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sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Nova Milano em 1875 A História dos Pioneiros da Imigração Italiana no RS



Nova Milano em 1875 A História dos Pioneiros da Imigração Italiana no RS

“Em maio de 1875, as famílias pioneiras abriram um capítulo decisivo da história da imigração italiana na Serra Gaúcha.”

A chegada dos primeiros grupos de imigrantes italianos à região de Nova Milano, em maio de 1875, marcou uma etapa fundamental da colonização da Serra Gaúcha. A trajetória das famílias pioneiras ajuda a compreender como se formaram algumas das comunidades que deram origem à identidade ítalo-brasileira do Rio Grande do Sul.

O contexto histórico da imigração italiana no Rio Grande do Sul

A história da imigração italiana no Rio Grande do Sul está profundamente ligada à política de colonização agrícola desenvolvida pelo Império brasileiro durante o século XIX. Naquele período, o governo procurava estabelecer núcleos de pequenos proprietários rurais, ampliar a ocupação de determinadas áreas e estimular a produção agrícola por meio da instalação de famílias imigrantes.

Na Itália, por sua vez, diferentes regiões enfrentavam condições econômicas e sociais que incentivavam a emigração. A dificuldade de acesso à terra, a insuficiência dos rendimentos agrícolas e as limitadas perspectivas de melhoria de vida levaram numerosas famílias a considerar a possibilidade de atravessar o Atlântico.

A decisão de partir não era simples. Significava abandonar a comunidade de origem, separar-se de parentes e amigos e enfrentar uma viagem longa, dispendiosa e repleta de incertezas. Ainda assim, para muitas famílias, a perspectiva de conquistar uma propriedade e proporcionar melhores condições de vida aos filhos justificava o risco.

Foi nesse contexto que se estabeleceu o núcleo colonial associado a Nova Milano, localidade situada no atual município de Farroupilha. A chegada de imigrantes italianos à região, em 1875, tornou-se um dos principais marcos da história da colonização italiana no estado.

A data de 20 de maio de 1875 é tradicionalmente reconhecida como referência da chegada das famílias pioneiras vinculadas a Crippa, Sperafico e Radaelli. O episódio está na origem da identificação histórica de Nova Milano como o Berço da Imigração Italiana no Rio Grande do Sul.

Para compreender a dimensão desse acontecimento, é necessário considerar que a colonização não se resumiu à chegada de um grupo de viajantes. Ela envolveu a abertura de caminhos, a implantação de propriedades agrícolas, a formação de redes de ajuda mútua e a construção gradual de uma nova sociedade.

Leia também: A Emigração Vêneta para o Brasil e a História da Imigração Italiana.

A viagem dos imigrantes e o caminho até Nova Milano

A viagem dos pioneiros começou na Itália e incluiu a travessia marítima até o Brasil. O porto de Gênova era um dos principais pontos de embarque de emigrantes italianos, embora a experiência de cada família dependesse da rota, da embarcação e das condições de transporte disponíveis.

De acordo com a cronologia tradicionalmente associada aos primeiros moradores de Nova Milano, o grupo chegou ao Rio de Janeiro em 9 de março de 1875. Depois, seguiu em direção ao Rio Grande do Sul, passando por Porto Alegre e utilizando o transporte fluvial até São Sebastião do Caí.

A partir dali, o deslocamento em direção à Serra Gaúcha exigia percorrer caminhos terrestres difíceis. A infraestrutura era limitada, e a circulação dependia das condições das trilhas, da vegetação e dos meios de transporte disponíveis.

O destino final não oferecia as estruturas que hoje associamos a uma comunidade estabelecida. As famílias precisavam encontrar abrigo, preparar o terreno, organizar o abastecimento e iniciar o cultivo da terra. A chegada representava, portanto, o começo de uma nova etapa de trabalho e adaptação.

Para os imigrantes, a mudança também implicava aprender a conviver com um ambiente natural diferente daquele que haviam conhecido na Europa. O clima, a vegetação, os recursos disponíveis e as distâncias entre as propriedades influenciavam diretamente a organização da vida cotidiana.

A colonização agrícola dependia da capacidade de transformar o terreno em uma unidade produtiva. A construção de moradias, a preparação das lavouras e a criação de animais exigiam tempo, ferramentas e esforço coletivo.

É importante compreender que o processo não foi instantâneo nem livre de dificuldades. O estabelecimento de uma família em uma nova terra não significava que a segurança econômica estivesse garantida. A sobrevivência dependia das colheitas, das condições de saúde, do acesso aos mercados e da possibilidade de estabelecer relações com outros moradores.

As famílias Crippa, Sperafico e Radaelli

A memória dos primeiros tempos da colonização está ligada a três sobrenomes que atravessaram gerações e passaram a integrar a história de Nova Milano: Crippa, Sperafico e Radaelli.

Essas famílias representam uma dimensão essencial da história migratória. Por trás dos registros de chegada estavam pessoas que precisavam reorganizar sua existência, criar os filhos, estabelecer atividades produtivas e construir relações sociais em uma região ainda em processo de colonização.

Tommaso Radaelli e a tradição vitivinícola

Tommaso Radaelli é lembrado entre os pioneiros que contribuíram para a implantação das primeiras atividades agrícolas na região. Chegou acompanhado da esposa, Maria Pasqualina Pirovano, e do filho, Angelo Fermo.

A tradição histórica local associa seu nome ao desenvolvimento inicial da viticultura na Serra Gaúcha. Segundo os relatos sobre a colonização, em 1877 ele recebeu mudas de videira da família Ruschel, estabelecida em Picada Feliz.

Esse episódio permite compreender como os conhecimentos agrícolas e os materiais necessários ao cultivo circulavam entre os primeiros núcleos de imigrantes. A expansão da viticultura dependia da adaptação das plantas às condições locais, da experiência dos agricultores e da transmissão de técnicas entre famílias.

