poi ne arrivavano altri, riempiendo il cuore di una dolcezza impossibile da spiegare e di una tristezza ancora più grande. Ogni rintocco portava con sé un frammento dell'infanzia, il profumo del pane che cuoceva nel forno comunitario, la voce ferma del vecchio parroco, gli abiti scuri delle donne che uscivano dalla messa, il riso dei ragazzi che correvano per la piazza mentre i colombi si levavano in volo davanti alla torre.

Non lo raccontò mai a nessuno.

Come spiegare che un uomo potesse ascoltare ciò che non esisteva?

Come dire ai figli brasiliani che le campane di una chiesa lontana continuavano a segnare le ore della sua anima?

Essi appartenevano a quella nuova terra. Per loro, il mondo aveva sempre avuto il profumo dell'araucaria e della terra rossa. Non avrebbero compreso che il padre abitava ancora, in parte, in un paese separato da loro da un oceano e da un'intera vita.

Una mattina, molti anni dopo, inaugurarono la piccola chiesa della colonia. Una campana nuova fu issata fino alla modesta torre di legno. Tutta la comunità si riunì per assistere. Quando il sacerdote tirò per la prima volta la corda, il suono si diffuse attraverso le valli con una gioia che fece correre i bambini e segnare i vecchi con il segno della croce.

Giuseppe sorrise.

Era una bella campana.

Forte. Limpida. Promettente.

Ma non era la sua.

Comprese allora che certi suoni non possono mai essere sostituiti. Così come non si sostituiscono la voce della madre, il profumo della casa in cui si è nati o la luce che attraversava la finestra dell'infanzia, non si può sostituire nemmeno la campana che insegnò a un ragazzo a riconoscere le ore di Dio e degli uomini.

Quella notte, seduto davanti alla porta di casa, guardò a lungo le stelle. Erano quasi le stesse che brillavano sopra l'Italia. Forse erano esattamente le stesse. Pensò che il vecchio campanile del suo paese forse avesse ormai un'altra campana. Forse la torre era stata restaurata. Forse non esisteva più. Forse nessuno pronunciava il suo nome da decenni.

Ma ormai non aveva più importanza.

Perché certi luoghi continuano a esistere finché qualcuno è ancora capace di ascoltarli.

E fu allora che comprese la più delicata delle verità dell'emigrazione: un uomo non abbandona mai completamente la propria terra. Una parte di essa attraversa l'oceano nascosta dentro il petto. A volte viaggia nella fotografia ingiallita di una famiglia. Altre volte nel rosario ereditato dalla madre. E, per alcuni, viaggia nella forma invisibile di una campana che nessun altro può più sentire. Una campana che continua a suonare, piano, tra le montagne della memoria, chiamando a una messa che non finisce mai.

Nota dell'Autore

Poche parole della lingua portoghese possiedono la densità umana della parola saudade. Nel caso degli immigrati italiani giunti nel Rio Grande do Sul negli ultimi decenni del XIX secolo, essa assunse un significato ancora più profondo, poiché non rappresentava soltanto la distanza dalla terra natale, ma la perdita di un intero universo di riferimenti costruiti fin dall'infanzia.

Lasciando i piccoli comuni del Veneto, della Lombardia, del Trentino, del Friuli e di tante altre regioni d'Italia, questi uomini e queste donne non abbandonavano soltanto le loro case di pietra, le vigne, i campi di grano o i volti dei parenti. Alle loro spalle rimanevano i profumi del pane appena sfornato nei forni comunitari, le processioni del patrono, le fiere della piazza, il mormorio delle fontane e, soprattutto, i suoni che organizzavano la vita quotidiana.

Nell'Europa rurale del XIX secolo, la campana della chiesa era molto più di un simbolo religioso. Era la voce della comunità. Chiamava alla messa, segnava l'Angelus, annunciava i matrimoni, accompagnava i funerali, avvertiva degli incendi, celebrava le grandi solennità e, per un popolo che raramente possedeva orologi, insegnava il ritmo stesso del tempo. Ogni rintocco era un ricordo condiviso da intere generazioni.

Arrivando nelle fitte foreste della Serra Gaúcha, gli immigrati incontrarono una natura grandiosa, ma silenziosa rispetto a ciò che era loro più familiare. L'ascia sostituì la campana. Il canto degli uccelli prese il posto delle voci della piazza. Il vento tra le araucarie occupò lo spazio dove, per tutta la vita, aveva echeggiato il bronzo della vecchia torre della chiesa del paese.

Quell'assenza divenne una forma invisibile di saudade. Molti costruirono nuove cappelle, eressero campanili e fecero fondere nuove campane, ma nessuna possedeva esattamente il timbro di quella che aveva accompagnato i primi passi dell'infanzia. Certi ricordi non appartengono ai luoghi; appartengono al cuore. Viaggiano con chi parte e continuano a risuonare molto tempo dopo che il mondo intorno è cambiato.

Forse è per questo che tanti discendenti sentono ancora, senza saperlo spiegare, un legame così intenso con la terra dei loro antenati. La memoria non si trasmette soltanto attraverso i cognomi, le fotografie o le ricette di famiglia. Essa percorre anche sentieri invisibili, fatti di suoni, emozioni e silenzi. Tra tutti questi, pochi sono stati persistenti quanto l'eco delle campane delle piccole chiese italiane, che continuarono a suonare, per decenni, dentro l'anima di coloro che attraversarono l'Atlantico alla ricerca di un futuro migliore.

Questa nostalgia, tuttavia, non impedì mai agli immigrati di costruire una nuova vita in Brasile. Al contrario, fu proprio essa a dare loro la forza di erigere chiese, aprire strade, piantare vigne e fondare comunità tra le araucarie della Serra Gaúcha. In ogni cappella eretta, in ogni campana che tornava a suonare nelle colonie, vi era il tentativo di far rinascere, sul suolo brasiliano, un piccolo frammento dell'antico paese italiano. Perché chi emigra può cambiare patria, ma non lascia mai completamente la terra dove ha imparato ad ascoltare i primi rintocchi della vita.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Dalla Mezzadria alla Terra Propria: Il Grande Sogno degli Emigranti Veneti in Brasile


Dalla Mezzadria alla Terra Propria: Il Grande Sogno degli Emigranti Veneti in Brasile

Come la piccola proprietà rurale trasformò il destino delle famiglie italiane nel Rio Grande do Sul

Ci sono parole che sembrano piccole, ma che portano dentro di sé il peso di un’intera civiltà. «Proprietà» è una di queste. Per chi ha sempre vissuto circondato da terre, forse significa soltanto un documento conservato in un cassetto. Per migliaia di contadini provenienti dal Veneto, invece, rappresentava un sogno che aveva attraversato generazioni senza mai trovare pace.

Per secoli, i loro padri e nonni avevano coltivato campi appartenenti ad altri. Erano mezzadri, coloni, affittuari o semplici lavoratori agricoli. Conoscevano il tempo della semina, il momento esatto della potatura delle viti, la stagione della raccolta del mais e del grano, ma ignoravano la tranquillità di piantare un albero sapendo che i propri figli ne avrebbero raccolto i frutti. La terra era vicina ai loro piedi, ma lontana dai loro diritti.

Fu in questo scenario che nacque la grande avventura dell’emigrazione. Molti credono che quegli uomini e quelle donne abbiano lasciato il Veneto spinti soltanto dalla fame. La povertà, senza dubbio, spinse migliaia di persone oltre l’Atlantico, ma esisteva un altro desiderio, più silenzioso e forse ancora più potente: possedere un pezzo di terra che potessero finalmente chiamare proprio.

Quando partirono per il Brasile, non portavano con sé soltanto bauli di legno, immagini di santi e alcuni abiti accuratamente piegati. Portavano una speranza antica, alimentata da generazioni che non erano mai riuscite a spezzare il ciclo della dipendenza. L’oceano separava i continenti, ma separava anche due modi di vivere.

Quando arrivarono nel Rio Grande do Sul, trovarono una realtà che aveva ben poco della terra promessa immaginata nelle propagande dell’emigrazione. Al posto dei vigneti ordinati, c’era una foresta quasi infinita. Al posto delle strade, soltanto sentieri aperti tra alberi giganteschi. Non c’erano case ad aspettare i nuovi arrivati, né campi pronti per essere coltivati. C’era soltanto la foresta, fitta e silenziosa, che imponeva agli uomini una sfida apparentemente più grande delle loro stesse forze.

Eppure, esisteva una differenza decisiva tra quella foresta brasiliana e i campi lasciati in Europa. Per la prima volta, lo sforzo impiegato per abbattere un albero, costruire una casa o piantare una vite non avrebbe beneficiato un padrone lontano. Ogni colpo d’ascia avvicinava quella famiglia alla costruzione di un patrimonio proprio. Ogni pietra posata sopra un’altra costruiva più di un muro; costruiva una nuova condizione sociale.

È vero che la terra non veniva distribuita gratuitamente. I lotti dovevano essere pagati, e molte famiglie trascorsero anni a saldare i propri debiti con il governo imperiale prima di ricevere il titolo definitivo di proprietà. Ma ciò non diminuiva il significato di quella conquista. Al contrario, ne aumentava il valore morale. Era una proprietà acquisita attraverso il lavoro, la perseveranza e il sacrificio quotidiano.

Forse questa fu la più grande trasformazione provocata dall’immigrazione veneta nel sud del Brasile. Non cambiò soltanto il paesaggio. Cambiò il rapporto stesso tra l’uomo e la terra. Nel vecchio sistema del colonato, ogni investimento valorizzava la proprietà di un’altra persona. Nel nuovo sistema delle piccole proprietà, ogni albero da frutto piantato, ogni recinzione costruita e ogni vite coltivata rafforzavano il patrimonio della propria famiglia.

Questo cambiamento modificò profondamente anche il modo di lavorare. Lo sforzo cessò di essere soltanto un mezzo per sopravvivere e divenne un investimento nel futuro. Il padre che costruiva un granaio pensava già ai figli che lo avrebbero utilizzato molti anni dopo. La madre che piantava un frutteto sapeva che forse non avrebbe raccolto tutti i suoi frutti, ma lo avrebbero fatto i suoi nipoti. Il tempo cessò di essere soltanto il presente e cominciò a comprendere anche le generazioni che dovevano ancora nascere.

Fu da questa visione di permanenza che nacquero le piccole comunità coloniali. Intorno alle proprietà sorsero cappelle, scuole, mulini, fucine, cantine, negozi e, più tardi, cooperative. Dove prima esisteva soltanto la foresta, cominciarono a sorgere villaggi che, decenni dopo, si sarebbero trasformati in città prospere. La piccola proprietà rurale divenne il fondamento di una società caratterizzata dal lavoro familiare, dalla solidarietà tra vicini e dal costante desiderio di costruire un futuro migliore.

Nulla di tutto questo avvenne senza sofferenza. Ci furono anni di raccolti perduti a causa delle gelate, delle malattie, dell’isolamento, delle difficoltà nel trasportare la produzione e di debiti che sembravano non finire mai. Molte famiglie dovettero ricominciare più di una volta. Altre partirono verso nuove frontiere quando i primi lotti non potevano più essere divisi tra tutti i figli. Nacque così la seconda migrazione, che portò i discendenti verso l’Alto Uruguay, Santa Catarina, Paraná e tanti altri luoghi dove la foresta attendeva ancora il primo colpo d’ascia.

Eppure, qualcosa rimaneva intatto. Il valore della terra cessava di essere soltanto economico. Essa rappresentava libertà, autonomia e dignità. Era la prova concreta che il lavoro poteva modificare il destino di un’intera famiglia. Forse per questo i discendenti di quegli immigrati hanno sempre coltivato un rispetto quasi sacro per la proprietà, per l’economia e per il lavoro quotidiano.

A volte immagino il momento in cui uno di quei coloni ricevette finalmente il documento definitivo del proprio lotto. Non ci furono bande musicali né discorsi solenni. Forse si limitò a piegare con cura quel foglio e a conservarlo dentro una cassa di legno, insieme all’atto di matrimonio, ai certificati di battesimo dei figli e ai pochi ricordi portati dall’Italia. Ma in quel gesto silenzioso si concludeva una storia iniziata molto prima della sua partenza dal Veneto.

Quel giorno, cessava di essere soltanto un contadino sopravvissuto al colonato europeo. Diventava proprietario di una terra conquistata con le proprie mani. E poche trasformazioni ebbero conseguenze così profonde per la formazione del Rio Grande do Sul quanto questo passaggio discreto, quasi silenzioso, dell’uomo che coltivava la terra degli altri a quello che finalmente poteva dire, con legittimo orgoglio: questa terra è mia, e su di essa fiorirà il futuro dei miei figli.

Nota dell’Autore

Per il lettore del XXI secolo può essere difficile comprendere la portata della trasformazione vissuta dagli immigrati veneti quando divennero proprietari di un lotto di terra in Brasile. Oggi la proprietà rurale viene percepita come un bene patrimoniale. Nel XIX secolo, invece, essa rappresentava qualcosa di molto più profondo: un completo cambiamento della condizione sociale.

La maggior parte delle famiglie che lasciò il Veneto viveva del lavoro agricolo, ma raramente era proprietaria della terra che coltivava. Per generazioni, i loro antenati avevano lavorato come mezzadri, affittuari, coloni o braccianti, producendo per proprietari che detenevano il dominio delle terre. Il lavoro della famiglia garantiva la sopravvivenza, ma non costruiva un patrimonio. Qualsiasi miglioramento realizzato nella proprietà andava, in ultima analisi, a beneficio del proprietario della terra.

Quando arrivarono nel sud del Brasile, questi immigrati dovettero affrontare sfide immense: foreste fitte, isolamento, malattie, scarsità e la necessità di aprire, con il proprio lavoro, gli spazi nei quali avrebbero vissuto. Eppure, esisteva una differenza essenziale rispetto alla vita che avevano lasciato alle spalle. Per la prima volta, ogni albero abbattuto, ogni vite piantata, ogni recinzione costruita e ogni casa eretta valorizzavano una proprietà che, dopo l’adempimento degli obblighi legali e finanziari, sarebbe appartenuta alla loro stessa famiglia.

Questo passaggio dal lavoro senza patrimonio al lavoro finalizzato alla costruzione di un patrimonio familiare spiega, in larga misura, la straordinaria dedizione dei coloni alla terra e lo sviluppo delle colonie italiane nel Rio Grande do Sul. Più che un cambiamento economico, si trattò di una profonda trasformazione culturale e psicologica. La piccola proprietà divenne un simbolo di libertà, stabilità e speranza, valori che plasmarono generazioni di discendenti e lasciarono tracce permanenti nella formazione dell’agricoltura familiare e della società gaúcha.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta