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terça-feira, 31 de março de 2026

Um Adeus ao Vêneto, Um Sonho no Brasil — A Comovente História da Família Piazzetta


A Saga Real de uma Família Italiana do Vêneto que Emigrou para o Brasil


1. As Raízes no Vêneto: Terra, Trabalho e Tradição Italiana

A história real da família Piazzetta, originária de Pederobba, na província de Treviso, é um dos muitos capítulos que revelam a força da imigração italiana no Brasil no final do século XIX. Entre as colinas férteis do Vêneto, aos pés dos Pré-Alpes, essa família viveu séculos marcados por trabalho artesanal, fé católica e amor à terra — valores que cruzariam o oceano junto com eles.

Pederobba, pequeno município vêneto banhado pelo rio Piave, conserva até hoje o encanto das aldeias antigas: ruas estreitas, casas de pedra com telhados de terracota e a torre da igreja que domina o horizonte. Ali, entre vinhedos de Raboso del Piave e Glera — uvas que dariam origem ao famoso Prosecco —, nasceu a trajetória de uma família cuja herança marceneira e coragem se tornariam símbolo do espírito dos emigrantes italianos. As suas ruas estreitas e tortuosas são testemunhas vivas de séculos: vilas e casas de pedra com telhados de terracota, muros que guardam histórias, e a antiga igreja matriz, cuja torre sineira recorta o horizonte e dita o compasso dos dias. 

2. O Ofício Herdado: Tradição da Marcenaria Vêneta e a Família Piazzetta

É nesse mundo costurado por terra, trabalho e fé que conhecemos Giuseppe Piazzetta, filho de Domenico — nascera em 1808, vindolocalidade de Fener, no vizinho município de Alano di Piave. Giuseppe cresceu entre formões, plainas e serras, e aprendeu desde cedo com o pai os segredos da marcenaria: a paciência do corte, o respeito pela madeira, o sentido do encaixe perfeito. Quando jovem, moveu-se com a família para Pederobba por motivos de trabalho, e ali fincou raízes: a oficina no térreo da casa de dois pisos, no antigo bairro chamado Ghetto, tornou-se centro e destino. O cheiro de madeira recém-cortada e resina impregnava o ambiente; as paredes exibiam ferramentas antigas, passadas de geração em geração; a luz das grandes janelas fazia dançar no pó as partículas de um ofício que era herança e destino.

Foi ali, naquela oficina marcada por mãos calejadas, que cresceu e aprendeu Francesco, filho de Giuseppe — um rapaz de olhar vivo e azul penetrante. Desde cedo, Francesco mostrou destreza ímpar: dedos ágeis que transformavam troncos brutos em peças úteis e belíssimas, traços firmes ao entalhar uma cadeira, paciência de artista ao montar a estrutura de uma casa. A oficina, que anos depois herdaria de seu pai Giuseppe, ganhou sob suas mãos renome e respeito: de agricultores a nobres proprietários de vilas, todos vinham buscar a precisão, a resistência e a beleza das peças saídas do pequeno ofício.

Na vida cotidiana de Pederobba havia um ritmo quase ritual — as tradições guardadas, as festas das colheitas, as celebrações religiosas, as conversas nas praças entre lavradores e artífices. As crianças corriam pelas ruas, os anciãos trocavam memórias à sombra das árvores e o trabalho moldava corpos e pensamentos. Mas sob a superfície serena, vinham rumores de mudança: as transformações políticas e sociais que varriam a Europa chegavam até o vilarejo, nas conversas sussurradas, nas cartas que chegavam amareladas. Francesco, de mente inquieta e espírito curioso, sentia crescer em si uma angústia que não sabia nomear — a pergunta sobre o seu papel naquele mundo a mudar.

3. Amor, Luto e a Decisão de Partir para o Brasil

Foi numa dessas festas tradicionais da região que Francesco encontrou Maria Augusta Verri, moça nascida na vizinhança dos vales de Segusino, filha do proprietário de uma estalagem que servia de pouso aos balseiros que retornavam a pé de Veneza após as descidas do Piave. Maria Augusta tinha cabelos negros como a noite e olhos em que algo de sereno brilhava; sua presença aquietava a sala e dava calor às conversas. O encontro irrompeu como um instante decisivo: mais tarde casaram-se em Segusino, no verão seguinte — igreja e praça transformadas em festa, o cheiro de flores de laranjeira no ar, risos e vinho partilhados até o crepúsculo. Francesco Piazzetta tinha 26 anos de idade e Maria Augusta Verri 21.

Francesco reformou para Maria a antiga casa de madeira de dois pisos com as próprias mãos. A casa era simples, sólida, com janelas que emolduravam vistas do Piave e das montanhas; ali nasceriam os cinco filhos: a primogênita Giuseppina(Pina para a família), Giovanni Battista — carinhosamente GioBatta —, as irmãs Maria Augusta (recebendo o mesmo nome da mãe), Colomba, e por fim o caçula Noè. Cada um cresceu entre o cheiro da madeira e o som do ofício; Giovanni herdou do pai a força e a precisão; Noè trazia no rosto a expressão serena que lembrava o avô Giuseppe.; as irmãs eram inseparáveis nas explorações dos bosques próximos. Em casa, o alimento vinha da terra e do esforço: ao redor da grande mesa, partilhavam-se pedaços de pão, polenta e vinho caseiro — pequenas certezas diante da precariedade.

A oficina era mais que trabalho: era identidade. Junto ao carpinteiro renomado que o próprio Giuseppe tornara, Francesco via os troncos se transformar em móveis que atravessavam gerações. Clientes vinham de longe: agricultores que buscavam robustez; proprietários das vilas em busca de elegância. Sob a luz que entrava pelas janelas, a serragem era testemunha dos dias laboriosos; e, nas mãos de Francesco, a madeira ganhava forma e, com ela, o sustento da família.

Mas o mundo além das colinas sussurrava promessas. A Itália, já unificada, não era o lugar próspero que se imaginara: impostos pesavam, colheitas falhavam por intempéries; as conversas na praça, diante da igreja, frequentemente deslizavam para relatos de terras distantes onde o trabalho parecia farto. Francesco ouvia com atenção. Aprendera com seu pai a honrar o ofício, mas sentia que as raízes de Pederobba não segurariam todos os seus filhos. O desejo de oferecer-lhes futuro o corroía por dentro como uma maré.

Em 1886, a tragédia que abrira uma ferida definitiva: Maria Augusta, aos 42 anos — mulher de fibra, incansável no trabalho e mãe dedicada — foi vencida por um câncer de mama. A doença roubou-lhe as forças em silêncio, e a casa mergulhou num luto que ocupou cada canto. Para Francesco, já com 47 anos, a perda foi um abismo. O silêncio após a partida dela pesava mais que qualquer fadiga do ofício. Viúvo, cansado e sem a presença que ordenara os dias, apoiou-se nos filhos; Pina, a primogênita, assumiu com maturidade precoce as tarefas da mãe, sustentando o lar e trazendo um fio de ordem aos dias marcados pela ausência.

Algum tempo depois, quando Giuseppina casou-se, a casa perdeu outro pilar. A partida da filha mais velha acentuou a solidão de Francesco e deixou clara a dura verdade: sozinho, ele não conseguiria garantir um futuro digno aos filhos que ainda viviam sob seu teto. A Itália mostrava-se estéril para sonhos que exigiam chão e oportunidades. Entre vizinhos e parentes, nas conversas longas nas noites de inverno, começou a amadurecer no peito de Francesco uma ideia que muitos já haviam tido antes: emigrar para o Novo Mundo — o distante Brasil, terra de lendas e possibilidades, onde compatriotas relatavam recomeços.

A decisão foi prática e dolorosa: vendeu a casa, o pequeno terreno e os bens que podiam ser desapegados. Reuniu o modesto patrimônio que acreditava suficiente para recomeçar. As cartas que chegavam de amigos e parentes que já haviam cruzado o oceano falavam de Curitiba, cidade jovem rodeada por colinas e pinheirais, com clima que lembrava o do Vêneto; falavam também de núcleos de imigrantes que abriam estradas, cultivavam a terra e erguendo novas esperanças. Tudo isso, lido entre brasas de saudade, alimentou a convicção final. Partiriam.

4. A Travessia dos Emigrantes Italianos: Do Piave ao Atlântico

No final de novembro de 1890 — quatro anos após a morte de Maria Augusta —, quando o outono já se curvava ao inverno, a família se despediu de Pina — filha e irmã que ficaria em Pederobba pois já tinha a sua própria família. A despedida foi de um silêncio cortante: soluços contidos, olhares firmes, mãos que se apertavam como se a separação pudesse ser retardada por força de vontade. Partiram ainda na penumbra, quando a primeira claridade se insinuava sobre telhados cobertos de neve. Seguiram a pé até a estação de Cornuda, caminho longo e gelado, com vento cortante e corações pesados. O apito do trem soou como sentença; ao embarcarem, Francesco olhou as montanhas do Vêneto pela última vez e sentiu escapar uma lágrima.

O trem os conduziu a Gênova, onde o porto fervilhava de gente e esperança. Entre malas, gritos e o cheiro salgado do mar, avistaram o navio Adria, imenso e escuro, balançando nas águas. Aquele colosso de ferro seria morada e provação nas semanas seguintes: a travessia marcaria uma ruptura profunda entre o que se deixava e o que se buscava. No porão e nos convés, viveram o peso da viagem: espaços exíguos, ar pesado, o balanço incessante. À noite o frio rasgava até os ossos; durante o dia, o calor e a umidade faziam o ar quase sufocante; o sono vinha fragmentado, perturbado pelo ranger das madeiras e pelo rumor dos motores. Crianças choravam por comida e terra firme; adultos recolhiam-se em silenciosa contemplação.

Apesar da ausência de grandes tempestades, as semanas a bordo deixaram marcas: a monotonia do mar que engolia o horizonte, a saudade que apertava o peito, o jornal diário dos pequenos afazeres que se repetiam. Francesco, muitas vezes, sentava-se no convés ao entardecer, acompanhando o poente como se buscasse nas cores do céu um sinal da Itália que se perdia atrás das ondas. E quando, enfim, as belas montanhas se desenharam no horizonte e o sol cintilou sobre as águas da vasta baía do Rio de Janeiro, um arrepio de emoção percorreu a família — a travessia chegava ao fim, e diante deles se abria o mistério de um novo destino.

5. O Novo Mundo: A Chegada dos Imigrantes Italianos 

  • Da Ilha das Flores à Colônia Dantas no Paraná

Ao chegarem ao Brasil, foram submetidos aos trâmites habituais: exames médicos, registros e verificações. Francesco e os seus foram encaminhados à Hospedaria da Ilha das Flores, onde permaneceram por dois dias. O edifício, amplo e barulhento, fervilhava de vozes em dezenas de línguas, de crianças chorando e de mulheres que tentavam, com ingredientes novos, cozinhar algo que lembrasse casa. Aquele lugar era de passagem, de recepção e de espera. Em dois dias provaram o calor úmido, o aroma intenso do café, a luz que parecia ferir os olhos acostumados às neblinas do Vêneto. A saudade persistia, mas a expectativa também crescia.

Na manhã do terceiro dia foram chamados e receberam ordem de embarcar novamente: o navio da costa seria o Maranhão, casco escuro e calado raso, apropriado às águas costeiras do sul. Subiram com seus poucos pertences, misturados a outros imigrantes que seguiam para as colônias no Paraná. O Maranhão deixou o porto do Rio sob sol abrasador e seguiu rente à costa. O mar alternava entre calmaria e inquietação; a brisa trazia odores novos, promessas e algum temor.

Dias depois, avistaram Paranaguá, porto cercado por montanhas e mata densa. O silêncio reverente tomou o convés; ali começaria sua nova vida. Francesco sentiu, ao respirar o ar quente e pesado do litoral, que deixava, enfim, o passado um pouco mais distante. De Paranaguá embarcaram no trem que venceria a íngreme Serra do Mar rumo a Curitiba. O velho comboio avançava lentamente, rangendo sobre trilhos úmidos, serpenteando entre abismos e encostas cobertas por uma vegetação que parecia inexplorada. Pela janela, a família contemplou cascatas, neblinas como véus e um mundo vegetal tão denso que quase não cabia na imaginação.

Para olhos habituados às vinhas e às colinas do Vêneto, aquele mundo tropical era outro planeta: árvores que subiam ao céu, folhas de brilho intenso, cantos de aves desconhecidas. Entre o espanto e a emoção, prevalecia o silêncio observador. Francesco mantinha o olhar fixo, com o filho mais velho ao lado, e pensava nos que ficavam — na filha Pina, na cidade — e no que seria preciso construir do nada. Ao ganhar altitude, o ar tornava-se mais ameno, lembrando-lhe, em migalhas, a terra que deixara. E quando, ao entardecer, avistaram as primeiras casas de Curitiba, uma emoção profunda o percorreu: parecia encontrar, naquele recanto distante, algo que poderia ser chão para seus passos.

6. O Recomeço na Terra Vermelha do Paraná: A Vida dos Imigrantes

Da estação, seguiram em carroça rumo à Colônia Dantas. Francesco, com a ajuda de um amigo ali residente, já havia adquirido um lote que julgou promissor. A estrada enlameada e sinuosa, puxada por bois, serpenteava por clareiras e matas; o cheiro de terra molhada e pinheiros recém-cortados impregnava o ar. A cada curva, uma nova paisagem se descortinava: casas de madeira fumegando entre neblinas, riachos cristalinos, e a presença humana ainda esparsa naquele território.

Ao chegarem ao lote, o cansaço deu lugar ao espanto. Diante deles erguiam-se uma pequena casa de madeira, aparência precária, tábuas gastas e telhado remendado com zinco; buracos nas paredes deixavam entrar vento; o chão de terra batida denunciava abandono. Mas para os recém chegados a cabana era mais do que abrigo: era o primeiro lar em terras brasileiras, a base de uma nova vida. improvisaram com o pouco que possuíam: acenderam fogo, prepararam uma refeição simples com mantimentos trazidos da cidade, e o crepitar da lenha fez com que sombras dançassem nas paredes irregulares.

Naquela noite, Francesco sentou-se à soleira da porta e observou o céu. Pensou no longo caminho — nas vinhas do Vêneto, no ofício herdado, na filha Pina — e soube que ali, naquele pedaço rude de chão, começava o verdadeiro trabalho de recomeçar. O frio noturno cortava a pele, mas dentro da cabana havia um calor maior que a lenha: a certeza de chegada, a esperança de plantar raízes.

7. A Herança da Madeira e da Fé: o Legado da Família   Piazzetta

Os primeiros meses foram de esforço extenuante, de pequenas conquistas e de adaptação. A Colônia Dantas era ainda amontoado de casas, picadas pelo campo e o som constante de ferramentas agrícolas; o trabalho exigia horas a fio; porém, para Francesco, as mãos ainda guardavam firmeza e precisão — ferramentas antigas, serrotes, plainas, formões e martelos trazidos de Pederobba, embrulhados com cuidado, eram mais que instrumentos: eram a continuidade de uma linhagem que transformava madeira em abrigo e sustento. Com o auxílio do filho mais velho, Giovanni, construiu um galpão de tábuas ao lado da casa; Noè, com nove anos, observava em silêncio, correndo entre as pilhas de madeira, ajudando com pregos e varrendo as lascas.

No início, encomendas eram raras; a colônia ainda precisava se organizar e poucos tinham recursos para móveis elaborados. Pai e filho aceitaram todo trabalho: colaborar em construções de casas, pontes e celeiros; serrar tábuas para os vizinhos; e, quando possível, trabalhar na cidade. Em Curitiba encontraram serviço junto à Estrada de Ferro do Paraná, colaborando na montagem e no reparo de interiores de vagões — bancos, divisórias, caixotes, suportes — com o mesmo zelo que dedicavam a um móvel doméstico.

A rotina era dura: saíam de madrugada, regressavam ao entardecer cobertos de serragem, e retornavam exaustos. Mas a satisfação vinha do trabalho honesto: aos domingos, Francesco afiava lâminas, ajustava ferramentas e transmitia a Giovanni e Noè os segredos do ofício — o encaixe perfeito, o polimento até o brilho. Aos poucos, a oficina começou a ganhar nome entre os vizinhos da colonia e alguns moradores de outros locais da cidade. Mesas, arcas, camas, janelas passaram a sair do galpão; o cheiro da madeira nova tornou-se o perfume do lar.

Quando o movimento aumentou, pai e filho decidiram dedicar-se exclusivamente à marcenaria. Naquele galpão, sob a luz tênue da lamparina, Francesco sentiu renascer algo que julgara perdido na travessia: a dignidade do ofício e a sensação de pertencer. Cada peça que deixava suas mãos não era apenas trabalho, mas fragmento de esperança, elo entre o velho mundo deixado para trás e o novo que ajudavam a construir.

E assim, no chão vermelho do Paraná, entre suor e serração, a família reconstituía-se: memórias do Vêneto preservadas na língua, nos costumes, nas ferramentas; a terra brasileira transformada pelo trabalho em sustento; e a certeza, mais forte do que o medo, de que haviam feito a escolha necessária para assegurar um futuro aos filhos. A saga de uma família — nascida sob as colinas do Piave, erguida pelo ofício da madeira e moldada pelas perdas — prosseguia, resistente como o próprio carvalho que um dia dariam forma às mãos. 

8. Nota do Autor uma História Verdadeira da Imigração Italiana

Esta obra, “A Saga Real de uma Família Italiana do Vêneto que Emigrou para o Brasil”, não é apenas uma narrativa literária — é a reconstrução de uma história verdadeira, nascida da própria memória familiar do autor.

Os acontecimentos aqui relatados têm origem nas lembranças transmitidas de geração em geração em antigas cartas guardadas com devoção e nos registros que resistiram ao tempo. Cada personagem, cada gesto e cada decisão refletem o caminho real percorrido pelos antepassados que, no final do século XIX, deixaram a pequena Pederobba, na província de Treviso, para tentar a vida no Brasil.

Mais do que uma viagem geográfica, esta é uma travessia humana. É o relato da coragem e da dor de uma família comum que, como tantas outras, enfrentou a incerteza do oceano e o desafio de começar do nada em uma terra distante.

O autor buscou reviver não apenas os fatos, mas o espírito daquela época — o silêncio das despedidas, o cansaço das travessias, o espanto diante da nova paisagem, e, sobretudo, a esperança que sustentou aqueles que vieram antes de nós.

Assim, “Pederobba 1890” é também um ato de gratidão: um modo de dar voz aos que não puderam contar sua própria história, e de preservar, entre a lembrança e o afeto, a herança moral e cultural que moldou tantas famílias descendentes de italianos no Brasil.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta




sábado, 28 de março de 2026

Entre a Esperança e o Destino

 


Entre a Esperança e o Destino

De Roverchiara às colônias do Brasil


Roverchiara, o Adeus

Na planície fértil de Verona, onde o rio Adige serpenteava preguiçoso antes de se enfurecer nas cheias, erguia-se o pequeno município de Roverchiara. Ali nascera Alessandro Bonora, filho de camponeses que durante gerações haviam lutado contra o mesmo inimigo: a terra ingrata, que no verão ressecava ao sol ardente e no inverno era tomada pelas águas violentas. O campanário da igreja marcava as horas com seu sino rouco, lembrando a todos que a vida era curta e o trabalho incessante.

As manhãs começavam com o cheiro acre do estrume espalhado nos campos e o barulho dos arados de madeira rangendo sob a força dos bois. Alessandro crescera nesse cenário, aprendendo desde cedo que os braços eram a única riqueza de um homem. O pai dizia que quem não tivesse força para a enxada não teria pão na mesa. Ele próprio conhecera os anos de fome, quando o milho apodreceu nas espigas e as famílias sobreviveram apenas com polenta rala e raízes arrancadas da beira do rio.

Na década de 1880, a Itália unificada parecia mais distante que nunca para aqueles camponeses. O novo governo aumentava impostos, cobrava o serviço militar obrigatório retirando braços fortes do campo e pouco ou nada oferecia em troca. O Vêneto, antes dominado pelos austríacos, era agora apenas uma província pouco industrializada, com falta de postos de trabalho remunerado, quase esquecida de um reino instável. Nas feiras de Verona, circulavam rumores de uma terra além-mar onde a vida recomeçava. O Brasil, diziam, abria as portas aos imigrantes, oferecendo terras férteis e liberdade. Os agentes de emigração percorriam as aldeias com panfletos coloridos e promessas sedutoras, descrevendo plantações infinitas de café e salários que pareciam sonhos.

Foi nessa atmosfera que Alessandro tomou sua decisão. Não fora um impulso, mas um acúmulo de desilusões. O campo já não alimentava a todos; a família se dividia entre parcelas de terra cada vez menores; e a juventude parecia escoar-se sem futuro. Olhava para os irmãos mais novos e sentia-se responsável por abrir um caminho, por arriscar-se em busca de algo que pudesse salvar o nome dos Bonora da miséria.

Os dias que antecederam a partida foram de despedidas dolorosas. Cada gesto, cada cheiro da aldeia se transformava em memória. O som das águas do Adige batendo contra as margens, o vento frio do inverno que varria os becos estreitos, o calor das procissões que reuniam toda a vila em torno da pequena igreja. Sabia que talvez nunca mais veria nada daquilo.

A mãe, de mãos calejadas, preparou-lhe uma sacola com pão duro, queijo curado e uma pequena estampa de Nossa Senhora. O pai, homem de poucas palavras, apenas lhe tocou o ombro, gesto que dizia mais do que qualquer bênção. Alessandro, ainda jovem, sentiu o peso da responsabilidade cair-lhe sobre as costas como um fardo inevitável. Não partia apenas por si, mas por todos os que ficavam.

Na madrugada fria de março de 1889, atravessou os quase 30Km da estrada de terra que ligava Roverchiara a Verona. O coração batia em ritmo apressado, dividido entre o medo do desconhecido e a esperança de um futuro melhor. Carregava um casaco gasto, algumas moedas costuradas na barra da calça e a convicção de que, do outro lado do oceano, haveria espaço para recomeçar.

Na estação ferroviária de Verona, encontrou outros homens como ele, vindos de aldeias vizinhas: jovens, mães com crianças pequenas, velhos que ainda acreditavam no milagre da emigração. Todos carregavam malas improvisadas, embrulhos de pano, sacolas cheias de pão e saudade. O trem de terceira classe, lento e abafado, os levou em direção a Gênova. Ali, diante do imenso porto, Alessandro viu pela primeira vez o navio que o arrancaria da Itália. Era uma montanha de ferro e madeira, cercada de gritos, mercadorias, choros e cantorias.

Enquanto embarcava, Alessandro voltou-se uma última vez para imaginar o campanário de Roverchiara tocando o sino das seis. Naquele instante, compreendeu que deixava para trás não apenas sua terra natal, mas também a própria infância. O navio soltou fumaça, o apito ecoou sobre as águas e a Itália começou a desaparecer atrás dele, reduzida a uma linha tênue no horizonte.

O destino chamava-o para longe. E, sem saber, Alessandro Bonora se lançava em uma travessia que mudaria sua vida para sempre.

Gênova e a Travessia

O porto de Gênova se apresentava como um mundo de sons e cheiros que Alessandro jamais imaginara. Barracas coloridas vendiam frutas e peixes, marinheiros gritavam ordens, cordas rangiam sob o peso das mercadorias, e barcos menores cruzavam o cais em um balé desordenado. Alessandro segurava firme sua sacola de pano, observando a multidão de homens, mulheres e crianças que, como ele, deixavam tudo para trás. Cada rosto contava uma história de fome, esperança e coragem.

Ao se aproximar do enorme navio que o levaria ao Brasil, seu coração bateu mais forte. Era uma montanha de ferro e madeira, negra como carvão, com janelas pequenas que pareciam olhos atentos ao mar. A fumaça saía da chaminé em cortinas espessas, misturando-se ao cheiro salgado da água e à madeira antiga do cais. Ele sentiu uma pontada de medo — não pela travessia, mas pelo desconhecido que o aguardava do outro lado.

Os dias que se seguiram à partida foram de adaptação e aprendizado. O navio era abarrotado; homens e mulheres dividiam o espaço como animais de curral, sem conforto, sem privacidade. Alessandro, que antes trabalhara apenas na terra, agora lutava contra enjôos provocados pelo balanço constante do mar e pelo cheiro forte de comida estragada que circulava entre os conveses inferiores. O sono era raro e interrompido pelo choro das crianças, pelas discussões e pelo ranger das madeiras sob a pressão das ondas.

Ele conheceu outros emigrantes que, como ele, carregavam histórias pesadas nas costas. Um jovem de Vicenza falava de uma irmã doente deixada para trás; uma mãe de Parma chorava pela filha pequena, embalada pela insegurança do futuro; um velho de Trento, curvado pelo tempo, parecia carregar todos os anos de Europa nas suas costas. Alessandro ouvia-os com atenção, e cada relato reforçava seu próprio sentimento: ele não estava sozinho, mas todos eram vulneráveis diante daquele oceano imenso.

As refeições eram escassas e frugais. Polenta rala, alguns pedaços de carne salgada, pão duro que se desfazia na boca. A água doce, limitada, era guardada como tesouro. Alessandro aprendeu a dividir, a observar e a respeitar o espaço do outro, pois naquele navio todos eram iguais na necessidade. Entre trabalhos simples — como carregar baldes de água e ajudar a limpar os conveses — e longos momentos de espera, o jovem refletia sobre Roverchiara: o cheiro da terra, o toque da mãe, o silêncio firme do pai. Cada memória o fortalecia, mas também lhe pesava no peito.

O mar, às vezes calmo, às vezes revolto, ensinou-lhe que o mundo era maior e mais imprevisível do que qualquer campo ou estrada de Verona. Tempestades chegavam sem aviso, e Alessandro via a fúria das ondas bater contra o casco do navio, levantando cortinas de água salgada que molhavam os passageiros. O medo se misturava à adrenalina; cada onda vencida era uma pequena vitória sobre si mesmo. A noite, entretanto, era quando a solidão se tornava mais profunda. Deitado em um pequeno leito de madeira, Alessandro olhava para o teto do convés e imaginava o céu estrelado sobre sua vila, sentindo a distância quase impossível de atravessar.

Apesar de tudo, havia momentos de esperança e união. Cantorias surgiam espontâneas nos conveses, histórias eram contadas em voz baixa e risos surgiam entre lágrimas. Alessandro percebeu que, embora cada um carregasse sua própria dor, todos compartilhavam o mesmo sonho: uma nova vida, uma oportunidade de começar de novo. Ele se sentia parte de algo maior, uma corrente de coragem que avançava pelo oceano.

Quando os primeiros sinais da costa brasileira surgiram, em forma de aves marinhas e o cheiro úmido de terra, um misto de cansaço, alívio e emoção invadiu Alessandro. Finalmente, depois de semanas de balanço, enjôos e noites sem dormir, o horizonte oferecia a promessa de novas terras. Ele não sabia o que encontraria, nem se as promessas dos agentes de imigração seriam verdadeiras. Mas sabia, com uma certeza profunda, que a viagem o transformara. Já não era apenas o jovem de Roverchiara; era um homem que havia atravessado o mundo, carregando em si a esperança e o peso da sua família.

E assim, enquanto o navio deslizava lentamente pelos últimos quilômetros até o porto de Santos, Alessandro Bonora se preparava para o segundo ato de sua vida: desembarcar em uma terra estranha e começar do zero.

Chegada ao Brasil

O navio finalmente aportou no porto de Santos, e o calor úmido do Brasil envolveu Alessandro como um manto desconhecido. O cheiro intenso do mar misturado ao suor, ao vapor das mercadorias e ao perfume de frutas tropicais fazia-lhe lembrar, com ironia, os dias frios de Roverchiara. Tudo era estranho: as vozes, a língua, os gestos e o ritmo acelerado da cidade portuária, onde marinheiros, trabalhadores e emigrantes se cruzavam em uma dança caótica de ordens e pressa.

Alessandro passou pelas formalidades da imigração, sentindo a burocracia como mais um obstáculo entre ele e a liberdade prometida. Havia filas longas, papéis a preencher, carimbos a receber — cada movimento exigia paciência e atenção. Ele soube de outros homens que recebiam ordens, ajudavam familiares e tentavam organizar remessas de dinheiro para os que ficavam na Itália. Nas cartas que esses emigrantes escreviam, lia-se a mesma angústia que sentia: o medo da doença, a distância da família e a necessidade de sobreviver em terra estranha.

As horas de espera e o calor escaldante testavam sua resistência. Alessandro sentia-se exausto, com a mente a correr entre a lembrança da mãe e do pai, a saudade da irmã e o peso da responsabilidade sobre os irmãos mais novos. Como Giuseppe, ele sabia que cada decisão tomada naquele instante poderia mudar não apenas sua vida, mas a de todos que esperavam notícias na Itália. Cada moeda, cada palavra, cada gesto de cuidado tinha valor imensurável.

Ao finalmente deixar o porto, o trem que o levaria ao interior da província de São Paulo se transformou em um novo tipo de viagem, cheia de paisagens inesperadas: rios largos, matas densas, terras férteis e, ao longe, a promessa de fazendas de café. Alessandro observava tudo com olhos atentos, tentando memorizar cada detalhe, imaginando como poderia transformar aquele mundo em seu novo lar.

Chegando à colônia destinada aos imigrantes, encontrou famílias em condições semelhantes: jovens como ele, mães com filhos pequenos, idosos carregados de saudade. A adaptação começou imediatamente. Ele trabalhou nos primeiros dias sob sol intenso, carregando pedras, limpando terrenos e preparando pequenas moradas provisórias. A vida exigia força física, resistência e inteligência emocional; não havia tempo para desânimo. A necessidade de enviar algum alívio financeiro à família na Itália transformava cada esforço em urgência, cada gota de suor em promessa cumprida.

À noite, Alessandro escrevia cartas imaginárias, assim como muitos antes já haviam feito, pensando em como transmitir notícias de saúde, segurança e esperança aos parentes. Ele tentava, mesmo à distância, confortar o coração de quem permanecia em Verona, consciente de que cada linha escrita era um elo invisível entre mundos distantes. O Brasil, embora belo e vasto, ainda era uma terra de desafios e incertezas. Mas, pela primeira vez desde que deixara Roverchiara, Alessandro sentiu que estava construindo algo próprio, um caminho que, apesar das dificuldades, poderia garantir um futuro digno para ele e para sua família.

E, entre o cansaço e a ansiedade, ele percebeu que a verdadeira travessia não havia sido apenas pelo mar, mas pela coragem de enfrentar o desconhecido, de se reinventar e de carregar nas costas o peso da esperança de toda uma família.

A Colônia e o Trabalho

O primeiro contato com a colônia foi marcado por uma sensação de isolamento. A mata fechada, densa e úmida, parecia engolir os recém-chegados, como se quisesse provar-lhes que a vida ali não seria um presente fácil, mas um combate diário. Alessandro desceu do trem que o trouxera da porto e sentiu o chão irregular, coberto de raízes e pedras. Não havia mais os campos ordenados de Roverchiara, nem os sinos da igreja marcando as horas. Naquele silêncio profundo da mata, apenas o canto dos pássaros e o eco distante dos machados lembravam que homens lutavam para abrir espaço em meio à vastidão verde.

As primeiras semanas foram de trabalho incessante. A cada manhã, Alessandro se juntava aos outros colonos para derrubar árvores gigantescas, cortar troncos pesados e carregar toras que pareciam não ter fim. O suor escorria-lhe pelo rosto e a camisa se encharcava rapidamente sob o calor sufocante do Brasil. As mãos, acostumadas à enxada leve e ao arado puxado por bois, agora se enchiam de calos e cortes. Cada músculo reclamava em dor, mas ele continuava, movido por uma força que vinha não só da juventude, mas da responsabilidade que carregava em nome de sua família distante.

As moradias improvisadas eram pequenas cabanas de madeira, cobertas com folhas de palmeira ou telhas mal alinhadas. Dentro, o chão de terra batida servia de cama para os que ainda não tinham conseguido improvisar móveis. Alessandro dividia o espaço com outros jovens, cada um trazendo no olhar a mesma mistura de medo e esperança. À noite, os corpos exaustos repousavam em silêncio, interrompido apenas pelo choro de crianças ou pela tosse seca de algum velho debilitado pela viagem.

A carta do emigrante Giacomo Masuetto circulava de mão em mão entre os colonos, como um testemunho vivo do que todos enfrentavam. Alessandro a ouviu lida em voz alta certa noite, sob a luz bruxuleante de uma lamparina. As palavras de dor e de súplica encontraram eco em seu coração: falava-se de enfermidades contraídas logo após a migração, da visão enfraquecida, das pernas castigadas, das dificuldades em sustentar a família. Mas também havia ali uma mensagem de fé, de confiança nos filhos e irmãos que deveriam unir forças para sobreviver. Alessandro fechou os olhos e viu o rosto do próprio pai, que poderia muito bem ter escrito aquelas linhas. Sentiu-se chamado, mais uma vez, à responsabilidade de não fraquejar.

O trabalho no forno da colônia foi outra experiência marcante. Alessandro ajudava a queimar toras e a reparar fornalhas, sentindo o calor intenso que o consumia de dentro para fora. As roupas se encharcavam de suor, o corpo clamava por descanso, mas a mente repetia que cada dia de esforço era um passo em direção a uma vida mais digna. Muitos adoeciam — febres tropicais, feridas infeccionadas, fraqueza causada pela alimentação pobre —, e o jovem compreendeu que a sobrevivência não dependia apenas da força do braço, mas também da solidariedade entre os companheiros.

As refeições eram modestas, lembrando-lhe os tempos de fome na Itália. Feijão grosso, arroz empapado, farinha de mandioca, às vezes um pedaço de carne seca. Mesmo assim, Alessandro agradecia em silêncio, pois sabia que em Roverchiara muitos ainda passavam fome, sem sequer uma promessa de futuro. No coração, crescia-lhe a convicção de que cada gota de suor deveria transformar-se em carta, em notícia enviada para longe, garantindo aos que ficaram que o sacrifício não era em vão.

Com o tempo, o mato derrubado começou a dar lugar a pequenos roçados. Os colonos plantaram milho, feijão e mandioca, abrindo clareiras onde antes apenas a floresta dominava. Alessandro olhava para aquele solo vermelho, úmido e fértil, e se perguntava se realmente seria capaz de criar raízes ali, tão distante do campanário de Roverchiara. A saudade ainda pesava, mas a vida não lhe dava escolha: era preciso resistir, trabalhar, acreditar.

Foi nesse período que Alessandro descobriu um novo tipo de fé. Não a fé do sino da igreja, mas a fé silenciosa, nascida da luta diária, da mão estendida de um vizinho, da coragem de recomeçar a cada manhã. O Brasil não lhe entregara as promessas fáceis dos panfletos, mas lhe mostrava que, apesar da dor, havia espaço para construir algo duradouro.

E assim, entre o machado e a enxada, entre cartas lidas à luz da lamparina e a lembrança de um pai distante, Alessandro Bonora se transformava. Já não era apenas o jovem que partira de Roverchiara em busca de esperança. Era agora colono, trabalhador e testemunha viva de que a migração não era uma viagem, mas uma batalha cotidiana, onde cada dia vencido era um triunfo silencioso sobre a adversidade. 

Nota do Autor

A história que o leitor tem em mãos nasceu da memória preservada pelos descendentes de Alessandro Bonora, que com ele conviveram e guardaram suas lembranças como um legado precioso. Cada episódio aqui narrado foi transmitido ao longo das gerações, em conversas de família, em cartas antigas e em relatos que resistiram ao tempo. Por respeito e para preservar a intimidade daqueles que viveram tais acontecimentos, os nomes foram alterados. Contudo, a essência permanece intacta: a coragem, a dor da partida, a dureza da travessia e a esperança depositada na nova terra.
Este trecho faz parte de um trabalho mais amplo, um livro escrito sob o mesmo título, cuja intenção maior é valorizar a memória dos pioneiros que, como Alessandro, cruzaram o oceano para construir com suor e sacrifício a base de uma nova vida. Mais do que personagens, são símbolos de uma herança que nos define e nos acompanha.

Dr. Piazzetta



quarta-feira, 25 de março de 2026

A Imigração Italiana e a Formação do Interior Paulista

 


A Imigração Italiana e a Formação do Interior Paulista


Ao longo dos séculos XIX e XX, a América recebeu milhões de europeus em busca de novas oportunidades. Entre eles, destacaram-se os italianos que vieram para o Brasil, especialmente a partir da segunda metade do século XIX. Sua chegada esteve diretamente ligada à crise do sistema escravista e à expansão da economia cafeeira no interior de São Paulo.

Com o fim do tráfico de africanos escravizados em 1850 e a abolição definitiva da escravidão em 1888, os fazendeiros passaram a buscar alternativas para suprir a falta de mão de obra. A solução encontrada foi a imigração europeia. Regiões como Campinas e Ribeirão Preto tornaram-se polos de atração para milhares de famílias italianas.

Ao mesmo tempo, o consumo internacional de café crescia, exigindo infraestrutura moderna. O transporte que antes era feito por tropas de mulas passou a ser realizado por ferrovias. Os trilhos não apenas levavam o café aos portos, como também traziam imigrantes, mercadorias e ideias.

Na Itália, a unificação tardia e as transformações do capitalismo no campo provocaram empobrecimento, aumento de impostos e concentração de terras. Pequenos agricultores e trabalhadores rurais ficaram sem perspectivas. Para muitos, atravessar o oceano era a única esperança.

Grande parte dos italianos veio iludida por promessas de rápida ascensão social. A realidade, porém, foi dura. Dívidas contraídas com fazendeiros prendiam as famílias às propriedades por anos. A adaptação cultural também foi difícil: nova língua, novos costumes e uma sociedade ainda marcada por valores escravistas.

Mesmo assim, os imigrantes resistiram, trabalharam e transformaram profundamente o Brasil. Cidades como Ribeirão Preto cresceram graças ao esforço de escravizados e imigrantes. E, além da riqueza material, os italianos deixaram marcas duradouras na culinária, na arquitetura, na religião, na linguagem e na vida cotidiana.

Hoje, mais do que números, o que permanece é a herança cultural italiana na formação social do Brasil — especialmente no Sul e no estado de São Paulo.

Nota de Autor

A história da imigração italiana no Brasil é também a história da formação social, econômica e cultural do interior paulista. Ao revisitar esse processo, buscamos valorizar não apenas os dados históricos, mas sobretudo a experiência humana de homens e mulheres que cruzaram o oceano em busca de dignidade, trabalho e pertencimento. Este texto pretende contribuir para a preservação da memória e para a compreensão das raízes que moldaram nossa identidade regional.

Luiz C. B. Piazzetta


sábado, 21 de março de 2026

O Sanguanel das Colônias, Lenda, Memória e Espírito dos Imigrantes Italianos no RS


O Sanguanel das Colônias, Lenda, Memória e Espírito dos Imigrantes Italianos no RS


Nas matas cerradas do sul do Brasil,
onde a serra se curva ao vento e à fé,
ergueram-se casas de lenha e silêncio
sobre a esperança trazida do Vêneto.
Ali, entre o suor e a reza noturna,
nasceu também o mito que anda sem sombra:
o Sanguanel, filho da terra e do medo,
eco do passado que nunca partiu.

Veio no porão dos navios, sem nome,
junto às preces que cruzaram o mar.
Não pisou o cais, mas pisou o destino
dos homens que trocaram pátria por roça.
Entre a enxada e a saudade, foi ficando,
pequeno espírito de astúcia e vigília,
tecido de rumor, de tropeço e de riso torto,
presença invisível nas noites sem lua.

Não é demônio nem santo esquecido:
é memória travessa da pobreza antiga,
é sombra que imita o cansaço dos vivos,
é o atraso no passo, o nó no caminho.
Quando o milho não brota e a vaca se perde,
quando a porta range sem vento algum,
é ele que ronda, feito sussurro antigo,
lembrando que a terra também tem vontade.

Nas colônias de Bento, Garibaldi e Caxias,
onde a uva sangra no tempo da vindima,
ouviu-se seu rastro entre os parreirais:
folhas viradas, ferramentas mudadas,
o pão que some, o vinho que entorna,
não por maldade, mas por travessura.
O Sanguanel não fere: provoca,
para testar a paciência dos homens.

É filho da oralidade e da vigília,
criado ao redor do fogão de lenha,
quando a noite pedia histórias
para espantar a fome e o frio.
As nonas contavam, os netos tremiam,
e o mito se tornava educação:
respeita a mata, cuida do gado,
não ria do que não entende.

Ele conhece os atalhos da colônia,
os desvios entre capão e potreiro,
onde o silêncio pesa mais que a fala
e o breu engole até pensamento.
Ali caminha o Sanguanel sem peso,
sem deixar pegada nem culpa,
guardião irônico da fronteira
entre o visível e o que se pressente.

Não nasceu do nada: veio da Europa,
dos lares pobres do norte da Itália,
onde já rondavam seres pequenos
que punham à prova a ordem do mundo.
O colono não trouxe só sementes,
trouxe também seus medos e mitos,
e no solo vermelho do Sul
eles criaram nova raiz.

O Sanguanel é espelho do colono:
baixo de estatura, mas grande em astúcia,
sobrevive à força e à escassez,
ri quando a vida pesa demais.
É o espírito da adaptação,
da inteligência que escapa ao controle,
o jeito torto de resistir
quando tudo parece negar futuro.

Hoje, quando a mata recua e a estrada avança,
ele não some — apenas muda de veste.
Habita o ranger dos galpões antigos,
o eco nas cantinas abandonadas.
Está na palavra que não se explica,
no arrepio que corre sem motivo,
na herança invisível que pulsa
no sangue dos descendentes.

Ó Sanguanel, guardião das colônias,
não te expulsaremos com descrença.
Tu és parte da história que sangra e canta,
da memória que o tempo não apaga.
Entre o real e o simbólico, tu caminhas,
como o colono caminhou entre dois mundos.
E enquanto houver terra, suor e lembrança,
teu passo pequeno seguirá eterno.

Dr. Luiz C. B. Piazzetta

domingo, 15 de março de 2026

Entre o Horizonte e o Desconhecido oTempo, Surpresas e Vivências na Travessia


Entre o Horizonte e o Desconhecido, o Tempo, Surpresas e Vivências na Travessia


Para inúmeros emigrantes italianos, a viagem transoceânica representou uma experiência única na vida — e, para muitos, também a última. O deslocamento entre a terra de origem e o Brasil parecia prolongar-se indefinidamente, como se os dias se estendessem sem contorno preciso entre céu e oceano. Pessoas acostumadas ao ritmo regular do trabalho agrícola, marcado pela luz do sol e pelas estações, encontravam-se subitamente confinadas em espaços restritos, dividindo o convívio com centenas de outros passageiros que pouco conheciam.

O tempo livre, abundante durante a travessia, surgia como novidade. Sem as tarefas diárias da lavoura, o dia ganhava um caráter monótono e arrastado. Entre cuidados com as crianças, pequenas conversas, observação do mar e celebrações religiosas ocasionais, cada um buscava formas simples de preencher as horas. Para alguns, a regularidade das refeições — mesmo modestas — representava alívio em comparação com a escassez vivida na aldeia de origem; para outros, a mudança brusca de hábitos apenas reforçava o sentimento de desenraizamento.

Outra surpresa vinha da língua. A bordo, encontravam-se pessoas de diversas regiões italianas, portadoras de dialetos muito diferentes entre si. A comunicação concreta nem sempre era fácil, especialmente para os mais jovens, que descobriam pela primeira vez a diversidade cultural de seu próprio país recém-unificado. Também a organização interna do navio causava estranhamento: a separação entre homens e mulheres, com dormitórios coletivos, rompia a expectativa de intimidade familiar e exigia adaptação a novas regras de convivência.

O contato com o mundo além da Europa provocava forte impressão. Ao longo da rota atlântica, os viajantes observavam paisagens desconhecidas, portos tropicais, costumes diferentes e povos até então apenas imaginados. A fauna marinha — peixes, aves oceânicas e golfinhos acompanhando o navio — despertava curiosidade e encantamento nas crianças e nos adultos. As escalas em ilhas e cidades costeiras traziam imagens marcantes: mercados, frutas exóticas, relevo seco ou montanhoso, além de encontros com populações locais, cuja aparência, língua e gestos revelavam a amplitude do mundo.

É importante reconhecer que esses relatos se inserem em um contexto histórico específico. O olhar dos emigrantes estava carregado de surpresa, desconhecimento e, por vezes, incompreensão diante da diversidade humana e cultural que encontravam. A travessia transoceânica não foi apenas deslocamento geográfico, mas um processo intenso de confrontação com o novo, que desafiava crenças, noções de identidade e formas de perceber o outro.

Assim, a viagem não se resumia à espera pela chegada. Ela mesma tornou-se experiência formativa: longas jornadas sobre o mar, convivência forçada em espaços reduzidos, descoberta de línguas e hábitos diferentes, e a percepção de que o mundo era maior — e mais complexo — do que qualquer aldeia do interior da Itália poderia sugerir. Para muitos, esse período de suspensão entre dois continentes marcou definitivamente a memória familiar e a maneira de compreender a própria história. 

Nota explicativa 

Este texto analisa as experiências vividas pelos emigrantes italianos durante a travessia marítima rumo ao Brasil, abordando aspectos emocionais, culturais e cotidianos da vida a bordo. Destacam-se a percepção do tempo, a convivência em espaços reduzidos, o contato com diferentes dialetos, a organização dos navios e o encontro com novas paisagens e povos ao longo do percurso. A abordagem prioriza uma visão humanizada do fenômeno migratório, contextualizada historicamente e livre de citações diretas, reunindo informações relevantes para pesquisadores, descendentes de italianos e interessados na história da imigração italiana no Brasil. 

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



sábado, 21 de fevereiro de 2026

O Pelagrosário de Mogliano Veneto e a Luta Contra a Pelagra no Vêneto

 

Consultório Médico do Pelagrosário de Mogliano Veneto em finais do século XIX

O Pelagrosário de Mogliano Veneto e a Luta Contra a Pelagra no Vêneto


No final do século XIX, o Vêneto rural vivia uma das maiores crises sociais e sanitárias de sua história. A pobreza extrema, aliada a uma alimentação quase exclusiva à base de polenta, levou milhares de camponeses a adoecerem de pelagra. Foi nesse cenário que nasceu, em 1883, em Mogliano Veneto, província de Treviso, o que ficaria conhecido como o primeiro Pelagrosário da Itália.

A iniciativa partiu do engenheiro e político Costante Gris, então prefeito de Mogliano. Sensível ao drama dos trabalhadores rurais, Gris criou em 1882 a Società Italiana di Patronato per i Pellagrosi, mobilizando proprietários de terra, médicos, religiosos e autoridades locais para enfrentar a epidemia. O objetivo era claro: retirar os doentes do abandono e oferecer tratamento, alimentação adequada e dignidade.

No ano seguinte, em 31 de outubro de 1883, a Sociedade adquiriu a Villa Torni, transformando-a no Pelagrosário de Mogliano Veneto. A instituição foi inaugurada como um centro especializado para acolher pessoas em estágios iniciais da pelagra, quando ainda havia chance real de recuperação. O tratamento baseava-se sobretudo na correção da dieta: leite, carne, ovos e pão substituíam a polenta pobre em nutrientes.

O Pellagrosário não era apenas um hospital. Ele funcionava também como casa de trabalho e reeducação alimentar, onde os internos participavam de atividades agrícolas e manuais, integradas à terapia. O famoso médico Cesare Lombroso chegou a ser presidente honorário da Sociedade, o que deu visibilidade nacional ao projeto.

Durante as décadas de 1890 e 1900, o Pelagrosário de Mogliano passou a receber doentes de vários municípios da região de Treviso. Em pouco tempo, tornou-se referência no combate à pelagra em todo o norte da Itália. Com a progressiva diminuição da doença no início do século XX, a instituição foi sendo adaptada para outras funções assistenciais, incluindo abrigo para idosos e pessoas com transtornos mentais considerados “crônicos e tranquilos”.

A história do Pelagrosário de Mogliano Veneto é mais do que a história de um prédio ou de uma instituição médica. Ela representa o esforço coletivo de uma comunidade para enfrentar a miséria, a fome e o abandono. Para muitos camponeses vênetos — os mesmos que mais tarde emigrariam para o Brasil, Argentina e outros países — o Pelagrosário foi o primeiro sinal de que a dor deles começava, enfim, a ser vista.

Hoje, lembrar do Pelagrosário é também lembrar das raízes de uma diáspora. É reconhecer que por trás de cada sobrenome italiano nas colônias do Brasil houve, antes, fome, doença, resistência — e, em Mogliano Veneto, também solidariedade organizada.

Nota do Autor

Este texto nasce da memória.
Não apenas da memória dos livros e dos arquivos, mas da memória que atravessou o oceano dentro das famílias. Muitos dos primeiros emigrantes vênetos que chegaram ao Brasil — ou seus pais, irmãos, vizinhos — passaram pelo Pelagrosário de Mogliano Veneto. Ali conheceram a fragilidade do corpo, o medo da doença… mas também a dignidade de serem cuidados quando tudo parecia perdido.

Ao escrever sobre essa instituição, não falo apenas de paredes e datas. Falo de gente. De homens e mulheres que carregaram nas costas o peso da miséria, mas também a força de recomeçar. Falo de uma geração que sobreviveu à pelagra para depois sobreviver ao exílio, à mata, à saudade e ao trabalho duro nas colônias do Brasil.

Se você é descendente de vênetos, talvez esta história não seja apenas “história”.
Talvez seja o eco de algo que viveu na sua família — um silêncio antigo, uma dor não dita, uma coragem herdada.

Que este texto sirva como homenagem.
Aos que sofreram.
Aos que resistiram.
E aos que transformaram dor em raiz, e raiz em futuro.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta


terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

El Sanguanel de le Colònie, Fiaba, Memòria e Spìrito del Sul del Brasil

 



El Sanguanel de le Colònie, 

Fiaba, Memòria e Spìrito del 

Sul del Brasil



Inte le foreste serà del Sul del Brasìl,
’ndove la serra se piega al vento e a la fede,
i òmeni i ga tirà su casse de legno e silènsio
sora la speransa portada dal Vèneto.
Là, tra sudor e rosàrio de note,
el ze nato anca un mito sensa ombra:
el Sanguanel, fiol de la tera e del spavento,
eco del passà che no’l ga mai partì.

El no el ga rivà ’ntei porti col nome,
ma el ga rivà ’ntei destini dei colòni.
Tra la zapa e la nostalgia, el ze restà,
spìrito pìcolo de furberìa e de vègia.
Tessesto de rumor, de scarto e de riso storto,
el ze presensa invisìbile ’nte le note sensa luna,
come memòria che camina pian
sora le strade rosse de la colònia.

No’l ze demonio né santo smentegà:
el ze ricordo monelo de misèria antiga,
ombra che copia la strachessa dei vivi,
nodo ’nte el passo, peso ’nte el camin.
Quando el gran no’l spunta e la vaca se perde,
quando la porta la strida sensa vento,
lu el ze che gira, come sussuro vècio,
par dir che la tera la ga volontà.

´Nte le colònie de Bento, Garibaldi e Caxias,
’ndó l’uva la sangra ’nte el tempo de vendèmia,
se sentiva el so passar tra i vignài:
fòie rivoltà, feramente cambià,
el pan che sparisse, el vin che se svoda,
no par malìssia, ma par burla.
El Sanguanel no’l ferisse: el prova,
la passensa dei òmeni.

El ze fiol de la parola contà,
nato drento al calor del fogon,
quando la note la voleva stòrie
par scassar la fame e el fredo.
Le none contava, i fiòi tremava,
e el mito el diventava educassiòn:
rispeta la mata, varda el bestiame,
no rider de quel che no capissi.

Lu el conosse i scurtèi de la colònia,
i desvi tra el capon e el poter,
’ndó el silènssio el pesa pì de la parola
e el scuro el magna fin el pensiero.
Là el camina el Sanguanel sensa peso,
sensa lassar segno né colpa,
cùstode irònego del confìn
tra quel che se varda e quel che se sente.

El no’l ze nato dal gnente: el vien da l’Europa,
dai cortili pòveri del Nord d’Itàlia,
’ndò i girava già spìriti pìcoli
che metea a prova l’òrdine del mondo.
El colono no’l ga portà solo semente,
el ga portà anca paure e fiabe,
e ’nte la tera rossa del Sul
le ga fato radise nova.

El Sanguanel el ze spècio del colono:
pìcolo de statura, ma grande de furberìa,
el sopravive a la fadiga e a la scarsessa,
el ride quando la vita la pesa massa.
El ze el spìrito de l’adatarsi,
de la testa che scampa al comando,
el modo storto de resìstere
quando tuto el nega futuro.

Anca incòi, quando la mata la se tira indrio
e la strada la vien avanti,
lu no’l sparisse — el cámbia veste.
El stà ’nte el stridar dei galponi veci,
’nte l’eco de le cantine lassà.
El ze ’nte la parola che no se spiega,
’nte el brìvido che vien sensa motivo,
’nte la eredità invisìbile
che bate ’nte el sangue dei descendenti.

Ò Sanguanel, cùstode de le colònie,
no te scasseremo con el smentegar.
Ti te sì parte de la stòria che sangra e canta,
de la memòria che el tempo no’l straca.
Tra el vero e el sìmbolo, ti te camini,
come el colono el ga caminà tra do mondi.
E fin che ghe sarà tera, sudor e ricordansa,
el to passo picolo el sarà eterno.

Dr. Luiz C. B. Piazzetta



sábado, 14 de fevereiro de 2026

Relação dos Imigrantes Italianos que Partiram de Gênova para Paranaguá PR em 12 de Fevereiro de 1878

 


Vapor Colombo

Relação dos Imigrantes Italianos que Partiram de Gênova para Paranaguá PR em 12 de Fevereiro de 1878


 

NOME
IDADE
LUGAR DE
NASCIMENTO
NAÇÃO
PROFISSÃO
RELIGIÃO
TUALDO Gio.Batta
TUALDO Luigia
TUALDO Maria
TUALDO Emanuele
TUALDO Giuseppe
TUALDO Tarquino
TUALDO Silvio
45
42
14
10
7
5
3
VICENZA
"
"
"
"
"
"
Itália
"
"
"
"
"
"
Agricultor
"
"
"
"
"
"
Católico
"
"
"
"
"
"
ROARO Giovanne
ROARO Regina
ROARO Giulio
ROARO Antonio
38
36
6
3
"
"
"
"
"
"
"
FOGLIATO Francesco
FOGLIATO Maria
FOGLIATO Giacomo
FOGLIATO Cecilia
FOGLIATO Francesco
35
33
7
4
2
"
"
"
"
"
"
"
"
TREVISAN Giuseppe
TERVISAN Francesca
TREVISAN Giovanna
TREVISAN Lucia
TREVISAN Angela
TREVISAN Francesco
TREVISAN Francesco
TREVISAN Domenico
TREVISAN Caterina
38
36
15
10
9
7
6
4
1
"
"
"
"
"
"
"
"
"
"
"
"
PIROTTO Francesco
PIROTTO Elisabetta
PIROTTO Giustina
PIROTTO Francesco
PIROTTO Costanza
PIROTTO Maria
PIROTTO Pietro
35
30
10
9
6
3
1
"
"
"
"
"
"
"
"
"
"
CHEMELO Antonio
CHEMELO Domenica
30
30
"
"
"
"
"
BAGIN Giovanni
BAGIN Filomena
BAGIN Maria
BAGIN Maddalena
BAGIN Giovanni
42
10
15
11
4
"
"
"
"
"
"
"
"
GUERRA Antonio
GUERRA Maria
GUERRA Francesca
GUERRA Gio.Batta
GUERRA Maria
44
40
16
13
3
"
"
"
"
"
"
"
"
BARBIERO Giuseppe
BARBIERO Bortolo
BARBIERO Maria
79
52
52
"
"
"
"
"
"
POTTOLLON(?) Antonio
POTTOLLON Caterina
POTTOLLON Giovanni
32
30
4
"
"
"
"
"
"
NOME
IDADE
LOCAL DE
NASCIMENTO
NAÇÃO
PROFISSÃO
RELIGIÃO
NODARI Sebastianno
NODARI Angela
NODARI Luigia
NODARI Lucia
NODARI Domenico
NODARI Romano
NODARI Maria
NODARI Emilio
41
40
10
9
7
5
4
2
VICENZA
"
"
"
"
"
"
"
Itália
"
"
"
"
"
"
"
Agricultor
"
"
"
"
"
"
"
Católico
"
"
"
"
"
"
"
LORENZONI Caterina
LORENZONI Antonio
LORENZONI Maria
LORENZONI Giulio
LORENZONI Andrea
LORENZONI Gaetano
60
24
41(?)
14
8
1
"
"
"
"
"
"
"
"
"
MASCHIO Gio Maria(?)
MARCHIO Angela
27
22
"
"
"
"
"
DALLA COSTA Domenico
DALLA COSTA Maria
DALLA COSTA Eva
DALLA COSTA Maria
DALLA COSTA Costanza
DALLA COSTA Speranza
DALLA COSTA Guglielmo
46
40
14
12
10
8
6
"
"
"
"
"
"
"
"
"
"
FINALTI Michele
FINALTI Angelo
FINALTI Giovanna
62
27
25
"
"
"
"
"
"
FORNER Giacomo
FORNER Maria
FORNER Antonia
FORNER Antonio
FORNER Maria
FORNER Guglielmo
FORNER Giordano
41
-
39
14
10
2
0.7
"
"
"
"
"
"
"
"
"
"
GAZZOLA Agostino
GAZZOLA Lucia
GAZZOLA Fortunato
GAZZOLA Alessandro
35
30
32
3
"
"
"
"
"
"
"
MENEGHETTI Valentino
MENEGHETTI Caterina
MENEGHETTI Giuseppina
33
30
1
"
"
"
"
"
"
BIZZOTTO Francesco 
BIZZOTTO Angela
BIZZOTTO Antonio
BIZZOTTO Matteo
BIZZOTTO Giovanni
BIZZOTTO Orsola
BIZZOTTO Regina
41
35
13
11
9
7
3
"
"
"
"
"
"
"
"
"
"
BASCAN Valentino
BASCAN Maria
BASCAN Amedeo
BASCAN Sante
32
26
6
3
"
"
"
"
"
"
"
NOME
IDADE
LOCAL DE
NASCIMENTO
NAÇÃO
PROFISSÃO
RELIGIÃO
CECCON Gaetano
CECCON Cecilia
CECCON Maria
CECCON Angelo
CECCON Margheritta
34
34
11
8
1
VICENZA
"
"
"
"
Itália
"
"
"
"
Agricultor
"
"
"
"
Católico
"
"
"
"
DALLAPOZZA Maria
DALLAPOZZA Antonio
DALLAPOZZA Rosa
DALLAPOZZA Giuditta
DALLAPOZZA Massimiliano
DALLAPOZZA Maria
60
40
35
9
6
3
"
"
"
"
GHENO Giovanna
GHENO Maria Angela
GHENO Bartolomeu
Constam dois nome riscados 
59
13
9
-
"
"
"
"
PAOLETTO Bortolo
PAOLETTO Maria
PAOLETTO Giuseppe
PAOLETTO Anna
PAOLETTO Carlo
57
37
8
5
0.8
"
"
"
"
RIGHI Giovanni
RIGHI Teresa
RIGHI Giovanni
RIGHI Francesco
RIGHI Emilia
28
25
6
3
0.5
"
"
"
"
BRAGAGNOLO Pietro
BRAGAGNOLO Angela
BRAGAGNOLO Ciriaco
BRAGAGNOLOMatteio
51
54
15
12
"
"
"
"
MENEGAZ Abramo
MENEGAZ Pasqua
MENEGAZ Domenico
MENEGAZ Pietro
MENEGAZ Maria
MENEGAZ Anna
55
43
14
8
5
3
"
"
"
"
CARLESSO Bernardo
CARLESSO Angela
CARLESSO Giovanni
CARLESSO Francesco
49
46
15
11
"
"
"
"
TOTONE(?) Andrea
TOTONE Pasqua
TOTONE Sebastiano
TOTONE Lucia
TOTONE Maria
37
28
7
4
2
"
"
"
"
GRIGOLETTO Giuseppe
GRIGOLETTO Maria
GRIGOLETTO Maria
GRIGOLETTO Rosa
GRIGOLETTO Giovanni
33
33
7
4
1
"
"
"
"
NOME
IDADE
LOCAL DE
NASCIMENTO
NAÇÃO
PROFISSÃO
RELIGIÃO
TRITOLATI Vincenzo
TRITOLATI Angela
TRITOLATI Gaetano
TRITOLATI Giovani
TRITOLATI Anacleto
32
27
6
4
1
VICENZA
"
"
"
"
Italia
"
"
"
"
Agricultor
"
"
"
"
Catolico
 "
"
"
"
MORO Bortolo
MORO Luigia
MORO Maria
MORO Pietro
MORO Domenica
44
44
16
14
12
"
"
"
"
BOLZON Pietro
BOLZON Luigi
BOLZON Rosa
BOLZON Giacomo
BOLZON Adora
-
26
23
22
0.5
"
"
"
"
STRADIOTTO Antonio
STRADIOTTO Antonia
STRADIOTTO Valentino
STRADIOTTO  Cristina
31
33
6
3
TREVISO
"
"
"
"
"
"
MILANI Antonio
MILANI Rosa
MILANI Maria
MILANI Valentino
MILANI Caterina
MILANI Giovanni
40
34
16
9
4
1
"
"
"
"
FILIPPIN Giovanni
FILIPPIN Antonia
22
21
"
"
"
"
GUIDOLIN Angelo
GUIDOLIN Angela
GUIDOLIN Luigi
GUIDOLIN Giuseppe
59
57
19
16
"
"
"
"
PASINATO Amedeo
PASINATO Patrizio
PASINATO Luigia
PASINATO Pietro
PASINATO Giuseppe
PASINATO Angelo
PASINATO Matteo
PASINATO Angelo
PASINATO Gio (?)
70
46
40
18
13
11
7
4
0.18
"
"
"
"
PIEROBOM Antonio
PIEROBOM Teresa
PIEROBOM Marco
33
27
26
"
"
"
"
CECCHIN Francesco
CECCHIN Veronica
CECCHIN Celeste
CECCHIN Maria
CECCHIN Gio.Batta
CECCHIN Vittorio
CECCHIN Maria
52
47
29
26
18
14
12
"
"
"
"
NOME
IDADE
LOCAL DE 
NASCIMENTO
NAÇÃO
PROFISSÃO
RELIGIÃO
SOUZA Celeste
SOUZA Domenica
SOUZA Angelo
SOUZA Maria
SOUZA Amedeo
SOUZA Giovanni
SOUZA Giuseppe
SOUZA Angela
37
37
14
12
10
7
4
2
TREVISO
"
"
"
"
"
"
"
Italia
"
"
"
"
"
"
"
Agricultor
"
"
"
"
"
"
"
Catolico
"
"
"
"
"
"
"
GAZZOLA Antonio
GAZZOLA Pietro
65
30
"
"
"
"
TONIOLO Eugenio
TONIOLO Maria
TONIOLO Maria
30
27
2
"
"
"
"
STANGHERLIU(?) Sante
STANGHERLIU Maria
STANGHERLIU Cesare
STANGHERLIU Eugenio
STANGHERLIU Pasquale
STANGHERLIU Regina
STANGHERLIU Teresa
63
53
27
23
16
13
11
"
"
"
"
FUGANTI(?) Felice
FUGANTI Bortolomea
FUGANTI Lucia
FUGANTI Virginia
FUGANTI Rosa
FUGANTI Cesare
FUGANTI Pietro
FUGANTI Caterina
FUGANTI Romedio
49
38
18
17
16
10
9
7
5
TRENTO
"
"
"
"
"
"
"
"
"
"
"
TOMAS Gio.Batta
TOMAS Margherita
TOMAS Corona
TOMAS Margherita
TOMAS Giacomo
36
28
10
8
2
"
"
"
"
TONIETTI Fortunata
TONIETTI Maria
TONIETTI Barbera
TONIETTI Pietro
TONIETTI Giorgio
TONIETTI Giovanni
42
15
11
8
3
1
"
"
"
"
PERMIAN Caterina
PERMIAN Giuseppe
PERMIAN Carolina
PERMIAN Maria
PERMIAN Luigia
PERMIAN Luigi
PERMIAN Alessandro
PERMIAN Gaetano
PERMIAN Rosa
PERMIAN Giuseppe
70
33
38
20
19
18
16
14
11
2
VERONA
"
"
"
"
"
"
"
"
"
"
"
"
"
NOME
IDADE
LOCAL DE
NASCIMENTO
NAÇÃO
PROFISSÃO
RELIGIÃO
VIERO Giovanni
VIERO Caterina
VIERO Andrea
VIERO Giovanna
VIERO Antonio
VIERO Santo
43
40
9
6
3
1
VICENZA
"
"
"
"
"
Italia
"
"
"
"
"
Agricultor
"
"
"
"
"
Catolico
"
"
"
"
"
TOLFO Eurosia
TOLFO Giovanni
TOLFO Margherita
TOLFO Pietro
TOLFO Drusilla
TOLFO Fioravante
61
28
26
5
4
2
"
"
"
"
RINCO Margherita
RINCO Luigi
RINCO Isotta
RINCO Gio.Batta
RINCO Giuseppe
70
35
36
11
2
"
"
"
"
RECCHIA Luigi
RECCHIA Maria
RECCHIA Antonio
RECCHIA Massimiliano
RECCHIA Benvenuto
32
25
4
3
1
"
"
"
"
FACCIN Benedetto
FACCIN Pasqua
FACCIN Rodolfo
FACCIN Romano
FACCIN Guglielma
FACCHIN Agostino
48
44
15
22
8
5
"
"
"
"
MELATTO Michele
MELATTO Domenica
MELATTO Clorinda
MELATTO Paola
27
25
7
2
"
"
"
"
DAL SANTO Bortolo
DAL SANTO Filomena
DAL SANTO Maria
DAL SANTO Natale
DAL SANTO Rosa
37
32
10
4
3
"
"
"
"
NOGARA Angelo
NOGARA Teresa
NOGARA Lucia
NOGARA Alessandro
NOGARA Gio.Batta
NOGARA Maria
49
39
15
11
9
6
"
"
"
"
BROCCARDO Francesco
BROCCARDO Elena
BROCCARDO Silvio
BROCCARDO Aliuto
32
30
4
2
"
"
"
"
RUGGINE Antonio
RUGGINE Maria
RUGGINE Attilio
37
31
3
"
"
"
"
NOME
IDADE
LOCAL DE
NASCIMENTO
NAÇÃO
PROFISSÃO
RELIGIÃO
NOGARA Giuseppe
NOGARADomenica
NOGARA Teresa
NOGARA Elisabetta
NOGARA Rosa
39
30
10
7
3
VICENZA
"
"
"
"
Itália
"
"
"
"
Agricultor
"
"
"
"
Católico
"
"
"
"
LOVATO Isidoro
LOVATO Cristina
LOVATO Giseppe
LOVATO Gio.Batta
50
46
13
7
"
"
"
"
GOBBO Mario
GOBBO Maria
GOBBO Amalia
GOBBO Massimiliano
GOBBO Giuseppe
GOBBO Petronilla
49
35
10
8
6
2
"
"
"
"
COSTA Isidoro
COSTA Caterina
COSTA Angela
COSTA Domenico
COSTA Rosa
31
30
4
3
0.7
"
"
"
"
CARLOTTO Antonio
CARLOTTO Maria
CARLOTTO Domenico
CARLOTTO Rosa
CARLOTTO Andrea
CARLOTTO Antonio
62
54
23
21
18
0.8
"
"
"
"
PELIZZARO Giovanni
PELIZZARO Giuditta
PELIZZARORiccardo
PELIZZARO Rosa
35
35
4
2
"
"
"
"
BISOGNIN Francesco
BISOGNIN Brigida
BISOGNIN Isidoro
BISOGNIN Alessandro
BISOGNIN Santa
BISOGNIN Rosa
46
27
9
6
3
0.8
"
"
"
"
CREAZZO Luicia
CREAZZO Luigi
CREAZZO Angela
CREAZZO Elena
70
40
33
25
"
"
"
"
GIARETTA Angelo
GIARETTA Pasqua
GIARETTA Michele
GIARETTA Maria
GIARETTA Antonio
50
50
29
29
"
"
"
"
LORENZON Giovanni
LORENZON Caterina
LORENZON Francesco
LORENZON Pia
LORENZON Paola
39
37
9
6
2
"
"
"
"
NOME
IDADE
LOCAL DE 
NASCIMENTO
NAÇÃO
PROFISSÃO
RELIGIÃO
GUERRA Giovanni
GUERRA Francesco
GUERRA Orsola
GUERRA Gio.Batta
GUERRA Genovieffa
53
39
37
14
2
VICENZA
"
"
"
"
Italia
"
"
"
"
Agricultor
"
"
"
"
Católico
"
"
"
"
LORENZON Francesco
LORENZON Giovanna
LORENZON Maria
LORENZON Giovannina
LORENZON Giovanni
LORENZON Pietro
40
37
8
6
4
2
"
"
"
"


Nota

Cada nome que aparece nesta relação não é apenas uma entrada num arquivo antigo. É um coração que bateu mais forte ao avistar o mar pela última vez na costa de Gênova. É uma mala pobre, cheia de silêncios, despedidas e esperanças. Ao organizar e publicar esta lista de imigrantes italianos que partiram rumo a Paranaguá em fevereiro de 1878, sinto que não estou apenas lidando com dados, mas com vidas suspensas entre dois mundos.

Foram homens e mulheres que deixaram para trás aldeias, vinhas, montanhas e sepulturas de antepassados para enfrentar o desconhecido. Não sabiam o que os esperava do outro lado do oceano. Sabiam apenas que a fome, a miséria e a falta de futuro já não lhes davam escolha. O Brasil era mais do que um destino: era uma promessa.

Escrever sobre eles é, para mim, um ato de respeito. É devolver dignidade a quem a história muitas vezes reduziu a números. É lembrar que a identidade brasileira foi construída por mãos calejadas, por vozes com sotaque, por corações que aprenderam a amar uma terra que não era sua — até que se tornou.

Se este texto tocar alguém que reconheça um sobrenome, uma origem, uma história de família, então ele cumpriu seu papel. Porque a memória não é passado morto. É raiz viva. E sem raiz, nenhuma árvore permanece em pé.