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sábado, 4 de abril de 2026

Pederobba no Vêneto - História, Emigração Italiana e a Antiga Nobreza dos Condes de Onigo


Pederobba no Vêneto - História, Emigração Italiana e a Antiga Nobreza dos Condes de Onigo


Introdução

Localizado na província de Treviso, na região do Vêneto, no nordeste da Itália, o município de Pederobba ocupa uma posição geográfica singular entre a planície do Rio Piave e as primeiras elevações alpinas que conduzem ao maciço do Monte Grappa.

Essa área, situada na histórica Marca Trevigiana, sempre foi um território de passagem entre as planícies agrícolas do Vêneto e as regiões montanhosas das pré-Alpes. Ao longo dos séculos, a pequena comunidade de Pederobba testemunhou profundas transformações políticas, sociais e econômicas, incluindo a dominação da República de Veneza, o período austríaco e a grande emigração italiana para o continente americano.

Hoje, embora seja um município relativamente pequeno, Pederobba possui uma história rica que conecta antigas famílias nobres, como os Condes de Onigo, às trajetórias de milhares de emigrantes que partiram para países como o Brasil, a Argentina e os Estados Unidos.

Origens históricas de Pederobba

A presença humana na região de Pederobba remonta à Antiguidade. Antes da conquista romana, o território era habitado por populações conhecidas como Paleovenetos, um povo antigo que ocupava grande parte do atual Vêneto.

Durante o período romano, a região passou a integrar importantes rotas comerciais que ligavam o norte da península italiana às áreas alpinas e à Europa Central. A posição geográfica próxima ao Piave favorecia o transporte de mercadorias e o deslocamento de viajantes.

Na Idade Média, o território passou a fazer parte da chamada Marca Trevigiana, uma região historicamente disputada por senhores feudais, bispados e comunas urbanas.

Documentos do século XII já mencionam a existência de uma antiga comunidade paroquial denominada Plebem de Petrarubea, considerada uma das primeiras referências históricas à localidade.

Pederobba sob o domínio da República de Veneza

Entre os séculos XIV e XVIII, Pederobba integrou os territórios da poderosa Sereníssima República de Veneza, que governou vastas áreas do nordeste italiano.

Durante esse período, a região passou a fazer parte do chamado Quartier del Piave, subordinado administrativamente à cidade de Treviso.

O rio Piave desempenhava um papel fundamental na economia local. Através de suas águas eram transportadas grandes quantidades de madeira provenientes das florestas alpinas, destinadas à construção naval e às obras públicas em Veneza.

Além disso, o território tornou-se um ponto de encontro comercial entre agricultores da planície e comunidades das regiões montanhosas.

A criação do município moderno

O município moderno de Pederobba foi oficialmente instituído em 1810, por decreto do imperador francês Napoleão Bonaparte, durante a reorganização administrativa da Itália sob domínio napoleônico.

Após a derrota de Napoleão e a restauração da ordem europeia, o território passou novamente ao controle da Casa de Habsburgo, integrando o Império Austríaco.

Somente em 1866, após a Terceira Guerra de Independência Italiana, o Vêneto foi anexado ao recém-formado Reino da Itália.

Economia rural e pobreza no século XIX

Até o final do século XIX, Pederobba era uma comunidade essencialmente rural.

A economia baseava-se principalmente na pequena agricultura familiar, com cultivo de milho, trigo e outros produtos destinados à subsistência. A polenta, preparada com farinha de milho, constituía o alimento básico da população camponesa.

Entretanto, a escassez de terras cultiváveis e o crescimento demográfico tornavam difícil a sobrevivência das famílias.

Essa situação levou muitos habitantes a procurar trabalho fora de sua região de origem.

A tradição da migração sazonal

Durante séculos, os habitantes de Pederobba praticaram a chamada migração sazonal, conhecida em dialeto vêneto como “fare la stagione”.

Nessa prática, homens partiam durante alguns meses do ano em busca de trabalho em regiões vizinhas ou em territórios do Império Austríaco, que na época incluía extensas áreas da Europa Central.

Entre os trabalhadores migrantes eram comuns os chamados badilanti e carriolanti.

Esses trabalhadores viajavam a pé por longas distâncias, levando consigo ferramentas, um carrinho de mão, alguns quilos de farinha de milho para preparar polenta e, às vezes, um pedaço de queijo.

Após meses de trabalho em obras, estradas ou campos agrícolas, retornavam à sua terra natal com pequenas economias.

A grande emigração italiana

A partir da década de 1870, essa migração temporária começou a transformar-se em emigração definitiva.

A crise agrícola, o crescimento populacional e a falta de terras levaram milhares de famílias vênetas a buscar novas oportunidades fora da Europa.

Entre os principais destinos estavam:

Brasil

Argentina

Uruguai

Estados Unidos

A partir de 1875, o Brasil tornou-se um dos principais destinos dessa corrente migratória.

Diferentemente da antiga migração sazonal, agora partiam famílias inteiras, levando consigo poucos pertences e a esperança de reconstruir a vida em terras distantes.

Para muitos camponeses vênetos, o Brasil representava a lendária “terra da cucagna”, símbolo de abundância e prosperidade.

Pederobba e a Primeira Guerra Mundial

A posição geográfica de Pederobba, próxima ao Monte Grappa e ao Piave, fez com que a região se tornasse área estratégica durante a Primeira Guerra Mundial.

Após a derrota italiana na Batalha de Caporetto em 1917, o rio Piave transformou-se na principal linha defensiva do exército italiano.

Diversos combates ocorreram nas proximidades do território de Pederobba, causando destruição e deslocamento da população.

Um dos monumentos mais importantes da memória desse período é o Sacrario Francese di Pederobba, inaugurado em 1937 para homenagear soldados franceses mortos durante os combates na região do Monte Tomba.

Os Condes de Onigo: a antiga aristocracia local

Entre as famílias que exerceram grande influência sobre a história de Pederobba destaca-se a antiga casa aristocrática dos Onigo.

A família possui origens medievais e provavelmente deriva de linhagens germânicas ou lombardas que se estabeleceram na região durante o período do Sacro Império Romano-Germânico.

Inicialmente conhecida como da Cavaso, a linhagem adotou o sobrenome Onigo após adquirir os castelos de Onigo e Rovigo no final do século XII.

Ascensão na nobreza veneziana

Durante o período da República de Veneza, os Onigo consolidaram sua posição entre as famílias nobres da Marca Trevigiana.

Em 1460, foram admitidos no conselho nobre da cidade de Treviso.

A família possuía vastas propriedades agrícolas, estimadas em mais de 2.000 hectares de terras, além de feudos na Valle di Primiero, concedidos pelo imperador do Sacro Império.

Personagens históricos da família

Entre os membros mais importantes da linhagem destacam-se:

Gualperto da Cavaso, considerado o fundador histórico da família.

Alberto da Onigo, ligado à corte de Caterina Cornaro, rainha de Chipre e senhora de Asolo.

Girolamo Onigo, prefeito de Belluno durante o período napoleônico.

Guglielmo Onigo, patriota do Risorgimento italiano.

O centro simbólico do poder da família era a Villa Conti d'Onigo, construída entre os séculos XVII e XVIII.

O fim da linhagem

A influência da família começou a declinar ao longo do século XIX.

A última herdeira foi Teodolinda Onigo, filha de Guglielmo Onigo. Em 1903, ela morreu tragicamente após ser assassinada por um trabalhador da propriedade.

Com sua morte, a antiga dinastia praticamente se extinguiu.

Parte do patrimônio familiar foi destinada à fundação Opere Pie d’Onigo, responsável por obras de assistência social e instituições beneficentes na região.

Nota Historiográfica do Autor

O presente texto tem por objetivo apresentar uma síntese histórica sobre o município de Pederobba e seu contexto social entre os séculos XVIII e XX, com especial atenção ao fenômeno da emigração vêneta e à presença da antiga aristocracia local representada pela família Família Onigo.

A história de pequenas comunidades do Vêneto, como Pederobba, permite compreender de forma mais ampla as profundas transformações que marcaram o norte da Itália entre o declínio da República de Veneza, a dominação da Casa de Habsburgo e o processo de formação do moderno Estado italiano ao longo do século XIX.

Essas transformações estiveram diretamente ligadas ao grande movimento migratório que levou milhões de italianos a cruzar oceanos em busca de novas oportunidades. Nesse contexto, inúmeras famílias da região partiram rumo ao Brasil, à Argentina, aos Estados Unidos e a outros destinos do chamado Novo Mundo.

Para o autor, o estudo dessa pequena comunidade vêneta possui também um significado particular. Suas próprias origens familiares encontram-se ligadas ao território de Pederobba, fato que confere a esta investigação histórica um valor adicional de memória e identidade. Assim, mais do que um simples exercício historiográfico, este trabalho busca também contribuir para a preservação das lembranças e das trajetórias humanas que partiram dessas terras às margens do Rio Piave, levando consigo tradições, língua e cultura.

A memória dessas comunidades permanece viva hoje entre os descendentes de emigrantes espalhados pela América e pela Oceania, para os quais as antigas terras do Vêneto continuam representando um importante ponto de origem cultural, histórico e afetivo.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



quarta-feira, 18 de março de 2026

Pederobba ´ntel Véneto – Stòria, Emigrassion Italiana e l´Antica Nobiltà dei Conti d’Onigo

 


Pederobba ´ntel Véneto – Stòria, Emigrassion Italiana e l´ Antica Nobiltà dei Conti d’Onigo

Introdussion

Situà ´ntela provìnssia de Treviso, ´ntela region del Véneto, ´ntel nord-est de l’Itàlia, el comune de Pederobba el ze sta tra la pianura del fiume Piave e le prime alture de le Alpi che mena verso el massisso del Monte Grappa.

Sta zona, che fa parte de la stòrica Marca Trevigiana, la ze stada sempre un teritòrio de passàgio tra le pianure agrìcole del Véneto e le region montagnose de le pre-Alpi. Con el passar dei sècoli, la pìcola comunità de Pederobba la ga varda grandi cambiamenti polìtici, sossiai e económici, tra cui el domìnio de la Repùblica de Venéssia, el perìodo austrìaco e la granda emigrassion italiana verso l’Amèrica.

Incoi, anca se el ze un comune pìcolo, Pederobba el ga na stòria rica che liga vècie famèie nòbili, come i Conti d’Onigo, a le stòrie de miaia de emigranti che i ga partì par paesi come el Brasil, l’Argentina e i Stati Unìti.

Le origin stòriche de Pederobba

La presensa de zente ´ntela region de Pederobba la torna indrio fin da l’Antiguità. Prima de la conquista romana, sto teritòrio el zera abità dai Paleoveneti, un pópolo antigo che ocupava grande parte del atual Vèneto.

Durante el perìodo romano, la region la ze diventà parte de rote comerssiai importanti che ligava el nord de la penìsola italiana con le region alpine e l’Europa Central. La visinansa del Piave la favoria el trasporto de le mercansie e el movimento de viaiadori.

´Ntela Età Medieval, el teritòrio el ga passà a far parte de la ciamà Marca Trevigiana, ´na region disputà tra signori feudai, vescovi e comuni urbani.

Documenti del sècolo XII i parla za de ´na comunità parochial antica ciamà Plebem de Petrarubea, considerà ´na de le prime referense stòriche de la località.

Pederobba soto la Repùblica de Venéssia

Tra i sècoli XIV e XVIII, Pederobba la ga fato parte dei teritori de la potente Serenìssima Repùblica de Venéssia, che governava vaste region del nord-est italiano.

Durante sto periodo, la region la zera parte del Quartier del Piave, che dipendeva amministrativamente dela sità de Treviso.

El fiume Piave el gavea un papel importante ´ntela economia locale. Par le so aque vegniva trasportà grandi quantità de legname che rivava de le foreste alpine e che zera destinà a le construssion navali e a le òpere pùbliche de Venéssia.

De pi, sto teritòrio el ga diventà un ponto de incontro comerssial tra contadin de la pianura e comunità de le region de montagna.

La nàssita del comune moderno

El comune moderno de Pederobba el ze stà istituì ´ntel 1810 par decreto del imperador francese Napoleon Bonaparte, durante la reorganisassion aministrativa de la Italia soto domìnio napoleónico.

Dopo la sconfita de Napoleon e la restaurassion del orden europeo, el teritòrio el ze tornà soto el controlo de la Casa d’Asburgo, entrando a far parte del Impero Austrìaco.

Solo ´ntel 1866, dopo la Tersa Guera de Indipendensa Italiana, el Véneto el ze vignesto anesso al Regno d’Itàlia.

Economia rural e povertà ´ntel sècolo XIX

Verso la fin del sècolo XIX, Pederobba la zera ´na comunità quasi tuta rurale.

L’economia la se basava sora la pìcola agricoltura familiare, con coltivassion de formenton, frumento e altri prodoti par la sussistensa. La polenta, fata con farina de formenton, la zera el magnar de ogni zorno de la popolassion contadina.

Però la scarsità de tera coltivabile e la crèssita de la popolassion rendea difìssil la vita de le famèie.

Par sta rason tanti abitanti i ga tacà a sercar laoro fora de la so region.

La tradission de la migrassion staional

Par sècoli, i abitanti de Pederobba i ga praticà la migrassion stagional, che ´ntel dialeto véneto la zera ciamà far la staion.

In sta pràtica, i òmeni i partiva par qualche mese del ano in serca de laoro in region visin o anca in teritori del Impero Austrìaco, che in quel tempo comprendea vaste zone de la Europa Central.

Tra i laoradori migranti i zera comun i badilanti e i carriolanti.

Sta zente la viaava spesso a piè par lunghe distanse, portando con lori i ferri de laoro, ´na cariola, qualche chilo de farina de formenton par far la polenta e qualche toco de formàio.

Dopo mesi de fadiga in cantieri, strade o campagne, lori i tornava a la so tera con pochi risparmi.

La granda emigrassion italiana

Da la dècada del 1870 in vanti, sta migrassion temporánea la ga scominsià a trasformarse in emigrassion definitiva.

La crisi agrìcola, la crèssita de la popolassion e la mancansa de tera la ga portà miaia de famèie vénete a sercar nove oportunità fora de la Europa.

Tra le mete prinssipai ghe zera:

  • Brasil

  • Argentina

  • Uruguai

  • Stati Uniti

Dopo el 1875, el Brasil el ga diventà ´na de le mete pì importanti par sta corente migratòria.

Lora desso partia famèie intere, portando pochi beni e tanta speransa de rifar la vita in tere lontan.

Par tanti contadin véneti, el Brasil el zera la famosa “tera de la cucagna”, sìmbolo de abondansa e fortuna.

Pederobba e la Prima Guera Mondial

La posission de Pederobba, visin al Monte Grappa e al Piave, la ga fato sì che la region la diventasse zona stratègica durante la Prima Guera Mondial.

Dopo la sconfita italiana a Caporetto ´ntel 1917, el Piave el se ga diventà la prinssipal lìnea defensiva del esèrssito italiano.

Diversi combatimenti i se ga sussedesto ´ntei dintorni de Pederobba, causando distrussion e spostamenti de la popolassion.

Un dei monumenti pì importanti de sta memòria stòrica el ze el Sacràrio Francese de Pederobba, inaugurà ´ntel 1937 par onorar i soldai francesi morti ´ntei combatimenti de la region del Monte Tomba.

I Conti d’Onigo: l´antica aristocrasia locale

Tra le famèie che ga avù grande influensa ´ntela stòria de Pederobba se distingue l´antiga casa aristocràtica dei Onigo.

La famèia la ga origini medievai e probabilmente la deriva da lignagi germánici o lombardi che se stabilì ´ntela region durante el perìodo del Sacro Impero Romano-Germánico.

In prinssìpio la lìnea la zera conossuda come da Cavaso, ma dopo aver comprà i casteli de Onigo e Rovigo verso la fin del sècolo XII, la famèia la tacò a doparar el soranome Onigo.

Nota storiogràfega del autor

Sto testo el ga come scopo presentar ´na sìntesi stòrica del comun de Pederobba e del so contesto sossial tra i sècoli XVIII e XX, con atenssion particular al fenómeno de la emigrassion véneta e a la presensa de la antica aristocrassia locale rapresentada da la famèia Onigo.

La stòria de le pìcole comunità del Véneto, come Pederobba, la ga aiutà a capir meio le trasformassion che ga segnà el nord de la Itàlia tra el declino de la Repùblica de Venéssia, la dominassion de la Casa d’Asburgo e la formassion del moderno Stato italiano ´ntel sècolo XIX.

Ste trasformassion le zera ligà al grande movimento migratòrio che ga portà milioni de italiani a traversar oceani in srca de nove oportunità. In sto contesto tante famèie de la region le ga partì verso el Brasil, l’Argentina, i Stati Unìti e altri paesi del ciamà Novo Mondo.

Par l’autor, lo studio de sta pìcola comunità vèneta el ga anca un significà particolar, parchè le so origini familiari le ze ligà pròprio al teritòrio de Pederobba. Sto fato el dà a sta ricerca stòrica un valor in pì de memòria e identità.

Cusì sto lavoro el cerca de conservar la memòria de le stòrie umane de chi che partì da ste tere lungo le rive del Piave, portando con lori tradission, léngua e cultura.

La memòria de ste comunità la resta viva incoi tra i discendenti dei emigranti sparsi par l’America e l’Oceania, par i quali le antighe tere del Véneto le resta un importante ponto de origine cultural e stòrica. 

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



segunda-feira, 9 de março de 2026

Pederobba no Vêneto Terra de Origem de Emigrantes Italianos


Pederobba no Vêneto Terra de Origem de Emigrantes Italianos

O território de Pederobba possui uma história antiga, muito anterior à criação do município moderno. Documentos medievais já mencionam a presença de uma comunidade organizada na região: em 1152 o papa Eugênio III confirmou ao bispo de Treviso diversas igrejas do território, entre elas a antiga pieve local, testemunhando a existência de um núcleo populacional já estabelecido. Durante séculos esta área integrou os domínios da República de Veneza, da qual fez parte aproximadamente entre 1337 e 1797, período em que a região se inseriu na estrutura econômica e administrativa do Estado veneziano.
Foi nesse longo período que algumas obras importantes marcaram o território, entre elas o canal conhecido como Brentella di Pederobba, construído em 1436 para conduzir as águas do rio Piave às terras agrícolas da região. A obra permitiu a irrigação de campos e o funcionamento de pequenos moinhos, favorecendo a agricultura local. Grande parte das terras do território esteve também vinculada à antiga família nobre dos Família Onigo, que exerceu influência econômica e social sobre a região durante séculos.
O município de Pederobba, tal como é conhecido hoje, foi instituído apenas muito mais tarde, em 1810, por decreto de Napoleão Bonaparte, durante a reorganização administrativa promovida pelo Reino de Itália napoleônico. Naquele período o território passou a integrar o chamado Departamento do Tagliamento, cuja capital era Treviso. Geograficamente, Pederobba situa-se em uma zona de transição entre a fértil planície atravessada pelo rio Piave e uma região de colinas mais elevadas que conduzem às montanhas que circundam o maciço do Monte Grappa. O município encontra-se justamente na zona limítrofe entre as atuais províncias de Treviso e Belluno.
Após a queda da República de Veneza em 1797, a região passou por sucessivas mudanças políticas até ser definitivamente incorporada ao domínio do Império Austríaco após o Congresso de Viena, em 1815. Durante os longos anos de dominação austríaca, Pederobba e todo o Vêneto permaneceram sob a autoridade da casa dos Habsburgos. Os jovens em idade militar eram obrigados a servir no exército imperial por cerca de nove anos, sendo enviados para diversas partes do vasto império. Esse serviço militar colocava esses jovens em contato com outras realidades e com regiões economicamente mais desenvolvidas do que aquelas em que haviam crescido. Não eram raros os casos de soldados que, após o término do serviço, escolhiam permanecer em outras terras do império, onde muitas vezes constituíam família.
Como os demais municípios vizinhos, Pederobba viveu até o último quartel do século XIX de uma economia modesta baseada principalmente na pequena agricultura e em algumas atividades artesanais. Os pequenos agricultores e artesãos, para complementar os escassos rendimentos obtidos da terra, recorriam frequentemente à migração temporária para outras regiões em busca de trabalho. Desde tempos antigos era comum entre os habitantes mais pobres a prática de “fare la stagione”, uma forma de migração sazonal que levava homens a partir durante determinadas épocas do ano para trabalhar em outras regiões da Europa central.
Muitos desses trabalhadores atravessavam as fronteiras rumo às terras do próprio Império Austríaco, que então compreendia vastos territórios que hoje correspondem à Hungria, partes da Romênia e da Polônia. Terminada a estação de trabalho, retornavam às suas casas trazendo algum dinheiro economizado. Ficaram célebres as histórias dos chamados “badilanti” e “carriolanti”, trabalhadores itinerantes que percorriam longas distâncias munidos apenas de um carrinho de mão, alguns instrumentos de trabalho e poucos mantimentos — geralmente alguns quilos de farinha de milho para preparar a polenta e, às vezes, uma pequena forma de queijo. Assim atravessavam montanhas e fronteiras em busca de trabalho, muitas vezes caminhando por semanas.
Por volta de 1880 teve início um novo fenômeno migratório, desta vez de caráter definitivo. Muitos habitantes do Vêneto começaram a deixar suas aldeias rumo aos países vizinhos mais ricos da própria Europa, mas sobretudo em direção ao chamado Novo Mundo. Destinos como Estados Unidos, Brasil, Argentina e Uruguai passaram a atrair milhares de famílias. Entre esses destinos, aquele que mais se destacou para os vênetos nesse final de século foi o Brasil, para onde a grande corrente migratória se iniciou a partir de 1875.
Diferentemente das antigas migrações sazonais, agora não partiam apenas homens sozinhos carregando um carrinho de mão ou uma grande caixa de madeira nas costas, cheia de mercadorias ou estampas. Partiam famílias inteiras, abandonando definitivamente suas casas e suas aldeias em busca de uma vida melhor no tão sonhado Brasil, visto por muitos como a mítica terra da “cucagna”, onde se imaginavam existir terras abundantes e grandes plantações de café. Para muitos desses emigrantes começava então uma jornada rumo a terras distantes, das quais raramente retornariam.
Mais tarde, já ao longo do século XX, a emigração dos chamados pederobbesi continuaria a se expandir para novos destinos. Além da América, muitos habitantes de Pederobba dirigiram-se também para outras regiões do mundo, incluindo territórios da África e, de modo especial, a distante Austrália, onde novas comunidades de emigrantes vênetos acabariam por se estabelecer.

Nota do Autor

Este texto apresenta um panorama histórico do município de Pederobba, no Vêneto, destacando o contexto geográfico, político e social que marcou a vida de seus habitantes ao longo dos séculos. A narrativa recorda as antigas origens da comunidade, o período em que a região integrou a República de Veneza e, posteriormente, o domínio do Império Austríaco após as transformações políticas do início do século XIX.
Também procura explicar as condições de vida da população local, baseada durante muito tempo na pequena agricultura, no artesanato e na migração sazonal de trabalhadores que percorriam diferentes regiões da Europa em busca de sustento.
No final do século XIX, esse movimento migratório transformou-se em uma emigração definitiva, levando muitas famílias a deixar o Vêneto rumo ao Novo Mundo. Entre os principais destinos estavam o Brasil, a Argentina e os Estados Unidos. Ao recordar essa trajetória, o texto contribui para compreender as origens de muitos descendentes de imigrantes italianos e a história das comunidades que nasceram a partir dessas migrações.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta






segunda-feira, 12 de maio de 2025

El Vino de la Guera: Na Famèia tra La Destrussion e l´Esperansa

 


El Vino de la Guera: 

Na Famèia tra La Destrussion e l´Esperansa 


Era el 24 de otobre del 1917. L'Itàlia la zera da ani impegnà in guera contro le forse del impero austro-ungàrico. Inte sto zorno de dolor par tuto el paese, i austrieghi, con l’aiuto de le trope tedesche, i ga sfondà le lìnie de difesa italiane, obligando l’esérsito italiano a un ripiego stratègico fin ai argini del fiume Piave. Tuto intorno al Monte Grappa, ndove, dopo setimane de feroci scontri, l’avansata nemiga la ze stà finalmente fermà.

Le ore che ga seguito al disastroso sfondamento de le lìnie italiane a Caporetto, durante la dodessèsima Batalha del Isonzo, le ze stà crussiali. La notìssia del desastre la ze rivà a Pederobba come un vero tsunami. Le autorità militari italiane le ga sùbito dato l’ordine de evacuar tuto i paese e le vile su tuto el percorso fin a Caporetto. La zona la ze diventà tereno de guera fra i due esérsiti. Pederobba, trovandose ‘ntel sentro del conflito, la ze stà un punto stratègico par contener el nemigo e salvar l’Itàlia da un’invasione completa.

Giuseppe e la so famèia, avisà da i campanèi che no gaveva de smeter de sonar, i ze corsi in piasa par sentir le notìssie e le ordini. La paura e l’agitassion i ga invaso tuto el paese. L’ordine del comando el zera de scampar a sud, verso zone pì sicure. La zente, colta de sorpresa, la ga impacà quel poco che gaveva e la ze partì in carosse, con el tren o a piè, verso l’Emilia Romagna.

Giuseppe el zera un bravo marangon e carpentiere, famoso par i so bei lavori. Nassù a Alano di Piave, provìnsia de Belluno, el zera parte de na famèia de marangoni che i ga costruì altari e òpere in legno par le cese e par le famèie nòbili de la regione, fin anche a Venéssia. Del so papà Francesco, el gaveva imparà sia l’arte de lavoar el legno che la passion par el vin e i vigneti di Raboso del Piave, la casta de ua da lori preferida. Con la so sposa Giuditha gaveva diese fiòi, ma parte de lori gaveva oramai emigrà in Brasil, Francia e Stati Uniti prima de l’inìsio de la guera. Restava a casa solo quatro fiòi: tre mas-chi e na fiola.

Quando ze rivà l’ordine de evacuassion, Giuseppe e i fiòi i ga cavà un buso vissino a la ofissina ndove i ga incoacià le cassete con i feri da lavorar, tre damigiane de Raboso del Piave e na bissicleta. Lori i ga coerto tuto con grosse piere, sperando che i nemighi no le trovase.

Partì, la famèia, a piè, verso l’Emilia Romagna, strada longa e stracante. Dopo zorni de viàio, strachi ma salvi, lori i ze rivà al picolo comune de Sassuolo, vissin a Modena. Qua, Giuseppe e i so fiòi i ga trovà lavoreti che li ga salvà durante l’ano de soferensa.

Dopo l’armistisio, el 4 de novembre del 1918, i ze ritornà a Pederobba, trovando tuto sbregà: le case, la ofissina e anca el comèrssio de Giuditha. Ma, par fortuna, le damigiane de vin le zera ancora là, ìntegre, aspetando par èsser provà. La bissicleta, invece, la zera inutilisà.

Sensa schei sufissienti e prinsipalmente voia de rescominsiar in quel posto distruto, Giuseppe e Giuditha lori i ga deciso de seguir la stessa strada de i so fiòi emigrà in Brasil, a Curitiba. Lori i ga partì ntel ano seguinte con i so quatro fiòi restanti, el ga portà i feri de lavorar el legno e qualche litri del so pressioso vin Raboso, salvà da la guera, un dono ai so fiòi in Brasil.


Nota de l’Autor


L’ispirassion par "El Vin de la Guera: Na Famèia Tra la Destrussion e la Speransa" la ze nassesta da na stòria che, anca se inventà, la trova eco in tante vose del passà. El sfondo la ze l’Itàlia sbregà da la Prima Guera Mondial, un paese ndove la speransa e el disperar se alternava come protagonisti de ´na tragèdia comun.
In sto raconto, el vin — sìmbolo de tradission, sacrifìssio e radise de famèia — vien fora come metàfora de la resistensa umana. Giuseppe, marangon e vinèr, no el ze solo un personàgio, ma un omaio ai sconossù che, in tempi de guera, i ga sfidà la roina con ingegno e coraio. La so resolussion de salvar el ferramenta e el vin, anca con tuto se sgretola intorno, el ze na rapresentassion de la lota par conservar l’identità e la dignità quando el mondo va in rovina.
La stòria la toca anca l’impato de le resolussion che cambia la vita de intere generassion. L’evacuassion, el viaio par trovar seguressa e el ricominssiar in Brasil ze testimoni de un coraio tenace che va oltre le frontiere. Come tanti emigranti, Giuseppe e la so famèia i ga portà via no solo robe materiali, ma anca i basamenti de ´na stòria nova: laoro, tradission e un amore profondo par la vita.
Sto raconto el vol no solo ricordar i orori e i sacrifìssi de la guera, ma anca selebrar la forsa che vien fora da le adversità, metendo insieme el passà e el futuro. Che el letor trove qua un invito a rifleter su la fragilità e la resistensa umana, e come, anca in tempi scuri, la fede nel doman se pol distilar, come un bon vin, dal spìrito imortal de le persone comun.



quinta-feira, 8 de maio de 2025

O Vinho da Guerra: Uma Família Entre a Destruição e a Esperança

 


O Vinho da Guerra: 
Uma Família Entre a Destruição e a Esperança


24 de outubro de 1917. A data ecoaria como uma ferida aberta na história da Itália. Há anos, o país travava uma guerra extenuante contra o Império Austro-Húngaro, mas naquele fatídico dia, o equilíbrio foi abruptamente rompido. As tropas austro-húngaras, reforçadas por batalhões alemães experientes, desferiram um golpe devastador nas linhas italianas em Caporetto. A derrota, que ficaria conhecida como a 12ª Batalha do Isonzo, obrigou o exército italiano a uma retirada desesperada para a linha do Rio Piave, deixando atrás de si um cenário de caos e desespero.

Nas primeiras horas que se seguiram à catástrofe, a notícia percorreu a região como um incêndio em campo seco. Em Pederobba, um pequeno município situado entre as sombras do Monte Grappa e o Rio Piave, o toque incessante dos sinos da igreja alertava os moradores. A mensagem era clara e aterradora: a evacuação era inevitável. Homens, mulheres e crianças deveriam abandonar suas casas e terras imediatamente, fugindo para o sul, para longe do avanço inimigo. A pequena cidade, até então um refúgio de paz entre montanhas e vinhedos, mergulhou em um redemoinho de medo e agitação.

Entre os moradores, Giuseppe, um marceneiro habilidoso e carpinteiro renomado, era uma figura central. Morador na cidade a muitos anos, originário do município vizinho de Alano di Piave, na província de Belluno, Giuseppe vinha de uma linhagem de artesãos cuja maestria com a madeira era quase lendária. Muitas igrejas e casas nobres de Veneza e arredores exibiam orgulhosamente as portas esculpidas e altares de sua família, cuja reputação atraía até as famílias maus nobres. Além de seu talento com a madeira, Giuseppe herdara do pai, Francesco, uma paixão por seus vinhedos e pela produção do vinho Raboso del Piave, cultivado com dedicação quase religiosa para consumo familiar.

Casado com Giuditha, uma mulher de fibra e perspicácia comercial, Giuseppe tinha uma família numerosa: dez filhos ao todo. Os quatro mais velhos haviam emigrado anos antes para o Brasil, em busca de oportunidades. Outras duas filhas haviam seguido destinos igualmente distantes — uma para a França e outra para os Estados Unidos. Restavam em casa os quatro mais jovens, incluindo a caçula, uma menina de olhos brilhantes que parecia ainda alheia ao horror da guerra.

Quando as ordens militares de evacuação chegaram, Giuseppe agiu com a precisão de um homem acostumado a decisões rápidas. Com a ajuda dos filhos, cavou um buraco profundo ao lado de sua oficina, onde enterrou suas ferramentas mais preciosas, uma bicicleta e três damigianas cheias do vinho que ele tanto estimava. Pedras pesadas foram cuidadosamente colocadas sobre o esconderijo, criando uma falsa tampa que, esperavam, passaria despercebida.

O êxodo começou ao amanhecer. Carroças abarrotadas, grupos apressados a pé e até alguns poucos sortudos em vagões de trem seguiam a corrente humana em direção à Emília-Romagna, deixando para trás tudo o que conheciam. Após dias de caminhada extenuante, a família chegou a Sassuolo, uma pequena cidade nos arredores de Modena, onde foram acolhidos. Giuseppe e os dois filhos mais velhos, Matteo e Piero, logo encontraram pequenos trabalhos, o que trouxe alívio financeiro em meio às privações do exílio.

O retorno à terra natal, permitido após o armistício de 4 de novembro de 1918, foi agridoce. Pederobba estava irreconhecível, marcada por bombardeios incessantes que a transformaram em uma zona de ninguém entre os exércitos. A igreja, outrora o coração da comunidade, estava em ruínas. A casa da família, a oficina e a pequena loja de Giuditha haviam sido reduzidas a escombros. Mesmo assim, Giuseppe encontrou forças para recuperar o que pôde. O esconderijo com as damigianas foi descoberto intacto, mas a bicicleta estava irremediavelmente corroída pela água.

Sem recursos para reerguer o que perderam, Giuseppe e Giuditha tomaram uma decisão dolorosa, mas inevitável: deixar a Itália e juntar-se aos filhos no Brasil. Em 1919, embarcaram rumo a Curitiba, no Paraná, levando consigo apenas um baú de ferramentas e, como símbolo de resistência, alguns litros do vinho salvo da guerra. No Brasil, a família se reencontraria com os filhos mais velhos e suas famílias, até então rostos distantes em cartas. Ali, em um novo mundo, começariam de novo, sustentados pelo espírito resiliente que a guerra não conseguira apagar.




Nota do Autor


A inspiração para "O Vinho da Guerra: Uma Família Entre a Destruição e a Esperança" nasce de uma história que, embora fictícia, encontra eco em incontáveis vozes do passado. O cenário é a Itália dilacerada pela Primeira Guerra Mundial, um país em que a esperança e o desespero frequentemente se alternavam como protagonistas de uma tragédia coletiva.
Neste conto, o vinho — símbolo de tradição, sacrifício e raízes familiares — emerge como metáfora da resistência humana. Giuseppe, marceneiro e viticultor, não é apenas um personagem, mas uma homenagem aos anônimos que, em tempos de guerra, enfrentaram a ruína com engenhosidade e coragem. Sua decisão de salvar as ferramentas e o vinho, mesmo diante da devastação, reflete a essência da luta por preservar identidade e dignidade quando tudo parece perdido.
A narrativa também explora o impacto das decisões que transformam a vida de gerações. A evacuação, a jornada em busca de segurança e o recomeço no Brasil são testemunhos de uma coragem resiliente que transcende fronteiras. Como muitos imigrantes, Giuseppe e sua família carregaram consigo não apenas bens materiais, mas também os alicerces de uma nova história: trabalho árduo, tradição e um profundo amor pela vida.
Este conto pretende não apenas lembrar os horrores e sacrifícios da guerra, mas também celebrar a força que emerge das adversidades, unindo passado e futuro. Que o leitor encontre aqui um convite à reflexão sobre a fragilidade e a resiliência humanas, e sobre como, mesmo em tempos sombrios, a fé no amanhã pode ser destilada, como um bom vinho, do espírito imortal das pessoas comuns.






quarta-feira, 29 de janeiro de 2025

I Sòni de Pederobba

 


I Sòni de Pederobba


L’ano el zera el 1890, e ´ntel picoleto comune de Pederobba, su la riva destra del fiume Piave, sostà a i piè de i monti Dolomiti, el zera pien de silenssio e nostalgia. Le vigne le se intressava par i campi, ma la tera no gaveva pì la stessa bontà de prima. Le coline, che una volta gavea mantenù le generassion, pareva adesso meno generose. I ani de abundansa i gaveva lassià posto a le guere, tasse alte, crisi economiche, e lo spetro de la disocupassion che inissiava a tocar anche le campagne.

Par le strade fate de piere consumà, un casal zòvane, Pietro e Maria Betina, lori i guardava el orisonte con i cuori pien de speransa e paura. Con sol 25 ani, Pietroel zera un agricultor forte, con le man segnà da la tera dura e con i òci che brilava con la voia de un futuro mèio. Maria, tegnendo in brasso el pìcolo Lorenzo, de sol due ani, la gaveva la serenità de le done che le conosse la duresa de la vita, ma anca la forza de afrontarla.

Le ciàcole in paeseto le girava intorno a le létare che rivava da i parenti in Brasile. Le parole su le pàgine ingialì le parlava de tere vaste, foreste spesse, e la promesa de un futuro pì generoso. L’era come se l’altro lado del ocean el ofrisse ‘na nova oportunità.

Dopo setimane de discorsi, làgreme e orassion davanti al altar de la ceseta de Pederobba, Pietro e Maria i ga ciapà la dessision che la ghe cambiaria la vita par sempre. I ga vendù tuto quel poco che i gaveva: la picola casa de pietre, eredità de la famèia, le vècie feramente de laorar e anca la vècia careta che ‘na volta la zera del pare de Pietro. Con i pochi schei che lori i ga meso insieme, i ga comprà i bilieti par un vapor, el Adria, par traversar l’Atlàntico.

El viàio fin al porto de Zenoa, da onde che i dovea imbarcharse sul vapor, el zera longo e faticoso. Con i pochi averi ´ntei sachi de juta, el casal la ze partì a piè fin a la stassion de treni de Cornuda. I saludi a Pederobba i ze stà pien de dolor. Maria la pianseva streta a la mama, savendo che forse no la vedaria pì. Pietro el gaveva tentà de no far veder la tristessa stringendo la man del fradeo pì vècio, prometendo che, se tuto l’andava ben, un zorno el i mandava a ciapàr tuti.

Quando finalmente lori i ze rivà al porto, el vapor che i dovea portarli in Brasile i ga impressionà. Chiamà Adria, el pareva a lori ‘na fortessa che flutuava, pien de famèie come la loro, con i sòni e le paure. La vita a bordo la zera dura. El picin Lorenzo el se amalà durante el viàio, par colpa de ‘na epidemia de morbin che ze scopià sul vapor zà ´ntela prima setimana. Maria la passava le noti svèia par curarlo, mentre Pietro el faseva quel che podea par aiutar le altre famèie, dividendo quel poco che lori i gavea. El ga aprofità del tempo fermo par scambiarse informassion su quel che i podaria trovar in questa nova pàtria.

Dopo setimane de mar mosso, incasài ´ntei compartimenti streti, scuri e pien de odori forti de la tersa classe, el vapor l’è finì a tocar el porto de Rio de Janeiro, in Brasile. El caldo el zera sofocante, el paesagio tropical el parea ‘na foresta viva, e la lèngoa straniera la sonava come ‘na mùsica sconossù. La famèia, straca de noti sensa dormì, la ze stà mandà ´ntela Hospedaria dos Imigrantes, dove i ze stà due zorni fin che un altro vapor el ze rivà par portarli al porto de Paranaguá, el destin final, dove lori i se dovea sistemar inte ´na colònia italiana ´ntel stato del Paraná.

Le prime setimane in ‘sta nova tera le ze stà le pì difìssile. La foresta atorno la zera fita, el caldo sofocante, e la tera bisognava farla produtiva da zero. Ma Pietro e Maria i ga laorà come mati. Le man che una volta le coglieva formento e mìio a Pederobba adesso le abateva àlbari e piantava coltivassion sconosùe come el fasol nero e la manioca. Con el tempo, la comunità taliana a Morretes la ga scominssià a ingrandirse atorno a lori. Ma le robe no ´ndava ben: le tere no le zera bone, e la malgestion da la Colònia Nova Itália la ga portà tuto in rovina. Con altri coloni, i ze rivà a la dessision de spostarse, dar via a Curitiba. Insieme a tanti altri emigranti, i ga comprà loti a la periferia, in un posto che alora el se ciamava Colònia Dantas, e che incòi el ze el quartiere de Água Verde.

Anca se la nostalgia de l’Itàlia no i gavea mai abandonà, Pietro e Maria i ga trovà in Brasile ‘na casa dove i fiòi i ga prosperà. Lorenzo, che quasi el gavea perso la vita durante el viàio, el ze cressù forte e con el tempo el se ga fato marangon a Curitiba, fin che el ga montà ‘na ofissina con altri due soci.

Deceni dopo, oramai con i cavei bianchi, Pietro e Maria i sedea su ‘na verandina de la casa de legno, ´ntel quartiere che cresceva sempre de pì, guardando i tereni che alora i gavea. Lori gavea orgòio de aver trasformà el dolor de la partensa in radisi profonde in ‘sta nova tera.

A la picolina e tranquila Pederobba, purtroppo ani dopo devastà da la Grande Guerra, le lettere che lori i mandava le parlava de speransa, dimostrando che, anca lontani, i so cuori i gavea sempre un ligame con le coline che i ga dovù lassà.



terça-feira, 24 de setembro de 2024

Na Nova Vita tra le Montagne



Na Nova Vita tra le Montagne

Noè el zera un toseto pien de vita, el gavea pena fato i nove ani. El zera el pi novo dea casa, ma co un spìrito che brusava come un fogo vivo. I so fradèi, Giovanni e Antonio, e le sorèie, Maria e Augusta, i gera pi grandi, sempre pronti a protèger. Con sete ani avea lo sfortùnio de pèrdar la mama, dopo longo tempo de sofrimento. El pupà, Francesco, el zera un omo forte, de quei che la vita di rùspigo laoro lo ga plasmar. Tuti insieme, i ga resòlver emigrar par sempre de Pederobba, na decision che parèa pesante come na montagna, ma che portea co sé un fil de speransa.

Na matina de desembre, ancora presto, dopo na nevada, co l'aria freda che ghe penetrea fin ai ossi, i se incaminaron verso la stasion de Cornuda, dove el treno i aspetea. Noè e i so fradèi no i avea mai vardar un treno. Na bestia de fero che sbufea fumo dal muso. Co i rivà in stasion, el cuor de Noè el batea forte, metà paùra e metà per èsser entusiasmà. Francesco el disea ai fiòi: "Questo i ze solo l’iníssio. El Brasile el ze lontan, ma ze na tera che ne speta co i brassi verte."

Su el treno, tra i rumori de el fero e i paesagi che passea via veloce come na saeta, Noè el pensea a tuto quel che i gavaria lassa drio: la campagna, i amici, el campanàrio dea chiesa de Pederobba che i parea sempre presente e in special la sorea pi granda Pina, za sposà e co la pròpria famèia, no podea venir in Brasile con lori. Ma el futuro lo ciamea, e el lo sapea. Le ore sul treno i ga passà lenti, ma co la voglia de rivar.

A Gènoa, el porto zera pien de zente, un formigher de ànime perse che andea vanti e indrio. El vapore Adria, grande e maestoso, el zera pronto par partir. Francesco el strensea forte la manina de Noè, come par dir: "La ze dura, ma insieme ghe rivaremo". El mar, tanto spaventoso, ghe parea un deserto blu senza fine. I zorni su el vapore i zera lunghi, el rumor de el mare che sbateva el stomaco e la nostalgia che scominciava a farsi sentire. Ma el pensier de ‘l Brasile ghe dava forsa.

Finalmente, lori i ze rivà al porto de Rio de Janeiro. Noè el rimase a boca verta co el caldo umido e i profumi che ghe riempiva l’aria. Lori i si ga meraviglià con el mùcio di zente di color moro che i ga incontrà ´tel porto. Era come un altro mondo. Ma el tempo par fermarse no ghe zera: dopo un breve riposo, i se ga preparà a continuar el viàio al destin, el porto de Paranaguá. Sul vapore Maranhão, Noè el se sentiva ormai abituà al mar, ma el viàio lo zera ancora longo. I fradèi i parlea tra de lori de quel che i sognea de far quando i ghe rivaria al destin, mentre le soree i cantea pianin, par scordarse de la malinconia.

Co i rivà a Paranaguá, Noè el se sentiva più grande, come se el viàio lo gavesse fato cressere. Morretes, co la so colònia Nova Italia, ghe parea un posto strano, scotante e isolà, ma Francesco el disea: "El ze solo temporaneo, no staremo qua tanto tempo." E così zera. Dopo un periodo de alcuni mesi, co la natura selvàdega che ghe avolgeva tuto atorno, i ripartì col treno verso Curitiba.

El viàio finalmente finìo quando i rivà a la Colònia Dantas. La zera na tera nuova, bea, polita co prati, basse coline e i boschi vicin che i ghe ciamea par esplorar. Noè el corea lìbero, co l’aria che ghe riempiva el peto. El pupà Francesco el vedea lontan, co un sguardo de sodisfassion e de speransa. "Qua, fiòi," el disea, "qua faremo casa nostra."

Noè el capì che la so nova vita scominciava proprio lì, tra quele montagne lontane.




segunda-feira, 2 de setembro de 2024

O Retorno que Nunca Aconteceu

 


O Retorno que Nunca Aconteceu


No final do século XIX, a Itália atravessava uma das fases mais difíceis de sua história. A unificação do país, ocorrida em 1861, trouxe consigo promessas de prosperidade que não se concretizaram para a maioria da população, especialmente para os habitantes das áreas rurais. A região do Vêneto, onde se encontrava a fração Onigo, no comune de Pederobba, era uma dessas áreas. A situação socioeconômica era sombria: a agricultura, que constituía a base da economia local, estava em crise devido à fragmentação das terras, à falta de inovação e à exaustão do solo. O resultado era uma produção insuficiente para alimentar a crescente população.

Além disso, as novas políticas fiscais do governo italiano pressionavam ainda mais os camponeses, que já lutavam para sobreviver. O sistema de arrendamento de terras era opressor, e os camponeses frequentemente se viam endividados, com poucos recursos para sustentar suas famílias. A fome, a miséria e a desesperança permeavam a vida diária, levando muitos a considerar a emigração como a única saída para escapar dessa realidade cruel.

Foi nesse contexto que Domenico e Luigia, junto com seus filhos Angelo, de seis anos, e Maria Augusta, de quatro, tomaram a difícil decisão de deixar sua terra natal. Com eles, iria também a mãe de Luigia, a senhora Assunta, uma viúva de 57 anos que, apesar de sua idade avançada, estava determinada a acompanhar a família nessa jornada incerta. Assunta havia perdido seu marido para a mesma pobreza que agora os forçava a partir. A casa modesta em que viviam, construída com as pedras da própria terra, já não oferecia abrigo contra a fome e a incerteza do futuro.

Domenico, um homem forte e de poucas palavras, sabia que a decisão de emigrar significava abandonar tudo o que conheciam. No entanto, o desespero de ver seus filhos passarem fome era maior do que o medo do desconhecido. Luigia, uma mulher resiliente e profundamente ligada à sua família, compartilhou da mesma dor e da mesma esperança. Para Assunta, deixar a Itália era deixar para trás as memórias de uma vida inteira, mas ela não podia suportar a ideia de se separar da filha e dos netos.

Em 1890, com os corações apertados e a coragem forjada pela necessidade, a família partiu de Onigo, uma " frazione" do município de Pederobba. Venderam o pouco que possuíam e, com o dinheiro reunido, compraram passagens de navio para o Brasil. O destino era Curitiba, capital do estado do Paraná, uma terra desconhecida, mas cheia de promessas. A travessia do Atlântico foi longa e exaustiva. O navio Adria, abarrotado de outros imigrantes italianos que também fugiam da miséria, era um espaço de esperança, mas também de medo e incerteza.

Chegaram a Curitiba, a capital do estado do Paraná, após semanas de viagem. A cidade, em pleno processo de expansão, era um caldeirão de culturas e nacionalidades, com uma crescente comunidade italiana. Domenico com as economias obtidas com a venda da pequena casa onde moravam e de alguns poucos bens, adquiriu um lote de terra na Colônia Dantas, e encontrou trabalho plantando na sua propriedade, onde pôde, finalmente, retomar a vida que conhecia, embora em uma terra estrangeira. A natureza exuberante e o clima do Paraná ofereciam condições favoráveis para o cultivo, e, aos poucos, a família começou a reconstruir sua vida.

No entanto, apesar das novas oportunidades e da relativa estabilidade, o coração de Domenico e Luigia nunca se desprendeu completamente da Itália. O sonho de retornar à sua terra natal, de caminhar novamente pelas ruas de Onigo, permanecia vivo, alimentado pelas lembranças e pela saudade. Eles falavam da Itália com os filhos, Angelo e Maria Augusta, tentando manter viva a conexão com suas raízes. Assunta, por sua vez, continuava a contar histórias de sua juventude, das festas, das colheitas e das pessoas que haviam deixado para trás.

Os anos passaram, e com eles, a vida em Curitiba se tornou cada vez mais enraizada. Angelo e Maria Augusta cresceram, integrando-se à cultura brasileira, mas sempre carregando em seus corações as histórias de seus pais sobre a Itália. Domenico, que envelheceu trabalhando a terra, e Luigia, que nunca abandonou sua força de espírito, viram seus filhos formarem suas próprias famílias no Brasil. A cada ano que passava, o retorno à Itália se tornava menos provável, e o sonho de voltar foi, aos poucos, se desvanecendo.

Assunta, a matriarca da família, foi a primeira a partir desta vida. Morreu em paz, cercada por seus entes queridos, mas sem nunca ter visto novamente sua terra natal. Sua morte marcou profundamente a família, especialmente Luigia, que sentiu o peso da decisão de emigrar e o sonho não realizado de retornar. Domenico, por sua vez, continuou a trabalhar até o fim de seus dias, sempre com o olhar voltado para o horizonte, onde imaginava as montanhas do Vêneto.

No final, o "ritorno mai avvenuto" não foi um fracasso, mas sim uma aceitação das realidades da vida. O Brasil se tornou o novo lar da família, uma terra onde os sonhos de prosperidade se concretizaram, mesmo que o sonho de retornar à Itália nunca se realizasse. Angelo e Maria Augusta, agora adultos, continuaram a viver em Curitiba, passando para seus filhos a herança de suas raízes italianas e a história de seus pais, que, em busca de uma vida melhor, encontraram um lar em terras distantes.

A história de Domenico, Luigia, Assunta, Angelo e Maria Augusta é uma entre milhares de outras, de famílias que, em busca de sobrevivência, deixaram a Itália com a esperança de um dia voltar, mas que, ao final, encontraram um novo lar em terras estrangeiras. O retorno nunca aconteceu, mas a nova vida que construíram em Curitiba, com trabalho árduo e determinação, é o verdadeiro legado que deixaram para as gerações futuras.



sexta-feira, 23 de junho de 2023

De Pederobba ao Brasil: A História Prodigiosa da Emigração Italiana e a Construção de um Novo Lar

 

Vista desde a colina San Sebastiano


No final do século XIX e início do século XX, a Itália era um país marcado pela pobreza, pela fome e pela instabilidade econômica. A população rural era particularmente afetada pela falta de recursos e pelo difícil acesso à terra e aos meios de produção. Foi nesse contexto que muitos italianos, incluindo aqueles de Pederobba, começaram a emigrar definitivamente para outros países, em busca de uma vida melhor.
A emigração de Pederobba para o Brasil foi impulsionada pela falta de oportunidades econômicas e pela crise agrícola que afetava a região. Na sua maioria esses emigrantes eram camponeses, ou moradores na pequena vila, que trabalhavam como empregados diaristas para algum proprietário de terras, buscando melhores condições de vida e trabalho em outros lugares. A emigração para o Brasil foi incentivada por agências de recrutamento que prometiam trabalho e terra para os italianos que se aventuravam a cruzar o oceano.
A travessia para o Brasil era longa e perigosa, e muitos emigrantes enfrentaram condições precárias durante a travessia do Atlântico. Viajavam em navios superlotados e insalubres, onde as condições de higiene eram ruins e as doenças que surgissem se espalhavam rapidamente. A viagem podia durar semanas, e muitos emigrantes morriam devido à deficiência alimentar, à sede e às doenças a bordo.
Ao chegar ao Brasil, os emigrantes enfrentavam novos desafios. Não falavam português, somente o seu tradicional dialeto vêneto, marcadamente da direita do Piave e poucos tinham experiência na vida urbana, o que dificultava a adaptação ao novo ambiente. Além disso, as condições de vida nos centros urbanos eram precárias, com moradias superlotadas, falta de saneamento básico e doenças endêmicas, como a febre-amarela e a varíola.
No entanto, apesar das dificuldades, muitos emigrantes de Pederobba conseguiram se estabelecer no Brasil e construir uma nova vida para si e para suas famílias. Muitos se dedicaram à agricultura, trabalhando em fazendas e plantações em diferentes regiões do país. Outros se dedicaram ao comércio e à indústria, estabelecendo pequenos negócios e fábricas em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba entre outras.
Com o tempo, os imigrantes italianos, incluindo aqueles de Pederobba, foram se integrando à sociedade brasileira e contribuindo para o desenvolvimento do país. Eles trouxeram consigo suas tradições culturais, incluindo a culinária, a música e as festas, que hoje são uma parte importante da identidade cultural brasileira. A presença dos descendentes de italianos no Brasil é um testemunho da importância da imigração na história do país e do papel vital que os imigrantes desempenharam na construção do Brasil moderno.
Atualmente, a cidade de Pederobba é uma cidade com cerca de 5.000 habitantes e está localizada na região do Vêneto, na província de Treviso. Embora seja uma cidade pequena, Pederobba tem uma rica história e cultura, que reflete a herança dos imigrantes italianos que deixaram a cidade no final do século XIX e início do século XX em busca de novas oportunidades no Brasil. Ela tem desde 2003 um programa de cidades-irmãs chamado em italiano de gemellaggio com o município gaúcho de Jacutinga e a mais de 40 anos com a cidade de Hettange-Grande na França.
A emigração de Pederobba para o Brasil foi apenas uma parte de um fenômeno maior de emigração italiana para o exterior. Entre 1876 e 1976, estima-se que mais de 26 milhões de italianos tenham deixado o país em busca de uma vida melhor em outros lugares. A maioria dos emigrantes italianos se dirigiu para os Estados Unidos, Argentina e Brasil, mas muitos também foram para a Austrália, Canadá e outros países da América Latina e Europa.
A emigração italiana para o Brasil foi particularmente significativa durante as últimas décadas do século XIX e as primeiras décadas do século XX, com um hiato no período de 1914 a 1918 devido o conflito mundial. Estima-se que entre 1880 e 1930, cerca de 1,5 milhão de italianos tenham deixado o país em direção ao Brasil. A maioria dos emigrantes era de origem rural e se estabeleceu em regiões agrícolas do país, como o Paraná, São Paulo e Rio Grande do Sul.
No Paraná, os imigrantes italianos foram inicialmente assentados em colônias no litoral paranaense próximas a Paranaguá e depois se estabeleceram por conta própria em cidades como Curitiba, Piraquara, Colombo e São José dos Pinhais. Eles contribuíram para o desenvolvimento da agricultura e da indústria na região, e sua presença deixou uma marca indelével na cultura e na identidade do estado.
Atualmente, os descendentes de imigrantes italianos no Brasil formam uma grande comunidade, com uma forte presença em cidades como São Paulo, Vitória, Curitiba e Porto Alegre. Eles mantêm vivas as tradições e a cultura de seus antepassados, incluindo a culinária, a música e as festas, sendo reconhecidos como uma parte importante da diversidade cultural do país.
A emigração de Pederobba para o Brasil no final do século XIX e início do século XX foi um exemplo de como a falta de oportunidades econômicas e as condições de vida precárias podem levar as pessoas a buscar uma vida melhor em outros lugares. Embora os emigrantes italianos tenham enfrentado muitos desafios e perigos durante a viagem e a adaptação ao novo ambiente, eles conseguiram construir uma nova vida para si e para suas famílias no Brasil. A presença dos descendentes de imigrantes italianos no país é um testemunho da importância da imigração na história do Brasil e do papel vital que os imigrantes desempenharam na construção do país moderno.


Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta
Erechim RS





quarta-feira, 21 de junho de 2023

Danke: O Cão Que Desvendou Minha História Familiar Perdida em Pederobba, Itália




Desde quando eu ainda era apenas um menino, e isso já faz muito tempo, pois, estamos falando da década de 1950, sempre manifestei curiosidade pela história da minha família. Quem eram eles? O que faziam e de onde vieram meus antepassados? Porque tiveram que abandonar o seu país natal, quando e como vieram? Por que escolheram o Brasil? As dúvidas eram muitas. Sabia, pelo meu sobrenome, e também por esporádicos relatos de outros familiares mais velhos, que tínhamos raízes na Itália. A explicação que eu recebia deles não ia muito além disso, simplesmente, terminava por aí. Pela minha pouca idade as vagas respostas que recebia até me satisfizeram parcialmente por algum tempo. 
O tempo foi passando e já adulto comecei a fazer algumas pesquisas por conta própria, as quais, também não progrediram muito, sempre esbarrando na identificação do local da Itália de onde partiram os primeiros emigrantes da família. Meus pais, e também os poucos parentes que eu conhecia, pouco ou nada puderam acrescentar, todos estavam na mesma situação de ignorância. Parecia até que os antigos não queriam me contar a verdade. Mas, por qual razão? 
Na cidade onde nasci moravam diversas famílias que tinham o mesmo meu sobrenome, algumas delas eram de conhecidos parentes, e outras tantas, por pessoas que não se conheciam como tal. Aqueles que então contatei não puderam me esclarecer mais nada. Eu não podia me conformar com esta situação, tínhamos que ter um lugar-comum de origem, uma cidade, um estado e não somente que viemos de um país chamado Itália. 
Sem respostas para minhas perguntas, apesar de muito procurar, a estranha sensação de deslocamento da minha origem, me fazia sentir muito mal. 
Depois de alguns anos, então já casado e com filhos, queria contar para eles a nossa origem, o local de onde viemos, mas, não conseguia encontrar nada. 
Foi após comprar uma casa, com um grande quintal, que um dia resolvi que seria hora de adquirir um bom cachorro de guarda. Não sabia qual raça escolher, pois, até então conhecia algumas poucas. Lembro que ainda estávamos muito longe do advento da internet, a qual só surgiria quase trinta anos depois. Não querendo errar na escolha, emprestei de um casal amigo, e também eles grandes entusiastas por cães, um livro ilustrado sobre as diversas raças caninas então existentes no mundo. Folheando a belíssima coleção de fotos coloridas, onde os exemplares das raças estavam dispostos por casais, com as devidas especificações oficiais, como finalidades da raça, peso, altura e também uma completa explicação do comportamento de cada uma. 
Não precisei procurar muito e lá estava a foto daquele que eu me apaixonei imediatamente. Realmente, eram animais muito bonitos, fortes e considerados na época, e acredito que até hoje, os melhores cães de guarda. Tratava-se de um cão da raça Rotweiller. Feito a escolha da raça bastava agora ligar para o Kennel Clube e obter informações sobre os telefones de criadores idôneos, registrados naquele conhecido clube de cinofilia. Foi o que realmente fiz. 
Os responsáveis pela entidade perguntaram onde eu morava, a fim de facilitar o encontro. Informei onde eu morava e eles disseram que perto da minha cidade ficava um famoso canil, o mais premiado daquela raça em todo o estado. Falaram também que o casal proprietário tinha vários grandes campeões no plantel, inclusive de nível mundial. Informaram o nome do canil, que ficava em uma cidade muito próxima de onde eu moro. Seus proprietários eram também grandes fazendeiros e criadores de cavalos de raça, em um município não muito distante. O mais interessante e inesperado aconteceu quando pedi o nome desse criador, para minha surpresa tinha o mesmo meu sobrenome: era um primo, filho do irmão mais velho do meu pai, o qual desde o tempo de criança não o tinha mais visto e nem sabia mais do seu paradeiro. Ele também, depois fiquei sabendo, não sabia que eu morava assim tão perto. 



Visitando-o, fiquei impressionado com a estrutura do canil e com o tamanho daquela mãe com seus sete filhotes, nascidos a pouco mais de um mês, mas, já enormes. O primo, separou-os da mãe e me deu o privilégio de escolher o cãozinho que eu mais gostasse de toda a ninhada. Adquiri o filhote e o fui buscar algumas semanas depois, quando já tinha dois meses. Já estava devidamente registrado no Kennel Clube e recebera por acaso o nome de Danke, palavra que em alemão quer dizer "obrigado". 



Restabelecemos amizade e algum tempo depois, em uma noite, depois de um caprichado jantar em sua casa, o assunto origem da nossa família foi abordado. Ele era alguns anos mais velho que eu, mas, também nada sabia da nossa origem. Disse que o pai dele falava, que o nossos avô e o bisavô, que vieram da Itália, não gostavam muito de falar nesse assunto. 
A única coisa que lembrou, e isso não passou despercebido para mim, foi que a muitos anos antes, em um velho livro que pertencia ao nosso avô e que ficara com seu pai após o falecimento do "nonno", ele tinha encontrado um bilhete, já bastante amarelado pelo tempo, com o nome Pederobba, manuscrito a lápis. Por mais que pensasse, ele não sabia a que podia se referir. Pensei comigo que talvez fosse uma pista sobre a origem da nossa família, escondida no meio daquelas páginas do livro. 
Sabia pelo nome que era de algum lugar da Itália, mas, naqueles anos tudo era mais difícil, não tinha os meios para saber qual era, como já citei antes ainda não havia sido criada a internet. 
Naquele tempo eu já era um aficionado do radioamadorismo, fazendo diariamente contatos via rádio, com todos os países, através das grandes antenas instaladas sobre uma alta torre no quintal. Como radioamador eu era obrigado a ter um conhecimento de geografia acima da média e também recebia diariamente pelo correio, muitos cartões de confirmação dos novos contatos que realizava. Esses cartões eram, por nós radioamadores, conhecidos por QSL cards e continham informações relevantes sobre o contato, como as datas, horários, frequências e detalhes técnicos, e eram trocados como uma forma de comprovação e registro das comunicações entre os radioamadores. Com eles, era habitual o companheiro, do outro lado do mundo, enviar também um postal da cidade onde morava, com algumas palavras gentis escritas. 
Um dia recebi de um desses amigos, radioamador na Itália, um mapa da província de Treviso e um belo cartão postal da cidade de Treviso, onde morava. O cartão era patrocinado e distribuído pelo jornal local Tribuna de Treviso, em cujo logo se podia ler o endereço. Esse jornal tinha uma excelente penetração em toda a província de Treviso, especialmente aos domingos, quando então circulava por todos os municípios. 
Procurando naquele mapa, que tinha muito mais detalhes que os meus, devido a sua escala ampliada, percebi que Pederobba era um dos municípios dessa província, localizado quase na fronteira com a província de Belluno. Entendi imediatamente que tinha encontrado uma pista concreta, pois, por qual razão aquele nome estaria em um bilhete escondido entre as páginas de um livro? 
Acreditando muito nessa possibilidade, redigi uma carta para o diretor do referido jornal, com muita dificuldade é verdade, me valendo de um pequeno dicionário português-italiano para ajudar, pois, até então não sabia nada de italiano. Pelo rádio e telégrafo usávamos o inglês para se comunicar. 
Nessa carta tentei explicar quem eu era, onde morava, e que estava pesquisando sobre as minhas origens, pois acreditava que poderiam estar em algum município da província de Treviso. Pedi ao diretor fazer o favor de verificar se entre seus assinantes existia algum deles com o meu sobrenome, reforçando também que o meu interesse era simplesmente encontrar as minhas raízes. 
Naquela época, início da década de 1980, quase ninguém aqui no Brasil estava procurando pelas suas raízes na Itália, como veio acontecer a partir de alguns anos depois, com milhares ansiosos em encontrar um possível antepassado que tivesse emigrado, para assim obter o reconhecimento da cidadania italiana por "juris sanguinis", um direito conferido pela constituição italiana. 
Naquele tempo em que escrevia a carta ao diretor do jornal ninguém falava em dupla cidadania, a qual era ainda proibida pelas leis em vigor no Brasil. Quem resolvesse obter uma cidadania estrangeira deveria automaticamente renunciar aquela brasileira e o indivíduo não poderia exercer um cargo público federal, como era o meu caso. 
Passados pouco mais de um mês, recebi, quase simultaneamente, seis cartas da Itália, cujos remetentes tinham todos o meu sobrenome. O diretor do jornal Tribuna de Treviso, se comoveu bastante com a minha pequena e mal escrita carta, com diversos erros de italiano, como depois soube, e resolveu divulgá-la em uma edição dominical, aquela que circulava por toda a província. 
Das seis cartas recebidas de Pederobba, todas muito educadas e gentis, em duas delas as pessoas que escreviam eram de fato meus parentes, afastados é bem verdade, que tinham eles mesmos sofrido com a emigração para outros países e compreendiam bem o que eu estava procurando: o reencontro com a minhas raízes mais profundas. 
Um casal em especial imediatamente se prontificou em ajudar a encontrar a minha linha familiar e para tanto mobilizou diversos amigos, entre eles um que era considerado o arquivo vivo da cidade, o historiador local. A partir daí mantivemos contato frequente por cartas e um dia marquei uma viagem para a Itália, já no ano seguinte para nos conhecer. Como não entendia nada de italiano, fomos com uma excursão que nos hospedou em outro município, distante uma hora e meia de carro de Pederobba. Tinha somente um dia para os encontrar, sacrificando uma visita, constante no roteiro da excursão, ao Santuário de Santo Antonio, em Padova. 
Bem cedo pela manhã, eles gentilmente foram de carro até o hotel para nos buscar e nos levaram para sua casa onde, em um grande almoço, pudemos conhecer diversos membros daquela família. A tarde também nos levaram para breves visitas pela cidade. Estudei italiano e a partir desse encontro fizemos inúmeras viagens para a Itália, sempre nos hospedando alguns dias em um município vizinho a Pederobba, muito próximo dela por falta de hotel na cidade, e gradualmente fui refazendo toda a nossa história familiar. 
Isso aconteceu a mais de quarenta anos atrás e até hoje agradeço por ter escolhido aquele querido cão que me ajudou a encontrar as minhas origens e, apesar da sua vida curta, foi um grande amigo e fiel companheiro.

As imagens acima são fictícias e foram geradas por I.A., mas, este relato é totalmente verdadeiro, de como consegui reencontrar com as minhas raízes.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta
Erechim RS