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sexta-feira, 9 de outubro de 2026

O Cão Que Me Levou às Origens Italianas da Minha Família


O Cão Que Me Levou às Origens Italianas da Minha Família

“Às vezes, uma história familiar inteira permanece escondida durante décadas, esperando apenas que uma pequena pista apareça no momento certo.”

Desde menino, e isso já faz muito tempo, sempre tive curiosidade pela história da minha família. Estamos falando da década de 1950, quando eu ainda era criança e já me perguntava quem tinham sido meus antepassados, o que faziam, de onde haviam vindo, por que deixaram a Itália e como tinham chegado ao Brasil.
Eu sabia que minhas raízes eram italianas, principalmente pelo sobrenome e por algumas informações vagas transmitidas pelos mais velhos. Mas saber que uma família veio da Itália é muito diferente de saber de onde, exatamente, ela veio. Eu queria encontrar aquele lugar no mapa. Queria descobrir a comunidade, a região, a história daqueles que haviam atravessado o oceano e deixado para trás uma parte de sua vida.
Durante muitos anos procurei respostas por conta própria. Perguntava aos parentes mais velhos, tentava reunir as poucas lembranças existentes e buscava algum indício que pudesse orientar a pesquisa. Na minha cidade havia várias famílias com o mesmo sobrenome. Algumas eu sabia que eram parentes; outras, não. Mas faltava justamente aquilo que eu mais procurava: uma ligação concreta com o lugar de origem na Itália.
Casei, tive filhos e a vontade de conhecer minhas raízes tornou-se ainda maior. Eu queria um dia poder contar aos meus filhos não apenas que nossos antepassados eram italianos, mas de onde eles haviam vindo e como aquela história havia chegado até nós.
Foi então que, ainda numa época em que não existia internet, aconteceu algo que eu jamais poderia imaginar.
Eu havia comprado uma casa com um grande terreno e queria ter um cão para ajudar na segurança. Para conhecer melhor as raças, pedi emprestado a um casal de amigos um livro ilustrado sobre cães. Entre tantas raças, escolhi o Rottweiler.
Comecei então a procurar um criador. Entrei em contato com o Kennel Clube e perguntei onde poderia encontrar um canil de boa reputação. Indicaram-me um dos criadores mais conhecidos da região, também ligado à criação de cavalos e à atividade rural.
Perguntei o nome do proprietário.
Quando ouvi o sobrenome, levei um susto.
Era o mesmo sobrenome da minha família.
Mais do que isso: descobri que o proprietário do canil era meu primo, filho de um irmão mais velho de meu pai. Nós havíamos nos conhecido na infância, mas fazia muitos anos que não nos víamos. Ele também não sabia que eu morava naquela região.
Fui visitá-lo.
No canil havia uma cadela Rottweiler com sete filhotes, todos com pouco mais de um mês. Meu primo permitiu que eu escolhesse um deles. Escolhi o meu e combinei de buscá-lo quando completasse dois meses de idade.
O filhote já estava registrado no Kennel Clube e tinha recebido um nome: Danke.
Naquele momento, eu não poderia imaginar o quanto aquele cão ainda estaria ligado à minha história.
A reaproximação com meu primo acabou nos levando também a conversar sobre nossa família. Ele era alguns anos mais velho e, assim como eu, sabia muito pouco sobre a origem de nossos antepassados italianos. Seu pai, meu tio, dizia que o avô e o bisavô que haviam vindo da Itália não gostavam de falar sobre o passado.
Durante uma dessas conversas, meu primo se lembrou de algo que havia encontrado muitos anos antes.
Depois da morte de nosso avô, seu pai havia recebido alguns de seus livros. Dentro de um deles, meu primo encontrou um pequeno pedaço de papel amarelado, escrito a lápis. Havia apenas uma palavra:
Pederobba.
Para mim, aquilo poderia ser a primeira pista concreta que eu procurava havia tantos anos.
Mas havia um problema: no início da década de 1980, não existia internet. Não tínhamos mecanismos de busca, bancos de dados genealógicos ou mapas digitais. Uma palavra escrita em um papel antigo podia ser uma pista preciosa, mas também podia permanecer indecifrável por muito tempo.
Eu era radioamador e mantinha contatos frequentes com pessoas de diferentes partes do mundo. O radioamadorismo exigia familiaridade com geografia e, durante meus contatos, eu costumava receber cartões QSL, muitos deles acompanhados de fotografias, cartões-postais ou mapas das cidades e regiões dos outros operadores.
Foi justamente por meio de um amigo radioamador italiano que a pista começou a ganhar forma.
Ele me enviou um mapa da província de Treviso e um cartão-postal da cidade de Treviso, distribuído pelo jornal local Tribuna di Treviso. Ao examinar o mapa, encontrei o nome que estava procurando:
Pederobba. O lugar ficava na província de Treviso, próximo à divisa com a província de Belluno.
Pela primeira vez, aquela palavra escrita a lápis no velho livro tinha encontrado um lugar concreto no mapa. Eu finalmente sabia onde procurar.
Mas ainda não sabia se Pederobba era realmente a terra de meus antepassados.
Decidi então escrever para o diretor do jornal Tribuna di Treviso. Meu italiano era muito limitado. Para escrever a carta, precisei recorrer a um pequeno dicionário português-italiano. Expliquei quem eu era, onde morava, que estava procurando minhas origens familiares e que acreditava que meus antepassados poderiam ter vindo da província de Treviso.
Fiz uma pergunta simples: seria possível verificar se existiam leitores ou assinantes do jornal com o mesmo sobrenome que o meu?
Minha intenção era apenas encontrar minhas raízes.
Pouco mais de um mês depois, aconteceu algo que jamais esqueci.
Recebi quase ao mesmo tempo seis cartas vindas da Itália, todas relacionadas ao meu sobrenome. O diretor do jornal havia se sensibilizado com a minha história e com aquela carta escrita em um italiano ainda muito rudimentar. Decidiu publicá-la em uma edição dominical, distribuída por toda a província.
Das seis cartas, duas vieram de pessoas que realmente tinham um parentesco distante comigo.
Um casal de Pederobba se dispôs a ajudar na pesquisa. Eles procuraram outras pessoas, conversaram com conhecidos e chegaram até um historiador local que, pelo seu extraordinário conhecimento da história e das famílias do município, era considerado uma espécie de arquivo vivo de Pederobba.
A partir daí, a pesquisa ganhou outro rumo.
Mantive correspondência frequente com aquelas pessoas e, no ano seguinte, viajei à Itália.
Eu ainda não dominava o italiano. Viajei em uma excursão que ficaria hospedada a cerca de uma hora e meia de automóvel de Pederobba. Eu teria apenas um dia para encontrar aquelas pessoas e, para isso, precisei abrir mão de uma visita programada ao Santuário de Santo Antônio, em Pádua.
Naquela manhã, o casal foi me buscar no hotel.
Levaram-me para sua casa, onde me esperava um grande almoço com vários familiares. Depois, durante a tarde, mostraram-me Pederobba e os lugares ligados à história de nossa família.
Aquele encontro representou muito mais do que uma viagem. Pela primeira vez, eu estava diante da terra que durante tantos anos havia existido apenas como uma pergunta na minha memória.
Mais tarde, estudei italiano e voltei muitas vezes à Itália. Como não havia hospedagem suficiente em Pederobba, passei a ficar em um município vizinho Alano di Piave, e ainda eu sem saber era o local de nascimento do meu trisavô. Aos poucos, com novas viagens, documentos, cartas, conversas e pesquisas, fui reconstruindo a história de minha família.
Foi assim que aquela palavra escrita a lápis em um velho livro deixou de ser apenas uma pista. Pederobba tornou-se um lugar real, uma referência concreta e, sobretudo, parte da minha própria história.
Tudo isso aconteceu há mais de quarenta anos. Danke viveu pouco tempo, mas foi um grande amigo e um fiel companheiro. E, sem que eu pudesse imaginar no dia em que o escolhi, acabou fazendo parte da descoberta das minhas próprias raízes.
O mais curioso é que seu nome já estava escolhido antes de eu conhecer o primo, o velho bilhete ou Pederobba. Danke, em alemão, significa “obrigado”.
Pode ter sido apenas uma coincidência. Mas, depois de tudo o que aconteceu, essa palavra adquiriu para mim um significado que o tempo não apagou.
Quando penso naquele cão e na história que começou com ele, só consigo dizer:
Danke. Obrigado.

Nota do autor 

Esta é uma história real da minha própria família. Os acontecimentos narrados ocorreram há mais de quatro décadas, quando ainda não existia a internet e as pesquisas genealógicas dependiam de cartas, mapas, jornais, documentos, contatos pessoais e, muitas vezes, de muita persistência. Durante mais de três décadas, também acompanhei de perto inúmeras famílias de descendentes de italianos em suas buscas pelas próprias origens. Aprendi que uma pesquisa familiar pode começar com uma pista aparentemente insignificante: um nome, uma fotografia, uma certidão, uma lembrança de família ou, como aconteceu comigo, um pequeno bilhete escrito a lápis dentro de um velho livro. As imagens que acompanham este artigo são ilustrativas e foram geradas por inteligência artificial. Elas não representam fotografias reais dos acontecimentos narrados. O relato, porém, é verdadeiro e conta como consegui reencontrar minhas raízes em Pederobba, na província de Treviso, Itália.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta
Autor e pesquisador da Imigração Italiana e histórias familiares



quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Como Descobri Minhas Raízes Italianas em Pederobba

 


Como Descobri Minhas Raízes Italianas em Pederobba

“Eu passei muitos anos tentando descobrir de onde, na Itália, havia vindo a minha família. Nunca imaginei que a resposta começaria a aparecer por causa de um cachorro.”


Durante muitos anos, eu sabia apenas que minhas raízes familiares estavam na Itália. Sabia o sobrenome, conhecia algumas histórias transmitidas pela família, mas não sabia exatamente de onde haviam vindo meus antepassados. Para mim, “Itália” ainda era uma referência ampla demais. Eu queria encontrar o lugar, a comunidade, a terra onde aquela história havia começado.
Naquela época, pesquisar uma origem familiar era muito diferente do que é hoje. Não havia a facilidade dos bancos de dados genealógicos disponíveis na internet, dos grupos de pesquisadores ou dos documentos digitalizados que podemos consultar atualmente. Era preciso escrever cartas, procurar pessoas, consultar mapas, reunir pequenas informações e, muitas vezes, simplesmente esperar que uma pista aparecesse.
E a pista apareceu de uma maneira que eu jamais poderia imaginar.
Eu estava procurando um cachorro que pudesse ser meu companheiro e também exercer a função de cão de guarda. Pesquisei criadores e fui conhecer um canil. Durante a conversa com o proprietário, surgiu uma coincidência que imediatamente chamou minha atenção: ele tinha o mesmo sobrenome da minha família.
Começamos a conversar sobre nossas origens. Aos poucos, percebemos que não se tratava apenas de uma coincidência de sobrenome. Aquele homem era meu primo, filho de um irmão mais velho de meu pai, alguém que eu não via desde a infância e cuja existência praticamente havia desaparecido do meu cotidiano.
Eu havia ido até aquele lugar procurando um cachorro. Encontrei um parente que eu nem sabia que voltaria a encontrar.
E foi justamente esse encontro que abriu a primeira porta para a história da minha família.
Meu primo havia encontrado, entre antigos pertences familiares, um pequeno bilhete escrito a lápis. Não havia uma explicação detalhada, uma árvore genealógica ou uma certidão. Havia apenas uma palavra:
Pederobba.
Eu nunca tinha ouvido falar daquele lugar.
Naquele momento, aquela palavra não significava nada para mim. Eu não sabia se era uma cidade, uma aldeia, uma região ou simplesmente o nome de algum lugar relacionado aos nossos antepassados.
Mas eu precisava descobrir.
Eu também era radioamador e mantinha contato com pessoas de vários lugares. Por intermédio de um contato italiano, consegui um mapa da província de Treviso. Foi assim que, pela primeira vez, encontrei Pederobba no mapa.
Ali estava a resposta que eu procurava havia tanto tempo: Pederobba, na província de Treviso, no Vêneto.
A partir daquele momento, minha pesquisa ganhou uma direção concreta.
Escrevi para o jornal Tribuna di Treviso. Meu italiano ainda era muito limitado e precisei recorrer a um dicionário português-italiano para conseguir redigir a carta. Expliquei que procurava pessoas que pudessem conhecer minha família e pedi ajuda para localizar parentes ou moradores que tivessem informações sobre aquele sobrenome.
A carta foi publicada.
Depois começaram a chegar as respostas.
Recebi seis cartas da Itália, escritas por pessoas que tinham o mesmo sobrenome da minha família. Algumas eram parentes distantes; outras conheciam pessoas que poderiam ajudar a reconstruir aquela história. Um casal se interessou especialmente pela minha busca e começou a procurar outras pessoas e informações em Pederobba. Com a ajuda deles e de um historiador local, novas peças foram aparecendo.
O que durante tantos anos havia sido apenas uma pergunta — “De onde vieram meus antepassados?” — começou finalmente a ganhar nomes, lugares e relações familiares.
No ano seguinte, viajei para a Itália em uma excursão. Eu ainda não dominava a língua italiana. O grupo ficou hospedado a certa distância de Pederobba, mas meus parentes foram me buscar. Levaram-me para a casa deles e, depois, finalmente para Pederobba.
Estar ali foi diferente de simplesmente encontrar um nome em um mapa.
Eu estava diante do lugar de onde haviam partido meus antepassados.
Depois daquela primeira viagem, voltei outras vezes à Itália. Continuei pesquisando documentos, nomes, relações familiares e lugares. A cada nova descoberta, aquela palavra escrita a lápis no velho bilhete ganhava um significado maior.
E, olhando para trás, percebo que toda essa história começou de uma forma quase absurda de tão simples.
Eu estava procurando um cachorro.
O cachorro se chamava Danke.
Durante cinco anos, Danke foi muito mais do que o animal que um dia fui buscar naquele canil. Tornou-se meu querido amigo, meu fiel companheiro e uma presença profundamente ligada à minha vida e à minha família. Foi por causa dele que entrei naquele lugar, conheci meu primo e recebi a primeira pista que me levaria até Pederobba.
Por isso, Danke não foi apenas uma coincidência no começo dessa história. Ele faz parte dela.
Infelizmente, sua vida foi muito curta. Danke desenvolveu um osteossarcoma agressivo, um câncer que atingiu um osso de um de seus membros anteriores e que apresentou precocemente metástases pulmonares. Tinha apenas cinco anos.
A doença avançou e ele passou a sofrer muito. Chegou então o momento mais difícil: decidir que seu sofrimento não poderia continuar.
A responsabilidade por Danke sempre havia sido minha. Naquele momento, também seria minha a responsabilidade de ajudá-lo a partir.
Fui eu mesmo quem realizou sua eutanásia. Não quis entregar essa responsabilidade a outra pessoa. Danke confiava em mim, e eu entendia que, diante daquela situação, o mínimo que eu poderia fazer por ele era permanecer ao seu lado e assumir até o fim a responsabilidade que havia assumido quando ele entrou na minha vida.
Foi uma das decisões mais dolorosas que já precisei tomar. As lembranças daquele momento ainda hoje doem muito.
Mas, quando penso em Danke, não quero lembrar apenas da doença e da despedida. Quero lembrar dos cinco anos em que ele foi meu fiel companheiro e, sobretudo, da maneira inesperada como sua presença acabou mudando a história que eu procurava.
Por causa de Danke, encontrei meu primo. Por causa daquela conversa, conheci um velho bilhete. E naquele pequeno pedaço de papel estava escrito o nome de um lugar que eu ainda não conhecia: Pederobba.
Foi assim que uma busca que parecia não ter relação alguma com a minha genealogia acabou me conduzindo até a terra dos meus antepassados.
Danke nunca conheceu Pederobba. Nunca esteve na Itália. Mas foi ele quem, sem saber, abriu a primeira porta.
E é por isso que, quando penso nas minhas raízes italianas, penso também nele — com saudade, com gratidão e com a certeza de que algumas das descobertas mais importantes da nossa vida começam de maneiras que jamais poderíamos imaginar.

Nota do autor 

Esta é uma nova versão, ampliada e reorganizada, de uma história verdadeira publicada originalmente neste blog em 21 de junho de 2023, sob o título “Danke: O Cão Que Desvendou Minha História Familiar Perdida em Pederobba, Itália”. Tudo o que relato aconteceu comigo e faz parte da minha própria trajetória de descoberta das raízes familiares. Durante mais de três décadas, trabalhando e convivendo com famílias de descendentes de italianos, acompanhei inúmeras pesquisas genealógicas que começaram com uma pequena pista — um sobrenome, uma fotografia, uma carta, uma certidão ou o nome de um lugar. A minha própria história não foi diferente. No meu caso, porém, a primeira porta se abriu de uma maneira que eu jamais poderia imaginar: por meio de Danke, meu querido amigo e fiel companheiro. Esta narrativa é também uma forma de preservar sua memória e registrar a gratidão que sinto por tudo o que ele representou na minha vida. As imagens ilustrativas desta publicação foram produzidas com recursos de inteligência artificial e não constituem registros fotográficos dos acontecimentos narrados.


Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta
Autor e pesquisador da Imigração Italiana e histórias familiares




quarta-feira, 26 de agosto de 2026

A Chave de Barbisano - A História de uma Família Italiana na 4ª Colônia do RS


A Chave de Barbisano - A História de uma Família Italiana na 4ª Colônia do RS

“Eles atravessaram o oceano em busca de uma nova vida, mas nunca deixaram para trás a terra onde tudo havia começado.”

Jacob tinha agora treze anos. Era filho de Domenico e Santina Scarsi, naturais de Barbisano, então pertencente ao território de Refrontolo, nas colinas do Quartier del Piave, no Vêneto, não muito distante das águas do Lierza. Em 1888, Domenico e Santina haviam deixado aquela terra para trás, levando consigo os três primeiros filhos, Giuditta, Anna e Giuseppe, e acompanhados pelo pai de Domenico, viúvo havia pouco tempo. Catorze anos tinham se passado desde que a família deixara o porto de Gênova, e Jacob, nascido já no Brasil, começava a descobrir que uma pessoa podia herdar uma terra que jamais havia visto. Naquela manhã de 1902, sentado sobre uma pedra à margem da lavoura, ele observava a névoa desaparecer lentamente entre as árvores da propriedade. A 4ª Colônia ainda conservava muito da paisagem que os imigrantes haviam encontrado. Havia matas que pareciam não ter fim, encostas difíceis, caminhos de terra e pequenas propriedades espalhadas pelas colônias. Ao longe, podia ouvir o som abafado de um machado golpeando um tronco. O pai já estava trabalhando. Domenico começava cedo, como fizera desde a chegada. Jacob conhecia aquele trabalho. Sabia que uma propriedade não nascia pronta. Era preciso conquistar cada pedaço de chão. Primeiro vinham as árvores. Depois os troncos queimados, os tocos retirados com esforço, a terra revolvida, as primeiras sementes. Só então surgiam o milho, o feijão, a mandioca, a videira e, pouco a pouco, uma casa que pudesse ser chamada de lar. Jacob olhou para a própria casa. Era simples, construída com madeira, mas para ele parecia antiga e sólida, como se estivesse ali desde sempre. Não sabia que, quando seu pai chegara, não havia nada parecido. Apenas mata, terra e incerteza. Domenico costumava contar que os primeiros meses tinham sido os mais difíceis. A família ainda não conhecia o clima, os caminhos, as plantas nem os perigos da nova terra. A língua também criava dificuldades. Havia italianos de muitas regiões, cada qual trazendo seu dialeto, além dos brasileiros e de outros imigrantes. Para Domenico, acostumado às palavras do Vêneto, o português parecia uma língua que precisava ser aprendida com as mãos. Aprendia ouvindo, perguntando, trabalhando. Santina aprendia da mesma maneira. Ela sabia que não poderia esperar que a nova terra se adaptasse a eles. Eram eles que teriam de aprender a viver nela. Quando chegaram, Giuditta ainda era pequena. Anna era pouco mais velha. Giuseppe começava a compreender que aquela viagem não seria uma aventura passageira. O avô, porém, já carregava outra idade e outra tristeza. Tinha enterrado a esposa pouco antes da partida e deixara para trás quase tudo o que conhecera. Entre os poucos objetos que conservara havia um rosário, uma fotografia antiga e uma pequena chave de ferro. Jacob vira aquela chave muitas vezes, mas jamais entendera sua importância. O avô a guardava dentro de uma caixa de madeira e nunca permitia que ninguém a mexesse. Um dia, quando Jacob perguntou o que ela abria, o velho respondeu apenas: “Uma porta.” O menino esperou mais. Não veio explicação. “Mas onde está essa porta?” perguntou. O velho olhou para ele e respondeu: “Na Itália.” Jacob não entendeu. Como poderia uma chave abrir uma porta que estava a milhares de quilômetros dali? Só anos depois descobriria que algumas chaves não existem para abrir portas. Existem para impedir que elas sejam esquecidas. A viagem de 1888 havia começado em Gênova. Para Domenico e Santina, o porto representara o fim de uma vida e o início de outra. Não sabiam exatamente o que encontrariam. Sabiam apenas o que deixavam. Barbisano ficaria para trás com suas colinas, seus caminhos, suas casas, suas igrejas, suas vinhas e os rostos conhecidos. O oceano seria a fronteira entre aquilo que conheciam e aquilo que ainda não conseguiam imaginar. Durante a travessia, Santina cuidava das crianças enquanto Domenico tentava parecer mais confiante do que realmente estava. O pai dele passava longos períodos em silêncio. Quando alguém perguntava de onde vinham, respondia o nome da região e depois se calava. Para ele, dizer o nome da terra natal era suficiente. O Brasil começou a existir para aquela família muito antes de seus pés tocarem o chão. Existia como promessa. Existia como medo. Existia como necessidade. Quando finalmente chegaram, descobriram que nenhuma promessa era simples. A terra podia ser fértil, mas exigia trabalho. A floresta podia ser bela, mas precisava ser vencida. O futuro podia existir, mas não estava esperando de braços abertos. Era preciso construí-lo. Domenico construiu. Derrubou árvores, abriu roças, ergueu paredes e aprendeu a reconhecer os sons da mata. Santina transformou uma construção pobre em casa. Fez pão, preparou polenta, costurou roupas, cuidou dos filhos e manteve dentro daquela pequena propriedade os costumes que trouxera da Itália. Aos domingos, quando possível, a família se reunia para a missa. Nas festas religiosas, as comunidades de imigrantes mostravam que a fé era também uma forma de manter a memória viva. Aos poucos, as casas deixaram de parecer abrigos provisórios. As famílias começaram a criar raízes. Surgiram caminhos, capelas, escolas, pequenas vendas e relações de vizinhança. A vida continuava difícil, mas já não parecia provisória. Foi nesse mundo que Jacob nasceu. Por isso, quando ouvia o pai dizer que eram italianos, havia dentro dele uma dúvida que não sabia formular. Ele era brasileiro. Nascerá naquela terra. Conhecia suas montanhas, seus rios, suas estradas e suas estações. Não conhecia Barbisano. Não conhecia Gênova. Nunca havia visto o Lierza. Nunca havia caminhado pelas colinas onde seus pais haviam crescido. Mesmo assim, havia algo daquela terra dentro dele. Estava nas palavras da mãe, nos gestos do pai, nas histórias do avô e no modo como a família pronunciava os nomes dos mortos. Naquela manhã de 1902, Jacob finalmente perguntou ao pai: “Pai, por que o senhor fala tanto da Itália?” Domenico demorou a responder. Continuou trabalhando por alguns instantes, fincando a enxada na terra. Depois levantou a cabeça. “Porque foi lá que comecei a ser quem sou.” Jacob olhou para a lavoura. “Mas o senhor vive aqui.” Domenico sorriu discretamente. “Agora sim.” E voltou ao trabalho. Aquela resposta acompanharia Jacob por muitos anos. Os anos seguintes passaram sem pedir licença. Giuditta chegou à idade de casar. Anna tornou-se uma mulher habilidosa nos trabalhos da casa. Giuseppe passou a trabalhar ao lado do pai. Os filhos mais novos, nascidos no Brasil, já não tinham qualquer lembrança da Itália. Para eles, a história da família começava naquela propriedade. Para Domenico, porém, começava muito antes. A família cresceu. A casa ficou pequena. A lavoura aumentou. Uma videira plantada por Domenico começou a produzir os primeiros cachos. Santina guardava algumas uvas para fazer vinho e outras para a mesa. Quando Jacob era criança, o pai lhe dissera que uma videira precisava de tempo. “Você planta hoje e espera amanhã, depois de amanhã e depois de muitos anos.” Jacob compreenderia mais tarde que Domenico estava falando também da família. Em certa tarde de verão, uma tempestade destruiu parte da plantação. O vento arrancou folhas, derrubou algumas plantas e espalhou pelo chão aquilo que havia levado meses para crescer. Jacob ficou parado diante da lavoura, sentindo uma raiva que não sabia contra quem dirigir. Domenico aproximou-se. “Não adianta olhar para o que caiu”, disse. “Veja o que ficou.” Jacob percebeu então que algumas plantas continuavam de pé. Era uma lição simples, mas ficaria com ele durante toda a vida. As famílias de imigrantes aprendiam assim. Perdiam colheitas e recomeçavam. Perdiam animais e compravam outros. Perdiam parentes e continuavam. Construíam casas que depois eram ampliadas. Plantavam árvores cujo fruto seria colhido pelos filhos. A vida era feita de pequenas perdas e pequenas vitórias que, somadas, construíam uma história. O velho Scarsi envelhecia. Já não caminhava até a lavoura todos os dias. Sentava-se diante da casa e observava os netos. Às vezes falava italiano. Outras vezes misturava palavras italianas com português. Jacob gostava de ouvi-lo. Era como se aquelas palavras trouxessem consigo uma paisagem distante. Um dia, o avô chamou-o. Entregou-lhe a pequena chave de ferro. Jacob ficou surpreso. “Agora é sua”, disse o velho. “Mas o que ela abre?” O avô sorriu. “Você vai descobrir.” Não explicou mais nada. Pouco tempo depois, morreu. Foi enterrado na terra brasileira que jamais aprendera completamente a chamar de sua. Jacob acompanhou o enterro em silêncio. Naquele momento percebeu algo que jamais esqueceria: o avô havia chegado ao Brasil carregando a Itália dentro de si e agora seria enterrado levando consigo aquilo que ninguém mais poderia recuperar completamente. A chave permaneceu com Jacob. Ele a guardou durante anos. Quando Giuseppe se casou e saiu de casa, quando Giuditta formou sua própria família, quando Anna partiu para outra propriedade, quando novos filhos nasceram e a casa voltou a encher-se de vozes, a chave continuou guardada. Jacob tornou-se homem. Trabalhou, casou-se e teve filhos. Já não era o menino que ficava sentado junto à lavoura pensando no que significava ser italiano. Agora tinha seus próprios filhos perguntando de onde vinha o sobrenome Scarsi. Foi então que começou a contar tudo outra vez. Falou de Domenico e Santina. Falou do avô. Falou de Giuditta, Anna e Giuseppe. Falou do navio que deixara Gênova em 1888 e da longa viagem até o Brasil. Falou dos primeiros anos na 4ª Colônia, da mata, da lavoura, das dificuldades e das festas. Falou de Barbisano. Um de seus filhos perguntou se ele conhecia a Itália. Jacob sorriu. “Não.” O menino ficou surpreso. “Então como sabe tantas coisas?” Jacob levou a mão ao bolso e tirou a pequena chave. “Porque algumas coisas podem ser lembradas mesmo quando nunca foram vistas.” Quando Jacob envelheceu, a pequena chave já estava escurecida pelo tempo. Um de seus netos perguntou novamente o que ela abria. Dessa vez, Jacob respondeu: “Uma casa que talvez ainda exista apenas na memória.” E contou a história do avô. Contou como aquela chave atravessara o oceano. Contou como pertencera a uma casa de Barbisano e como o homem que a trouxera morrera sem jamais esquecer o lugar onde havia deixado parte de sua vida. O neto segurou a chave na palma da mão. Pela primeira vez compreendeu que aquele pequeno pedaço de ferro era mais do que um objeto. Era a prova de que a família tivera uma história antes do Brasil. Anos depois, Jacob já não conseguia trabalhar como antes. Sentava-se diante da casa ao entardecer e observava as mesmas montanhas que conhecera desde menino. A paisagem havia mudado. Algumas matas haviam desaparecido. As propriedades tinham crescido. Os caminhos estavam diferentes. Mas a terra continuava ali. Um dia, olhando para o horizonte, Jacob pensou no avô. Lembrou-se da pergunta que fizera tantos anos antes: “O que essa chave abre?” Finalmente compreendeu a resposta. Ela não abria uma porta. Abria uma história. A história de uma família que deixara Barbisano em 1888, atravessara o oceano e começara novamente na 4ª Colônia. Uma família que perdera a antiga casa, mas construíra outra. Que trocara uma paisagem por outra. Que ensinara aos filhos palavras italianas e aprendera com eles a língua brasileira. Que trouxera sementes, costumes, fé, receitas, nomes e lembranças. E que, sem perceber, havia criado algo que não existia antes da viagem: uma família brasileira com raízes italianas. Quando Jacob morreu, a pequena chave passou para seus filhos. Depois para os netos. Ninguém sabia mais exatamente qual porta ela abrira em Barbisano. Talvez a casa nem existisse. Talvez tivesse sido demolida. Talvez outra família vivesse ali. Não importava. A chave havia cumprido sua verdadeira função. Mantivera aberta a memória. E foi assim que a história de Domenico e Santina Scarsi atravessou as gerações. Não como uma história de grandes riquezas ou de homens famosos. Mas como a história de milhares de famílias italianas que chegaram ao Brasil trazendo pouco mais que a coragem, a fé e a esperança de que seus filhos teriam uma vida melhor. Eles não sabiam o que encontrariam. Não sabiam se venceriam. Não sabiam sequer se um dia seriam capazes de chamar aquela terra de casa. Mas ficaram. Trabalharam. Plantaram. Construíram. Tiveram filhos. Enterraram seus mortos. Celebraram seus santos. Fizeram vinho. Assaram pão. Contaram histórias. E, acima de tudo, transmitiram aos filhos aquilo que nenhum oceano conseguira levar embora: a lembrança de onde tudo havia começado. Jacob nasceu brasileiro, mas cresceu cercado pela memória italiana. Seus filhos nasceram brasileiros e herdaram essa memória. Seus netos talvez já não falassem a língua de Domenico. Talvez nunca visitassem Barbisano. Talvez não soubessem exatamente onde corria o Lierza. Mas enquanto alguém ainda pronunciasse o nome Scarsi e perguntasse quem foram aqueles primeiros homens e mulheres que atravessaram o oceano em 1888, a viagem não estaria terminada. Porque uma imigração nunca termina completamente quando o navio chega ao porto. Ela continua nos filhos, nos netos, nos sobrenomes, nas fotografias, nas receitas, nas igrejas, nas plantações e nas histórias contadas à mesa. E talvez seja esse o verdadeiro significado da pequena chave que atravessou o oceano. Ela não pertencia mais à casa de Barbisano. Pertencia à memória de uma família. E enquanto essa memória permanecesse viva, a porta continuaria aberta.

Nota do Autor
A história que você acabou de ler é uma obra de ficção. Domenico, Santina, Jacob, Giuditta, Anna, Giuseppe e os demais personagens foram criados para dar rosto, voz e sentimentos a uma experiência que pertenceu a milhares de famílias italianas que deixaram a Europa e atravessaram o oceano em busca de uma possibilidade de vida no Brasil. Seus nomes, relações familiares e acontecimentos particulares pertencem à narrativa. Entretanto, o mundo em que essa família foi colocada é historicamente real. A emigração italiana para o Rio Grande do Sul, a formação da 4ª Colônia, a presença de imigrantes vindos do Vêneto, as dificuldades encontradas na chegada, o trabalho de abertura das propriedades, a construção das casas, as pequenas lavouras, as comunidades religiosas, a preservação dos costumes e a transmissão das tradições de uma geração para outra fazem parte de uma história documentada e vivida por milhares de pioneiros. A escolha de Barbisano também não é casual. Muitas das famílias que deixaram o Vêneto no final do século XIX partiram de pequenas aldeias e comunidades rurais onde a vida estava profundamente ligada à terra, à família, à igreja e às relações de vizinhança. Para aqueles que partiram, emigrar não significava simplesmente mudar de país. Significava romper uma continuidade que existira por gerações. É difícil para quem nasceu muitas décadas depois compreender a dimensão dessa ruptura. Hoje podemos atravessar um oceano em poucas horas, conversar instantaneamente com alguém que vive em outro continente e ver fotografias de qualquer lugar do mundo. Para um imigrante de 1888, o oceano era uma distância quase absoluta. Uma vez embarcado, o homem ou a mulher que deixava a Itália podia jamais voltar a ver a própria aldeia. Podia morrer sem rever os pais, os irmãos, a igreja onde fora batizado, o cemitério onde estavam enterrados seus antepassados ou a casa onde havia passado a infância. A partida tinha, portanto, uma espécie de silêncio definitivo. Não era apenas a despedida de uma casa. Era a despedida de um mundo inteiro. Os pioneiros carregavam consigo aquilo que conseguiam transportar: algumas roupas, documentos, imagens religiosas, objetos de família, sementes, ferramentas, fotografias, cartas e, acima de tudo, lembranças. Mas havia coisas que não podiam ser colocadas em uma mala. O cheiro da terra depois da chuva. O som dos sinos da igreja. O caminho percorrido diariamente até a lavoura. A voz de uma mãe chamando os filhos. A paisagem das colinas. O dialeto ouvido desde a infância. O rosto de alguém que ficara para trás. Essas coisas acompanhavam o imigrante sem ocupar espaço físico. Eram, ao mesmo tempo, sua riqueza e sua dor. No Brasil, a distância assumia outra dimensão. A nova terra exigia toda a atenção. Era necessário derrubar a mata, preparar a terra, construir uma casa, procurar alimento, aprender novos caminhos e criar meios de sobrevivência. Não havia tempo para viver permanentemente olhando para trás. Mas isso não significava esquecer. Muitas vezes, significava aprender a conviver com uma ausência que se tornava parte da própria identidade. O imigrante começava uma nova vida enquanto uma parte dele permanecia na antiga. Era como viver entre dois lugares: com os pés fincados no Brasil e a memória voltada para a Itália. Para alguns, essa distância produzia uma saudade silenciosa. Para outros, transformava-se em histórias repetidas durante décadas. O avô falava da aldeia. A mãe ensinava uma receita. O pai pronunciava o nome de um lugar que os filhos jamais haviam visto. Uma fotografia passava de mão em mão. Uma carta era guardada durante anos. Uma canção trazia de volta uma paisagem que já não existia exatamente como fora lembrada. Assim, a pátria perdida começava a sobreviver dentro da família. E havia uma contradição dolorosa nesse processo. Os imigrantes desejavam que seus filhos fossem brasileiros, que aprendessem a língua, prosperassem e tivessem oportunidades que talvez eles próprios nunca tivessem encontrado na Itália. Ao mesmo tempo, temiam que os filhos esquecessem completamente de onde vieram. Queriam que as novas gerações pertencessem ao Brasil sem que isso significasse abandonar a memória italiana. Essa tensão acompanhou muitas famílias por décadas. Os filhos nascidos no Brasil perguntavam sobre uma terra que nunca tinham visto. Os pais respondiam com histórias. E cada história transformava um lugar real em uma espécie de pátria imaginada. Para a primeira geração, a Itália era uma lembrança. Para a segunda, muitas vezes era uma herança. Para a terceira, podia tornar-se uma pergunta. De onde vieram meus avós? Por que carregamos este sobrenome? Por que nossa família faz isso de determinada maneira? Por que ainda existe uma palavra italiana no meio de uma frase em português? Por que alguém guardou durante cinquenta anos uma fotografia de uma pessoa que ninguém mais conhece? É nesse ponto que a ficção desta crônica encontra a história. Jacob não é uma pessoa cuja vida esteja sendo apresentada aqui como um documento genealógico. Ele representa muitos meninos e meninas que nasceram no Brasil depois da chegada dos pais ou avós italianos e cresceram entre duas memórias. Uma era a realidade que conheciam: o Brasil, a propriedade, a escola, a igreja, os amigos, o trabalho e a paisagem brasileira. A outra era a memória herdada: uma aldeia italiana que talvez nunca visitassem, mas que existia nas palavras dos pais e nas lembranças dos avós. A pequena chave de Barbisano também é um símbolo criado para esta história. Ela representa aquilo que os imigrantes trouxeram consigo sem saber que estavam trazendo: a ligação com uma vida que ficara para trás. Talvez seja justamente isso que torne tão poderosa a história da imigração italiana no Brasil. Não se trata apenas de uma história de deslocamento. É uma história de transformação. Homens e mulheres partiram de pequenas comunidades italianas, atravessaram um oceano e ajudaram a construir novas comunidades no Brasil. Seus filhos cresceram em outra língua e sob outro céu. Seus netos tornaram-se brasileiros de corpo e de vida, mas continuaram carregando nomes, costumes e memórias que atravessaram gerações. A Itália deixou de ser apenas um lugar no mapa e tornou-se uma parte da memória familiar. E o Brasil, que um dia fora a terra desconhecida para os pioneiros, tornou-se a pátria de seus descendentes. Talvez seja essa a maior verdade por trás desta história fictícia: os imigrantes não deixaram simplesmente uma pátria para encontrar outra. Eles passaram o resto da vida tentando construir uma ponte entre as duas. Uma ponte feita de trabalho, saudade, fé, silêncio, lembranças e esperança. Muitos morreram sem voltar à terra natal. Outros jamais conseguiram explicar completamente aos filhos o tamanho da falta que sentiam. Mas deixaram algo que nenhum oceano poderia destruir: a memória. E enquanto seus descendentes continuarem procurando os nomes de seus antepassados, reconstruindo árvores genealógicas, visitando antigas aldeias italianas ou simplesmente perguntando à família “de onde viemos?”, aquela viagem iniciada no século XIX continuará acontecendo. Porque algumas histórias terminam quando os personagens morrem. A história dos imigrantes, não. Ela continua toda vez que um descendente abre uma fotografia antiga, encontra um sobrenome em um registro, reconhece uma palavra esquecida ou descobre, depois de mais de um século, o nome da pequena aldeia de onde partiu seu bisavô. Nesse instante, a distância diminui. O oceano parece menos profundo. E a velha casa, mesmo que já não exista, volta a abrir sua porta.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



domingo, 5 de julho de 2026

Do Coração da Itália à Pampa Argentina - A Jornada de Sacrifício e Amor de um Ancestral em 1878

 


Do Coração da Itália à Pampa Argentina: A Jornada de Sacrifício e Amor de um Ancestral em 1878

"Em 1878, Giovanni Rossi deixou as colinas da Ligúria pela dura pampa argentina, transformando saudade e sacrifício em uma das histórias mais comoventes da emigração italiana."


Giovanni Rossi nascera nas colinas pedregosas da Ligúria, onde o mar se encontrava com a terra numa luta eterna por sobrevivência. Filho de camponeses que mal conseguiam arrancar pão da oliveira e da videira, ele crescera ouvindo histórias de uma América distante que prometia redenção aos que ousassem atravessar o oceano. No final do século XIX, quando a Itália parecia sufocar sob o peso da pobreza e da falta de futuro, Giovanni tomou a decisão que marcaria sua existência para sempre. Em 1878, deixou para trás a esposa jovem, os filhos pequenos e a aldeia natal, embarcando num navio sobrecarregado de sonhos e desesperos.

A viagem foi um batismo de sofrimento. Tempestades, fome e o cheiro constante de corpos amontoados no porão testaram sua alma até o limite. Quando finalmente pisou em solo argentino, em Buenos Aires, o ar quente e poeirento da pampa pareceu-lhe ao mesmo tempo hostil e cheio de promessas. Dirigiu-se para Santa Fé, atraído pelos relatos de terras férteis e trabalho nas estâncias. Em Rosario di Santa Fé, encontrou um mundo cru: vastidões intermináveis, chuvas torrenciais que destruíam as colheitas e um sol impiedoso que castigava a pele dos emigrantes.

Naquele 28 de julho de 1878, sob o céu austral de inverno, Giovanni sentou-se para escrever à mulher distante. A saudade pesava-lhe como chumbo no peito. Ele soubera pela carta dela que a pequena filha adoecera gravemente e que a miséria apertava a casa na Itália com força cruel. As palavras fluíram carregadas de angústia: a colheita daquele ano fora devastada pelas intempéries, o gado fugia ou perecia, e o dinheiro argentino, outrora símbolo de esperança, valia agora menos que o vento. Não havia como enviar sequer uma lira para socorrê-los. Dormia ao relento, junto de outros italianos e poloneses, partilhando o pão escasso e o medo constante da ruína.

A vida na pampa revelava-se mais dura do que qualquer previsão. O trabalho exaustivo durava do amanhecer ao anoitecer, muitas vezes sob o frio cortante do inverno ou o calor sufocante do verão que se aproximava. Giovanni via companheiros adoecerem, famílias se desfazerem e a terra argentina engolir sonhos inteiros. Pensava frequentemente em partir para Montevidéu ou aventurar-se nas terras do Brasil, onde rumores diziam que as oportunidades eram menos traiçoeiras. No entanto, a consciência do dever para com a esposa e os filhos o ancorava ali, mesmo quando a desesperança ameaçava consumi-lo.

Nas noites silenciosas, ele recordava o toque das mãos calejadas da mulher, o riso das crianças e o cheiro familiar da terra genovesa. Recomendava, em pensamento, que ela se apoiasse nos parentes próximos, especialmente no primo Domenico, que cuidasse dos anciãos e mantivesse a família unida. A grande emigração italiana transformava homens comuns em heróis anônimos: Giovanni era um deles, um entre centenas de milhares que trocavam a miséria conhecida pela incerteza do Novo Mundo.

Anos mais tarde, muitos como ele encontrariam um caminho de relativa estabilidade ou regressariam com cicatrizes profundas. Giovanni Rossi carregaria para sempre a marca daquela escolha — a coragem de partir e a dor de permanecer distante daqueles que mais amava. Sua história, tecida na vastidão da pampa argentina em 1878, é um capítulo vivo da grande diáspora italiana: um testemunho emocionante de sacrifício, resiliência e do amor inabalável que impulsiona o ser humano a desafiar oceanos e destinos adversos.

Nota do Autor

Esta história foi inspirada em uma carta real escrita em 28 de julho de 1878 por Giovanni Rossi, um emigrante italiano que vivia em Rosario di Santa Fé, Argentina. Encontrada em acervos que preservam a memória da grande imigração italiana no país, a carta revela, com crua sinceridade, as dificuldades, a saudade e a resiliência de um homem que deixou a Itália em busca de melhores condições para a família.

Giovanni Rossi, o protagonista desta narrativa, é um personagem fictício. Utilizei os detalhes autênticos presentes na carta — a data, os locais (Santa Fé e Rosario), as adversidades climáticas, a preocupação com a filha doente, a situação econômica precária, a menção aos emigrantes poloneses e o desejo de migrar para o Brasil ou Montevidéu — para reconstruir, de forma literária e emocional, a experiência vivida por milhares de italianos que atravessaram o oceano no final do século XIX.

Meu objetivo foi dar voz e humanidade a esses pioneiros anônimos, permitindo que seus descendentes possam sentir, ainda que através da ficção, o peso do sacrifício, a dor da separação e a força do amor que impulsionou a maior onda migratória da história italiana para as Américas.

Espero que esta história toque o coração de quem carrega, nas veias ou na memória, o legado desses homens e mulheres corajosos.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta

sexta-feira, 3 de janeiro de 2025

Sobrenomes Italianos em Molise





Sobrenomes Italianos de Molise

Dentre os sobrenomes mais comuns em Molise, encontramos Mignogna (de mignone, uma expressão dialetal que significa pequeno ou encantador), Trivisonno, Panichella, Manocchio (provavelmente uma forma diminutiva do sobrenome Mano), Di Pilla, Colavita e D'Uva.

Na região, destacam-se os sobrenomes provenientes de nomes próprios: Marinelli (derivado de Marino), Pasquale, Perrella (de Pietro), Mastrangelo (maestro + Angelo, geralmente referindo-se a um mestre artesão, homem habilidoso e respeitável em suas artes e ofícios), Di Stefano, Fanelli (de Cristofano), De Luca, Giancola, Di Carlo, Antenucci (de Antonio) e Felice.

Ademais, são comuns na localidade os sobrenomes provenientes de alcunhas: Testa, Forte, Niro (de negro, no dialeto local), Occhionero (referindo-se a olhos negros), Gallo, Palumbo (variante dialetal de Colombo) e Tartaglia (associado a um defeito de fala).


terça-feira, 11 de junho de 2024

Alguns Sobrenomes Italianos em Barra Bonita e Região



Sobrenomes Italianos em 
Barra Bonita SP


Aiello, Antonangelo, Antonelli, 
Alponti, 
Abruzzi, Bellini, 
Barduzzi, Bellei, Balbo, 
Boldo, Bressanim, Bozzi (Rigon), 
Bergamo, Ballan, Blasizza, Bettini, 
Boarini, Bressan, Bocato, 
Borgui, Brunelli, Caetano, Cardia, 
Cagnotti, Constanzo, Cestari, 
Casagrande, Casale, Chiarato, Capelossa, Castelari, Dal Corso, De Marchi, 
De Conti, Dalla Costa, De Luca, Dias, Ereno, 
Frollini, Ferrari, Fagá, Ferrazolli, 
Fantin, Fantinatti, Fuim, Feltrin, Finatto, Giacomini, Guedin, Giroto, Grizzoni, 
Galhardi (Gagliardi), Gatti, Marcon, 
Mascaro, 
Massenero, 
Mori, Marinelli, 
Maffei, Mozarle, Nardo, Osti, Patuzzo, 
Pizzo, Pollini, Pozebon, Perassoli, Piva, Pezente, Pellini, Pavani, Parezan, Petri, Polatto, 
Ricci, Rossi, Rizzatto, Reginato, Ragoni, 
Ribeiro de Andrade, Santinello, Stangherlin, Selleguin, Sargentim, Scarpela, 
Scalissa, Scapin, 
Stringheta, Stramantinolli, Sponchiatto, 
Santilli, Sabbatini, Spaulonci, Salve, Sacco, Simionatto, Simoncini, Testa, Tozatto, Terrazan, 
Ursolino, Ungaro, Vechiatti, Veghini, 
Vetorazzo, Victorino de França, 
Zaffani, Zanella, 
Zerlin e Ziglio

Comerciantes: José Angelino, Angelo e Silvano Bataiola; Guerino; Luiz e Antonio Reginato; Luiz, Carlos, João, Antônio e Francisco Lourenção; Rocco Di Muzio; Emílio Bressan; Luigi Gaioli; Luiz Iaia; Salomão, Elias e Alfredo Simão;

Sapateiros: Tiziano Dalla Chiara, Aurélio Saffi e Gregório Vessio. 

Ferreiros: Júlio Turi, Ezio Benfatti, Luiz Simon e Alberto Strutzel. 
Arthur e Antenor Balsi serraria. 

Hoteleiros: Jacob Chalita, Victorio Cinquetti, Tomaz Mantovani, Emílio Quaglia e João Fantinatti. 

Ceramistas: Ezequiel Otero, Thomas Guzzo, Francisco e Frederico Corradi, Benedito Bressanim, Angelo Borsetto, Valentin Ferrazolli, João Martini. 

Açougueiros: Ferrucio e Sabino Bolla. 

Pescadores profissionais: Valentino e Eugenio Giacomini. 

Farmacêuticos: Vito Melle e Serafim Bertie 

Médico: Dr. Luciano Maggiori. 

Fabricantes de cervejas e refrigerantes: Germano Güther, Baptista Torcia e os irmãos Antônio, Luiz e Giovanni Carnevalle.
 
Barbeiros: Francisco Mascaro e Domingos Di Poldo. 

Construtores: Eugenio Nanni, José Negrin, Emílio Bertagnolli e Bernardo Pardo. 

Carpinteiros: Amadeu Angelici, Ângelo e Emílio Gottardo e os irmãos José, Antônio e Manoel Marques Ferreira. 

Relojoeiro: José Lodi. 

Comandante fluvial: Francisco de Oliveira Diniz. 

Carroceiro: João Gerin, Ângelo e Valentin Reginato, Ângelo e Giácomo Cestari, Adamo e Pietro Ziglio, Lorenzo e Severino Antonelli, Victório e Arthur Blasizza, Giuseppe Antonangelo, Olimpio Trema, Alfonso e Aristodemo Bellei, Francisco e Victorio Bergamo, Antônio Guerreiro, Antônio Moreno Ramirez e Miguel Molina 


domingo, 9 de junho de 2024

Alguns Sobrenomes na Basilicata

 




Sobrenomes na Basilicata

Anteriormente conhecida como Lucânia, esta região é uma das vinte que compõem a República Italiana.

Os sobrenomes mais comuns são toponímicos, como Albano, Calabrese, Cirigliano, Cosentino, Genovese, Grieco, Lauria, Lombardi, Montemurro e Stigliano. Assim como em outras regiões do sul da Itália, encontramos sobrenomes com artigos como La, Lo, Le (a ou o): Larocca, Laguardia, Lasala, Latorre, Labella, Lamacchia, Lasalandra, Lobascio, Lenoci, Locantore, Lo Piccolo, Lo Giudice, Logiurato, Loperfido, Lorusso e Lovaglio.

Outros sobrenomes comuns e típicos são formados por prefixos como "mastro" (Mastronardi, Mastrangelo, Mastrosimone), "papa" (Papaleo, Papapietro) e "tata" (Tatananni). Quanto à pesquisa de Caffarelli, os três principais sobrenomes são Pace, Russo e Greco. O estudo também destaca especificidades regionais, como Nolè, Claps, Sileo e Ielpo, assim como Labanca, Santarsiero, Pietrafesa e Cantisani.

Entre os numerosos sobrenomes derivados de apelidos, predominam aqueles que indicam a origem de um lugar ou a pertença a uma etnia, começando por Grieco, Lauria e Montemurro, e seguindo com Cirigliano, Potenza, Cosentino, Albano, Lombardi, Summa, Stigliano, Venezia, Calabrese, Genovese, Viggiano, Montesano e Palermo. Em comparação com as capitais e suas províncias, os sobrenomes mais típicos são Potenza, Nolè, Pietrafesa e Claps, Matera Di Lecce, Ruggieri e Gaudiano.

Distribuição por Província

Matera Montemurro - Grieco - Stigliano - Bruno - D'Alessandro - Venezia - Quinto - Paolicelli - Nicoletti - Andrisani

Potenza Pace - Telesca - Mecca - Sabia - Colangelo - Coviello - Russo - Santarsiero - Romaniello - Santoro


domingo, 18 de fevereiro de 2024

Sobrenomes Friulanos: Uma Jornada Pelas Raízes Familiares de Trieste