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sábado, 4 de abril de 2026

Pederobba no Vêneto - História, Emigração Italiana e a Antiga Nobreza dos Condes de Onigo


Pederobba no Vêneto - História, Emigração Italiana e a Antiga Nobreza dos Condes de Onigo


Introdução

Localizado na província de Treviso, na região do Vêneto, no nordeste da Itália, o município de Pederobba ocupa uma posição geográfica singular entre a planície do Rio Piave e as primeiras elevações alpinas que conduzem ao maciço do Monte Grappa.

Essa área, situada na histórica Marca Trevigiana, sempre foi um território de passagem entre as planícies agrícolas do Vêneto e as regiões montanhosas das pré-Alpes. Ao longo dos séculos, a pequena comunidade de Pederobba testemunhou profundas transformações políticas, sociais e econômicas, incluindo a dominação da República de Veneza, o período austríaco e a grande emigração italiana para o continente americano.

Hoje, embora seja um município relativamente pequeno, Pederobba possui uma história rica que conecta antigas famílias nobres, como os Condes de Onigo, às trajetórias de milhares de emigrantes que partiram para países como o Brasil, a Argentina e os Estados Unidos.

Origens históricas de Pederobba

A presença humana na região de Pederobba remonta à Antiguidade. Antes da conquista romana, o território era habitado por populações conhecidas como Paleovenetos, um povo antigo que ocupava grande parte do atual Vêneto.

Durante o período romano, a região passou a integrar importantes rotas comerciais que ligavam o norte da península italiana às áreas alpinas e à Europa Central. A posição geográfica próxima ao Piave favorecia o transporte de mercadorias e o deslocamento de viajantes.

Na Idade Média, o território passou a fazer parte da chamada Marca Trevigiana, uma região historicamente disputada por senhores feudais, bispados e comunas urbanas.

Documentos do século XII já mencionam a existência de uma antiga comunidade paroquial denominada Plebem de Petrarubea, considerada uma das primeiras referências históricas à localidade.

Pederobba sob o domínio da República de Veneza

Entre os séculos XIV e XVIII, Pederobba integrou os territórios da poderosa Sereníssima República de Veneza, que governou vastas áreas do nordeste italiano.

Durante esse período, a região passou a fazer parte do chamado Quartier del Piave, subordinado administrativamente à cidade de Treviso.

O rio Piave desempenhava um papel fundamental na economia local. Através de suas águas eram transportadas grandes quantidades de madeira provenientes das florestas alpinas, destinadas à construção naval e às obras públicas em Veneza.

Além disso, o território tornou-se um ponto de encontro comercial entre agricultores da planície e comunidades das regiões montanhosas.

A criação do município moderno

O município moderno de Pederobba foi oficialmente instituído em 1810, por decreto do imperador francês Napoleão Bonaparte, durante a reorganização administrativa da Itália sob domínio napoleônico.

Após a derrota de Napoleão e a restauração da ordem europeia, o território passou novamente ao controle da Casa de Habsburgo, integrando o Império Austríaco.

Somente em 1866, após a Terceira Guerra de Independência Italiana, o Vêneto foi anexado ao recém-formado Reino da Itália.

Economia rural e pobreza no século XIX

Até o final do século XIX, Pederobba era uma comunidade essencialmente rural.

A economia baseava-se principalmente na pequena agricultura familiar, com cultivo de milho, trigo e outros produtos destinados à subsistência. A polenta, preparada com farinha de milho, constituía o alimento básico da população camponesa.

Entretanto, a escassez de terras cultiváveis e o crescimento demográfico tornavam difícil a sobrevivência das famílias.

Essa situação levou muitos habitantes a procurar trabalho fora de sua região de origem.

A tradição da migração sazonal

Durante séculos, os habitantes de Pederobba praticaram a chamada migração sazonal, conhecida em dialeto vêneto como “fare la stagione”.

Nessa prática, homens partiam durante alguns meses do ano em busca de trabalho em regiões vizinhas ou em territórios do Império Austríaco, que na época incluía extensas áreas da Europa Central.

Entre os trabalhadores migrantes eram comuns os chamados badilanti e carriolanti.

Esses trabalhadores viajavam a pé por longas distâncias, levando consigo ferramentas, um carrinho de mão, alguns quilos de farinha de milho para preparar polenta e, às vezes, um pedaço de queijo.

Após meses de trabalho em obras, estradas ou campos agrícolas, retornavam à sua terra natal com pequenas economias.

A grande emigração italiana

A partir da década de 1870, essa migração temporária começou a transformar-se em emigração definitiva.

A crise agrícola, o crescimento populacional e a falta de terras levaram milhares de famílias vênetas a buscar novas oportunidades fora da Europa.

Entre os principais destinos estavam:

Brasil

Argentina

Uruguai

Estados Unidos

A partir de 1875, o Brasil tornou-se um dos principais destinos dessa corrente migratória.

Diferentemente da antiga migração sazonal, agora partiam famílias inteiras, levando consigo poucos pertences e a esperança de reconstruir a vida em terras distantes.

Para muitos camponeses vênetos, o Brasil representava a lendária “terra da cucagna”, símbolo de abundância e prosperidade.

Pederobba e a Primeira Guerra Mundial

A posição geográfica de Pederobba, próxima ao Monte Grappa e ao Piave, fez com que a região se tornasse área estratégica durante a Primeira Guerra Mundial.

Após a derrota italiana na Batalha de Caporetto em 1917, o rio Piave transformou-se na principal linha defensiva do exército italiano.

Diversos combates ocorreram nas proximidades do território de Pederobba, causando destruição e deslocamento da população.

Um dos monumentos mais importantes da memória desse período é o Sacrario Francese di Pederobba, inaugurado em 1937 para homenagear soldados franceses mortos durante os combates na região do Monte Tomba.

Os Condes de Onigo: a antiga aristocracia local

Entre as famílias que exerceram grande influência sobre a história de Pederobba destaca-se a antiga casa aristocrática dos Onigo.

A família possui origens medievais e provavelmente deriva de linhagens germânicas ou lombardas que se estabeleceram na região durante o período do Sacro Império Romano-Germânico.

Inicialmente conhecida como da Cavaso, a linhagem adotou o sobrenome Onigo após adquirir os castelos de Onigo e Rovigo no final do século XII.

Ascensão na nobreza veneziana

Durante o período da República de Veneza, os Onigo consolidaram sua posição entre as famílias nobres da Marca Trevigiana.

Em 1460, foram admitidos no conselho nobre da cidade de Treviso.

A família possuía vastas propriedades agrícolas, estimadas em mais de 2.000 hectares de terras, além de feudos na Valle di Primiero, concedidos pelo imperador do Sacro Império.

Personagens históricos da família

Entre os membros mais importantes da linhagem destacam-se:

Gualperto da Cavaso, considerado o fundador histórico da família.

Alberto da Onigo, ligado à corte de Caterina Cornaro, rainha de Chipre e senhora de Asolo.

Girolamo Onigo, prefeito de Belluno durante o período napoleônico.

Guglielmo Onigo, patriota do Risorgimento italiano.

O centro simbólico do poder da família era a Villa Conti d'Onigo, construída entre os séculos XVII e XVIII.

O fim da linhagem

A influência da família começou a declinar ao longo do século XIX.

A última herdeira foi Teodolinda Onigo, filha de Guglielmo Onigo. Em 1903, ela morreu tragicamente após ser assassinada por um trabalhador da propriedade.

Com sua morte, a antiga dinastia praticamente se extinguiu.

Parte do patrimônio familiar foi destinada à fundação Opere Pie d’Onigo, responsável por obras de assistência social e instituições beneficentes na região.

Nota Historiográfica do Autor

O presente texto tem por objetivo apresentar uma síntese histórica sobre o município de Pederobba e seu contexto social entre os séculos XVIII e XX, com especial atenção ao fenômeno da emigração vêneta e à presença da antiga aristocracia local representada pela família Família Onigo.

A história de pequenas comunidades do Vêneto, como Pederobba, permite compreender de forma mais ampla as profundas transformações que marcaram o norte da Itália entre o declínio da República de Veneza, a dominação da Casa de Habsburgo e o processo de formação do moderno Estado italiano ao longo do século XIX.

Essas transformações estiveram diretamente ligadas ao grande movimento migratório que levou milhões de italianos a cruzar oceanos em busca de novas oportunidades. Nesse contexto, inúmeras famílias da região partiram rumo ao Brasil, à Argentina, aos Estados Unidos e a outros destinos do chamado Novo Mundo.

Para o autor, o estudo dessa pequena comunidade vêneta possui também um significado particular. Suas próprias origens familiares encontram-se ligadas ao território de Pederobba, fato que confere a esta investigação histórica um valor adicional de memória e identidade. Assim, mais do que um simples exercício historiográfico, este trabalho busca também contribuir para a preservação das lembranças e das trajetórias humanas que partiram dessas terras às margens do Rio Piave, levando consigo tradições, língua e cultura.

A memória dessas comunidades permanece viva hoje entre os descendentes de emigrantes espalhados pela América e pela Oceania, para os quais as antigas terras do Vêneto continuam representando um importante ponto de origem cultural, histórico e afetivo.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



quarta-feira, 18 de março de 2026

Pederobba ´ntel Véneto – Stòria, Emigrassion Italiana e l´Antica Nobiltà dei Conti d’Onigo

 


Pederobba ´ntel Véneto – Stòria, Emigrassion Italiana e l´ Antica Nobiltà dei Conti d’Onigo

Introdussion

Situà ´ntela provìnssia de Treviso, ´ntela region del Véneto, ´ntel nord-est de l’Itàlia, el comune de Pederobba el ze sta tra la pianura del fiume Piave e le prime alture de le Alpi che mena verso el massisso del Monte Grappa.

Sta zona, che fa parte de la stòrica Marca Trevigiana, la ze stada sempre un teritòrio de passàgio tra le pianure agrìcole del Véneto e le region montagnose de le pre-Alpi. Con el passar dei sècoli, la pìcola comunità de Pederobba la ga varda grandi cambiamenti polìtici, sossiai e económici, tra cui el domìnio de la Repùblica de Venéssia, el perìodo austrìaco e la granda emigrassion italiana verso l’Amèrica.

Incoi, anca se el ze un comune pìcolo, Pederobba el ga na stòria rica che liga vècie famèie nòbili, come i Conti d’Onigo, a le stòrie de miaia de emigranti che i ga partì par paesi come el Brasil, l’Argentina e i Stati Unìti.

Le origin stòriche de Pederobba

La presensa de zente ´ntela region de Pederobba la torna indrio fin da l’Antiguità. Prima de la conquista romana, sto teritòrio el zera abità dai Paleoveneti, un pópolo antigo che ocupava grande parte del atual Vèneto.

Durante el perìodo romano, la region la ze diventà parte de rote comerssiai importanti che ligava el nord de la penìsola italiana con le region alpine e l’Europa Central. La visinansa del Piave la favoria el trasporto de le mercansie e el movimento de viaiadori.

´Ntela Età Medieval, el teritòrio el ga passà a far parte de la ciamà Marca Trevigiana, ´na region disputà tra signori feudai, vescovi e comuni urbani.

Documenti del sècolo XII i parla za de ´na comunità parochial antica ciamà Plebem de Petrarubea, considerà ´na de le prime referense stòriche de la località.

Pederobba soto la Repùblica de Venéssia

Tra i sècoli XIV e XVIII, Pederobba la ga fato parte dei teritori de la potente Serenìssima Repùblica de Venéssia, che governava vaste region del nord-est italiano.

Durante sto periodo, la region la zera parte del Quartier del Piave, che dipendeva amministrativamente dela sità de Treviso.

El fiume Piave el gavea un papel importante ´ntela economia locale. Par le so aque vegniva trasportà grandi quantità de legname che rivava de le foreste alpine e che zera destinà a le construssion navali e a le òpere pùbliche de Venéssia.

De pi, sto teritòrio el ga diventà un ponto de incontro comerssial tra contadin de la pianura e comunità de le region de montagna.

La nàssita del comune moderno

El comune moderno de Pederobba el ze stà istituì ´ntel 1810 par decreto del imperador francese Napoleon Bonaparte, durante la reorganisassion aministrativa de la Italia soto domìnio napoleónico.

Dopo la sconfita de Napoleon e la restaurassion del orden europeo, el teritòrio el ze tornà soto el controlo de la Casa d’Asburgo, entrando a far parte del Impero Austrìaco.

Solo ´ntel 1866, dopo la Tersa Guera de Indipendensa Italiana, el Véneto el ze vignesto anesso al Regno d’Itàlia.

Economia rural e povertà ´ntel sècolo XIX

Verso la fin del sècolo XIX, Pederobba la zera ´na comunità quasi tuta rurale.

L’economia la se basava sora la pìcola agricoltura familiare, con coltivassion de formenton, frumento e altri prodoti par la sussistensa. La polenta, fata con farina de formenton, la zera el magnar de ogni zorno de la popolassion contadina.

Però la scarsità de tera coltivabile e la crèssita de la popolassion rendea difìssil la vita de le famèie.

Par sta rason tanti abitanti i ga tacà a sercar laoro fora de la so region.

La tradission de la migrassion staional

Par sècoli, i abitanti de Pederobba i ga praticà la migrassion stagional, che ´ntel dialeto véneto la zera ciamà far la staion.

In sta pràtica, i òmeni i partiva par qualche mese del ano in serca de laoro in region visin o anca in teritori del Impero Austrìaco, che in quel tempo comprendea vaste zone de la Europa Central.

Tra i laoradori migranti i zera comun i badilanti e i carriolanti.

Sta zente la viaava spesso a piè par lunghe distanse, portando con lori i ferri de laoro, ´na cariola, qualche chilo de farina de formenton par far la polenta e qualche toco de formàio.

Dopo mesi de fadiga in cantieri, strade o campagne, lori i tornava a la so tera con pochi risparmi.

La granda emigrassion italiana

Da la dècada del 1870 in vanti, sta migrassion temporánea la ga scominsià a trasformarse in emigrassion definitiva.

La crisi agrìcola, la crèssita de la popolassion e la mancansa de tera la ga portà miaia de famèie vénete a sercar nove oportunità fora de la Europa.

Tra le mete prinssipai ghe zera:

  • Brasil

  • Argentina

  • Uruguai

  • Stati Uniti

Dopo el 1875, el Brasil el ga diventà ´na de le mete pì importanti par sta corente migratòria.

Lora desso partia famèie intere, portando pochi beni e tanta speransa de rifar la vita in tere lontan.

Par tanti contadin véneti, el Brasil el zera la famosa “tera de la cucagna”, sìmbolo de abondansa e fortuna.

Pederobba e la Prima Guera Mondial

La posission de Pederobba, visin al Monte Grappa e al Piave, la ga fato sì che la region la diventasse zona stratègica durante la Prima Guera Mondial.

Dopo la sconfita italiana a Caporetto ´ntel 1917, el Piave el se ga diventà la prinssipal lìnea defensiva del esèrssito italiano.

Diversi combatimenti i se ga sussedesto ´ntei dintorni de Pederobba, causando distrussion e spostamenti de la popolassion.

Un dei monumenti pì importanti de sta memòria stòrica el ze el Sacràrio Francese de Pederobba, inaugurà ´ntel 1937 par onorar i soldai francesi morti ´ntei combatimenti de la region del Monte Tomba.

I Conti d’Onigo: l´antica aristocrasia locale

Tra le famèie che ga avù grande influensa ´ntela stòria de Pederobba se distingue l´antiga casa aristocràtica dei Onigo.

La famèia la ga origini medievai e probabilmente la deriva da lignagi germánici o lombardi che se stabilì ´ntela region durante el perìodo del Sacro Impero Romano-Germánico.

In prinssìpio la lìnea la zera conossuda come da Cavaso, ma dopo aver comprà i casteli de Onigo e Rovigo verso la fin del sècolo XII, la famèia la tacò a doparar el soranome Onigo.

Nota storiogràfega del autor

Sto testo el ga come scopo presentar ´na sìntesi stòrica del comun de Pederobba e del so contesto sossial tra i sècoli XVIII e XX, con atenssion particular al fenómeno de la emigrassion véneta e a la presensa de la antica aristocrassia locale rapresentada da la famèia Onigo.

La stòria de le pìcole comunità del Véneto, come Pederobba, la ga aiutà a capir meio le trasformassion che ga segnà el nord de la Itàlia tra el declino de la Repùblica de Venéssia, la dominassion de la Casa d’Asburgo e la formassion del moderno Stato italiano ´ntel sècolo XIX.

Ste trasformassion le zera ligà al grande movimento migratòrio che ga portà milioni de italiani a traversar oceani in srca de nove oportunità. In sto contesto tante famèie de la region le ga partì verso el Brasil, l’Argentina, i Stati Unìti e altri paesi del ciamà Novo Mondo.

Par l’autor, lo studio de sta pìcola comunità vèneta el ga anca un significà particolar, parchè le so origini familiari le ze ligà pròprio al teritòrio de Pederobba. Sto fato el dà a sta ricerca stòrica un valor in pì de memòria e identità.

Cusì sto lavoro el cerca de conservar la memòria de le stòrie umane de chi che partì da ste tere lungo le rive del Piave, portando con lori tradission, léngua e cultura.

La memòria de ste comunità la resta viva incoi tra i discendenti dei emigranti sparsi par l’America e l’Oceania, par i quali le antighe tere del Véneto le resta un importante ponto de origine cultural e stòrica. 

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



quinta-feira, 8 de maio de 2025

O Vinho da Guerra: Uma Família Entre a Destruição e a Esperança

 


O Vinho da Guerra: 
Uma Família Entre a Destruição e a Esperança


24 de outubro de 1917. A data ecoaria como uma ferida aberta na história da Itália. Há anos, o país travava uma guerra extenuante contra o Império Austro-Húngaro, mas naquele fatídico dia, o equilíbrio foi abruptamente rompido. As tropas austro-húngaras, reforçadas por batalhões alemães experientes, desferiram um golpe devastador nas linhas italianas em Caporetto. A derrota, que ficaria conhecida como a 12ª Batalha do Isonzo, obrigou o exército italiano a uma retirada desesperada para a linha do Rio Piave, deixando atrás de si um cenário de caos e desespero.

Nas primeiras horas que se seguiram à catástrofe, a notícia percorreu a região como um incêndio em campo seco. Em Pederobba, um pequeno município situado entre as sombras do Monte Grappa e o Rio Piave, o toque incessante dos sinos da igreja alertava os moradores. A mensagem era clara e aterradora: a evacuação era inevitável. Homens, mulheres e crianças deveriam abandonar suas casas e terras imediatamente, fugindo para o sul, para longe do avanço inimigo. A pequena cidade, até então um refúgio de paz entre montanhas e vinhedos, mergulhou em um redemoinho de medo e agitação.

Entre os moradores, Giuseppe, um marceneiro habilidoso e carpinteiro renomado, era uma figura central. Morador na cidade a muitos anos, originário do município vizinho de Alano di Piave, na província de Belluno, Giuseppe vinha de uma linhagem de artesãos cuja maestria com a madeira era quase lendária. Muitas igrejas e casas nobres de Veneza e arredores exibiam orgulhosamente as portas esculpidas e altares de sua família, cuja reputação atraía até as famílias maus nobres. Além de seu talento com a madeira, Giuseppe herdara do pai, Francesco, uma paixão por seus vinhedos e pela produção do vinho Raboso del Piave, cultivado com dedicação quase religiosa para consumo familiar.

Casado com Giuditha, uma mulher de fibra e perspicácia comercial, Giuseppe tinha uma família numerosa: dez filhos ao todo. Os quatro mais velhos haviam emigrado anos antes para o Brasil, em busca de oportunidades. Outras duas filhas haviam seguido destinos igualmente distantes — uma para a França e outra para os Estados Unidos. Restavam em casa os quatro mais jovens, incluindo a caçula, uma menina de olhos brilhantes que parecia ainda alheia ao horror da guerra.

Quando as ordens militares de evacuação chegaram, Giuseppe agiu com a precisão de um homem acostumado a decisões rápidas. Com a ajuda dos filhos, cavou um buraco profundo ao lado de sua oficina, onde enterrou suas ferramentas mais preciosas, uma bicicleta e três damigianas cheias do vinho que ele tanto estimava. Pedras pesadas foram cuidadosamente colocadas sobre o esconderijo, criando uma falsa tampa que, esperavam, passaria despercebida.

O êxodo começou ao amanhecer. Carroças abarrotadas, grupos apressados a pé e até alguns poucos sortudos em vagões de trem seguiam a corrente humana em direção à Emília-Romagna, deixando para trás tudo o que conheciam. Após dias de caminhada extenuante, a família chegou a Sassuolo, uma pequena cidade nos arredores de Modena, onde foram acolhidos. Giuseppe e os dois filhos mais velhos, Matteo e Piero, logo encontraram pequenos trabalhos, o que trouxe alívio financeiro em meio às privações do exílio.

O retorno à terra natal, permitido após o armistício de 4 de novembro de 1918, foi agridoce. Pederobba estava irreconhecível, marcada por bombardeios incessantes que a transformaram em uma zona de ninguém entre os exércitos. A igreja, outrora o coração da comunidade, estava em ruínas. A casa da família, a oficina e a pequena loja de Giuditha haviam sido reduzidas a escombros. Mesmo assim, Giuseppe encontrou forças para recuperar o que pôde. O esconderijo com as damigianas foi descoberto intacto, mas a bicicleta estava irremediavelmente corroída pela água.

Sem recursos para reerguer o que perderam, Giuseppe e Giuditha tomaram uma decisão dolorosa, mas inevitável: deixar a Itália e juntar-se aos filhos no Brasil. Em 1919, embarcaram rumo a Curitiba, no Paraná, levando consigo apenas um baú de ferramentas e, como símbolo de resistência, alguns litros do vinho salvo da guerra. No Brasil, a família se reencontraria com os filhos mais velhos e suas famílias, até então rostos distantes em cartas. Ali, em um novo mundo, começariam de novo, sustentados pelo espírito resiliente que a guerra não conseguira apagar.




Nota do Autor


A inspiração para "O Vinho da Guerra: Uma Família Entre a Destruição e a Esperança" nasce de uma história que, embora fictícia, encontra eco em incontáveis vozes do passado. O cenário é a Itália dilacerada pela Primeira Guerra Mundial, um país em que a esperança e o desespero frequentemente se alternavam como protagonistas de uma tragédia coletiva.
Neste conto, o vinho — símbolo de tradição, sacrifício e raízes familiares — emerge como metáfora da resistência humana. Giuseppe, marceneiro e viticultor, não é apenas um personagem, mas uma homenagem aos anônimos que, em tempos de guerra, enfrentaram a ruína com engenhosidade e coragem. Sua decisão de salvar as ferramentas e o vinho, mesmo diante da devastação, reflete a essência da luta por preservar identidade e dignidade quando tudo parece perdido.
A narrativa também explora o impacto das decisões que transformam a vida de gerações. A evacuação, a jornada em busca de segurança e o recomeço no Brasil são testemunhos de uma coragem resiliente que transcende fronteiras. Como muitos imigrantes, Giuseppe e sua família carregaram consigo não apenas bens materiais, mas também os alicerces de uma nova história: trabalho árduo, tradição e um profundo amor pela vida.
Este conto pretende não apenas lembrar os horrores e sacrifícios da guerra, mas também celebrar a força que emerge das adversidades, unindo passado e futuro. Que o leitor encontre aqui um convite à reflexão sobre a fragilidade e a resiliência humanas, e sobre como, mesmo em tempos sombrios, a fé no amanhã pode ser destilada, como um bom vinho, do espírito imortal das pessoas comuns.






domingo, 3 de novembro de 2024

Da Pederobba al Alaska par Catare l’Oro


 

Da Pederobba al Alaska par Catare l’Oro


Giovanni Dalla Costa e la so famèia lori i ze vivesto a Pederobba, un pìcolo comune de la provìnsia de Treviso, za su el confin con Belùn, a fianco de la strada feltrina. El ze nassesto nel 1868 in una famèia de pìcoli agricultori. Laorava con i so genitori su tereni in afito, al piè del monte Monfenera. La situassion econòmica dea so famèia la zera paregià a quela de tanti altri agricultori de la contrà, e lui no i gà mai pensà de emigrar, come tanti altri che già son ‘nda via. De boto, na note d’autono, un gran fogo el ga brusà la casa e tuta e la resa messa ´ntel paiol. L’è restà mìsero de colpo. El gà sercà aiuto dal goerno, lu el gà provà a domandar schei ai banchi, ma no’l gà mia trovà quelo che ghe servia, e, con gnente laoro, l’è stà sonià de andarghe via d´Itàlia anca lu. Nel 1886 Giovanni el ze partì solo par la Frància do ghe ga trovà un laoro ´nte na mina, cussì el pò mandarghe dei schei a famèia restà a Pederobba. No sodisfà, el gà pensà de ‘ndar so Amèrica, ´ndove ghe ze grandi oportunità par chi gà vóia de laorar, magari anca da farghe fortuna. El ze ‘nbarcà al porto de Le Havre, in Normandia, con el destino de Nova York. Rivà in quela, sùito el sente dir de la Califòrnia, de là de Amèrica, ´ndove ghe ze tante mine d’oro. El ze montà su de primi treni par ‘ndar fin là, ma na volta rivà, el scopre che la corsa al oro, la ze inissià vent’ani prima, adesso l’era finì e se vol viver, ghe toca laorar. Trova un laoro come minerador pagà in na mina su in Montana, verso le Montagne Rossose, su a cofin col Canada. Quando el ze rivà, sente dir che in Alaska ghe ze la nova corsa al oro dei Stadi Uniti. Volendo far fortuna, Giovanni, oramai ciamà da tuti Jack, decise de andar sùito a quela tera lontana e sconossua, coperta de giasso par bona parte de l’ano, in serca de na vida nova. La febre de l’oro lo gà oramai tacà. Sbarcà in Alaska, el se meti a caminar in drento par quel grandìsimo teritòrio, a piè, a cavalo, in canoa, in compagna de altri aventurieri come lù, anche lori presi da la febre del oro. Ghe feci amissìssia con un emigrante talian de Mòdena, che l'avea ormai 'ndà a catar la so fortuna, a cavar oro. Poco dopo ghe ze rivà anca so fradeo Francesco. Par ani lori percori na gran strada, tra fiumi con barche e foreste con slite, montando sui monti coperti de neve ´ndove che a temperatura la cascava fin a meno trenta ´nte l´inverni. Lori i magnava carne seca e fasòi in tende poarete che ghe protegea poco dal fredo. Ma quando vinìa el istà, i ze becà da nùvole de moschetin. Durante i spostamenti, lori i se fermava ogni tanto par esplorar el tereno congelà che par cavar fora ghe serviva far gran fogassa par squagliare el giasso. Da i nativi lori ga imparà a laorar sensa sudar, che seno la piel sudada la zera sùito congelà. Dopo do ani de soferense, riva al fin el zorno tanto sonià su la riva del Yukon, ndove lori i gà trovà tanto oro. La località ze ciamà incòi Fairbanks, e là ghe ze un busto e na targa con el 9 Aprile del 1903. Rico, el gà deciso de tornar in Itàlia, ma a San Francisco el ghe vien ciapà via tuto el so oro e ghe toca tor el viàio fin Alaska par cavarghe n’altra volta. Dopo un ano el ze na volta ben rico e così torna a so Pederobba. Quando el ze rivà indrio nel 1905, dopo quasi venti ani, nessun ghe crede a sta so stòria, ma quando el inisia a comprar case, campi, e depositar monede de oro in banco, tuta la gente lo ciama come ‘na legenda. Inte'l mentre la so famèia se gà desfà, pieni de dèbiti che no i gà podesto pagare. So fradeo Jacomo emigra in Frància, do ghe se marida con na francesa e de lori no se sa gnente. So mare, so pare, on fradeo e na sorea, vendù quel che gà restà, e lori i ze emigrà su Montevideo, in Uruguay. Qualche tempo dopo lori i riva fin Rio Grande do Sul dove a sorea la morì con tanti tribolasioni. Dopo, i pochi che i gà restà in famèia, aiutà da Giovanni, trova posto in Guaporé, con un pìcolo albergo. Giovanni el ze a Pederobba e poco dopo el vien ragiunto da so fradeo Francesco. Tuti e do decide de maridarse. Giovanni se sposa con Rosa Rostolis e lori i gà fato un grande viàio, par tuti i posti che lù el gà conosuo, fin a Fairbanks in Alaska, sempre stanzo ntei alberghi de lusso. De sto matrimónio lori i gà on fiol e quatro fiòle. Giovanni a Pederobba se laora a s’occupasion dei so beni e laora su campi su quel comune. So fradeo Francesco el sposa Maria Poleselli, lor i gà de pìcoli e torna ‘ndrio in Alaska, poì pì tarde el va in Roma e dopo se trasferise in Toscana. Quando scòpia la Prima Guerra Mondial, con la rota del fronte italiano a Caporetto, el fronte se desloca e se ferma lungo a lìnea de Monte Grappa e Piave, e Pederobba se trova in meso ai buti. In freta la famèia de Giovanni la gà dovuo scampar via con quel poco che lori i gà podesto portarse, a riparo in Lombardia, su a Pavia, par pì de un ano, fin la fine del conflito. In sta sità, una de le fiòle la ze morta, vìtima de l’epidemia de gripe spagnola che devastava tuto el continente. Pederobba la zera quasi tuta distruta dai continui bombardamenti dei do eserciti in lota. Trova la so casa mia rovinà, i mòbili o gà roti o rubà. Na cassa con robe de valor che lori l’aveva interrà in orto, l’era stada trovà e piasa via. L’oro deposità ntel Banco de Valdobbiadene el gà stà ciapà dai austriachi. Se trovea ‘n dificoltà anca stavolta. Dopo poco tempo, colpì dal mal de cor, el ze morto a quaranta ani, lasando la famèia in poaretà. Con la crisi del 1929 la sposa Rosa la ze obligà a vender quel che gà restà de campi e anca la casa, morendo nel 1955. Al cimitero de Pederoba ze stà messa na làpide par ricordar sta stòria incredebile.


Riassunto del libreto publicà dal comune de Pederobba.