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segunda-feira, 19 de outubro de 2026

As Doze Famílias que Deixaram Istrana - A Fundação Italiana da Colônia São Carlos no Paraná



As Doze Famílias que Deixaram Istrana - 
A Fundação Italiana da Colônia São Carlos, no Paraná

"Toda grande comunidade nasceu um dia da coragem de poucas famílias que tiveram a ousadia de trocar o passado pela esperança."


Às vezes, a História não muda por causa de reis, generais ou guerras. Às vezes, ela muda quando um pequeno grupo de camponeses decide abandonar tudo o que possui para atravessar um oceano em busca de uma vida que ainda não existe. Foi exatamente isso que aconteceu em meados de 1888.

Na localidade de Ospedaletto, no município de Istrana, um pequeno comune da província de Treviso, no coração do Vêneto, viviam doze famílias de agricultores. Eram homens e mulheres acostumados ao trabalho duro, à terra úmida sob os pés e às colheitas que determinavam o ritmo da vida. A maioria cultivava propriedades que pertenciam a outros. Eram meeiros e arrendatários, presos a um sistema que lhes permitia sobreviver, mas raramente prosperar.

As casas eram modestas, sempre cheias de crianças. As famílias cresciam, mas a terra permanecia a mesma. Cada inverno parecia mais rigoroso que o anterior, e cada colheita deixava a sensação de que o esforço nunca seria suficiente.

Quando o Vêneto foi incorporado ao recém-formado Reino da Itália, muitos acreditaram que dias melhores estavam por vir. A realidade, porém, mostrou-se diferente. Os novos impostos recaíram com violência sobre quem menos possuía. As sucessivas crises agrícolas reduziram ainda mais a produção, enquanto o custo da sobrevivência aumentava ano após ano.

Foram justamente os pequenos agricultores que pagaram o preço mais alto pela construção da nova Itália.

A esperança começou então a apontar para o outro lado do oceano.

A palavra América circulava pelas aldeias quase como uma promessa. Falava-se de terras férteis, de propriedades próprias e da possibilidade de construir um futuro que na terra natal parecia definitivamente perdido.

Pouco a pouco, a decisão amadureceu.

Não foi um gesto impulsivo, mas uma escolha dolorosa.

Partir significava abandonar a casa onde haviam nascido, a igreja onde haviam sido batizados, os campos cultivados por seus pais e avós, os vizinhos de toda uma vida e os túmulos daqueles que jamais poderiam acompanhar a viagem.

Na despedida, ninguém sabia se algum dia voltaria a rever aquelas paisagens.

Levaram apenas o indispensável.

Algumas roupas, ferramentas, imagens religiosas cuidadosamente protegidas entre panos, rosários já gastos pelas orações, documentos de família e sementes que simbolizavam muito mais do que alimento: representavam a esperança de fazer a vida florescer novamente.

No porto de Gênova embarcaram no vapor Rio de Janeiro.

Quase todos viam o mar pela primeira vez.

Diante daquela imensidão azul compreenderam que o oceano não separava apenas dois continentes. Separava duas existências.

A travessia foi longa.

Muito mais longa do que imaginavam.

Durante muitas semanas viveram em alojamentos apertados, enfrentando calor, umidade, alimentação precária, doenças e uma rotina marcada pela incerteza. Os dias confundiam-se uns com os outros. Restavam apenas o balanço constante do navio e a esperança de avistar terra firme.

Foi durante essa viagem que aconteceu a maior tragédia.

Uma criança de apenas um ano de idade adoeceu e morreu antes que o navio alcançasse qualquer porto.

Conforme determinavam as regras da navegação, o pequeno corpo precisou ser entregue ao mar.

O silêncio tomou conta do convés.

As orações misturaram-se ao som das ondas.

Quando o oceano recebeu aquela criança, todos compreenderam que a viagem para a América exigia muito mais do que coragem. Exigia renúncias impossíveis de medir.

Décadas depois, aquele episódio ainda permanecia vivo na memória dos sobreviventes.

Finalmente, o vapor chegou ao porto de Santos.

Mas a jornada ainda estava apenas começando.

Os imigrantes seguiram para Paranaguá e, dali, alcançaram a Colônia São Carlos, no Paraná, uma área destinada ao povoamento agrícola.

Cada família recebeu um lote de terra equivalente a dezoito campos trevisanos, cerca de noventa e três mil metros quadrados.

Era muita terra.

Mas era também muita floresta.

Antes de plantar, era preciso derrubar árvores centenárias. Antes de colher, era necessário construir abrigo. Antes de pensar no futuro, era preciso sobreviver ao presente.

Os primeiros dias foram extremamente difíceis.

Durante semanas, muitas famílias dormiram diretamente sobre o chão, enquanto levantavam os primeiros barracões que serviriam de moradia.

Apesar de todas as dificuldades, havia uma certeza compartilhada por todos.

Nenhuma comunidade sobreviveria sem fé.

Por isso, uma das primeiras construções erguidas foi uma pequena capela. Como ainda não havia sacerdotes na região, os próprios colonos organizavam as orações, ensinavam catecismo às crianças, rezavam o rosário e mantinham viva a tradição religiosa que haviam trazido do Vêneto.

Ao mesmo tempo, surgiam os primeiros ensinamentos, transformando um simples abrigo em escola improvisada para que os filhos aprendessem a ler, escrever e preservar a língua e os costumes de seus antepassados.

Cartas atravessavam regularmente o Atlântico.

Nelas seguiam relatos sobre a nova terra, as dificuldades da floresta, as primeiras colheitas, os casamentos, os nascimentos e as perdas. Eram mensagens carregadas de saudade, mas também de esperança. Graças a elas, muitos parentes que permaneceram na Itália passaram a conhecer a verdadeira realidade da imigração, muito diferente das promessas feitas pelos agentes de colonização.

Os anos passaram.

As árvores deram lugar às lavouras.

Os barracões transformaram-se em casas.

As picadas tornaram-se estradas.

A pequena comunidade cresceu.

As crianças tornaram-se adultos e construíram novas famílias.

Hoje, a antiga Colônia São Carlos integra a cidade da Lapa, no Paraná.

Poucos imaginam que aquele lugar nasceu do esforço silencioso de apenas doze famílias vindas de um pequeno comune do Vêneto.

Entretanto, cada rua, cada propriedade e cada descendente preservam uma parte dessa história.

A verdadeira riqueza daqueles pioneiros nunca foi a terra que receberam.

Foi a coragem de abandonar um passado marcado pela pobreza para construir um futuro que existia apenas na força da esperança.

Foi essa coragem, muito mais do que qualquer documento oficial, que lançou os alicerces de uma comunidade inteira e transformou o sonho de doze famílias em um legado que atravessou gerações e continua vivo até os dias de hoje. 


Nota do Autor

Ao longo da História, milhões de pessoas atravessaram oceanos. Pouquíssimas, porém, deixaram registros capazes de contar o que realmente sentiram quando olharam para trás pela última vez e compreenderam que jamais voltariam a viver na terra onde nasceram.

Esta narrativa nasceu da necessidade de dar voz justamente a esses homens, mulheres e crianças que raramente aparecem nos grandes livros de História. Pessoas comuns, sem títulos de nobreza, sem riqueza e sem poder, mas cuja coragem foi extraordinária. Eram agricultores anônimos que carregavam nas mãos apenas as marcas do trabalho e, no coração, uma esperança maior do que o medo.

Ao escrever estas páginas, procurei enxergar a imigração italiana não como uma sequência de datas, navios ou estatísticas, mas como aquilo que verdadeiramente foi: uma profunda experiência humana. Cada despedida significava romper laços construídos ao longo de gerações. Cada milha navegada afastava os imigrantes da própria infância. Cada amanhecer no oceano representava uma aposta silenciosa de que o sofrimento faria sentido quando seus filhos finalmente encontrassem uma vida melhor.