A importância posterior da produção de uvas e vinhos na economia regional não deve ocultar o caráter gradual desse processo. A viticultura desenvolveu-se ao longo do tempo, em meio a experiências, dificuldades e aperfeiçoamentos sucessivos.

A trajetória atribuída a Radaelli integra a memória de uma transformação econômica que ajudaria a distinguir a Serra Gaúcha de outras regiões agrícolas brasileiras.

Luigi Sperafico e a organização da propriedade familiar

Luigi Sperafico e Angela Rivolti chegaram ao Brasil acompanhados dos filhos. A presença de uma família numerosa era importante para a organização do trabalho rural, especialmente em uma época em que as tarefas agrícolas dependiam intensamente da mão de obra disponível no próprio núcleo doméstico.

A família é associada à localidade de Travessão São José, onde a agricultura constituiu a base da subsistência e da organização econômica.

A propriedade rural desempenhava várias funções simultâneas. Era o lugar de moradia, o espaço de produção dos alimentos e o centro das atividades familiares. Nela se transmitiam conhecimentos, costumes e práticas que ajudavam a preservar vínculos com a cultura de origem.

A pequena agricultura exigia planejamento e adaptação. Era necessário combinar a produção destinada ao consumo doméstico com a obtenção de excedentes que pudessem ser trocados ou vendidos.

O trabalho das famílias colonizadoras também contribuiu para a formação de relações de cooperação entre vizinhos. A ajuda mútua, a circulação de produtos e o compartilhamento de experiências eram importantes para superar as dificuldades dos primeiros anos.

A história dos Sperafico ajuda a compreender por que a pequena propriedade familiar se tornou uma das características marcantes de diversas áreas de colonização italiana no Rio Grande do Sul.

Stefano Crippa e a formação do núcleo comercial

Stefano Crippa, que chegou acompanhado da esposa, Natalina Galliani, e do irmão Carlo, também ocupa lugar na memória da fundação de Nova Milano.

Sua trajetória é associada à agricultura e à instalação de uma casa comercial. A presença de um estabelecimento desse tipo representava uma etapa importante no desenvolvimento da comunidade, pois permitia ampliar o acesso a mercadorias e favorecia a circulação econômica.

A tradição local também atribui a Stefano Crippa a escolha do nome Nova Milano, uma referência à cidade de Milão, na Lombardia. A denominação expressava um vínculo simbólico com a terra de origem e ajudava a conservar referências culturais em um ambiente distante da Itália.

A atribuição do nome revela uma característica recorrente em comunidades de imigrantes: a necessidade de estabelecer continuidades entre a memória do lugar deixado para trás e a realidade construída no país de destino.

O comércio, por sua vez, contribuía para reduzir o isolamento das propriedades agrícolas. À medida que a comunidade crescia, aumentava a necessidade de abastecimento e de pontos de encontro para as relações econômicas e sociais.

Os Crippa, os Sperafico e os Radaelli não esgotam a história da imigração italiana na região. Seus nomes, entretanto, tornaram-se referências importantes para a compreensão dos primeiros tempos da colonização.

Luiz Bugre e os primeiros caminhos da colonização

A história tradicional de Nova Milano também recorda a participação de Luiz Bugre, personagem associado à orientação dos primeiros imigrantes nos caminhos que conduziam à Serra Gaúcha.

Relatos locais descrevem Luiz Bugre como alguém familiarizado com a região e capaz de auxiliar os recém-chegados a encontrar o local de estabelecimento. Sua participação é especialmente relevante para compreender a importância do conhecimento territorial em uma época na qual a circulação dependia de trilhas e passagens de difícil acesso.

Algumas narrativas afirmam que ele havia vivido entre colonos alemães, experiência que teria contribuído para seu conhecimento dos caminhos da região. A tradição também relaciona seu nome à utilização de uma cabana como abrigo inicial dos pioneiros.

Esses detalhes devem ser considerados à luz das fontes históricas disponíveis, distinguindo os elementos documentados das informações transmitidas pela memória local. Essa precaução não diminui o interesse do episódio; ao contrário, permite construir uma narrativa mais rigorosa.

Abrir caminhos era uma tarefa fundamental para a sobrevivência dos núcleos coloniais. Sem vias de circulação, tornava-se difícil transportar ferramentas, alimentos, sementes e materiais para a construção das moradias.

A presença de Luiz Bugre nos relatos também lembra que a colonização ocorreu em um território que possuía uma história anterior à chegada dos imigrantes. Povos indígenas já habitavam e percorriam essas áreas, detendo conhecimentos sobre a paisagem e os recursos naturais.

Por isso, a história da ocupação da Serra Gaúcha deve reconhecer tanto a contribuição dos imigrantes quanto a existência das populações que já viviam na região. A compreensão desse contexto amplia a perspectiva histórica e evita representar a colonização como se tivesse ocorrido em um espaço vazio.

A formação da comunidade e o desenvolvimento agrícola

Os primeiros anos de Nova Milano foram marcados pela necessidade de garantir as condições materiais de sobrevivência. As famílias precisavam preparar o solo, construir moradias e organizar a produção de alimentos em um ambiente com infraestrutura limitada.

O trabalho agrícola ocupava posição central, mas a consolidação de uma comunidade dependia de outras atividades. O comércio, a criação de animais, a troca de produtos e a abertura de caminhos permitiam estabelecer relações entre as propriedades e reduzir as dificuldades decorrentes do isolamento.

A família constituía a unidade fundamental de organização econômica. As tarefas eram distribuídas conforme as necessidades da propriedade e a composição do grupo doméstico. O conhecimento adquirido em uma geração podia ser transmitido aos filhos, contribuindo para a continuidade das atividades agrícolas.

Ao mesmo tempo, os vínculos entre vizinhos favoreciam a construção de uma rede comunitária. A cooperação permitia enfrentar períodos difíceis e criar condições para o desenvolvimento de atividades que ultrapassavam a subsistência imediata.

A cultura também se transformou nesse processo. Os imigrantes trouxeram práticas religiosas, hábitos alimentares, formas de trabalho e variedades linguísticas de suas regiões de origem. Ao longo das gerações, esses elementos foram adaptados à realidade brasileira.

A identidade cultural que se consolidou na Serra Gaúcha não corresponde a uma simples reprodução da vida italiana. Ela resultou do encontro entre tradições regionais europeias e as condições históricas, sociais e econômicas do Brasil.

A língua é um exemplo dessa continuidade transformada. Em diferentes comunidades de descendentes, variedades linguísticas de origem vêneta passaram a conviver com o português e adquiriram características próprias.

Leia também: Talian, o Vêneto Brasileiro e suas Regras de Acentuação.

A importância histórica de Nova Milano

O desenvolvimento da colonização italiana no Rio Grande do Sul ocorreu em etapas, com a chegada de novos grupos e a formação de diferentes núcleos habitacionais. Nova Milano integra a memória desse processo como uma das principais referências da fase inicial da imigração italiana organizada na Serra Gaúcha.

Sua importância está relacionada tanto à cronologia quanto ao significado que a localidade adquiriu para as gerações seguintes. O lugar passou a representar o início de uma experiência coletiva que se ampliou para outras áreas e contribuiu para a formação de comunidades rurais e urbanas.

Ao longo do tempo, a região desenvolveu atividades agrícolas e comerciais que ajudaram a sustentar seu crescimento. A viticultura tornou-se particularmente importante na Serra Gaúcha, embora seu desenvolvimento tenha resultado do trabalho de numerosas famílias e de processos que se estenderam por décadas.

A contribuição dos imigrantes também se manifesta na vida comunitária, nas instituições religiosas e educacionais, nas festas e nas formas de sociabilidade que se desenvolveram nas áreas de colonização.

Farroupilha passou a ser reconhecida pela relação histórica com Nova Milano, e a localidade tornou-se um ponto de referência para a preservação da memória da imigração italiana.

A expressão “Berço da Imigração Italiana” deve ser compreendida nesse contexto histórico: ela identifica um marco da colonização italiana organizada no Rio Grande do Sul, sem significar que a presença de italianos em todas as partes do território brasileiro tenha começado naquele lugar ou naquela data.

A distinção é importante para situar Nova Milano dentro da história mais ampla das migrações italianas, que envolveram diferentes regiões de origem, rotas de viagem e destinos no Brasil.

A memória dos pioneiros e a pesquisa genealógica

Para os descendentes de italianos, Nova Milano possui um significado que ultrapassa os limites da história regional. O estudo das famílias pioneiras pode despertar o interesse pela reconstrução das trajetórias de antepassados que chegaram ao Brasil durante o século XIX ou nas décadas posteriores.

A pesquisa genealógica, entretanto, exige método e atenção aos documentos. Um sobrenome, isoladamente, não é suficiente para comprovar parentesco ou determinar a origem de uma família.

Certidões de nascimento, casamento e óbito, registros paroquiais, listas de passageiros e documentos de propriedade podem oferecer pistas importantes. A comparação entre esses registros permite confirmar datas, identificar localidades e distinguir pessoas que possuíam nomes semelhantes.

Também é necessário considerar as variações de grafia que surgiam durante os registros, as mudanças administrativas e as diferenças entre os sistemas documentais italianos e brasileiros.

Para iniciar essa investigação, consulte o artigo Como Encontrar Registros de Italianos que Imigraram para o Brasil.

Quando o pesquisador consegue identificar o município de origem de um antepassado, a busca pode avançar para os registros civis e religiosos correspondentes ao período. Essa etapa permite relacionar a história da família à realidade social da comunidade italiana de onde ela partiu.

A genealogia torna-se mais significativa quando os documentos são interpretados em seu contexto. Conhecer a data de nascimento de um antepassado é importante, mas compreender as condições em que viveu, as razões que podem ter motivado sua emigração e o ambiente encontrado no Brasil ajuda a reconstruir uma história familiar mais completa.

Nova Milano e a continuidade da história da imigração italiana

Em maio de 1875, as famílias associadas ao núcleo pioneiro de Nova Milano encontraram uma realidade muito diferente daquela que haviam deixado na Itália. A região exigia trabalho, adaptação e a construção gradual das condições necessárias para uma vida estável.

Não era possível prever, naquele momento, a dimensão que a colonização italiana alcançaria na Serra Gaúcha. O que existia era um conjunto de famílias dispostas a estabelecer suas propriedades e a construir novas perspectivas para as gerações seguintes.

A história posterior da região demonstra que a formação de uma comunidade depende de muitos fatores: trabalho agrícola, relações de vizinhança, circulação de mercadorias, transmissão cultural e organização social.

Nova Milano permaneceu na memória coletiva porque representa uma referência concreta desse processo. Sua trajetória conecta a experiência da emigração europeia à formação de uma sociedade regional brasileira marcada pela contribuição de sucessivas gerações de descendentes.

Estudar os pioneiros significa reconhecer a importância de suas experiências sem ignorar as dificuldades da colonização e a história anterior do território. Significa também compreender que a identidade cultural se forma ao longo do tempo, por meio da convivência entre memória, trabalho e transformação social.

Para quem procura conhecer as próprias raízes, Nova Milano oferece uma oportunidade de relacionar a história coletiva às experiências particulares de cada família.

A memória das famílias pioneiras de 1875 continua a fazer parte da história do Rio Grande do Sul. Preservá-la é reconhecer o papel da imigração italiana na formação da Serra Gaúcha e manter abertas as possibilidades de pesquisa para as novas gerações.

Visite também o Portal A Emigração Vêneta, em https://emigrazioneveneta.blogspot.com/, e conheça outros estudos sobre a imigração italiana, a história das comunidades coloniais, a cultura dos descendentes e a pesquisa das origens familiares.

Nota do autor

A história da imigração italiana é formada por acontecimentos coletivos e por milhares de trajetórias familiares. Cada documento encontrado, cada localidade identificada e cada sobrenome corretamente contextualizado ajuda a recuperar uma parte dessa memória. Conhecer as origens não significa apenas olhar para o passado: significa compreender melhor a formação das comunidades e preservar a história que será transmitida às próximas gerações.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta
Autor e pesquisador da Imigração Italiana e histórias familiares



segunda-feira, 18 de maio de 2026

Vida Nova em Nova Milano


Vida Nova em Nova Milano


No inverno de 1879, as montanhas da província de Belluno, no Vêneto, estavam cobertas por um manto de neve. Em uma pequena vila no interior de  Sedico, vivia a família Serafico. Giovanni Serafico, um camponês de 38 anos, enfrentava as dificuldades de uma terra que já não oferecia sustento suficiente para sua esposa, Maria, e seus três filhos: Pietro, Lucia e Antonio.

As notícias de terras férteis e oportunidades no Brasil chegavam frequentemente às pequenas vilas do interior do Vêneto, trazidas pelos agentes de emigração. Esses homens, geralmente comissionados por companhias de navegação ou representantes do governo imperial brasileiro, viajavam de vila em vila, espalhando promessas que acendiam a esperança nos corações exaustos dos camponeses. Falavam de transporte gratuito, assistência inicial e, o mais tentador de tudo, a possibilidade de adquirir as terras que trabalhariam. Para agricultores que, há séculos, viviam como meros servos nas vastas propriedades de nobres e senhores de terras, a perspectiva de serem proprietários era revolucionária.

Essas promessas encontravam solo fértil na mente de homens como Giovanni Serafico. A vida no Vêneto era marcada por trabalho incessante, pouca recompensa e nenhuma voz diante dos patrões. Cansados de obedecer e silenciar, os camponeses viam na emigração uma chance de quebrar o ciclo de miséria. No entanto, nem tudo era certeza. Enquanto alguns confirmavam as promessas através de cartas enviadas por parentes que haviam emigrado antes, outros relatavam dificuldades inimagináveis, doenças e promessas quebradas. A dúvida era constante: seria a sorte diferente para eles?

Giovanni, ainda assim, sentia-se atraído pela possibilidade de uma nova vida. As cartas de um primo distante, que havia se estabelecido no Rio Grande do Sul, falavam de dificuldades, mas também de progresso. "Aqui somos pobres, mas livres, não precisamos dividir o que produzimos com os patrões", dizia uma delas. Essas palavras reverberavam na mente de Giovanni, contrastando com sua própria realidade de pobreza e servidão.

As condições em Sedico pioravam muito a cada inverno. A terra de montanha exaurida não produzia o suficiente para sustentar a família. Maria, sua esposa, fazia milagres para alimentar Pietro, Lucia e Antonio, mas até ela sentia o peso da escassez. Giovanni via nos olhos de seus filhos uma mistura de fome e sonhos ainda intactos. Ele sabia que, se não tentasse, poderia condená-los a uma vida igual ou pior à sua.

A decisão de partir não foi tomada de forma impetuosa. Giovanni passou noites insones ponderando os riscos e as promessas. Olhava para as colinas brancas de neve, imaginando se algum dia veria outra paisagem além daquela. Quando finalmente decidiu, não foi a promessa de riquezas que o moveu, mas a esperança de que seus filhos crescessem sem as correntes invisíveis que prendiam os camponeses ao solo italiano.

Movido por essa esperança, Giovanni foi ao escritório de emigração na vila vizinha, onde assinou os papéis que oficializavam sua decisão. Ali, com as mãos trêmulas, comprometia-se a embarcar para a Colonia Caxias, em uma jornada que poderia significar a redenção ou a ruína de sua família.

A partida de Sedico foi silenciosa. Os vizinhos se despediram com abraços contidos, desejando boa sorte, mas sem esconder o misto de inveja e alívio. Giovanni e Maria sabiam que deixavam para trás não apenas uma terra exausta, mas também uma vida inteira de memórias. Levaram consigo poucos pertences: uma imagem de São José, algumas roupas remendadas e um saco de sementes, símbolo da esperança que depositavam no novo mundo.

A viagem da família Serafico até o porto de Gênova foi uma prova de resistência física e emocional, marcada por cada etapa de um esforço hercúleo. Ao amanhecer de um dia frio, um vizinho generoso chamado Lorenzo chegou com sua carroça, puxada por dois cavalos robustos. Ele se oferecera para levar a família até a estação de trem na cidade próxima e, depois, retornar à vila com o veículo.

As despedidas foram breves e contidas, como era costume na época. Os Serafico subiram na carroça com suas modestas posses: um baú de madeira contendo roupas e mantimentos, uma cesta com pães e queijos e uma pequena imagem de Santa Lúcia, padroeira da aldeia. Maria segurava Antonio, o mais novo, enquanto Giovanni ajudava Pietro e Lucia a acomodarem-se na estreita carroça. O vento cortante chicoteava seus rostos, mas ninguém reclamava; o silêncio era quebrado apenas pelo som dos cascos dos cavalos sobre o chão congelado.

A estrada até a estação de trem era sinuosa e difícil. Lorenzo, habituado ao terreno, manejava os cavalos com habilidade, desviando das poças de lama e neve acumulada. Giovanni, sentado ao lado de Lorenzo, mantinha-se em silêncio, mas seus olhos observavam cada curva do caminho, como se quisesse gravar a paisagem em sua memória. Maria, por sua vez, fazia o possível para aquecer os filhos com mantos de lã desgastados, enquanto murmurava orações em voz baixa.

Após algumas horas de viagem, chegaram à estação de trem em Feltre. A plataforma estava repleta de famílias como a deles, carregadas de malas e esperanças. Giovanni agradeceu a Lorenzo com um aperto de mão firme e palavras de gratidão, enquanto o vizinho se despedia e prometia rezar pelo sucesso da família em terras distantes.

O embarque no trem foi tumultuado. Os vagões de terceira classe, destinados aos mais pobres, eram lotados e desconfortáveis, com bancos de madeira e pouca ventilação. Apesar disso, a família estava aliviada por estar finalmente em movimento em direção ao destino. A viagem até Gênova duraria quase um dia, passando por belas paisagens e por várias baldeações que adicionavam cansaço à jornada.

As crianças estavam fascinadas pelo trem — uma invenção que parecia mágica para quem vinha de aldeias tão isoladas. Pietro e Lucia, mesmo cansados, olhavam pelas janelas, admirando os campos e montanhas que passavam rapidamente. Giovanni e Maria, entretanto, pouco aproveitavam a vista, preocupados com os próximos passos: o embarque no navio e o início de uma vida completamente nova em terras desconhecidas.

Conforme as horas passavam, o cansaço tornava-se insuportável. Maria embalava Antonio, que chorava de fome e desconforto, enquanto Giovanni distribuía os últimos pedaços de pão entre os filhos. Quando finalmente avistaram a movimentada cidade portuária de Gênova, o alívio foi imediato. Estavam um passo mais próximos do Brasil, mas também diante de um novo mar de incertezas.

O porto era um caos organizado. Milhares de pessoas circulavam entre pilhas de mercadorias, trabalhadores gritando instruções e embarcações de todos os tamanhos balançando no cais. A família foi conduzida para a fila de imigrantes que aguardavam para embarcar no navio que os levaria ao Brasil. Enquanto Giovanni segurava firmemente o baú com seus poucos pertences, Maria abraçava as crianças, protegendo-as do tumulto.

Ao embarcar, sentiam-se exaustos, mas também aliviados por terem superado mais uma etapa. A viagem de navio seria longa e desafiadora, mas no coração dos Serafico ainda ardia a chama da esperança, alimentada pela promessa de uma nova vida em um mundo distante.No entanto, quando finalmente avistaram o navio que os levaria ao Brasil, a visão de sua grandeza trouxe um misto de medo e esperança. Era a primeira etapa de uma jornada que mudaria para sempre o destino dos Serafico.

A viagem foi longa e árdua. De Gênova, embarcaram em um navio que os levou até o porto de Rio Grande. De lá, seguiram por rios e estradas precárias até chegarem à localidade de Nova Milano, na recém-criada Colônia Caxias. Ali, foram recebidos em um barracão construído para abrigar os imigrantes até que recebessem seus lotes de terra.

O terreno destinado à família Serafico ficava no Travessão Santa Teresa da 5ª Légua, uma área coberta por mata virgem. Com ferramentas rudimentares fornecidas pelo governo, Giovanni e seus filhos começaram a desbravar a terra, construindo uma pequena casa de madeira e iniciando o cultivo de milho, trigo e uvas.

As dificuldades eram muitas: o solo pedregoso, o clima rigoroso e a distância de centros urbanos tornavam a vida desafiadora. Maria, além de cuidar da casa e dos filhos, auxiliava na lavoura e na criação de animais. A fé e a união da família eram fundamentais para superar os obstáculos.

Com o tempo, Giovanni percebeu o potencial da viticultura na região. Inspirado por outros imigrantes como Antonio Pieruccini, que introduziu estirpes finas de videira na região, Giovanni começou a investir no cultivo de uvas para a produção de vinho. A qualidade do vinho produzido pela família Serafico logo ganhou reconhecimento entre os colonos.

Em 1890, com a emancipação de Caxias do Sul, a comunidade italiana começou a se organizar social e economicamente. Giovanni participou da fundação da Sociedade São Romédio, uma associação dedicada ao mútuo socorro e à preservação da cultura italiana.

A história da família Serafico é um testemunho da coragem e determinação dos imigrantes italianos que enfrentaram inúmeros desafios para construir uma nova vida no Brasil. Seu legado perdura nas tradições, na cultura e no desenvolvimento da região de Caxias do Sul.


Nota do Autor

Escrever Vida Nova em Nova Milano foi como embarcar em uma viagem ao passado, um mergulho profundo nas vidas dos milhares de imigrantes italianos que deixaram tudo para trás em busca de uma existência digna e cheia de esperanças. Este livro é mais que uma narrativa; é uma homenagem à resiliência, coragem e fé daqueles que cruzaram oceanos e enfrentaram o desconhecido para construir um futuro melhor. As histórias que preenchem estas páginas não são apenas fruto da imaginação, mas são inspiradas nas experiências de incontáveis famílias italianas que, como os Serafico, carregaram seus sonhos em baús improvisados e suas memórias nos corações. Ao retratar essa jornada, procurei honrar o espírito de luta e sacrifício que moldou o cenário de comunidades inteiras no Brasil, em especial nas colônias da Serra Gaúcha. Enquanto pesquisava sobre a imigração italiana, cada detalhe me transportava para a dura realidade da época: as carroças que rangiam sob o peso das esperanças, os trens lotados, os portos abarrotados de despedidas e lágrimas. E, finalmente, o momento em que os pés tocavam o solo de uma terra que, embora prometesse tanto, exigiria muito mais do que simples trabalho – exigiria a alma, o amor e a união daqueles pioneiros. Este livro é uma celebração à vida que se recria em meio às adversidades. Espero que cada leitor sinta as batidas do coração de Giovanni, Maria e seus filhos, e que, por meio das lutas e conquistas dessa família fictícia, encontre eco nas histórias de tantos imigrantes reais. Aos descendentes desses bravos homens e mulheres, que hoje colhem os frutos do que foi semeado com suor, lágrimas e sonhos, dedico esta obra com profundo respeito e gratidão. Que nunca nos esqueçamos da força de quem ousou recomeçar, e que, ao virarmos estas páginas, possamos refletir sobre o verdadeiro significado de lar, de esperança e de pertencimento.

Com admiração,

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



sábado, 20 de dezembro de 2025

A Epopeia da Emigração Vêneta: A Saga dos Italianos no Sul do Brasil e na América


A Epopeia da Emigração Vêneta

A saga dos italianos no sul do Brasil e na América

de Giovanni Meo Zilio

A primeira emigração organizada com partida do Vêneto (em boa parte da província de Treviso e, em menor medida, da Lombardia e do Friuli) remonta a 1875. De fato, a partir daquele ano começaram a chegar ao Brasil — nos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Espírito Santo e, sobretudo, na chamada “zona de colonização italiana” situada no Nordeste do primeiro estado, que hoje tem como centro econômico, comercial e cultural a florescente cidade de Caxias do Sul, com cerca de 500.000 habitantes: milagre de desenvolvimento e modelo de “um outro Vêneto” transplantado e crescido além-oceano. A isso devem ser acrescentadas outras correntes emigratórias, sobretudo para a Argentina e o Uruguai, onde muitos italianos já estavam presentes antes, e, em menor medida, para países menores como o México.

As principais causas do fenômeno emigratório foram, como é sabido, a miséria e a marginalização das classes rurais da época, quando não a própria fome, juntamente com o sonho da propriedade da terra por parte de nossos camponeses (então verdadeiros “servos da gleba”), muitas vezes enganados por propagandas falaciosas e interesseiras, favorecidas, por sua vez, pela ignorância misturada à esperança, que é sempre a última a morrer. Mas deve-se levar em conta também aquele espírito irreprimível de aventura, aquela atração pelo novo e pelo distante que sempre agiu sobre a humanidade e que frequentemente é negligenciado pelos historiadores da emigração.

A travessia atlântica naquela época (no fundo dos porões) foi, por si só, uma epopeia que ainda está presente na memória coletiva, transmitida em episódios comoventes nas lembranças dos velhos e na copiosa literatura popular, sobretudo vêneto-brasileira (cantos, poesias, relatos), que, a partir das celebrações do centenário da primeira emigração “in loco” (1975), explodiu aqui e ali também em formas estilisticamente relevantes. Do mesmo modo, permanece na memória coletiva a epopeia das inenarráveis condições de chegada e de instalação e as lutas da primeira geração para desmatar a montanha com as próprias mãos, para se defender dos animais ferozes, das serpentes, dos índios, das doenças, para construir do nada estradas e habitações, para enfrentar continuamente o medo que se tornava uma obsessão…

Esta história de ilusões e sofrimentos, de heroísmo e humilhações, esta “história interna” da nossa emigração, que representa o reverso da história externa da qual mais se ocuparam os estudiosos, ainda está toda por ser aprofundada.

No que diz respeito ao sul do Brasil, que pode ser considerado emblemático, um primeiro grupo de emigrantes chegou, depois de peripécias e sofrimentos indescritíveis, àquele lugar que hoje se chama Nova Milano, nas proximidades de Caxias do Sul. Do porto de Porto Alegre eles prosseguiam em barcaças ao longo do rio Caí e depois a pé, por quilômetros e quilômetros, através da selva, com as poucas ferramentas e pertences nas costas, abrindo caminho à força de “facão”, até alcançar as terras que lhes haviam sido atribuídas, bem no meio da floresta, ao norte dos territórios planos e mais férteis ocupados pela emigração alemã cinquenta anos antes. Pode-se imaginar o custo humano de tudo isso, depois de terem cortado as pontes atrás de si, vendendo seus poucos haveres antes de partir da Itália.

Os vestígios da primeira colonização ainda podem ser vistos hoje em muitos nomes de lugares, como a citada Nova Milano, Garibaldi, Nova Bassano, Nova Brescia, Nova Treviso, Nova Venezia, Nova Padua, Monteberico…; enquanto outros, como Nova Vicenza e Nova Trento, mudaram posteriormente seus nomes originais para os nomes brasileiros de Farroupilha e Flores da Cunha, em períodos caracterizados por xenofobia. Tal xenofobia do governo central chegou ao ponto de que, nos anos da última guerra, àqueles nossos imigrantes que não sabiam falar o brasileiro, foi proibido (sob pena de prisão) falar a sua língua vêneta, com as consequências morais que é fácil imaginar, além das dificuldades práticas (que muitas vezes desembocavam no tragicômico!) que tudo isso produziu entre aquela pobre gente marginalizada a quem se tirava até mesmo a palavra…

Trata-se, de qualquer modo, de um fenômeno imponente — no Brasil como na Argentina — tanto pela extensão, quanto pela população (da ordem de milhões de descendentes), quanto pela homogeneidade e vitalidade — o qual por mais de um século foi negligenciado, quando não ignorado, pelo governo italiano e por suas instituições.

A imensa maioria das primeiras correntes imigratórias era composta por camponeses que implantaram no novo território as culturas e os métodos agrícolas típicos de suas zonas de proveniência (aos quais se acrescentaram artesãos e comerciantes). A cultura que se impôs sobre as outras foi a da videira, com a consequente industrialização do vinho e dos outros derivados da uva, que ainda hoje representam a maior fonte de riqueza do estado brasileiro do Rio Grande do Sul, que abastece todo o Brasil.

Percorrendo o campo ainda se encontram vivos certos antigos instrumentos (entre nós já quase desaparecidos) da agricultura do século XIX e da vida doméstica de então (em Nova Padua, nas proximidades de Caxias, o monumento ao imigrante, na praça do povoado, é representado solenemente por uma verdadeira “caldeira da polenta” sobre um imponente pedestal). A alimentação no campo ainda é substancialmente a tradicional do Vêneto, à qual se acrescentou o autóctone e indispensável “churrasco” (carne na brasa).

A religião é ainda intensamente seguida e sentida, também porque o clero católico e a organização religiosa acompanharam, desde o primeiro momento, o destino dos emigrantes. Basta pensar que as “capelas” foram até hoje os principais centros comunitários na “colônia” (leia-se campo), não apenas religiosos, mas também de organização social e cultural, e que ao redor delas foram se formando gradualmente as paróquias e os municípios. Em anos recentes, nas aldeias onde não havia um pároco estável, podia-se assistir a cenas, para nós inacreditáveis, como a da população reunida em um galpão que servia de igreja, para celebrar os ritos religiosos sem nenhum sacerdote e sob a orientação daquele que é chamado “padre leigo”, com a participação ativa e solene dos anciãos do lugar.

Quem vive em “colônia”, e conservou em sua maioria o ofício e as tradições dos primeiros emigrantes, até pouco tempo atrás ainda era considerado como marginalizado e visto com suficiência inclusive pelos próprios descendentes de vênetos que habitavam as grandes cidades. Apenas há algumas décadas, desde que foram retomados os contatos efetivos com a Itália, está despertando e se estendendo uma consciência positiva das próprias origens (não mais mito opaco e distante a ser esquecido), com um impulso para reencontrar a identidade histórica: uma busca, muitas vezes comovente, das próprias fontes para restabelecer aquele “cordão umbilical” que havia sido cortado havia mais de 100 anos.

O fenômeno mais imponente dentro desta “história de imigrantes sem história”, como alguém a definiu melancolicamente, é a manutenção, após um século, da própria língua de origem (o vêneto), em nível familiar, interfamiliar e, em determinadas ocasiões (festas, comemorações, jogos, reuniões conviviais, etc.), também em nível comunitário; com um grau de vitalidade e de conservação, no campo, que muitas vezes supera até mesmo aquele do Vêneto da Itália que, como se sabe, ainda está bem enraizado entre nós. Trata-se daquilo que os dialetólogos chamam de “ilha linguística”, relativamente homogênea, onde a língua vêneta acabou triunfando sobre o lombardo e o friulano, estendendo-se como uma “koiné” intervêneta dentro de um contexto heterofônico (o luso-brasileiro). Isso nos permite reconstruir, como “in vitro”, após três ou quatro ou até mais gerações, a língua dos nossos avós e bisavós, sobretudo nos aspectos orais não documentados, como a pronúncia e a entonação, ou o uso de certos provérbios, modos de dizer, cantos da época. Assim, através da história das palavras (as conservadas, as alteradas e as substituídas) podemos reconstruir alguns recortes da história (muitas vezes comovente) daquelas comunidades. Ela, por sua vez, representa um vislumbre dramático e apaixonante da história da Itália e da história do Brasil.

Quem escreve estas linhas é um velho emigrante que experimentou pessoalmente aquilo que muitas centenas de milhares de compatriotas viveram: testemunha direta da situação de quantos, no imediato pós-guerra, atravessaram o oceano amontoados no porão de velhos navios Liberty, restos de guerra, dormindo em beliches de quatro ou cinco camas dispostas verticalmente, com um calor incrível e em condições infernais de promiscuidade. Ele percorreu as Américas de ponta a ponta por muitos anos, desde os áridos planaltos do México até a desolada Patagônia argentina. Por muitos anos na condição de emigrante e depois como estudioso e pesquisador. Como tantos outros emigrantes, viveu na própria carne o drama do transplante, a mortificação dos afetos, a ânsia de tantas ilusões, o naufrágio de tantas esperanças. Não ignora, portanto, ao lado da dimensão histórica do fenômeno migratório, a dor, a fadiga e a coragem que o acompanharam, também porque ele próprio começou de baixo — como se costuma dizer — realizando trabalhos manuais de sobrevivência. Mas a sua história pessoal é pouca coisa diante da história geracional de nossas comunidades, que viveram, sobretudo no imenso Brasil, uma epopeia inenarrável de lutas, sacrifícios, em condições de vida infra-humanas (principalmente as primeiras gerações); epopeia transmitida oralmente (porque na maioria dos casos se tratava de gente que não sabia ler nem escrever) de pai para filho, melhor, de mãe para filha, porque as mulheres, como sempre, são as depositárias das tradições mais vitais e essenciais.

As primeiras gerações enfrentaram, como foi dito, sacrifícios inenarráveis, abandonadas nas florestas; sem Lares e sem Penates, isto é, sem casa e sem família, obrigadas a sobreviver em condições dramáticas. Até sem a palavra, como foi dito acima: sem a palavra não há identidade, não há comunidade nem comunicação, portanto não há vida que possa ser chamada de humana. Mas eles resistiram com os dentes cerrados, com dignidade e coragem, apesar das humilhantes e ardentes condições de inferioridade.

Não só no Brasil, mas também na Argentina e em outros lugares, sobretudo os vênetos, os lombardos e os friulanos, os chamados “polentões” (lembre-se que “polenta”, no rioplatense popular, passou a significar força, coragem), juntamente com os sólidos piemonteses e os industriosos e parcimoniosos genoveses, ofereceram, com as luzes e sombras naturais em todas as coisas humanas, uma contribuição de progresso ao país que os acolheu. Eles conservaram no coração, desde o último quarto do século passado, o sonho e o mito da pátria-mãe, da mãe-madrasta que os abandonou por mais de cem anos. Eles, porém, continuaram a recordá-la e a sonhá-la nos intermináveis “filós” dos estábulos camponeses, na comovida e discreta intimidade familiar, nas emocionadas reuniões comunitárias, nas humildes preces cotidianas.

Através das gerações conservaram, de forma incrível, sua língua, os usos, os costumes, os ritos, as festas, as danças, os jogos (o tresette, as bochas, a mora, a “cuccagna”). Jogos temperados com certas expressões nossas, já não mais blasfemas, porque eufemizadas, como “Ostrega!”, “Ostregheta!” ou “Sacramenta!”. Ainda se ouvem os cantos comunitários de outrora, que em grande parte nós perdemos, e que os ajudaram moralmente a viver, a sobreviver: nos lugares mais perdidos. Nas praças de alguns povoados encontramos, como monumentos, além da “caldeira” da polenta, como já dito, a carroça ou o carrinho de mão, a gôndola veneziana, o leão de São Marcos (inclusive o símbolo do Município de Octavio Rocha, no Rio Grande do Sul, representa o leão de São Marcos que segura firmemente na pata o cacho de uva em vez do livro tradicional!).

Aquelas pessoas, com o saco às costas (com a mala de madeira em uma segunda fase e de papelão em uma terceira), desde o século passado aliviaram nossa pressão demográfica, prestaram um serviço histórico à Itália, aliviaram-nos da fome, sobretudo depois da Segunda Guerra Mundial, com suas remessas, e hoje compram em primeiro lugar produtos italianos e, assim, fortalecem o comércio e a economia do nosso país. Estima-se em mais de 100.000 bilhões o impacto econômico proveniente da colaboração dos nossos emigrantes.

Esse povo é sangue do nosso sangue, gente que sofreu moral e materialmente a marginalização secular e da qual também temos algo a aprender ou reaprender: aqueles valores que hoje, em grande parte, se vão esquecendo.

A Itália, hoje, não pode deixar de honrar a sua dívida secular, histórica, moral e política.

Nota 

Era o mês de Dezembro do ano de 1996 quando, por uma semana, o Prof. Meo Zilio foi hóspede em minha casa, ocasião em que eu o levava todos os dias às casas dos antigos descendentes, para suas visitas e entrevistas.
Nesse período ele me presenteou com este seu artigo, ainda na época inédito ou quase em publicação, não me recordo bem. Conservo-o até hoje como uma bela lembrança do professor amigo.
Para recordá-lo, decidi hoje recolocá-lo neste blog, texto traduzido do italiano mas mantendo a sua forma original.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta


domingo, 24 de agosto de 2025

Vita Nova a Nova Milano


 

Vita Nova a Nova Milano

Inte l'inverno del 1879, le montagne de la provìnsia de Belun, ´nte el Véneto, le zera coerte da 'na capa de neve. Inte 'na pìcola vila del comun de Sedico, ndove vivea la famèia Serafico. Giovanni Serafico, un contadin de 38 ani, fasea fronte a le dificoltà de 'na tera che oramai no gavea pì da mantégner so mòier Maria e i so tre fiòi: Pietro, Lucia e Antonio.

Le novità de tere fèrtili e oportunità ´ntel Brasile rivea spesso ´nte le pì lontan vile a l´interno del Véneto, portà da i agente de emigrassion. Sti òmini, solitamente pagà da compagnie de navigassion o da i rapresentanti del governo imperial brasilian, girava da 'na frasion a l'altra, portando promesse che scaldava el cuor straco dei pòveri contadin. Lori i ga parlà de viàie pagà, aiuto inissial e, el pì tentante de tuto, la possibilità de catar le tere che i lavorava. Par i contadin che da sècoli vivea come servi ´nte le vaste proprietà dei nòbili e dei padron, la possibilità de anca loro diventar paron le zera 'na rivolussion.

Ste promesse le ga trovà eco drento a la testa de òmini come Giovanni Serafico. La vita ´ntel Véneto la zera fata de laoro continuo, poca recompensa e nissuna parola davanti ai paron. Stufi de sempre obedir e de restar ziti, i contadini vardea ´nte l'emigrassion 'na possibilità de romper quela repetission de misèria. Ma no zera tuto sicuro. Mentre qualcuno confermava ste promesse con le lètare mandà dai parenti che i zera già partì prima, altri contava de dificoltà imaginàbil, malatie e promesse mai sostegnù. La domanda le zera sempre la stessa: "Sarà che la sorte ghe vada mèio a noialtri?"

Giovanni, no obstante, se sentiva atirà da l'idea de 'na vita nova. Le lètare de un zerman lontan, che se zera sistemà ´ntel Rio Grande do Sul, parlea de dificoltà, ma anca de progresso. "Qua semo pòveri, ma lìbari, no gavemo da divìder quel che se racòlie con el paron", disea ´na de ste lètare. Ste parole le ga restà ´nte la mente de Giovanni, contrastando con la so realtà de povertà e schiavitù.

Le condission ´nte Sedico la zera pedo ogni inverno. La tera de montagna straca no rendea pì quel che bastava par la famèia. Maria, la mòier, fasea miràcoli par sfamar Pietro, Lucia e Antonio, ma anca lei ga scominsià a sentir el peso de la penùria. Giovanni vedea ´nte i òci dei so fiòi 'na mèscola de fame e sòni ancora vivi. El savea che, se no se venturase, podaria condanar lori a 'na vita ugual o anca pedo de la soa.

La ressolussion de partir no la ze vignesta a caso. Giovanni passò noti intere a pensarghe su, valutando i rischi e le promesse. Guardava le coline bianche de neve, domandandose se un zorno le ghe avaria visto 'na cosa diversa. Quando finalmente desside, no zera par le promesse de richesse, ma par l'idea che i so fiòi podesse crèsser sensa le catene invisìbili che unia i contadin a la tera italiana.

Nota de l'Autore

Scriver Vita Nova a Nova Milano le gera come imbarcarse ´nte un viaio indrio ´nte el tempo, un marguio profundo ´nte la vita dei tanti emigranti taliani che i gavea molà tuto par sercar 'na vita pì degna e pien de speranse. Sto libro le se pì che 'na stòria; el ze 'na dèdica a la forsa, al coraio e a la fede de chi gavea atraversà l'ossean e afrontà lo sconosciuto par costruir un futuro mèio. Le stòrie che i ga impieni sto libro no el ze solo fruto de la fantasia, ma el ze inspirà da esperiense vere de tante famèie taliane che, come i Serafico, i gavea portà i so sòni drento a bauli improvisà e le so memòrie drento ai cuori. In racontar sta zornada, mi gaveo la voia de onorar lo spìrito de lota e de sacrifìssio che gavea modelà tante comunità ´nte el Brasile, spessialmente ´nte le colònie de la Serra Gaúcha.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta