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sexta-feira, 27 de março de 2026

A Vida de Domenico Dalmassen

 


A Vida de Domenico Dalmassen

Das Langhe à Serra Gaúcha: a travessia de um emigrante italiano


Domenico Dalmassen nasceu em 1891, no pequeno comune de Prunetto, incrustado nas colinas das Langhe, onde as vinhas e os bosques se entrelaçavam como se fossem eternos. Era conhecido entre os vizinhos pelo apelido de “Menico”, dado pela mãe, porque nascera franzino e parecia frágil demais para resistir ao peso da vida. No entanto, desde cedo, provou o contrário.

Passava os dias a vigiar as ovelhas nos pastos pedregosos, acompanhado apenas pelo vento frio que descia dos Alpes e pelo som dos chocalhos espalhados pelo vale. Quando o pai descia à planície para ceifar o trigo, Domenico o seguia com a naturalidade de quem já carregava nas costas uma vida inteira. Enquanto os homens golpeavam o cereal com foices e braços endurecidos, ele corria de um lado a outro, levando água misturada com vinagre para refrescar a garganta da equipe. O pagamento era de dez soldos por dia, quase nada, mas suficiente para que um menino se sentisse parte de um exército de homens famintos.

Nos meses em que o trabalho rareava nas colinas, ele e o pai batiam a planície, passando de uma fazenda a outra, sempre a fazer os serviços mais duros: bater grãos, arrumar barris, levantar cargas. A refeição era quatro fatias de polenta enfiadas no bolso, o leito um monte de feno no celeiro. Havia dias em que tudo se assemelhava a uma batalha interminável, uma guerra silenciosa contra a fome e a pobreza, onde o inimigo nunca se deixava derrotar.

Antes mesmo de atingir a maturidade, Domenico atravessou a fronteira e foi trabalhar na França. A ilusão de encontrar alívio evaporou rapidamente: lá, o suor tinha o mesmo gosto amargo, a fadiga o mesmo peso de chumbo.

Enquanto isso, três de seus irmãos já haviam cruzado o Atlântico e se instalado na América, ganhando a vida nas serrarias. Mandaram dinheiro para que ele pudesse segui-los. Em 1907, juntou-se a um grupo de vinte e dois conterrâneos e embarcou rumo ao novo mundo. Antes da partida, as vacinas que inflamavam os braços; depois, o embarque no imenso navio a vapor que cheirava a ferro, maresia e medo.

A travessia foi uma prova de resistência. O alimento era escasso e de má qualidade, distribuído em marmitas como ração de soldados. O porão onde Domenico foi colocado reunia trezentos homens, enquanto as mulheres eram separadas em outro espaço. O mar, agitado e cruel, castigava o casco; durante dois dias o navio ficou à deriva, subjugado pelas ondas que saltavam por cima do convés. A cada investida da tormenta, a sensação de que a morte rondava o porão se espalhava como uma febre. Mas a tempestade, como tantas outras, passou, e o navio finalmente avistou as luzes de Nova Iorque.

O primeiro trabalho de Domenico foi com uma companhia que empregava mais de cem homens vindos de sua região. O pagamento era de sete liras e meia por dez horas diárias. A vida era regida pelo som incessante da serra e pela queda das árvores. O esforço arrancava músculos e suor, mas os italianos, apesar da dureza, mantinham acesa a chama da convivência: nos fins de semana, dançavam, jogavam cartas, disputavam partidas de bola e punho, e faziam das noites uma trégua contra o cansaço.

Durante quatro anos, Domenico permaneceu naquele ciclo de trabalho e exaustão, morando em barracões de madeira improvisados, partilhando a miséria com homens que se tornaram quase irmãos. Muitos ficaram. Ele, no entanto, decidiu regressar. A mãe estava sozinha em Prunetto, e a lembrança dela pesava mais que qualquer promessa de fortuna.

Os três irmãos permaneceram na América, junto dos outros vinte e um companheiros que haviam partido juntos. Nunca mais mandaram notícias. O silêncio deles foi um corte fundo no coração de Domenico, mas também um sinal de que o destino, para cada homem, se cumpre de forma diferente. A travessia, a saudade e o retorno marcaram sua vida para sempre.

De volta à Itália, cuidou da mãe doente até o fim. Dois anos inteiros dedicados a vigiar noites silenciosas, a carregar água e lenha, a ouvir os gemidos contidos que só uma mãe solitária poderia emitir. Quando ela morreu, no início de 1909, a casa de pedra em Prunetto tornou-se apenas uma prisão de memórias. Domenico sabia que ali já não havia futuro.

Pouco depois, uma carta chegou de Caxias, no Brasil. Era de Pietro Bonelli, antigo vizinho em Prunetto, agora dono de uma concorrida fábrica de carroças na colônia italiana que florescia no coração da serra gaúcha. Precisava de homens de confiança e habilidosos na carpintaria. Domenico, que havia aprendido a arte das rodas e dos eixos durante os anos nas serrarias americanas, recebeu o convite como um sinal do destino.

A viagem ao Brasil foi longa e menos dramática que a anterior, mas ainda assim marcada pelo aperto dos porões, pelo enjoo dos mares e pela ansiedade da chegada. Ao desembarcar no Rio Grande do Sul, encontrou um mundo que ainda cheirava a floresta derrubada, mas que pulsava com a energia de milhares de colonos dispostos a transformar a mata em vinhedos, casas e fábricas.

Em Caxias, Domenico mergulhou na carpintaria como se fosse uma extensão natural de sua vida. As rodas das carroças, que exigiam precisão para resistir ao peso das estradas de barro e pedra, tornaram-se sua especialidade. Os colonos sabiam reconhecer o bom trabalho, e logo o nome de Dalmassen era sinônimo de confiança.

Foi nesse cenário que conheceu Francesca Zardi, uma jovem viúva de Maser, no Vêneto. O marido havia morrido em um acidente brutal, esmagado por um cavalo durante o trabalho na pequena gleba de terra que cultivavam. Francesca, ainda com a juventude estampada no rosto e mãe de uma menina chamada Beatrice, via-se diante de um futuro incerto. A terra que possuía era pesada demais para suas forças, e já cogitava vender e regressar para a casa dos pais na Itália.

O encontro aconteceu quase por acaso. Domenico fora chamado a consertar as rodas de uma carroça quebrada, cujas rodas rangiam sem parar nas estradas da colônia. A carroça era dela. O trabalho o levou até a pequena propriedade, onde viu uma mulher muito jovem determinada a resistir, mas visivelmente cansada. Entre as lascas de madeira e o cheiro de ferro aquecido, nasceu uma aproximação que se transformaria em destino.

Casaram-se pouco tempo depois. Francesca encontrou em Domenico a firmeza que precisava para não abandonar a terra, e ele, nela, a família que lhe havia faltado por tantos anos. Beatrice passou a chamá-lo de pai, e, naquela casa simples, construída com esforço e sonhos, a vida de Domenico Dalmassen encontrou raízes sólidas.

De filho franzino das colinas piemontesas, pastor de ovelhas e migrante errante, ele se transformou em mestre de rodas no coração da serra gaúcha, símbolo de uma geração que, entre oceanos e despedidas, construiu um novo mundo.

Nota do Autor

Esta narrativa nasceu do desejo profundo de resgatar a memória daqueles homens e mulheres que atravessaram oceanos em busca de um destino que não lhes era garantido. Escolhi Domenico Dalmassen como personagem central porque sua trajetória simboliza a vida de milhares de emigrantes italianos que, entre o final do século XIX e o início do século XX, deixaram as colinas do Piemonte e tantas outras regiões da Itália para construir, com suor e sacrifício, uma nova existência no Brasil.

A história de Domenico não pretende ser a reprodução literal de um indivíduo específico, mas sim a reconstrução literária inspirada em cartas, depoimentos e registros que chegaram até nós, testemunhando as dores da partida, os perigos da travessia e a dureza da adaptação. Ao mudar nomes, lugares e detalhes, procurei proteger a identidade dos personagens históricos e, ao mesmo tempo, dar vida a um protagonista que encarnasse a força coletiva da imigração italiana.

Escrevi esta história para dar voz àqueles que raramente puderam escrever a própria versão de suas vidas. É um tributo aos que perderam tudo e ainda assim semearam esperança, aos que encontraram no Brasil um lar distante e, sobretudo, aos que compreenderam que emigrar é viver sempre entre dois mundos: o da lembrança e o da construção.

Dr. Piazzetta



domingo, 8 de março de 2026

Fios de Resistência – A Agulha e a Linha nas Mãos das Mulheres Italianas na Serra Gaúcha

 


Fios de Resistência – A Agulha e a Linha nas Mãos das Mulheres Italianas na Serra Gaúcha


Nas décadas finais do século XIX e inícios do XX, quando as famílias italianas, fugindo da penúria do Vêneto, do Friuli e da Lombardia, aportavam nas colônias serranas do Rio Grande do Sul, a habilidade de manejar agulha e linha constituía para as mulheres muito mais do que um simples ofício doméstico: era um pilar de sobrevivência, dignidade e continuidade familiar.

A dona de casa imigrante acordava antes do sol e, entre o preparo da polenta, o cuidado com os filhos pequenos e as tarefas do pomar ou da lavoura miúda, reservava as horas noturnas — ou os raros momentos de pausa — para a costura. Com tecidos rústicos, muitas vezes reaproveitados de roupas antigas ou comprados com enorme sacrifício nas poucas lojas da vila, ela confeccionava camisas, calças, vestidos, aventais, roupas de baixo e até os modestos trajes de domingo. Cada ponto era dado com precisão paciente, à luz fraca de lampião a querosene ou, mais tarde, com o abençoado ronronar da máquina de pedal — um bem precioso que, adquirido após anos de economia, representava progresso palpável. A costura não apenas vestia os corpos; preservava o pudor, a decência e o orgulho de uma família que, em terra estranha, recusava-se a parecer indigente.

A moça que dominava essa arte carregava consigo um saber ancestral, transmitido de mãe para filha nas vilas italianas e que, no Brasil, ganhava contornos de urgência quase sagrada. Saber costurar significava independência relativa em meio à dependência: a menina que aprendia cedo a fazer bainhas retas, a pregar botões firmes e a cortar moldes sem desperdício tornava-se, aos olhos da comunidade, uma promessa de esposa capaz, de mãe provedora, de mulher resiliente. Naquele contexto de isolamento rural, onde o comércio era distante e os salários escassos, a ausência dessa competência poderia condenar uma família inteira a trapos ou dívidas.

Com o passar dos anos, à medida que as colônias se consolidavam e as cidades vizinhas cresciam — Caxias, Bento Gonçalves, Garibaldi —, muitas daquelas mãos habilidosas transcenderam o âmbito estritamente familiar. A necessidade de roupas prontas aumentava, e o que antes era gesto de afeto e economia transformou-se, para algumas, em ofício remunerado. Surgiram então as sartas, as costureiras profissionais que atendiam encomendas de vizinhos, de comerciantes locais e, mais tarde, de pequenas oficinas. Sentadas à janela ou em ateliês improvisados, elas cortavam, alinhavam e acabavam peças com esmero que misturava a tradição véneta ao gosto gaúcho emergente. O trabalho, ainda árduo e mal remunerado, permitia contudo um ganho próprio, uma pequena autonomia financeira que aliviava o peso do lar e, por vezes, garantia a educação de um filho ou a compra de um lote melhor.

Assim, a costura foi, para a mulher imigrante italiana no Rio Grande do Sul, fio condutor de memória e de esperança. Cada costura dada era um ato de resistência silenciosa contra a adversidade, um modo de tecer raízes em solo novo, de vestir sonhos modestos com a dignidade que a pobreza não conseguiu arrancar. E, nas dobras daqueles tecidos simples, guardava-se não só o suor de muitas noites, mas a essência de uma geração que, com linha e agulha, ajudou a construir a alma da Serra Gaúcha.

Nota do Autor 

Entre a enxada que rasgava a terra e o machado que abria clareiras na mata, havia também a agulha que, silenciosamente, costurava a continuidade da vida. A mulher da imigração italiana na Serra Gaúcha não apenas vestia a família — ela restaurava a dignidade em cada bainha, reforçava a esperança em cada botão pregado, sustentava o futuro em cada molde recortado com economia e precisão. Naquelas casas de madeira, iluminadas por lamparinas trêmulas, a costura era gesto de amor e estratégia de sobrevivência. Tecidos simples ganhavam forma sob mãos disciplinadas, herdeiras de saberes trazidos do Vêneto, do Friuli e da Lombardia. A linha que atravessava o pano era também a linha invisível que ligava gerações, preservando identidade, honra e pertencimento. Recordar essas mulheres é reconhecer que a história da imigração italiana no Rio Grande do Sul não foi construída apenas com força física, mas também com delicadeza firme. Foi no silêncio das noites de costura que muitas delas ajudaram a moldar a alma econômica e cultural da Serra Gaúcha, transformando necessidade em ofício e ofício em resistência.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

O Longo Caminho dos Imigrantes Italianos até a Serra Gaúcha

 

O Longo Caminho dos Imigrantes Italianos até a Serra Gaúcha


Para dar seguimento ao grande projeto de trazer milhares de agricultores italianos para a província do Rio Grande do Sul, o governo imperial iniciou a construção de uma estrada na localidade de São Sebastião do Caí, para facilitar a viagem dos imigrantes e também, já pensando no escoamento dos produtos agrícolas das colônias,  mas, esta só foi entregue em 1884. Foi dado a ela o nome de Estrada Rio Branco. Os imigrantes italianos chegavam no Rio Grande do Sul através de navios que atracavam no porto da cidade de Rio Grande. A partir de Pelotas, aqueles que tinham como destino final as Colônias da Serra Gaúcha, entravam na Lagoa dos Patos e desembarcavam em Porto Alegre. Depois de um parada de alguns dias, instalados nos barracões que serviam de hospedaria, aguardavam a ordem de partida para o seu destino final. Da capital gaúcha embarcavam em pequenos barcos a vapor, para uma viagem de 12 horas, subindo o Rio Caí, até o porto dos Guimarães, ponto final navegável do rio, na cidade de São Sebastião do Caí. Aqueles imigrantes que tinham como destino final as Colônias de Conde d'Eu, atual Garibaldi, e Dona Isabel, hoje Bento Gonçalves, desembarcavam um pouco antes, na cidade de Montenegro e essa viagem durava 7 horas. Os imigrantes destinados à Colônia de Caxias desembarcavam em São Sebastião do Caí. Os imigrantes embarcavam em lanchas ou em grandes barcos a vapor, conforme a altura das águas do rio. Entre as cidades de Montenegro e São Sebastião do Caí existia na época uma barragem com comportas, que regulavam a altura das águas do rio. Esta barragem com comportas foi a primeira da América do Sul e ficava no município de Pareci.

Nos primeiros anos da imigração italiana a trilha ficava no meio da mata e os imigrantes pioneiros abriam caminho com foices e facões. Existia um antigo paradouro onde descansavam para enfrentar o pior trecho, a penosa subida da Serra, que demorava três dias e três noites. Na foto acima o antigo Porto de São Sebastião do Caí anos depois em 1910, com o vapor Salvador atracado quando então ainda não havia um cais e os carroções com os pertences dos primeiros imigrantes com destino a Colônia de Caxias, precisavam subir uma forte rampa no barranco do rio. Ao fundo pode-se ver também a densa floresta, por onde as caravanas de carroças deviam passar em direção ao alto da  Serra.

Alguns anos mais tarde, quando as três Colônias da Serra Gaúcha já estavam com a lotação completa, os imigrantes italianos que chegavam eram levados para a recém criada Colônia Silveira Martins, próximo a cidade de Santa Maria, a qual ficou conhecida por Quarta Colônia, por ter sido a quarta a ser criada pelo governo brasileiro. Em Porto Alegre embarcavam em pequenos barcos a vapor, subindo pelas água do Rio Jacuí e desembarcando na cidade de Rio Pardo. Desta cidade faziam o trecho restante até a colônia, a pé ou carroças, através da localidade de Val de Buia. 

Nota do Autor

Este texto apresenta, em linguagem acessível, um resumo do percurso realizado pelos imigrantes italianos até as colônias da Serra Gaúcha, destacando os caminhos fluviais, as trilhas na mata e os esforços físicos envolvidos nessa jornada. Mais do que uma descrição de rotas, ele busca revelar a dimensão humana da imigração: o cansaço, a esperança e a determinação de famílias que deixaram a Europa em busca de terra, trabalho e dignidade no Brasil.

Ao narrar essas travessias, o objetivo é valorizar a memória dos que enfrentaram rios, serras e florestas para construir novas comunidades no Rio Grande do Sul. Trata-se de um convite à reflexão sobre como a infraestrutura, o território e a cultura se entrelaçaram na formação das colônias italianas e na história do estado. 

Dr. Luiz C. B. Piazzetta



domingo, 25 de janeiro de 2026

A Colonização Italiana no Rio Grande do Sul e a Formação da Serra Gaúcha



A Colonização Italiana no Rio Grande do Sul e a Formação da Serra Gaúcha 


O território que hoje forma o Rio Grande do Sul foi, durante séculos, uma área estratégica e disputada entre as coroas de Portugal e Espanha. Somente no século XVIII o povoamento passou a ocorrer de forma mais consistente, com o objetivo de garantir domínio político e ocupação efetiva da fronteira sul do Brasil. A partir daí, a região começou a se estruturar como província, com vilas, estâncias e núcleos agrícolas.

No século XIX, o Império do Brasil adotou políticas de colonização para ocupar áreas pouco povoadas e estimular a produção agrícola. A imigração europeia passou a ser vista como solução econômica e social, especialmente diante do enfraquecimento do sistema escravista. Foi nesse contexto que, em 1875, chegaram ao Rio Grande do Sul os primeiros grupos organizados de imigrantes italianos.

As primeiras colônias destinadas aos italianos foram Dona Isabel (atual Bento Gonçalves), Conde d’Eu (hoje Garibaldi) e Campo dos Bugres, que se tornaria Caxias do Sul. Pouco depois, também se consolidaram núcleos como Nova Palmira, na localidade de Nova Milano (atual Farroupilha), e a Colônia Silveira Martins, próxima à atual Santa Maria.

Esses imigrantes vinham, em sua maioria, do norte da Itália, especialmente das regiões do Vêneto, Lombardia, Trentino-Alto Ádige e Friuli. Estima-se que cerca de 54% eram vênetos, seguidos por 33% lombardos, além de trentinos, friulanos e outros grupos menores. Essa composição explica por que a cultura vêneta se tornou dominante em grande parte da serra gaúcha.

Ao chegarem, os colonos encontraram terras cobertas por mata fechada, ausência de estradas e isolamento quase total. Com trabalho árduo, abriram clareiras, construíram casas de madeira, capelas e escolas. A agricultura familiar tornou-se a base da economia local, com destaque para o cultivo da uva, do milho, do trigo e, mais tarde, para o desenvolvimento da vitivinicultura, que se tornaria símbolo da região.

Em poucos anos, os lotes iniciais ficaram ocupados. Com o crescimento das famílias, filhos e netos dos pioneiros passaram a buscar novas terras, dando origem a outros núcleos coloniais como Antônio Prado, Nova Prata, Guaporé, Veranópolis, Nova Bassano, Casca, Erechim, Getúlio Vargas, Tapejara, Sananduva e Vacaria, entre muitos outros.

A presença italiana marcou profundamente a identidade do Rio Grande do Sul. Além da contribuição econômica, os imigrantes preservaram tradições, dialetos, religiosidade, culinária e formas de organização comunitária que ainda hoje fazem parte da cultura gaúcha. Festas típicas, cantos, hábitos alimentares e até o modo de falar carregam a herança dos primeiros colonos.

A imigração italiana no Rio Grande do Sul não foi apenas um movimento populacional: foi um processo de transformação social e cultural que moldou cidades, paisagens e mentalidades. Em 2026, o estado celebrará oficialmente os 151 anos da imigração italiana, reconhecendo o papel fundamental dessas famílias na construção do sul do Brasil.

Nota do Autor

O presente texto resulta de uma releitura interpretativa fundamentada em fontes históricas, estudos acadêmicos e registros documentais sobre a imigração italiana no Rio Grande do Sul. Não se trata de mera reprodução de dados, mas de um exercício de síntese e recriação literária que busca conciliar rigor histórico com linguagem acessível ao leitor contemporâneo.

Ao narrar a trajetória dos primeiros colonos, procurei respeitar os fatos consagrados pela historiografia, ao mesmo tempo em que dei forma a uma escrita fluida, capaz de transmitir não apenas acontecimentos, mas também o espírito de uma época marcada por privações, esperança e extraordinária capacidade de adaptação.

Este trabalho tem como propósito maior contribuir para a preservação da memória coletiva, valorizando o legado cultural, social e humano deixado pelos imigrantes italianos e seus descendentes. Que estas linhas sirvam não apenas como registro do passado, mas como ponte entre gerações — um convite à reflexão sobre identidade, pertencimento e a construção histórica do Rio Grande do Sul. 

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta


sábado, 24 de janeiro de 2026

La Vècia Polenta

 

 

La Vècia Polenta

 

Polenta santa, fiola del sol,
nassuda lontan soto ´n altro ciel,
rivada con el vento, con el mar e con el dolor,
par dar da magnar a chi gavea fame e fredo.

 

Prima le zera segala, castagna e anca el pan nero,
poi ´l mìlio che el ga vignesto come ´n dono vero;
el colono straco, sudà e sfidà,
con el mìlio el ga tornà a gaver speransa.

 

Soto la pignata nera del fogon,
la polenta la canta, la se mete a sbufar;
con la mestola de fusto la vien rimestà,
e ogni zirada la ze ‘na preghiera cantà.

 

In Vèneto la zera mama e sostegno,
in Brasil la ze diventà ancora pì ben;
tra boschi e ronchi da netar e arar,
lei le zera forsa par no se fermar.

 

Taiada sul panaro, con formài e salame,
o con sugo magro de struto e de pan;
no zera lusso, ma zera dignità,
zera la fame che imparava a se calmar.

 

Polenta de colono, de pianto e sudor,
compagna de nave, de selva e laor;
ti te si stòria che se magna col cuor,
ti te si tera che canta in ogni dolor.

 

Dove ghe ze polenta, ghe ze famèia,
ghe ze parola, ghe ze idea;
no ti si piato de re, ma de verità,
ti te si richessa che no se pol comprar.

 

O polenta, regina dei poareti e de la zente,
pan de mìglio fato carne e ossa;
ti te si el mìglio diventà preghiera e canson,
ti te si speransa de ogni generassion.

 

Nota do Autor

Sta Ode a la Polenta no la ze stada scrita solo par far poesia. La ze stada scrita par tegner verta ‘na porta: la porta de la memòria. La polenta, par i nostri noni e bisnoni, no la zera un piato qualunque la zera el pan de ogni zorno, la mama silensiosa che tegnea in piè le famèie quando la tera zera dura, el fredo feròs e la speransa poca.

In Vèneto prima, e dopo qua in la "Serra Gaúcha", la polenta la ze stada sostansa e dignità. Drento le cusine de legno e fumo, davanti el fogón che no se stufava mai, la nona smissiava la polenta con la mestola, e in ogni zirada ghe metea no solo mìglio e aqua calda, ma fadiga, amor e futuro. La pignata nera la cantava pian pian, e quel canto el zera compagnia par chi tornava straco dal laor.

Sta Ode la vol esser un ringrasiamento a tuti quei coloni che ga patì fame, fredo e paura, ma che no ga mai molà la dignità. La ze un ato de rispeto verso chi ga fato de la misèria ‘na scola de coràio e de la polenta ‘na bandiera de sopravivensa.

E adesso, a ti che lesi questi versi se te senti el profumo de la polenta che vien su da la cusina, e te rivedi to mama o to nona davanti al fogón de legna che smìssia pian pian, no sta restar in silènsio. Scrivi la to esperiensa ´ntei comentàri de sto blog. Parché ogni ricordo che se conta el ze ‘na stòria che torna a vegnir viva, e ogni stòria viva la ze ‘na radise che no more mai.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta 



sábado, 20 de dezembro de 2025

A Epopeia da Emigração Vêneta: A Saga dos Italianos no Sul do Brasil e na América


A Epopeia da Emigração Vêneta

A saga dos italianos no sul do Brasil e na América

de Giovanni Meo Zilio

A primeira emigração organizada com partida do Vêneto (em boa parte da província de Treviso e, em menor medida, da Lombardia e do Friuli) remonta a 1875. De fato, a partir daquele ano começaram a chegar ao Brasil — nos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, Espírito Santo e, sobretudo, na chamada “zona de colonização italiana” situada no Nordeste do primeiro estado, que hoje tem como centro econômico, comercial e cultural a florescente cidade de Caxias do Sul, com cerca de 500.000 habitantes: milagre de desenvolvimento e modelo de “um outro Vêneto” transplantado e crescido além-oceano. A isso devem ser acrescentadas outras correntes emigratórias, sobretudo para a Argentina e o Uruguai, onde muitos italianos já estavam presentes antes, e, em menor medida, para países menores como o México.

As principais causas do fenômeno emigratório foram, como é sabido, a miséria e a marginalização das classes rurais da época, quando não a própria fome, juntamente com o sonho da propriedade da terra por parte de nossos camponeses (então verdadeiros “servos da gleba”), muitas vezes enganados por propagandas falaciosas e interesseiras, favorecidas, por sua vez, pela ignorância misturada à esperança, que é sempre a última a morrer. Mas deve-se levar em conta também aquele espírito irreprimível de aventura, aquela atração pelo novo e pelo distante que sempre agiu sobre a humanidade e que frequentemente é negligenciado pelos historiadores da emigração.

A travessia atlântica naquela época (no fundo dos porões) foi, por si só, uma epopeia que ainda está presente na memória coletiva, transmitida em episódios comoventes nas lembranças dos velhos e na copiosa literatura popular, sobretudo vêneto-brasileira (cantos, poesias, relatos), que, a partir das celebrações do centenário da primeira emigração “in loco” (1975), explodiu aqui e ali também em formas estilisticamente relevantes. Do mesmo modo, permanece na memória coletiva a epopeia das inenarráveis condições de chegada e de instalação e as lutas da primeira geração para desmatar a montanha com as próprias mãos, para se defender dos animais ferozes, das serpentes, dos índios, das doenças, para construir do nada estradas e habitações, para enfrentar continuamente o medo que se tornava uma obsessão…

Esta história de ilusões e sofrimentos, de heroísmo e humilhações, esta “história interna” da nossa emigração, que representa o reverso da história externa da qual mais se ocuparam os estudiosos, ainda está toda por ser aprofundada.

No que diz respeito ao sul do Brasil, que pode ser considerado emblemático, um primeiro grupo de emigrantes chegou, depois de peripécias e sofrimentos indescritíveis, àquele lugar que hoje se chama Nova Milano, nas proximidades de Caxias do Sul. Do porto de Porto Alegre eles prosseguiam em barcaças ao longo do rio Caí e depois a pé, por quilômetros e quilômetros, através da selva, com as poucas ferramentas e pertences nas costas, abrindo caminho à força de “facão”, até alcançar as terras que lhes haviam sido atribuídas, bem no meio da floresta, ao norte dos territórios planos e mais férteis ocupados pela emigração alemã cinquenta anos antes. Pode-se imaginar o custo humano de tudo isso, depois de terem cortado as pontes atrás de si, vendendo seus poucos haveres antes de partir da Itália.

Os vestígios da primeira colonização ainda podem ser vistos hoje em muitos nomes de lugares, como a citada Nova Milano, Garibaldi, Nova Bassano, Nova Brescia, Nova Treviso, Nova Venezia, Nova Padua, Monteberico…; enquanto outros, como Nova Vicenza e Nova Trento, mudaram posteriormente seus nomes originais para os nomes brasileiros de Farroupilha e Flores da Cunha, em períodos caracterizados por xenofobia. Tal xenofobia do governo central chegou ao ponto de que, nos anos da última guerra, àqueles nossos imigrantes que não sabiam falar o brasileiro, foi proibido (sob pena de prisão) falar a sua língua vêneta, com as consequências morais que é fácil imaginar, além das dificuldades práticas (que muitas vezes desembocavam no tragicômico!) que tudo isso produziu entre aquela pobre gente marginalizada a quem se tirava até mesmo a palavra…

Trata-se, de qualquer modo, de um fenômeno imponente — no Brasil como na Argentina — tanto pela extensão, quanto pela população (da ordem de milhões de descendentes), quanto pela homogeneidade e vitalidade — o qual por mais de um século foi negligenciado, quando não ignorado, pelo governo italiano e por suas instituições.

A imensa maioria das primeiras correntes imigratórias era composta por camponeses que implantaram no novo território as culturas e os métodos agrícolas típicos de suas zonas de proveniência (aos quais se acrescentaram artesãos e comerciantes). A cultura que se impôs sobre as outras foi a da videira, com a consequente industrialização do vinho e dos outros derivados da uva, que ainda hoje representam a maior fonte de riqueza do estado brasileiro do Rio Grande do Sul, que abastece todo o Brasil.

Percorrendo o campo ainda se encontram vivos certos antigos instrumentos (entre nós já quase desaparecidos) da agricultura do século XIX e da vida doméstica de então (em Nova Padua, nas proximidades de Caxias, o monumento ao imigrante, na praça do povoado, é representado solenemente por uma verdadeira “caldeira da polenta” sobre um imponente pedestal). A alimentação no campo ainda é substancialmente a tradicional do Vêneto, à qual se acrescentou o autóctone e indispensável “churrasco” (carne na brasa).

A religião é ainda intensamente seguida e sentida, também porque o clero católico e a organização religiosa acompanharam, desde o primeiro momento, o destino dos emigrantes. Basta pensar que as “capelas” foram até hoje os principais centros comunitários na “colônia” (leia-se campo), não apenas religiosos, mas também de organização social e cultural, e que ao redor delas foram se formando gradualmente as paróquias e os municípios. Em anos recentes, nas aldeias onde não havia um pároco estável, podia-se assistir a cenas, para nós inacreditáveis, como a da população reunida em um galpão que servia de igreja, para celebrar os ritos religiosos sem nenhum sacerdote e sob a orientação daquele que é chamado “padre leigo”, com a participação ativa e solene dos anciãos do lugar.

Quem vive em “colônia”, e conservou em sua maioria o ofício e as tradições dos primeiros emigrantes, até pouco tempo atrás ainda era considerado como marginalizado e visto com suficiência inclusive pelos próprios descendentes de vênetos que habitavam as grandes cidades. Apenas há algumas décadas, desde que foram retomados os contatos efetivos com a Itália, está despertando e se estendendo uma consciência positiva das próprias origens (não mais mito opaco e distante a ser esquecido), com um impulso para reencontrar a identidade histórica: uma busca, muitas vezes comovente, das próprias fontes para restabelecer aquele “cordão umbilical” que havia sido cortado havia mais de 100 anos.

O fenômeno mais imponente dentro desta “história de imigrantes sem história”, como alguém a definiu melancolicamente, é a manutenção, após um século, da própria língua de origem (o vêneto), em nível familiar, interfamiliar e, em determinadas ocasiões (festas, comemorações, jogos, reuniões conviviais, etc.), também em nível comunitário; com um grau de vitalidade e de conservação, no campo, que muitas vezes supera até mesmo aquele do Vêneto da Itália que, como se sabe, ainda está bem enraizado entre nós. Trata-se daquilo que os dialetólogos chamam de “ilha linguística”, relativamente homogênea, onde a língua vêneta acabou triunfando sobre o lombardo e o friulano, estendendo-se como uma “koiné” intervêneta dentro de um contexto heterofônico (o luso-brasileiro). Isso nos permite reconstruir, como “in vitro”, após três ou quatro ou até mais gerações, a língua dos nossos avós e bisavós, sobretudo nos aspectos orais não documentados, como a pronúncia e a entonação, ou o uso de certos provérbios, modos de dizer, cantos da época. Assim, através da história das palavras (as conservadas, as alteradas e as substituídas) podemos reconstruir alguns recortes da história (muitas vezes comovente) daquelas comunidades. Ela, por sua vez, representa um vislumbre dramático e apaixonante da história da Itália e da história do Brasil.

Quem escreve estas linhas é um velho emigrante que experimentou pessoalmente aquilo que muitas centenas de milhares de compatriotas viveram: testemunha direta da situação de quantos, no imediato pós-guerra, atravessaram o oceano amontoados no porão de velhos navios Liberty, restos de guerra, dormindo em beliches de quatro ou cinco camas dispostas verticalmente, com um calor incrível e em condições infernais de promiscuidade. Ele percorreu as Américas de ponta a ponta por muitos anos, desde os áridos planaltos do México até a desolada Patagônia argentina. Por muitos anos na condição de emigrante e depois como estudioso e pesquisador. Como tantos outros emigrantes, viveu na própria carne o drama do transplante, a mortificação dos afetos, a ânsia de tantas ilusões, o naufrágio de tantas esperanças. Não ignora, portanto, ao lado da dimensão histórica do fenômeno migratório, a dor, a fadiga e a coragem que o acompanharam, também porque ele próprio começou de baixo — como se costuma dizer — realizando trabalhos manuais de sobrevivência. Mas a sua história pessoal é pouca coisa diante da história geracional de nossas comunidades, que viveram, sobretudo no imenso Brasil, uma epopeia inenarrável de lutas, sacrifícios, em condições de vida infra-humanas (principalmente as primeiras gerações); epopeia transmitida oralmente (porque na maioria dos casos se tratava de gente que não sabia ler nem escrever) de pai para filho, melhor, de mãe para filha, porque as mulheres, como sempre, são as depositárias das tradições mais vitais e essenciais.

As primeiras gerações enfrentaram, como foi dito, sacrifícios inenarráveis, abandonadas nas florestas; sem Lares e sem Penates, isto é, sem casa e sem família, obrigadas a sobreviver em condições dramáticas. Até sem a palavra, como foi dito acima: sem a palavra não há identidade, não há comunidade nem comunicação, portanto não há vida que possa ser chamada de humana. Mas eles resistiram com os dentes cerrados, com dignidade e coragem, apesar das humilhantes e ardentes condições de inferioridade.

Não só no Brasil, mas também na Argentina e em outros lugares, sobretudo os vênetos, os lombardos e os friulanos, os chamados “polentões” (lembre-se que “polenta”, no rioplatense popular, passou a significar força, coragem), juntamente com os sólidos piemonteses e os industriosos e parcimoniosos genoveses, ofereceram, com as luzes e sombras naturais em todas as coisas humanas, uma contribuição de progresso ao país que os acolheu. Eles conservaram no coração, desde o último quarto do século passado, o sonho e o mito da pátria-mãe, da mãe-madrasta que os abandonou por mais de cem anos. Eles, porém, continuaram a recordá-la e a sonhá-la nos intermináveis “filós” dos estábulos camponeses, na comovida e discreta intimidade familiar, nas emocionadas reuniões comunitárias, nas humildes preces cotidianas.

Através das gerações conservaram, de forma incrível, sua língua, os usos, os costumes, os ritos, as festas, as danças, os jogos (o tresette, as bochas, a mora, a “cuccagna”). Jogos temperados com certas expressões nossas, já não mais blasfemas, porque eufemizadas, como “Ostrega!”, “Ostregheta!” ou “Sacramenta!”. Ainda se ouvem os cantos comunitários de outrora, que em grande parte nós perdemos, e que os ajudaram moralmente a viver, a sobreviver: nos lugares mais perdidos. Nas praças de alguns povoados encontramos, como monumentos, além da “caldeira” da polenta, como já dito, a carroça ou o carrinho de mão, a gôndola veneziana, o leão de São Marcos (inclusive o símbolo do Município de Octavio Rocha, no Rio Grande do Sul, representa o leão de São Marcos que segura firmemente na pata o cacho de uva em vez do livro tradicional!).

Aquelas pessoas, com o saco às costas (com a mala de madeira em uma segunda fase e de papelão em uma terceira), desde o século passado aliviaram nossa pressão demográfica, prestaram um serviço histórico à Itália, aliviaram-nos da fome, sobretudo depois da Segunda Guerra Mundial, com suas remessas, e hoje compram em primeiro lugar produtos italianos e, assim, fortalecem o comércio e a economia do nosso país. Estima-se em mais de 100.000 bilhões o impacto econômico proveniente da colaboração dos nossos emigrantes.

Esse povo é sangue do nosso sangue, gente que sofreu moral e materialmente a marginalização secular e da qual também temos algo a aprender ou reaprender: aqueles valores que hoje, em grande parte, se vão esquecendo.

A Itália, hoje, não pode deixar de honrar a sua dívida secular, histórica, moral e política.

Nota 

Era o mês de Dezembro do ano de 1996 quando, por uma semana, o Prof. Meo Zilio foi hóspede em minha casa, ocasião em que eu o levava todos os dias às casas dos antigos descendentes, para suas visitas e entrevistas.
Nesse período ele me presenteou com este seu artigo, ainda na época inédito ou quase em publicação, não me recordo bem. Conservo-o até hoje como uma bela lembrança do professor amigo.
Para recordá-lo, decidi hoje recolocá-lo neste blog, texto traduzido do italiano mas mantendo a sua forma original.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta


terça-feira, 19 de agosto de 2025

Imigrantes Italianos Pioneiros na Colônia Caxias



D. José Barea, o primeiro bispo da diocese de Caxias do Sul, aponta como primeiros habitantes do território de Caxias do Sul três famílias da província de Monza: Stefano Crippa, Luigi Sperafico, e Tomazzo Radaelli. 




Os pioneiros que integraram a primeira leva de imigrantes italianos à Colônia Caxias, desembarcaram em 30 de setembro de 1875, eram 110 agricultores determinados, como registrado nos documentos de concessão de lotes. Esses homens e mulheres, oriundos principalmente do norte da Itália, trouxeram consigo a esperança de um futuro melhor e a força para transformar a terra que lhes foi destinada. O registro oficial marca o início de uma história de resiliência, trabalho árduo e contribuições inestimáveis para a formação da cultura e economia local.

São eles:

1º Radaelli, Giovanni e Maria com 9 filhos; e Tomazzo e Maria, casal sem filhos. O primeiro tinha 52 anos e o segundo apenas 39. Daí talvez o fato de só se recordar o nome do mais moço.

2º Crippa, Pietro (44 a.) e Maria, com 4 filhos; Emílio (41 a.) e Maria, casal sem filhos; Stefano (22 a.) e Natalina (l8 a.) de certo recém casados; Carlo e Antônia, casados, e Caetano, com 27 anos, solteiro.

3º Sperafico, Luigi (38 a.) e Ângela, com 5 filhos.

4º Casaghi, Carlo (43 a.) e Colomba, com l filho.

5º Berreta, Francesco (29 a.) e Emilia.

6º Boratti, Giovanni (22 a.) e Teresa - Francesco (56 a.) e Adelaide, casais sem filhos; Carlo (50 a.) e Carolina, com 2 filhos. 

7º Sachine, Natale (30 a.) e Luigia, com 1 filho.

8º Gaviraghi, Ângelo (40 a.) e Petronilia, e Luigi (26 a.) solteiro.

9º Brambiglia, Pascoale (33 a.) e Rachelle; Luigi (33 a.) e Giuliana com 2 filhos. 


Caxias 



10º Castaldi, Paolo (23 a.) e Bambina.

11º Barbieri, Giovanni (52 a.) e Luigia, com 4 filhos.

12º Ratoti, Giacomo (38 a.) e Ângela.

13º Benedetto, Tomazzo (38 a.) viúvo, Giorgio e Eugênia, sem filhos.

14º Boccardi, Carlo (42 a.) e Catarina, com 3 filhos.

15º Mauri, Carlo (39 a.) e Luigia, com 4 filhos.

16º Colombo, Ângelo (33 a.) e Maria, com l filha; Giovanni, Mateus, Antônio, e Ambroggio, maiores, solteiros. 

17º Mariani, Antônio (20 a.) e Giuseppina (l7 a.) que constituíam o casal mais jovem.

Além desses alguns rapazes solteiros, desacompanhados, figuram também entre os primeiros imigrantes que chegaram na Colônia Caxias, são eles:

Eugênio Pegoreti, Giacomo Lamperti, Colli Ferruzzi, Luigi Porta, Zacarias Missaglia, Pietro Mame, Ângelo Maggine, Carlo Pergoni, Luigi Gervasoni, Francesco Maggine, Carmelo e Alessandro Andregoni, Agostino Salmori, Francesco Santo Agostino, Filippo Colonni, Gaspare Sardo, Natale Bonadeo, Giacomo Ferrari, Severino Conzi, Eurico Sangagli, Giuseppe Angeli, e Angelo Faccionello.