A história dessas doze famílias é, na verdade, a história de milhares de outras que partiram do Vêneto, do Friuli, da Lombardia, do Piemonte e de tantas regiões da Itália levando quase nada além da fé, da dignidade e da disposição para recomeçar. Em cada uma delas existia o mesmo medo do desconhecido, a mesma saudade da terra natal e a mesma determinação de transformar uma floresta em lar.

Enquanto escrevia este texto, não consegui deixar de imaginar o instante em que o navio desaparecia lentamente no horizonte. Naquele momento, ficavam para trás as casas, os sinos das igrejas, as videiras, os campos cultivados pelos avós e até mesmo os túmulos da família. A partir dali, restava apenas o oceano e uma esperança quase impossível de explicar.

Talvez seja justamente essa esperança o maior legado deixado pelos imigrantes italianos. Eles ensinaram que a verdadeira riqueza nunca esteve na terra que possuíam, mas na coragem de reconstruir a própria vida quando tudo parecia perdido. Transformaram saudade em trabalho, dificuldades em perseverança e sofrimento em futuro.

Se, ao terminar esta leitura, você recordar os rostos de seus avós, bisavós ou daqueles que um dia cruzaram o Atlântico para que hoje existíssemos, então este texto terá cumprido sua missão.

Porque nenhuma família começa no presente.

Todas carregam, silenciosamente, a memória daqueles que um dia tiveram a coragem de partir para que as gerações futuras tivessem o privilégio de permanecer.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta
Autor e pesquisador da Imigração Italiana e histórias familiares



sábado, 17 de outubro de 2026

A Colônia Wirmond e as Raízes Italianas da Lapa, Paraná


A Colônia Wirmond e as Raízes Italianas da Lapa, Paraná

Há histórias que permanecem escondidas dentro de um sobrenome. Um nome escrito em uma certidão, repetido em uma fotografia antiga ou encontrado em uma árvore genealógica pode parecer apenas uma identificação familiar. Mas, no caso das famílias italianas que se estabeleceram na antiga Colônia Wirmond, hoje conhecida como Colônia São Carlos, na Lapa, Paraná, cada sobrenome guarda a lembrança de uma viagem, de uma ruptura e de um recomeço. Quando esses nomes começaram a aparecer na região, no final do século XIX, seus portadores ainda carregavam na memória as pequenas comunidades do Vêneto de onde haviam partido. Entre essas localidades estava Istrana, na região de Treviso, e especialmente Ospedaletto, de onde vieram muitos dos imigrantes que formaram o núcleo pioneiro. A decisão de deixar a Itália não nasceu de uma aventura. Para muitas dessas famílias, a emigração foi uma resposta às dificuldades econômicas que atingiam duramente a população rural. A falta de terras suficientes, a pobreza e a perspectiva limitada para os filhos tornavam cada vez mais difícil imaginar um futuro digno permanecendo na terra de origem. O Brasil apareceu então como uma possibilidade. Distante, desconhecido e cheio de incertezas, mas capaz de oferecer aquilo que muitos já não encontravam na Itália: a esperança de possuir terra, trabalhar e construir uma vida para os descendentes. Foi nesse contexto que, em 1889, começou a história italiana da Colônia Wirmond. Ao contrário do que uma leitura rápida poderia sugerir, não se tratava simplesmente da chegada de algumas famílias isoladas. Um grupo mais amplo de pioneiros acabaria deixando marcas profundas na comunidade. Entre os sobrenomes associados a esse primeiro período encontram-se Alberti, Arizzeto, Baggio, Baio, Borsato, Bortoleto, Brojan, Caus, Cavallin, Cera, Crema, Delponte, Diana, Favero, Ferrari, Fioravanti, Frarezzo, Gemin, Merighi, Pazinato, Piovesan, Polato, Pierin, Serena, Sticca, Ton e Vidal. São nomes que, separados, pertencem a famílias diferentes; juntos, porém, ajudam a reconstruir uma parcela importante da presença vêneta na Lapa. A chegada ao Paraná não significou imediatamente a conquista da terra sonhada. Antes de se fixarem definitivamente, os imigrantes passaram por um período de alojamento nos barracões de uma fazenda estatal. Para pessoas acostumadas às pequenas comunidades agrícolas europeias, aquele primeiro contato com o novo país certamente representou uma experiência de adaptação. Tudo era diferente: a paisagem, a vegetação, as dimensões do território, as técnicas de cultivo e até a maneira de organizar a vida cotidiana. O desafio seguinte seria ainda maior. A terra destinada à Colônia São Carlos não correspondia perfeitamente às condições agrícolas que os imigrantes conheciam. O agricultor que havia aprendido a trabalhar de determinada maneira no Vêneto precisava agora observar o solo brasileiro, compreender o clima e descobrir quais atividades poderiam garantir o sustento da família. Alguns persistiram no campo e encontraram alternativas. A produção de leite, ovos e verduras tornou-se uma atividade importante, inclusive porque esses produtos podiam ser levados à cidade e vendidos para atender às necessidades da população. Outros perceberam que o futuro estava longe da lavoura. A cidade oferecia oportunidades diferentes, e muitos imigrantes passaram a exercer ofícios artesanais, trabalhar como operários ou dedicar-se ao comércio. Dessa adaptação nasceu uma característica fundamental da experiência dessas famílias: elas não ficaram presas a um único modelo de vida. Souberam modificar seus planos diante das circunstâncias e utilizar aquilo que sabiam fazer para sobreviver em um ambiente novo. O agricultor tornou-se produtor; o trabalhador encontrou espaço nas atividades urbanas; o artesão ofereceu seu conhecimento; o comerciante participou da movimentação econômica da cidade. Aos poucos, o imigrante deixou de ser apenas aquele que havia chegado de outro continente e passou a ser reconhecido como parte da própria comunidade. É nesse ponto que a história da Colônia Wirmond ganha um significado maior. A imigração não se resume à viagem transatlântica. A viagem é apenas o começo. O verdadeiro processo de imigração acontece depois, quando uma família precisa transformar um território desconhecido em sua casa. Isso exige trabalho, relações de vizinhança, casamento, nascimento de filhos, criação de negócios, participação comunitária e transmissão de valores. Foi dessa maneira que os pioneiros foram construindo novas raízes. Ao mesmo tempo em que aprendiam a viver no Paraná, conservavam lembranças da Itália. Dentro das famílias permaneciam histórias das aldeias, costumes, receitas, crenças, maneiras de falar e recordações de parentes que haviam ficado do outro lado do oceano. Os filhos nascidos no Brasil cresceram entre duas referências: a terra brasileira onde construíam suas vidas e a Itália que conheciam através das histórias dos pais e avós. Essa memória atravessou gerações. O sobrenome tornou-se uma espécie de fio invisível ligando continentes. Para um descendente que hoje encontra um Alberti, Borsato, Bortoleto, Cavallin, Ferrari, Piovesan, Serena ou Vidal em um documento antigo, aquele registro pode representar muito mais do que uma informação genealógica. Pode ser a primeira pista para reconstruir a caminhada de uma família que começou em uma pequena localidade italiana e terminou por estabelecer-se no Paraná. O tempo, entretanto, não destruiu essa ligação. Ao contrário, a relação entre a Lapa e Istrana acabou sendo reconhecida oficialmente por meio de um gemellaggio, aproximando novamente as comunidades que estavam separadas pelo Atlântico. O gesto possui um valor que ultrapassa o protocolo. Ele reconhece que parte da história da Lapa nasceu também em terras do Vêneto e que a memória daqueles que emigraram pertence tanto à cidade que os recebeu quanto às comunidades de onde partiram. Mais de um século depois da chegada dos pioneiros, a antiga Colônia Wirmond continua, portanto, ligada a uma história que começou muito longe dali. As paisagens mudaram, as profissões se transformaram e as gerações se sucederam, mas os sobrenomes permaneceram. E são justamente eles que permitem que os descendentes voltem no tempo. A genealogia transforma documentos aparentemente frios em histórias humanas. Uma certidão pode revelar uma filiação; um registro pode indicar uma localidade; uma sequência de nomes pode reconstruir uma família inteira. Aos poucos, aquilo que parecia perdido reaparece. O passado volta a ter rostos, lugares e trajetórias. A história da Colônia São Carlos é, por isso, uma história de adaptação, mas também de permanência. Os imigrantes mudaram de país, mas não deixaram de carregar consigo a herança cultural de suas comunidades. Construíram novas vidas sem apagar completamente as antigas. Plantaram no Paraná aquilo que haviam trazido da Europa e, ao mesmo tempo, aprenderam a viver segundo as condições encontradas no Brasil. Dessa combinação nasceu uma identidade própria, brasileira em sua experiência e profundamente marcada pela origem italiana. Talvez seja essa a melhor maneira de compreender o significado dos pioneiros de 1889. Eles não vieram simplesmente ocupar um espaço no mapa. Vieram criar um futuro. Alguns encontraram na terra seu caminho; outros fizeram da cidade o lugar de trabalho; todos, de alguma forma, participaram da construção de uma comunidade que continuaria muito depois de sua passagem. Hoje, quando um descendente procura o nome de um antepassado entre antigos registros da Lapa, não está apenas realizando uma pesquisa familiar. Está refazendo uma viagem iniciada há mais de um século. Está procurando o ponto em que a história de uma família italiana se encontrou com a história do Paraná. E, nesse encontro entre passado e presente, os antigos sobrenomes da Colônia Wirmond deixam de ser simples palavras em documentos. Tornam-se testemunhos de uma geração que teve coragem de partir, enfrentou o desconhecido e transformou uma terra distante em lugar de pertencimento. Foi assim que uma parte do Vêneto atravessou o oceano e encontrou na Lapa uma nova morada. E foi assim também que a história de Istrana passou a fazer parte, para sempre, da história do Paraná.

Nota do Autor

Ao reconstruir a trajetória das famílias que chegaram à antiga Colônia Wirmond, procurei olhar para além das datas, dos nomes e dos deslocamentos registrados nos documentos. A imigração italiana não foi um acontecimento que terminou no momento em que os primeiros colonos receberam seu destino no Paraná. Na verdade, foi justamente ali que começou a parte mais difícil da história.
Há um aspecto que merece especial atenção: nem todos aqueles que chegaram com a expectativa de viver da agricultura permaneceram agricultores. A realidade encontrada foi diferente daquela que muitos imaginavam antes de deixar a Itália. As características da terra, as possibilidades econômicas e as necessidades de sobrevivência fizeram com que parte dos imigrantes procurasse outras atividades. Alguns encontraram seu caminho na criação e na produção de alimentos; outros seguiram para trabalhos manuais, atividades comerciais ou ocupações urbanas. Essa mudança é importante porque mostra que a formação de uma comunidade de imigrantes não acontece necessariamente de maneira uniforme.
Também é preciso lembrar que os sobrenomes registrados nos documentos antigos nem sempre aparecem hoje exatamente da mesma forma. Ao longo das gerações, erros de registro, diferenças de pronúncia, adaptações à língua portuguesa e alterações feitas por funcionários de cartórios ou pelos próprios membros das famílias podem produzir variações. Para quem pesquisa a própria ascendência, uma pequena diferença na grafia não deve ser suficiente para descartar imediatamente uma possível ligação familiar. Muitas vezes, é necessário comparar datas, localidades, nomes dos pais, cônjuges e testemunhas para descobrir a identidade correta.
Outro elemento que não aparece facilmente nas listas de imigrantes é a dimensão humana da separação. Quem partiu deixou para trás parentes, amigos e lugares que conhecia desde a infância. Alguns nunca voltaram a ver a terra natal. Outros conservaram durante toda a vida a lembrança da Itália por meio das histórias contadas dentro de casa. Para os filhos e netos nascidos no Brasil, essa memória chegou de maneira diferente: não era uma lembrança pessoal, mas uma herança recebida através das palavras dos mais velhos.
É justamente por isso que a pesquisa genealógica pode revelar muito mais do que uma sequência de nomes. Quando um descendente consegue identificar a localidade italiana de onde veio seu antepassado, começa a compreender que sua história familiar possui uma geografia própria. O nome encontrado em um documento pode conduzir a uma comuna, a uma paróquia, a uma família e, finalmente, a uma comunidade inteira.
A aproximação entre a Lapa e Istrana possui, nesse sentido, um significado particularmente bonito. Ela representa uma espécie de reencontro histórico entre duas pontas de uma mesma trajetória. De um lado está a terra que viu partir aqueles homens e mulheres; de outro, o lugar onde eles construíram suas novas vidas. Entre ambos existe uma distância enorme, mas a memória das famílias conseguiu atravessá-la.
Talvez o maior legado daqueles pioneiros não esteja apenas nas terras que cultivaram, nos ofícios que exerceram ou nos negócios que ajudaram a desenvolver. Está principalmente nas gerações que vieram depois. Cada filho, neto e bisneto que procura conhecer suas origens mantém aberta uma porta para aquele passado.
Por isso, esta história deve ser lida também como um convite à pesquisa. Quem encontrar entre seus antepassados algum dos sobrenomes ligados à antiga Colônia Wirmond poderá descobrir que existe, por trás de uma simples anotação em um registro, uma trajetória muito maior: a de uma família que saiu de uma pequena comunidade do Vêneto, atravessou o oceano, enfrentou um país desconhecido e ajudou a construir uma nova página da história da Lapa.
A imigração deixou marcas que não desapareceram com a passagem do tempo. Algumas estão nas ruas, nas propriedades, nas tradições e nos costumes; outras estão escondidas nos arquivos. Mas talvez as marcas mais resistentes sejam aquelas que continuam sendo pronunciadas diariamente: os sobrenomes que passaram de uma geração para outra e ainda contam, silenciosamente, a história daqueles que um dia partiram.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



sexta-feira, 10 de abril de 2026

Padre Colbacchini no Brasil - Vida, Obra e Missão entre os Imigrantes Italianos


 

Padre Colbacchini no Brasil - Vida, Obra e Missão entre os Imigrantes Italianos

“Os mais fracos não emigram, não navegam nos mares, deixando para trás a pátria e a família; os mais medrosos ficam. Em geral partem aqueles para quem a vida é uma batalha e cuja alma é forte o suficiente para lutar mesmo nas condições mais difíceis”.


Origem e Formação de Padre Pietro Colbacchini

Padre Pietro Colbacchini nasceu em Bassano del Grappa, comune da província de Vicenza, na região do Vêneto, em 11 de setembro de 1845.

Entrou para a ordem dos jesuítas, em Verona, e no final do ano de 1863 iniciou o noviciado, o qual, por motivos de doença, não viria a concluir. No entanto, essa passagem pela ordem dos jesuítas — a Companhia de Jesus — marcou profundamente sua atuação junto aos imigrantes, consolidando vários aspectos de sua personalidade empreendedora, independente e autoritária.

Concluiu seus estudos no seminário diocesano de Vicenza e foi ordenado sacerdote em 19 de dezembro de 1869, com apenas 23 anos de idade.

Trabalhou como pároco até 1883, quando passou a dedicar-se exclusivamente como missionário apostólico.

Desde então tinha em mente o Brasil, para onde milhares de italianos estavam emigrando e necessitavam de assistência religiosa. Isso se depreende de suas tentativas de arregimentar outros sacerdotes da diocese de Vicenza para essa missão e também de sua correspondência com o padre Domenico Mantese, então pároco de Poinela.


Carta de Colbacchini sobre as Colônias Italianas no Paraná

"Nel Paranà le colonie sono libere indipendenti. Dietro mio impulso in tutte le colonie stansi costruendo le Chiese; sono composte di italiani quasi tutti della nostra diocesi e delle limitrofe, tutta gente che sente molto della religione e che sofre molto della privazione del sacerdote. [...] Voglia far il favore di interrogare o per iscritto o meglio in persona i seguenti sacerdote che pur so avrebbero disposizioni per la S. opera: D. Antonio Catelan Parroco di Lovertino, D. Pietro Micheli Curato a S. Vito di Bassano, D. Angelo Quarzo pur di Bassano ed altri che conoscete del caso. Il Signore la pagherà di tutto".

Tradução:

"No Paraná as colônias são livres e independentes. Depois do meu impulso se estão construindo igrejas em todas as colônias; são compostas de italianos quase todos da nossa diocese ou de seus limítrofes, gente que sente muito a falta da religião e que sofre muito por estarem sem um sacerdote. [...] Me faça o favor de interrogar ou por escrito ou melhor se pessoalmente os seguintes sacerdotes que também sei teriam disposição para esta santa obra: pe. Antonio Catelan pároco de Lovertino, pe. Pietro Micheli cura de San Vito di Bassano, pe. Angelo Quarzo também de Bassano e outros se for o caso. O Senhor lhe pagará por tudo".


O Chamado Missionário para o Brasil

Carta do Padre Pietro Colbacchini enviada ao Monsenhor Spolverini, internúncio apostólico, representante da Santa Sé no Brasil:

"Nel mese di Maggio de 1884 mi ritrovava in Feltre a predicare in quella Cattedrale..."

Tradução:

"No mês de maio de 1884 eu me encontrava em Feltre pregando na catedral local. Um bondoso sacerdote de Campo di Quero, localidade vizinha, veio até mim apresentando diversas cartas recebidas de seus conterrâneos dispersos nas províncias brasileiras do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, pedindo insistentemente que fosse até eles para lhes prestar auxílio espiritual.

Cortaram-me o coração os lamentos que nessas cartas faziam sobre o abandono em que jaziam tantos desventurados italianos e o perigo em que se encontravam de perder a fé.

Havia muitos anos que eu aspirava à missão italiana no Brasil, contudo as dificuldades presentes me levaram a suspender a realização desse projeto. As contínuas ocupações com missões na Itália me tomavam o tempo e as preocupações.

As cartas conseguiram sacudir-me, tirar-me qualquer dúvida, e decidi partir o mais rápido possível".


Primeira Experiência Missionária em São Paulo

O Padre Pietro Colbacchini chegou ao Brasil e dirigiu-se ao estado de São Paulo para assumir a assistência religiosa aos imigrantes italianos de uma colônia localizada no interior, próximo de onde hoje se encontra o município de Jundiaí, composta predominantemente por emigrantes procedentes de Mantova.

As dificuldades encontradas pelos missionários estavam ligadas ao próprio modelo de colonização existente nas fazendas de café paulistas.

Nessas regiões, a assistência religiosa dependia muitas vezes da permissão dos proprietários das fazendas, que frequentemente colocavam obstáculos à presença dos sacerdotes.

Colbacchini tentou exercer seu ministério na colônia de Monserrate, perto de Jundiaí, durante cerca de um ano e meio, mas sem conseguir realizar plenamente seu projeto pastoral.


As Dificuldades nas Fazendas de Café

Em carta endereçada ao padre Mantese, datada de 28 de fevereiro de 1887, Colbacchini descreveu as dificuldades enfrentadas:

"Passei lá um ano e meio com muito incômodo de minha parte..."

Relatava problemas como:

  • precariedade de alojamento

  • alimentação insuficiente

  • dificuldades com os proprietários das fazendas

  • ignorância religiosa dos colonos

  • dependência da vontade dos fazendeiros

Segundo ele, muitos fazendeiros não tinham “outra religião senão a do dinheiro”.


Transferência para o Paraná

Diante das dificuldades encontradas em São Paulo, Colbacchini solicitou transferência para a Província do Paraná, onde acreditava que poderia desenvolver melhor seu projeto missionário.

Nos estados do Sul do Brasil — Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul — os imigrantes italianos estavam organizados em colônias agrícolas de pequenos proprietários, o que favorecia o trabalho pastoral.

Esse modelo era semelhante ao do mundo rural italiano, permitindo aos sacerdotes maior autonomia.


A Missão em Curitiba e a Igreja da Água Verde

Ao chegar ao Paraná, Colbacchini estabeleceu-se na Colônia Dantas, atual bairro Água Verde, em Curitiba.

Foi inicialmente hospedado por Antonio Bonato, também natural de Bassano del Grappa.

No Natal de 1887, passou a morar na nova casa paroquial construída pelos próprios imigrantes italianos.

A igreja da Água Verde, construída por seu incentivo e da qual foi:

  • arquiteto

  • mestre de obras

  • decorador

foi inaugurada em 29 de junho de 1888.

Logo depois, por decreto episcopal, foi declarada sede das colônias italianas da região.

A festa de inauguração durou três dias e contou com cerca de 2.000 imigrantes italianos, segundo o próprio Colbacchini.

A igreja foi dedicada ao Sagrado Coração de Jesus, devoção que ele buscava difundir entre os colonos juntamente com a devoção eucarística.


As Condições das Colônias do Litoral Paranaense

Antes da expansão da colonização nas regiões próximas a Curitiba, algumas experiências haviam sido realizadas no litoral do Paraná, nas colônias:

  • Alexandra (Alessandra)

  • Nova Itália

Essas iniciativas fracassaram devido a:

  • clima insalubre

  • doenças tropicais

  • pragas agrícolas

  • isolamento econômico

Em relatório de 1892, Colbacchini descreveu as difíceis condições enfrentadas pelos colonos.

Entre os problemas citados estavam:

  • ataques de mosquitos

  • infestação de berne

  • presença de bicho-de-pé

  • doenças causadas pelo clima tropical

Segundo o sacerdote, essas condições produziam:

  • enfraquecimento físico

  • desânimo

  • falta de apetite

  • sensação de abandono


Conflitos com o Clero Brasileiro

Colbacchini enfrentou também conflitos com membros do clero brasileiro.

Em carta de 10 de março de 1888, dirigida ao Monsenhor Scalabrini, criticava duramente a situação do catolicismo local, afirmando que muitos sacerdotes se limitavam a:

  • celebrar missa rapidamente

  • realizar batismos e casamentos

  • negligenciar a assistência espiritual

Chegou a afirmar que muitos morriam sem receber os sacramentos.


Conflitos Ideológicos e Anticlericalismo

Além dos conflitos com o clero local, Colbacchini enfrentou oposição de:

  • liberais italianos

  • maçons

  • anarquistas

  • anticlericais

Esses conflitos refletiam as tensões ideológicas surgidas na Itália após a unificação italiana.

Entre os episódios de confronto estava a criação da Sociedade Giuseppe Garibaldi, fundada por italianos de orientação liberal em Curitiba para promover uma escola italiana.

Colbacchini acusava a instituição de possuir influência maçônica.


Perseguições Durante a Revolução Federalista

Durante a Revolução Federalista (1893–1894), Colbacchini foi perseguido por adversários políticos e ideológicos.

Em carta de 28 de abril de 1894 ao bispo Monsenhor Scalabrini, descreveu ataques contra sua residência e ameaças de morte.

Segundo ele, chegou a viver dois meses escondido em áreas de mata e pântanos, protegido por colonos armados.


Retorno à Itália e Fundação de Nova Bassano

Após as perseguições sofridas, Colbacchini retornou à Itália em 1894, estabelecendo-se novamente em Bassano del Grappa.

Durante esse período escreveu a obra:

Guida Spirituale per l’Emigrato Italiano nella America

O livro destinava-se a orientar espiritualmente os imigrantes italianos na ausência de sacerdotes.

Em 1896, retornou ao Brasil, desta vez dirigindo-se ao Rio Grande do Sul, onde fundou a colônia de Nova Bassano, que posteriormente se tornaria município.


Morte e Legado

Padre Pietro Colbacchini manteve até o fim da vida sua postura firme e intransigente na defesa da moral católica e da organização religiosa entre os imigrantes.

Já com a saúde debilitada, faleceu em 30 de janeiro de 1901, em Nova Bassano, no Rio Grande do Sul.

Sua atuação marcou profundamente a organização religiosa das colônias italianas no sul do Brasil e permanece como um capítulo importante da história da imigração italiana e da missão católica entre os emigrantes.

Nota do Autor

A trajetória do sacerdote italiano Pietro Colbacchini constitui um capítulo relevante da história da Imigração Italiana no Brasil e da reorganização do catolicismo entre as comunidades de emigrantes no final do século XIX. Seu trabalho missionário desenvolveu-se em um período de profundas transformações sociais, políticas e religiosas tanto na Europa quanto na América, quando milhões de europeus atravessaram o Atlântico em busca de novas oportunidades de vida.

No Brasil, especialmente nas regiões do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, a presença italiana cresceu rapidamente a partir da década de 1870. Essas comunidades de imigrantes, muitas vezes instaladas em colônias agrícolas relativamente isoladas, enfrentavam não apenas dificuldades econômicas e ambientais, mas também a carência de assistência religiosa regular. Foi nesse contexto que missionários italianos passaram a desempenhar papel fundamental na organização social, cultural e espiritual dessas populações.

A atuação de Colbacchini relaciona-se diretamente ao movimento de renovação pastoral promovido pelo bispo italiano Giovanni Battista Scalabrini, que incentivou a criação de uma estrutura missionária destinada especificamente ao acompanhamento espiritual dos emigrantes. Dessa iniciativa surgiu a Congregação dos Missionários de São Carlos Borromeo, também conhecida como missão escalabriniana, responsável por estabelecer redes de assistência religiosa em diversas regiões da diáspora italiana.

As cartas, relatórios e testemunhos deixados por Colbacchini constituem hoje fontes históricas importantes para o estudo da imigração italiana e da história do catolicismo no Brasil. Esses documentos revelam aspectos fundamentais da vida cotidiana nas colônias agrícolas, como as dificuldades de adaptação ao clima, as doenças tropicais, a precariedade das primeiras instalações e os conflitos culturais entre imigrantes europeus e a sociedade local.

Ao mesmo tempo, seus escritos evidenciam as tensões ideológicas presentes nas comunidades italianas da época. Muitos imigrantes traziam consigo influências do liberalismo, do republicanismo, do anticlericalismo e, em alguns casos, do anarquismo, correntes políticas bastante difundidas na Itália após o processo de unificação nacional. O confronto entre essas ideias e o catolicismo ultramontano defendido por missionários como Colbacchini gerou disputas que marcaram profundamente a vida social das colônias.

Do ponto de vista historiográfico, a figura de Pietro Colbacchini permite compreender o papel desempenhado pela Igreja Católica na formação das comunidades ítalo-brasileiras. Mais do que um simples líder religioso, o missionário atuou como mediador cultural, organizador comunitário e agente de coesão social entre os imigrantes. Sua presença contribuiu para a construção de igrejas, paróquias e instituições que se tornaram centros de sociabilidade e identidade coletiva para milhares de colonos italianos.

Estudar a vida e a obra de Colbacchini significa, portanto, analisar um processo histórico mais amplo: a formação das comunidades de imigração italiana no Brasil e a maneira como religião, cultura e identidade se entrelaçaram na experiência dos emigrantes. Nesse sentido, sua trajetória representa uma fonte privilegiada para compreender não apenas a história da Igreja entre os imigrantes, mas também as dinâmicas sociais que contribuíram para moldar parte significativa da sociedade brasileira no final do século XIX e início do século XX. 

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



terça-feira, 31 de março de 2026

Um Adeus ao Vêneto, Um Sonho no Brasil — A Comovente História da Família Piazzetta


A Saga Real de uma Família Italiana do Vêneto que Emigrou para o Brasil


1. As Raízes no Vêneto: Terra, Trabalho e Tradição Italiana

A história real da família Piazzetta, originária de Pederobba, na província de Treviso, é um dos muitos capítulos que revelam a força da imigração italiana no Brasil no final do século XIX. Entre as colinas férteis do Vêneto, aos pés dos Pré-Alpes, essa família viveu séculos marcados por trabalho artesanal, fé católica e amor à terra — valores que cruzariam o oceano junto com eles.

Pederobba, pequeno município vêneto banhado pelo rio Piave, conserva até hoje o encanto das aldeias antigas: ruas estreitas, casas de pedra com telhados de terracota e a torre da igreja que domina o horizonte. Ali, entre vinhedos de Raboso del Piave e Glera — uvas que dariam origem ao famoso Prosecco —, nasceu a trajetória de uma família cuja herança marceneira e coragem se tornariam símbolo do espírito dos emigrantes italianos. As suas ruas estreitas e tortuosas são testemunhas vivas de séculos: vilas e casas de pedra com telhados de terracota, muros que guardam histórias, e a antiga igreja matriz, cuja torre sineira recorta o horizonte e dita o compasso dos dias. 

2. O Ofício Herdado: Tradição da Marcenaria Vêneta e a Família Piazzetta

É nesse mundo costurado por terra, trabalho e fé que conhecemos Giuseppe Piazzetta, filho de Domenico — nascera em 1808, vindolocalidade de Fener, no vizinho município de Alano di Piave. Giuseppe cresceu entre formões, plainas e serras, e aprendeu desde cedo com o pai os segredos da marcenaria: a paciência do corte, o respeito pela madeira, o sentido do encaixe perfeito. Quando jovem, moveu-se com a família para Pederobba por motivos de trabalho, e ali fincou raízes: a oficina no térreo da casa de dois pisos, no antigo bairro chamado Ghetto, tornou-se centro e destino. O cheiro de madeira recém-cortada e resina impregnava o ambiente; as paredes exibiam ferramentas antigas, passadas de geração em geração; a luz das grandes janelas fazia dançar no pó as partículas de um ofício que era herança e destino.

Foi ali, naquela oficina marcada por mãos calejadas, que cresceu e aprendeu Francesco, filho de Giuseppe — um rapaz de olhar vivo e azul penetrante. Desde cedo, Francesco mostrou destreza ímpar: dedos ágeis que transformavam troncos brutos em peças úteis e belíssimas, traços firmes ao entalhar uma cadeira, paciência de artista ao montar a estrutura de uma casa. A oficina, que anos depois herdaria de seu pai Giuseppe, ganhou sob suas mãos renome e respeito: de agricultores a nobres proprietários de vilas, todos vinham buscar a precisão, a resistência e a beleza das peças saídas do pequeno ofício.

Na vida cotidiana de Pederobba havia um ritmo quase ritual — as tradições guardadas, as festas das colheitas, as celebrações religiosas, as conversas nas praças entre lavradores e artífices. As crianças corriam pelas ruas, os anciãos trocavam memórias à sombra das árvores e o trabalho moldava corpos e pensamentos. Mas sob a superfície serena, vinham rumores de mudança: as transformações políticas e sociais que varriam a Europa chegavam até o vilarejo, nas conversas sussurradas, nas cartas que chegavam amareladas. Francesco, de mente inquieta e espírito curioso, sentia crescer em si uma angústia que não sabia nomear — a pergunta sobre o seu papel naquele mundo a mudar.

3. Amor, Luto e a Decisão de Partir para o Brasil

Foi numa dessas festas tradicionais da região que Francesco encontrou Maria Augusta Verri, moça nascida na vizinhança dos vales de Segusino, filha do proprietário de uma estalagem que servia de pouso aos balseiros que retornavam a pé de Veneza após as descidas do Piave. Maria Augusta tinha cabelos negros como a noite e olhos em que algo de sereno brilhava; sua presença aquietava a sala e dava calor às conversas. O encontro irrompeu como um instante decisivo: mais tarde casaram-se em Segusino, no verão seguinte — igreja e praça transformadas em festa, o cheiro de flores de laranjeira no ar, risos e vinho partilhados até o crepúsculo. Francesco Piazzetta tinha 26 anos de idade e Maria Augusta Verri 21.

Francesco reformou para Maria a antiga casa de madeira de dois pisos com as próprias mãos. A casa era simples, sólida, com janelas que emolduravam vistas do Piave e das montanhas; ali nasceriam os cinco filhos: a primogênita Giuseppina(Pina para a família), Giovanni Battista — carinhosamente GioBatta —, as irmãs Maria Augusta (recebendo o mesmo nome da mãe), Colomba, e por fim o caçula Noè. Cada um cresceu entre o cheiro da madeira e o som do ofício; Giovanni herdou do pai a força e a precisão; Noè trazia no rosto a expressão serena que lembrava o avô Giuseppe.; as irmãs eram inseparáveis nas explorações dos bosques próximos. Em casa, o alimento vinha da terra e do esforço: ao redor da grande mesa, partilhavam-se pedaços de pão, polenta e vinho caseiro — pequenas certezas diante da precariedade.

A oficina era mais que trabalho: era identidade. Junto ao carpinteiro renomado que o próprio Giuseppe tornara, Francesco via os troncos se transformar em móveis que atravessavam gerações. Clientes vinham de longe: agricultores que buscavam robustez; proprietários das vilas em busca de elegância. Sob a luz que entrava pelas janelas, a serragem era testemunha dos dias laboriosos; e, nas mãos de Francesco, a madeira ganhava forma e, com ela, o sustento da família.

Mas o mundo além das colinas sussurrava promessas. A Itália, já unificada, não era o lugar próspero que se imaginara: impostos pesavam, colheitas falhavam por intempéries; as conversas na praça, diante da igreja, frequentemente deslizavam para relatos de terras distantes onde o trabalho parecia farto. Francesco ouvia com atenção. Aprendera com seu pai a honrar o ofício, mas sentia que as raízes de Pederobba não segurariam todos os seus filhos. O desejo de oferecer-lhes futuro o corroía por dentro como uma maré.

Em 1886, a tragédia que abrira uma ferida definitiva: Maria Augusta, aos 42 anos — mulher de fibra, incansável no trabalho e mãe dedicada — foi vencida por um câncer de mama. A doença roubou-lhe as forças em silêncio, e a casa mergulhou num luto que ocupou cada canto. Para Francesco, já com 47 anos, a perda foi um abismo. O silêncio após a partida dela pesava mais que qualquer fadiga do ofício. Viúvo, cansado e sem a presença que ordenara os dias, apoiou-se nos filhos; Pina, a primogênita, assumiu com maturidade precoce as tarefas da mãe, sustentando o lar e trazendo um fio de ordem aos dias marcados pela ausência.

Algum tempo depois, quando Giuseppina casou-se, a casa perdeu outro pilar. A partida da filha mais velha acentuou a solidão de Francesco e deixou clara a dura verdade: sozinho, ele não conseguiria garantir um futuro digno aos filhos que ainda viviam sob seu teto. A Itália mostrava-se estéril para sonhos que exigiam chão e oportunidades. Entre vizinhos e parentes, nas conversas longas nas noites de inverno, começou a amadurecer no peito de Francesco uma ideia que muitos já haviam tido antes: emigrar para o Novo Mundo — o distante Brasil, terra de lendas e possibilidades, onde compatriotas relatavam recomeços.

A decisão foi prática e dolorosa: vendeu a casa, o pequeno terreno e os bens que podiam ser desapegados. Reuniu o modesto patrimônio que acreditava suficiente para recomeçar. As cartas que chegavam de amigos e parentes que já haviam cruzado o oceano falavam de Curitiba, cidade jovem rodeada por colinas e pinheirais, com clima que lembrava o do Vêneto; falavam também de núcleos de imigrantes que abriam estradas, cultivavam a terra e erguendo novas esperanças. Tudo isso, lido entre brasas de saudade, alimentou a convicção final. Partiriam.

4. A Travessia dos Emigrantes Italianos: Do Piave ao Atlântico

No final de novembro de 1890 — quatro anos após a morte de Maria Augusta —, quando o outono já se curvava ao inverno, a família se despediu de Pina — filha e irmã que ficaria em Pederobba pois já tinha a sua própria família. A despedida foi de um silêncio cortante: soluços contidos, olhares firmes, mãos que se apertavam como se a separação pudesse ser retardada por força de vontade. Partiram ainda na penumbra, quando a primeira claridade se insinuava sobre telhados cobertos de neve. Seguiram a pé até a estação de Cornuda, caminho longo e gelado, com vento cortante e corações pesados. O apito do trem soou como sentença; ao embarcarem, Francesco olhou as montanhas do Vêneto pela última vez e sentiu escapar uma lágrima.

O trem os conduziu a Gênova, onde o porto fervilhava de gente e esperança. Entre malas, gritos e o cheiro salgado do mar, avistaram o navio Adria, imenso e escuro, balançando nas águas. Aquele colosso de ferro seria morada e provação nas semanas seguintes: a travessia marcaria uma ruptura profunda entre o que se deixava e o que se buscava. No porão e nos convés, viveram o peso da viagem: espaços exíguos, ar pesado, o balanço incessante. À noite o frio rasgava até os ossos; durante o dia, o calor e a umidade faziam o ar quase sufocante; o sono vinha fragmentado, perturbado pelo ranger das madeiras e pelo rumor dos motores. Crianças choravam por comida e terra firme; adultos recolhiam-se em silenciosa contemplação.

Apesar da ausência de grandes tempestades, as semanas a bordo deixaram marcas: a monotonia do mar que engolia o horizonte, a saudade que apertava o peito, o jornal diário dos pequenos afazeres que se repetiam. Francesco, muitas vezes, sentava-se no convés ao entardecer, acompanhando o poente como se buscasse nas cores do céu um sinal da Itália que se perdia atrás das ondas. E quando, enfim, as belas montanhas se desenharam no horizonte e o sol cintilou sobre as águas da vasta baía do Rio de Janeiro, um arrepio de emoção percorreu a família — a travessia chegava ao fim, e diante deles se abria o mistério de um novo destino.

5. O Novo Mundo: A Chegada dos Imigrantes Italianos 

  • Da Ilha das Flores à Colônia Dantas no Paraná

Ao chegarem ao Brasil, foram submetidos aos trâmites habituais: exames médicos, registros e verificações. Francesco e os seus foram encaminhados à Hospedaria da Ilha das Flores, onde permaneceram por dois dias. O edifício, amplo e barulhento, fervilhava de vozes em dezenas de línguas, de crianças chorando e de mulheres que tentavam, com ingredientes novos, cozinhar algo que lembrasse casa. Aquele lugar era de passagem, de recepção e de espera. Em dois dias provaram o calor úmido, o aroma intenso do café, a luz que parecia ferir os olhos acostumados às neblinas do Vêneto. A saudade persistia, mas a expectativa também crescia.

Na manhã do terceiro dia foram chamados e receberam ordem de embarcar novamente: o navio da costa seria o Maranhão, casco escuro e calado raso, apropriado às águas costeiras do sul. Subiram com seus poucos pertences, misturados a outros imigrantes que seguiam para as colônias no Paraná. O Maranhão deixou o porto do Rio sob sol abrasador e seguiu rente à costa. O mar alternava entre calmaria e inquietação; a brisa trazia odores novos, promessas e algum temor.

Dias depois, avistaram Paranaguá, porto cercado por montanhas e mata densa. O silêncio reverente tomou o convés; ali começaria sua nova vida. Francesco sentiu, ao respirar o ar quente e pesado do litoral, que deixava, enfim, o passado um pouco mais distante. De Paranaguá embarcaram no trem que venceria a íngreme Serra do Mar rumo a Curitiba. O velho comboio avançava lentamente, rangendo sobre trilhos úmidos, serpenteando entre abismos e encostas cobertas por uma vegetação que parecia inexplorada. Pela janela, a família contemplou cascatas, neblinas como véus e um mundo vegetal tão denso que quase não cabia na imaginação.

Para olhos habituados às vinhas e às colinas do Vêneto, aquele mundo tropical era outro planeta: árvores que subiam ao céu, folhas de brilho intenso, cantos de aves desconhecidas. Entre o espanto e a emoção, prevalecia o silêncio observador. Francesco mantinha o olhar fixo, com o filho mais velho ao lado, e pensava nos que ficavam — na filha Pina, na cidade — e no que seria preciso construir do nada. Ao ganhar altitude, o ar tornava-se mais ameno, lembrando-lhe, em migalhas, a terra que deixara. E quando, ao entardecer, avistaram as primeiras casas de Curitiba, uma emoção profunda o percorreu: parecia encontrar, naquele recanto distante, algo que poderia ser chão para seus passos.

6. O Recomeço na Terra Vermelha do Paraná: A Vida dos Imigrantes

Da estação, seguiram em carroça rumo à Colônia Dantas. Francesco, com a ajuda de um amigo ali residente, já havia adquirido um lote que julgou promissor. A estrada enlameada e sinuosa, puxada por bois, serpenteava por clareiras e matas; o cheiro de terra molhada e pinheiros recém-cortados impregnava o ar. A cada curva, uma nova paisagem se descortinava: casas de madeira fumegando entre neblinas, riachos cristalinos, e a presença humana ainda esparsa naquele território.

Ao chegarem ao lote, o cansaço deu lugar ao espanto. Diante deles erguiam-se uma pequena casa de madeira, aparência precária, tábuas gastas e telhado remendado com zinco; buracos nas paredes deixavam entrar vento; o chão de terra batida denunciava abandono. Mas para os recém chegados a cabana era mais do que abrigo: era o primeiro lar em terras brasileiras, a base de uma nova vida. improvisaram com o pouco que possuíam: acenderam fogo, prepararam uma refeição simples com mantimentos trazidos da cidade, e o crepitar da lenha fez com que sombras dançassem nas paredes irregulares.

Naquela noite, Francesco sentou-se à soleira da porta e observou o céu. Pensou no longo caminho — nas vinhas do Vêneto, no ofício herdado, na filha Pina — e soube que ali, naquele pedaço rude de chão, começava o verdadeiro trabalho de recomeçar. O frio noturno cortava a pele, mas dentro da cabana havia um calor maior que a lenha: a certeza de chegada, a esperança de plantar raízes.

7. A Herança da Madeira e da Fé: o Legado da Família   Piazzetta

Os primeiros meses foram de esforço extenuante, de pequenas conquistas e de adaptação. A Colônia Dantas era ainda amontoado de casas, picadas pelo campo e o som constante de ferramentas agrícolas; o trabalho exigia horas a fio; porém, para Francesco, as mãos ainda guardavam firmeza e precisão — ferramentas antigas, serrotes, plainas, formões e martelos trazidos de Pederobba, embrulhados com cuidado, eram mais que instrumentos: eram a continuidade de uma linhagem que transformava madeira em abrigo e sustento. Com o auxílio do filho mais velho, Giovanni, construiu um galpão de tábuas ao lado da casa; Noè, com nove anos, observava em silêncio, correndo entre as pilhas de madeira, ajudando com pregos e varrendo as lascas.

No início, encomendas eram raras; a colônia ainda precisava se organizar e poucos tinham recursos para móveis elaborados. Pai e filho aceitaram todo trabalho: colaborar em construções de casas, pontes e celeiros; serrar tábuas para os vizinhos; e, quando possível, trabalhar na cidade. Em Curitiba encontraram serviço junto à Estrada de Ferro do Paraná, colaborando na montagem e no reparo de interiores de vagões — bancos, divisórias, caixotes, suportes — com o mesmo zelo que dedicavam a um móvel doméstico.

A rotina era dura: saíam de madrugada, regressavam ao entardecer cobertos de serragem, e retornavam exaustos. Mas a satisfação vinha do trabalho honesto: aos domingos, Francesco afiava lâminas, ajustava ferramentas e transmitia a Giovanni e Noè os segredos do ofício — o encaixe perfeito, o polimento até o brilho. Aos poucos, a oficina começou a ganhar nome entre os vizinhos da colonia e alguns moradores de outros locais da cidade. Mesas, arcas, camas, janelas passaram a sair do galpão; o cheiro da madeira nova tornou-se o perfume do lar.

Quando o movimento aumentou, pai e filho decidiram dedicar-se exclusivamente à marcenaria. Naquele galpão, sob a luz tênue da lamparina, Francesco sentiu renascer algo que julgara perdido na travessia: a dignidade do ofício e a sensação de pertencer. Cada peça que deixava suas mãos não era apenas trabalho, mas fragmento de esperança, elo entre o velho mundo deixado para trás e o novo que ajudavam a construir.

E assim, no chão vermelho do Paraná, entre suor e serração, a família reconstituía-se: memórias do Vêneto preservadas na língua, nos costumes, nas ferramentas; a terra brasileira transformada pelo trabalho em sustento; e a certeza, mais forte do que o medo, de que haviam feito a escolha necessária para assegurar um futuro aos filhos. A saga de uma família — nascida sob as colinas do Piave, erguida pelo ofício da madeira e moldada pelas perdas — prosseguia, resistente como o próprio carvalho que um dia dariam forma às mãos. 

8. Nota do Autor uma História Verdadeira da Imigração Italiana

Esta obra, “A Saga Real de uma Família Italiana do Vêneto que Emigrou para o Brasil”, não é apenas uma narrativa literária — é a reconstrução de uma história verdadeira, nascida da própria memória familiar do autor.

Os acontecimentos aqui relatados têm origem nas lembranças transmitidas de geração em geração em antigas cartas guardadas com devoção e nos registros que resistiram ao tempo. Cada personagem, cada gesto e cada decisão refletem o caminho real percorrido pelos antepassados que, no final do século XIX, deixaram a pequena Pederobba, na província de Treviso, para tentar a vida no Brasil.

Mais do que uma viagem geográfica, esta é uma travessia humana. É o relato da coragem e da dor de uma família comum que, como tantas outras, enfrentou a incerteza do oceano e o desafio de começar do nada em uma terra distante.

O autor buscou reviver não apenas os fatos, mas o espírito daquela época — o silêncio das despedidas, o cansaço das travessias, o espanto diante da nova paisagem, e, sobretudo, a esperança que sustentou aqueles que vieram antes de nós.

Assim, “Pederobba 1890” é também um ato de gratidão: um modo de dar voz aos que não puderam contar sua própria história, e de preservar, entre a lembrança e o afeto, a herança moral e cultural que moldou tantas famílias descendentes de italianos no Brasil.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta




terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Famílias Italianas em Morretes (PR) em 1911


Famílias Italianas em Morretes (PR) em 1911


A presença de famílias italianas em Morretes, no litoral do Paraná, em 1911, revela um capítulo pouco explorado da história da imigração italiana no Brasil. Após mais de trinta anos desde a chegada às colônias de Alexandra e Nova Itália, diversos sobrenomes de origem italiana ainda figuravam nos registros civis e paroquiais do município, demonstrando que parte desses imigrantes não abandonou definitivamente a região, apesar das duras condições enfrentadas.

Diferente de outras colônias abandonadas, Morretes tornou-se espaço de permanência para famílias que decidiram resistir no litoral paranaense. Entre os sobrenomes que aparecem em documentos da época, destacam-se: Bettega, Fabris, Meneghetti, Piovesan, Zanetti, Trevisan, Rossetto, Gobbo, Simon, Volpato, Stocco, Stocchero, Zilli, Brandalize, Bortholuzzi, De Bona, De Rocco, Dal Lin, Sanson, Borsatto, Pilotto, Tosetto, Zortea, entre muitos outros que compuseram a trajetória dessa comunidade.

A adaptação ao clima úmido, à mata atlântica fechada e à falta de infraestrutura marcou profundamente a vida dessas famílias. Mesmo diante do abandono institucional, epidemias e isolamento geográfico, os imigrantes reorganizaram sua existência através da agricultura de subsistência, do comércio local, da criação de pequenas indústrias e do fortalecimento de vínculos comunitários, religiosos e familiares. Morretes passou a ser não apenas um local de sobrevivência, mas de construção de raízes sociais e culturais.

Em 1911, esses descendentes já participavam ativamente da vida local: registravam seus filhos em cartórios brasileiros, frequentavam a igreja matriz, integravam feiras, atividades artesanais e o pequeno comércio da vila. Os sobrenomes italianos deixaram de ser vistos apenas como marcas de estrangeiros e passaram a integrar a própria identidade histórica do município.

A permanência dessas famílias em Morretes representa um testemunho de resistência e identidade. Sua história ajuda a compreender por que o litoral paranaense abriga, até hoje, traços culturais, linguísticos e familiares ligados aos primeiros núcleos de colonização italiana, especialmente às experiências das colônias de Alexandra e Nova Itália.

Sobrenomes italianos que ainda existiam em Morretes no ano de 1911

Bacci, Bavetti, Bazzani, Belotto, Bergonse, Bertholdi, Bertagnolli, Bettega, Bindo, Borsatto, Bortholin, Bortholuzzi, Brandalize, Brambilla, Brustolin, Buzetti, Callegari, Canetti, Carazzai, Carta, Casagrande, Cavagnari, Cavalli, Cavallin, Cavagnoíli, Cavogna, Chiarello, Cheminazzo, Chierigatti, Cini, Ciscata, Cit, Citti, Comandulli, Conte, Contin, Costa, Cusman, Curcio, Dal Lin, Dalcucchi, Dall' Col, Dall' Ligna, Dall' Negro, Dall' Stella, De Bona, De Carli, De Fiori, De Lay, De Mio, De Paola, De Rocco, Dea, Della Bianca, Dirienzo, Dotti, Ercole, Fabris, Fante, Favoretto, Feltrin, Ferrari, Ferrarini, Ferruci, Filipetti, Foltran, Fontana, Fraxino, Fruscolin, Gabardo, Galli, Gaio, Gasparin, Ghignone, Giglio, Gnatta, Gobbo, Grandi, Gregorini, Grigoletto, Grossi, Guzzoni, Jacomelli,Lati, Lazzarotto, Lucca, Lunardeli, Madalozzo, Malucelli, Manosso, Marchioratto, Marcon, Marconsin, Mazza, Meduna, Menegazzo, Meneghetti, Menin, Miranda, Molinari, Mori, Moreschi, Moro, Muraro, Nadalin, Nori, Olivetti, Orlandi, Orreda, Panzolini, Pasquini, Pedinato Consentino, Piazza, Pilatti, Pilotto, Piovesan, Poletto, Pontoni, Possiedi, Ramina, Ramagnolli, Robassa, Roncaglio, Rossetto, Rossi,Salvare, Santi, Sanson, Savio, Scarante, Scarpin, Scorzin, Scucato, Scremin, Scarante, Semionatto, Simeão, Simon, Sguário, Sotta, Sperandio, Stocco, Stocchero, Strapasson, Sundin, Talamini, Tessiari, Tessari, Todeschini, Tonetti, Tosetto, Tosin, Tozetto, Tramontini, Trevisan, Trombini, Túllio, Turin, Valenti, Valenza, Valério, Vardanega, Vicentini, Volpato, Zalton, Zampieri, Zanardi, Zanardini, Zanella, Zanetti, Zanier, Zanon, Zeni, Zem, Zicarelli, Zilli, Zortea


segunda-feira, 13 de outubro de 2025

O Purgatório Tropical: O Drama Esquecido dos Italianos nas Selvas do Paraná

 


O Purgatório Tropical: 

O Drama Esquecido dos Italianos nas Selvas do Paraná


No relatório elaborado em 1892, o missionário italiano padre Pietro Colbacchini descreveu com crueza as condições desumanas enfrentadas pelos colonos instalados no litoral paranaense entre os anos de 1875 e 1877. Entre os inúmeros males que assolavam as colônias, o padre Colbacchini destacou especialmente as doenças provocadas pelos insetos, que transformavam a vida dos imigrantes em um verdadeiro martírio.

Sobre as colônias de Alexandra e Nova Itália, ele relatou:

“Durante o dia, o trabalho torna-se insuportável pelo calor excessivo e pelos enxames de mosquitos que fazem inchar as partes descobertas do corpo, causando dores e incômodos intensos. À noite, outra espécie desses insetos rompe o sono e suga o sangue dos pobres imigrantes. Entre a carne e a pele desenvolve-se um verme, grosso como um feijão, injetado por uma mosca dourada (berne). Nos pés, sobretudo nos calcanhares e extremidades, surgem coceiras insuportáveis e feridas malcheirosas, causadas por outro inseto (bicho-de-pé) que se aloja, incuba e cresce como uma minúscula pulga. Crianças e idosos são os mais vulneráveis a essa enfermidade terrível, que, entretanto, não poupa idade, sexo nem condição. A tudo isso somam-se os efeitos diretos do clima: tontura, fraqueza dos membros, falta de apetite, desânimo, apatia e um profundo tédio pela vida. Esta é a verdadeira condição daqueles que habitam o litoral do Paraná.”

O testemunho de Colbacchini revela com rara intensidade o quanto a adaptação dos imigrantes europeus às zonas tropicais do Brasil foi um processo doloroso, lento e profundamente desigual. As promessas de um novo começo, feitas ainda em solo italiano, chocavam-se com a realidade áspera das florestas úmidas, das doenças tropicais e da solidão. O que deveria ser uma terra de esperança transformou-se, para muitos, em um território de provação.

Nas colônias de Alexandra e Nova Itália, o cotidiano era marcado pela precariedade absoluta: habitações improvisadas, falta de alimentos, inexistência de assistência médica e a presença constante de insetos e parasitas que minavam o corpo e o ânimo dos colonos. O isolamento geográfico agravava a sensação de abandono — os imigrantes viviam distantes das cidades, cercados por matas densas e caminhos intransitáveis, sem meios de comunicação ou comércio estáveis.

Colbacchini, com olhar de missionário e coração de humanista, registrou não apenas a miséria material, mas também o abalo moral dessas comunidades. Sua narrativa ultrapassa o tom de denúncia e transforma-se em um testemunho de humanidade, onde cada frase ecoa a resistência silenciosa de homens e mulheres que, mesmo entre o desespero e a doença, ainda buscavam sobreviver, criar raízes e preservar a fé.

Mais do que um simples documento histórico, o relato de Colbacchini é uma crônica pungente da primeira fronteira da imigração italiana no Brasil — um retrato vívido do preço humano da colonização e da coragem de um povo que, mesmo diante da selva e do sofrimento, manteve viva a esperança de um amanhã melhor.

Nota do Autor

O relato do missionário Colbacchini, datado de 1892, é uma das mais vívidas e dolorosas descrições da realidade enfrentada pelos primeiros imigrantes italianos no litoral do Paraná. Suas palavras revelam não apenas o espanto de um observador europeu diante da natureza tropical, mas sobretudo a compaixão de um homem de fé diante do sofrimento humano.

As colônias de Alexandra e Nova Itália, criadas com a esperança de oferecer aos emigrantes um novo começo, transformaram-se em cenários de desespero e doença. O calor sufocante, a umidade constante, as florestas alagadiças e a proliferação de insetos tornaram a vida cotidiana quase insuportável. Mosquitos, bernes e bichos-de-pé eram inimigos permanentes, corroendo a saúde e a dignidade dos colonos. O corpo, atacado sem trégua, tornava-se símbolo da luta entre o homem e um ambiente que lhe era completamente estranho.

Mas por trás da descrição quase clínica de Colbacchini, percebe-se algo mais profundo: a triste constatação do fracasso de um sonho coletivo. Aqueles que haviam deixado a Itália em busca de prosperidade e paz encontraram no litoral paranaense um purgatório de febres, solidão e miséria. Faltavam médicos, alimentos, conforto e, sobretudo, esperança.

A carta de Colbacchini não é apenas um documento histórico — é um testemunho moral. Nela ecoa o lamento de centenas de famílias que pagaram com a saúde e com a vida o preço das promessas mal cumpridas da colonização. Sua voz, ao atravessar o tempo, recorda-nos que a epopeia da imigração italiana foi também, em muitos momentos, uma história de dor, resistência e sobrevivência no limite da condição humana.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta