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domingo, 29 de março de 2026

A História de Benvenuto Scarsela

 


A História de Benvenuto Scarsela

Campinas Província de São Paulo 1889


Capítulo I — A terra de Bronzola

Bronzola, uma pequena localidade de Campodarsego, província de Pádua, repousava silenciosa na planície padovana, como se o tempo ali fosse medido não por relógios, mas pelo ciclo eterno das estações. Pequenas casas de pedra, com telhados vermelhos, se agrupavam em torno de uma capela modesta e de uma praça que servia mais como passagem do que como centro. Ao redor, os campos se estendiam até onde a vista alcançava, cortados por canais estreitos que refletiam o céu cinzento de inverno e o azul profundo do verão.

Naquele mundo de terra e silêncio, Benvenuto Scarsela nasceu. Filho de pequenos agricultores, aprendeu cedo a ler a linguagem da terra. Suas mãos infantis já conheciam a aspereza da poda, o peso da enxada e o frio penetrante da água nos canais durante as limpezas de primavera. Seu corpo cresceu ao ritmo das colheitas: o inverno úmido que deixava musgo nas paredes, a primavera que devolvia a cor às videiras, o verão ardente que fazia rachar a pele e o outono dourado que trazia o cheiro inconfundível da vindima.

Mas, por trás da cadência tranquila, havia inquietação. A Província de Pádua parecia pequena demais para tantos filhos de famílias numerosas. A terra já não bastava. Pelas tavernas e nas feiras, chegavam histórias de terras distantes — o Brasil, chamado simplesmente de “Merica” — onde a terra era fértil, abundante e esperava apenas braços dispostos a trabalhá-la. Poucos sabiam ao certo onde ficava esse lugar; muitos não sabiam sequer ler um mapa. Mas as histórias, carregadas de promessas, encontravam eco em corações apertados pela pobreza.

Capítulo II — A decisão e a travessia

No início de 1889, Benvenuto tomou a decisão que mudaria para sempre o rumo da sua vida. Não foi um ato repentino, nem uma escolha leve. Foi a conclusão lenta e inevitável de meses — talvez anos — de um peso que se acumulava silenciosamente em cada colheita minguada, em cada inverno rigoroso, em cada conversa abafada nas noites frias de Bronzola.

O Vêneto vivia um tempo de esgotamento. Desde a anexação ao jovem Reino da Itália, promessas de prosperidade haviam sido feitas, mas pouco chegara aos campos. A terra, dividida em pequenas parcelas, já não produzia o suficiente para sustentar as famílias numerosas. A industrialização que despontava em outras regiões passava ao largo dos campos planos de Campodarsego. A seca de alguns anos, alternada com enchentes de outros, destruía plantações de trigo e uva. E quando a colheita sobrevivia ao clima, os impostos, cobrados com rigor quase militar, consumiam o pouco que restava.

O peso era coletivo. As tavernas e feiras, antes cheias de conversas sobre safras e festas de vilarejo, estavam agora marcadas por silêncios e olhares longos, como se todos buscassem respostas no fundo das taças de vinho aguado. Famílias inteiras falavam de cartas que vinham de longe, da França, da Argentina, do Brasil. Cartas que traziam relatos de terras férteis, trabalho abundante e a possibilidade de construir algo próprio. Para muitos, soavam como promessas; para outros, como último recurso.

Benvenuto sentia que o seu tempo em Bronzola estava se esgotando. A cada safra mais curta, a cada pagamento atrasado ao dono das terras, a cada refeição que precisava ser dividida em partes menores, a ideia da partida ganhava força.

No início de 1889, deixou de ser apenas um pensamento. Tornou-se decisão. Levou consigo quase nada: algumas roupas dobradas com cuidado, ferramentas simples que cabiam em um embrulho e uma carta de referência, escrita por um conterrâneo que já havia cruzado o Atlântico e se estabelecido no Brasil. Era pouco, quase nada — mas para quem partia com esperança, era suficiente.

Benvenuto fechou a porta da casa como quem sela um capítulo da própria vida. Atrás de si, deixou os campos que o haviam moldado, mas que já não podiam sustentá-lo. À frente, um caminho que o levaria a terras longínquas, tão distantes quanto as promessas que agora guiavam seus passos.

A viagem começou com o abandono silencioso da aldeia. Bronzola ficou para trás na neblina fria da manhã, como se a própria terra, cansada de perder filhos, preferisse não testemunhar a partida. O trem, uma composição lenta e suja, cortou os campos planos do Vêneto, passou por rios estreitos, pequenas estações e cidades que se sucediam como páginas de um livro que Benvenuto não teria tempo de reler. Cada estação era um lembrete da distância crescente.

Já amanhecendo, quando o trem finalmente se aproximou de Gênova, o ar mudou. O cheiro salgado do mar misturava-se ao odor pesado do carvão queimado. Os primeiros sons do porto — guindastes, apitos, vozes que se sobrepunham — anunciavam a transição entre a terra conhecida e o desconhecido oceano.

O porto de Gênova fervilhava com uma energia quase desordenada. Fileiras de navios ancorados balançavam no cais, prontos para cruzar o Atlântico carregados não apenas de carga, mas de sonhos comprimidos. Perto do portão de embarque, a cena era de uma confusão quase palpável. Centenas de emigrantes se amontoavam, empurrando-se com malas improvisadas, sacos de pano, cestos, e até gaiolas com galinhas, cada um temendo perder o seu lugar na travessia.

O som era ensurdecedor. Chamados de marinheiros se misturavam a choro de crianças, ao grito de vendedores ambulantes oferecendo pão e queijo aos que não sabiam quando voltariam a comer algo fresco. Capatazes tentavam organizar as filas, mas a ansiedade corroía qualquer traço de disciplina. A língua italiana, já tão fragmentada em dialetos, parecia ali multiplicar-se em dezenas de vozes diferentes — vênetos, lombardos, napolitanos, calabreses — todos comprimidos no mesmo turbilhão de expectativa e medo.

O cheiro era denso. Havia o sal do mar, o fedor do peixe recém-descido dos barcos de pesca, a fumaça do carvão das caldeiras, o suor de centenas de corpos tensos, e algo mais: o odor quase metálico da partida, um cheiro que parecia misturar esperança e desespero na mesma proporção.

No portão de embarque, o momento de atravessar para o convés do navio era carregado de emoção crua. Mulheres se benziam repetidamente, homens apertavam nos bolsos pequenos amuletos ou pedaços de terra natal. Cada passo era uma despedida silenciosa — não apenas da Itália, mas de uma vida inteira.

Benvenuto, empurrado pela massa, avançava lentamente. O coração batia forte. À sua frente, o casco escuro do navio se erguia imponente, como a muralha de um destino inescapável. Atrás, o porto de Gênova se dissolvia em vozes que já não conseguia distinguir.

A bordo, o espaço era apertado. As condições, insalubres. O mar não perdoava. Ondas violentas balançavam o casco de madeira como se quisessem arrancar do navio os que ousavam desafiá-lo. A comida era escassa, e a água, racionada. Crianças choravam dia e noite, muitas não resistiam às febres que corriam pelo porão. Benvenuto observava tudo em silêncio, acostumado à disciplina dos campos, mas não imune à tristeza que se espalhava pelo convés. Cada funeral improvisado no mar era um lembrete cruel de que a “Merica” não ofereceria facilidades.

Após semanas intermináveis, um murmúrio correu pelo navio: terra à vista. A silhueta da costa brasileira surgiu no horizonte, envolta por montanhas cobertas de mata. Santos apareceu, com seu porto agitado, como a porta de entrada para um mundo novo.

Capítulo III — Campinas e a realidade da America

De Santos, Benvenuto seguiu de trem para Campinas, levando consigo a fadiga de semanas de travessia e um misto de expectativa e incerteza. A locomotiva, pesada e lenta, gemia a cada curva, cuspindo nuvens densas de fumaça que se misturavam ao ar úmido da mata atlântica. O cheiro do carvão queimado invadia os vagões, junto com o aroma intenso de terra molhada e vegetação exuberante.

A viagem foi longa. O trem avançava por trilhas estreitas abertas entre encostas cobertas de verde, atravessando túneis escavados nas rochas e viadutos suspensos sobre vales profundos. A cada estação, pequenas paradas deixavam vislumbrar povoações improvisadas: casas simples de madeira, telhados de zinco refletindo o sol, crianças descalças correndo pelo leito de terra.

À medida que a composição se afastava da serra e ganhava o interior, o cenário mudava. O verde cerrado das matas cedia lugar a campos cultivados e vastos cafezais que se estendiam até onde a vista alcançava — um mar verde-escuro, ondulando sob a brisa. Era a paisagem que sustentava a riqueza daquela terra e que, para muitos recém-chegados, representava também a promessa e a prisão.

Quando o trem finalmente alcançou Campinas, a cidade se revelou como um núcleo vibrante e em expansão. As ruas de terra eram cruzadas por carroças carregadas de sacas de café, enquanto armazéns e depósitos se amontoavam próximos à estação. O comércio fervilhava, movido pelo dinheiro que o café injetava na economia local. Mas, para Benvenuto e tantos outros que chegavam, a cidade era apenas uma passagem.

O trem desacelerou rangendo ao se aproximar da estação de Campinas. A fumaça da locomotiva espalhou-se pelo ar quente e seco, enquanto o comboio, carregado de emigrantes exaustos, deslizava lentamente pelos trilhos. As portas se abriram e uma onda de gente começou a descer, carregando sacos de pano, malas improvisadas e caixotes amarrados com cordas.

Na plataforma, o movimento era intenso. Feitores e empregados das fazendas aguardavam os grupos de recém-chegados, observando com atenção as anotações em listas amareladas pelo uso. Entre eles, os homens enviados pela Fazenda Redenção destacavam-se com seus chapéus de abas largas e camisas já marcadas pelo pó vermelho da estrada. Ao lado, três grandes carroças aguardavam, cada uma puxada por duas parelhas robusta de mulas, inquietas com o burburinho.

O grupo de mais de cem imigrantes foi reunido com pressa. A viagem até a fazenda ainda seria longa e não havia tempo a perder. As ordens eram claras: os homens, as crianças maiores e as mulheres que não estivessem grávidas seguiriam a pé, formando uma longa coluna que se estenderia pela estrada de terra. Os mais velhos, as mulheres grávidas e toda a bagagem seriam acomodados nas carroças, cujos bancos improvisados estavam cobertos por esteiras de palha.

O calor já era pesado naquela manhã. Do lado de fora da estação, o cheiro de terra seca misturava-se ao odor das mulas, ao suor dos homens e ao aroma persistente do café vindo dos armazéns próximos. A movimentação era caótica: cordas sendo ajustadas, baús sendo içados para as carroças, crianças chorando por estarem separadas momentaneamente dos pais, mães tentando manter a ordem.

Com tudo finalmente organizado, a pequena procissão partiu. À frente, um dos empregados da fazenda guiava a primeira carroça, seguida de perto pelas outras duas, cujas rodas de madeira rangiam sob o peso das bagagens e passageiros. Atrás, a coluna de homens, mulheres e crianças avançava a pé, levantando poeira fina que grudava na pele e nos cabelos.

A estrada mal conservada se abria por cerca de vinte quilômetros, cortando campos e cafezais que se estendiam como tapetes verdes sob o sol. Para muitos, aquele era o primeiro contato com a terra onde viveriam. O silêncio predominava na marcha, quebrado apenas pelo som cadenciado das mulas, pelo ranger das rodas e pelo chamado eventual dos feitores para ajustar o ritmo. Cada passo afastava o grupo da cidade e os aproximava de um futuro incerto, marcado pela promessa e pela dureza que aguardavam na Fazenda Redenção.

Ao chegarem ao local destinado para seu abrigo, um silêncio pesado tomou conta do grupo, como se o próprio espaço respirasse o passado que carregava. Diante deles, erguiam-se fileiras de casas rústicas, alinhadas lado a lado, uma ao alcance do olhar da outra, mas longe de oferecer conforto ou esperança. Eram construções antigas, de madeira e barro, sobreviventes de tempos cruéis, quando aquela área servira como senzala da fazenda — um símbolo da opressão e do sofrimento ali perpetuados.

Os telhados, outrora sólidos, agora exibiam buracos e telhas quebradas, permitindo que a chuva e o vento penetrassem sem resistência, castigando o interior das casas. O chão não tinha pisos assentados, apenas terra batida, endurecida pelo tempo e pela ausência de cuidado, levantando nuvens de poeira a cada passo dos recém-chegados. As paredes, finas e gastas, mal isolavam o frio cortante da noite nem o calor impiedoso do dia.

O ambiente exalava um ar de abandono e resignação, como se aquelas estruturas carregassem nas suas fibras o peso dos olhos que as tinham visto chorar, das mãos que as tinham construído sob ordens severas e da esperança que ali quase não brotara. Ali, no que fora a senzala da fazenda, os imigrantes italianos encontraram um lar provisório, modesto e duro, onde teriam de reconstruir suas vidas a partir do que parecia o nada — um começo marcado por desafios tão antigos quanto a própria terra que pisavam.

Ao chegarem exaustos e sem rumo certo, os imigrantes fizeram o possível para ajeitar aquelas velhas casas em ruínas, improvisando um abrigo mínimo para se protegerem da noite e das intempéries. Com telhados quebrados, paredes frágeis e chão de terra batida, cada espaço ganhava vida com o esforço dos recém-chegados, que limpavam cantos, vedavam frestas e acomodavam suas poucas posses na esperança de um recomeço.

Ao redor, outras famílias vindas de Quinto, Nervesa, Selva e Volpago também buscavam se adaptar àquele cenário áspero, trazendo na fala e nos hábitos o eco da Itália deixada para trás. A convivência entre conterrâneos criava um laço silencioso de solidariedade, um conforto frágil diante da dureza dos dias e das noites, quando o frio parecia se infiltrar até nos ossos.

Somente com o passar do tempo, à medida que a rotina se firmava e as forças se renovavam, começaram a reparar as casas — fortalecendo paredes, substituindo telhas e tornando aquele antigo alojamento um pouco mais digno, um pouco mais acolhedor. Mas mesmo com esses pequenos avanços, a vida permanecia dura, e a promessa de uma nova terra ainda se confundia com o peso do passado e os desafios do presente.

Os primeiros anos foram implacáveis. O clima, as doenças e a pobreza cobraram um preço alto. Muitas crianças morreram antes de completar o primeiro ano. Cada perda deixava uma ferida invisível, mas reforçava a determinação dos que ficavam.

Capítulo IV — O trabalho e o tempo

O dia de trabalho começava antes mesmo de o sol nascer, anunciado pelo som seco do sino da fazenda às seis horas. Era o chamado que não admitia atraso. Homens e mulheres, inclusive as grávidas, deixavam o alojamento ainda com o sereno da madrugada nos lenços que cobriam os cabelos, carregando enxadas, foices, cântaros de água e pequenas trouxas de comida. Entre eles, seguiam também os filhos de colo, que ainda mamavam, acomodados como podiam junto às mães.

Benvenuto, como os demais, seguia para os cafezais. O calor logo se tornava cortante, e a terra, teimosa, exigia força e paciência. O trabalho era incessante: limpar o mato, cuidar das mudas novas, arrancar raízes rebeldes e, na época certa, colher os grãos maduros. Quando o sino do meio-dia soava distante, o almoço era feito ali mesmo, à sombra de algum pé de café, com as crianças repousando sobre panos estendidos no chão ou deitadas em caixotes improvisados, sempre próximas das mães que, entre uma garfada e outra, ainda lhes ofereciam o leite.

Com o tempo, o corpo de Benvenuto se habituou ao ritmo pesado e repetitivo. As mãos, calejadas, já não sentiam o corte áspero dos galhos; os músculos, antes frágeis, aprenderam a dialogar com a terra bruta. E assim, dia após dia, ele descobria a dureza e o aprendizado silencioso de domar aquela nova terra, que exigia mais do que trabalho: exigia perseverança.

A cada ano, a modesta casa onde Benvenuto e sua família viviam ia ganhando pequenas melhorias, fruto de muito esforço e tempo. Primeiro, o chão de barro batido deu lugar a tábuas rústicas, que afastavam a umidade e traziam um pouco mais de conforto aos pés cansados. Depois, a horta cresceu, com fileiras de alfaces, feijões e tomates disputando espaço ao sol. Algumas galinhas passaram a ciscar livres ao lado da porta, trazendo não só ovos frescos, mas também a sensação de um lar que, aos poucos, se enraizava naquela terra estranha.

O dono da fazenda, seguindo um costume estabelecido, permitia que cada família cultivasse uma pequena horta e criasse alguns animais de pequeno porte ao redor da casa, como galinhas, porcos e cabras. Essas pequenas concessões eram vitais para a subsistência dos colonos, mas não eliminavam a dependência quase total do armazém da fazenda. Ali, os mantimentos e ferramentas — sal, açúcar, querosene, roupas e tudo o mais de que precisavam — eram vendidos a crédito com o preço quase triplicado em relação a cidade de Campinas. Cada compra era anotada em um caderno, item por item, para ser descontada dos pagamentos futuros. As despesas ocasionais como médico e hospital eram pagas pelo fazendeiro e os valores depois descontados no salário.  

O vínculo dos imigrantes com a fazenda, no entanto, ia muito além da necessidade diária. Antes mesmo de embarcarem na Itália, cada um deles havia assinado um contrato de trabalho de quatro anos, um compromisso rígido que os prendia legalmente à propriedade. Durante esse período, não podiam abandonar a fazenda sob pena de responder perante a lei. Caso tentassem sair, seriam obrigados a restituir ao patrão todos os gastos feitos com sua vinda — passagens, alimentação e transporte.

Somente após o término do contrato poderiam deixar a fazenda, e ainda assim apenas se todos os débitos estivessem quitados. Para muitos, essa promessa de liberdade futura soava distante, quase irreal, como um horizonte que se afastava à medida que caminhavam. Mas ainda assim, cada dia de trabalho, cada reparo na casa e cada muda plantada eram pequenos passos na direção dessa esperança.

Mas a saudade de Bronzola nunca desaparecia. Nas noites quentes, sentado à porta de casa, Benvenuto ouvia o coro dos insetos e pensava no som distante dos sinos de Campodarsego, no aroma da uva madura, no frescor dos canais. O Brasil lhe oferecera trabalho e sobrevivência, mas a Itália continuava viva em sua memória.

Capítulo V — A carta e o legado

Fazenda Redenção, Província de São Paulo, 30 de junho de 1889

Querida mãe, queridos irmãos,

Escrevo com o coração apertado e as mãos trêmulas. A saudade é como um peso que carrego todos os dias, e, às vezes, penso que ela dói mais que o trabalho. Cada manhã, quando o sino toca, lembro do som dos sinos da nossa aldeia, chamando para a missa. Aqui, o som chama para o café e para o labor, mas no fundo ele me lembra que estou longe de vocês.

A viagem foi dura. O mar parecia infinito, e as noites frias me fizeram pensar se algum dia veria novamente o rosto de vocês. Quando o navio chegou, pensei que a parte difícil tinha ficado para trás, mas descobri que o verdadeiro desafio começa aqui. As casas onde vivemos eram velhas e quebradas, com telhado furado e chão de barro. Aos poucos, vamos consertando o que podemos. A horta começa a dar algum sustento, e as galinhas, ao lado da porta, me fazem lembrar das manhãs de casa, quando mãe nos chamava para dentro com cheiro de pão quente.

Peço que digam a minha irmã Rosa que guardo no coração o dia da sua festa de casamento, mesmo sem ter estado presente. Imagino-a com seu vestido simples, mas com o sorriso que sempre iluminou nossa casa. Dêem um beijo nas crianças por mim, e digam a elas que o tio Benvenuto, mesmo longe, pensa nelas todos os dias.

Não venham acreditando que a “Merica” seja terra de ouro fácil. Aqui tudo se alcança com muito suor e paciência. Mas ainda assim, trabalho firme, pois penso que cada dia me aproxima um pouco mais de um futuro em que possamos nos ver novamente.

Meu maior desejo é abraçar vocês outra vez ou, ao menos, saber que vivem bem. Se puderem, escrevam. Meu endereço é: Fazenda Redenção, Província de São Paulo, Brasil.

Recebam meu abraço apertado, como se fosse um pedaço da minha presença aí. Que Deus conserve a todos com saúde até o dia de nosso reencontro.

Com amor e saudade,

Benvenuto

Epílogo — O homem e a história

Os anos passaram. Benvenuto continuou em Campinas, criando raízes na terra que um dia o recebeu com dureza. Seu nome se misturou aos dos outros colonos italianos. Sua história se tornou parte da memória silenciosa das fazendas de café.

A carta enviada em 1889 sobreviveu como um documento vivo da época. Era mais que papel e tinta: era o registro da travessia, da saudade e da resistência que moldaram não apenas a vida de Benvenuto Scarsela, mas a de milhares de imigrantes italianos no Brasil.

Nota do Autor

A história de Benvenuto Scarsela foi concebida como um tributo à multidão silenciosa de homens e mulheres que, no final do século XIX, cruzaram o oceano, abandonando aldeias adormecidas e campos já esgotados, para enfrentar nas terras do Brasil um futuro tão incerto quanto inevitável. Não se trata apenas de uma narrativa individual, mas de um fragmento vivo de uma memória coletiva que moldou a história de São Paulo, e, em especial, de Campinas, em 1889.

O enredo foi construído a partir de registros, cartas e memórias orais que sobreviveram ao tempo — testemunhos que, ainda que breves, carregam a essência do que significou partir. Ao escrever esta história, procurei preservar a dignidade dos detalhes: o cheiro da terra molhada nos cafezais, o som metálico dos sinos de Bronzola, a aspereza das mãos marcadas pelo trabalho e a saudade que atravessava mares.

Este livro foi escrito para que os descendentes desses imigrantes compreendam que suas raízes não são apenas datas ou nomes em certidões, mas experiências humanas plenas de dor, esperança e perseverança. É também um tributo à coragem silenciosa dos que não retornaram, mas que, com seu trabalho e sacrifício, ajudaram a edificar a vida de gerações futuras.

A “História de Benvenuto Scarsela” é, portanto, mais que um relato sobre um homem; é a reconstrução literária de uma época em que o destino de muitos se confundiu com a promessa — nem sempre cumprida — de uma nova terra. Que estas páginas sirvam como ponte entre o passado e o presente, permitindo que a voz de Benvenuto, e de tantos outros como ele, continue a ressoar na memória de quem hoje caminha sobre o chão que um dia foi conquista e sacrifício.

Dr. Luiz C. B. Piazzetta




sábado, 28 de março de 2026

Entre a Esperança e o Destino

 


Entre a Esperança e o Destino

De Roverchiara às colônias do Brasil


Roverchiara, o Adeus

Na planície fértil de Verona, onde o rio Adige serpenteava preguiçoso antes de se enfurecer nas cheias, erguia-se o pequeno município de Roverchiara. Ali nascera Alessandro Bonora, filho de camponeses que durante gerações haviam lutado contra o mesmo inimigo: a terra ingrata, que no verão ressecava ao sol ardente e no inverno era tomada pelas águas violentas. O campanário da igreja marcava as horas com seu sino rouco, lembrando a todos que a vida era curta e o trabalho incessante.

As manhãs começavam com o cheiro acre do estrume espalhado nos campos e o barulho dos arados de madeira rangendo sob a força dos bois. Alessandro crescera nesse cenário, aprendendo desde cedo que os braços eram a única riqueza de um homem. O pai dizia que quem não tivesse força para a enxada não teria pão na mesa. Ele próprio conhecera os anos de fome, quando o milho apodreceu nas espigas e as famílias sobreviveram apenas com polenta rala e raízes arrancadas da beira do rio.

Na década de 1880, a Itália unificada parecia mais distante que nunca para aqueles camponeses. O novo governo aumentava impostos, cobrava o serviço militar obrigatório retirando braços fortes do campo e pouco ou nada oferecia em troca. O Vêneto, antes dominado pelos austríacos, era agora apenas uma província pouco industrializada, com falta de postos de trabalho remunerado, quase esquecida de um reino instável. Nas feiras de Verona, circulavam rumores de uma terra além-mar onde a vida recomeçava. O Brasil, diziam, abria as portas aos imigrantes, oferecendo terras férteis e liberdade. Os agentes de emigração percorriam as aldeias com panfletos coloridos e promessas sedutoras, descrevendo plantações infinitas de café e salários que pareciam sonhos.

Foi nessa atmosfera que Alessandro tomou sua decisão. Não fora um impulso, mas um acúmulo de desilusões. O campo já não alimentava a todos; a família se dividia entre parcelas de terra cada vez menores; e a juventude parecia escoar-se sem futuro. Olhava para os irmãos mais novos e sentia-se responsável por abrir um caminho, por arriscar-se em busca de algo que pudesse salvar o nome dos Bonora da miséria.

Os dias que antecederam a partida foram de despedidas dolorosas. Cada gesto, cada cheiro da aldeia se transformava em memória. O som das águas do Adige batendo contra as margens, o vento frio do inverno que varria os becos estreitos, o calor das procissões que reuniam toda a vila em torno da pequena igreja. Sabia que talvez nunca mais veria nada daquilo.

A mãe, de mãos calejadas, preparou-lhe uma sacola com pão duro, queijo curado e uma pequena estampa de Nossa Senhora. O pai, homem de poucas palavras, apenas lhe tocou o ombro, gesto que dizia mais do que qualquer bênção. Alessandro, ainda jovem, sentiu o peso da responsabilidade cair-lhe sobre as costas como um fardo inevitável. Não partia apenas por si, mas por todos os que ficavam.

Na madrugada fria de março de 1889, atravessou os quase 30Km da estrada de terra que ligava Roverchiara a Verona. O coração batia em ritmo apressado, dividido entre o medo do desconhecido e a esperança de um futuro melhor. Carregava um casaco gasto, algumas moedas costuradas na barra da calça e a convicção de que, do outro lado do oceano, haveria espaço para recomeçar.

Na estação ferroviária de Verona, encontrou outros homens como ele, vindos de aldeias vizinhas: jovens, mães com crianças pequenas, velhos que ainda acreditavam no milagre da emigração. Todos carregavam malas improvisadas, embrulhos de pano, sacolas cheias de pão e saudade. O trem de terceira classe, lento e abafado, os levou em direção a Gênova. Ali, diante do imenso porto, Alessandro viu pela primeira vez o navio que o arrancaria da Itália. Era uma montanha de ferro e madeira, cercada de gritos, mercadorias, choros e cantorias.

Enquanto embarcava, Alessandro voltou-se uma última vez para imaginar o campanário de Roverchiara tocando o sino das seis. Naquele instante, compreendeu que deixava para trás não apenas sua terra natal, mas também a própria infância. O navio soltou fumaça, o apito ecoou sobre as águas e a Itália começou a desaparecer atrás dele, reduzida a uma linha tênue no horizonte.

O destino chamava-o para longe. E, sem saber, Alessandro Bonora se lançava em uma travessia que mudaria sua vida para sempre.

Gênova e a Travessia

O porto de Gênova se apresentava como um mundo de sons e cheiros que Alessandro jamais imaginara. Barracas coloridas vendiam frutas e peixes, marinheiros gritavam ordens, cordas rangiam sob o peso das mercadorias, e barcos menores cruzavam o cais em um balé desordenado. Alessandro segurava firme sua sacola de pano, observando a multidão de homens, mulheres e crianças que, como ele, deixavam tudo para trás. Cada rosto contava uma história de fome, esperança e coragem.

Ao se aproximar do enorme navio que o levaria ao Brasil, seu coração bateu mais forte. Era uma montanha de ferro e madeira, negra como carvão, com janelas pequenas que pareciam olhos atentos ao mar. A fumaça saía da chaminé em cortinas espessas, misturando-se ao cheiro salgado da água e à madeira antiga do cais. Ele sentiu uma pontada de medo — não pela travessia, mas pelo desconhecido que o aguardava do outro lado.

Os dias que se seguiram à partida foram de adaptação e aprendizado. O navio era abarrotado; homens e mulheres dividiam o espaço como animais de curral, sem conforto, sem privacidade. Alessandro, que antes trabalhara apenas na terra, agora lutava contra enjôos provocados pelo balanço constante do mar e pelo cheiro forte de comida estragada que circulava entre os conveses inferiores. O sono era raro e interrompido pelo choro das crianças, pelas discussões e pelo ranger das madeiras sob a pressão das ondas.

Ele conheceu outros emigrantes que, como ele, carregavam histórias pesadas nas costas. Um jovem de Vicenza falava de uma irmã doente deixada para trás; uma mãe de Parma chorava pela filha pequena, embalada pela insegurança do futuro; um velho de Trento, curvado pelo tempo, parecia carregar todos os anos de Europa nas suas costas. Alessandro ouvia-os com atenção, e cada relato reforçava seu próprio sentimento: ele não estava sozinho, mas todos eram vulneráveis diante daquele oceano imenso.

As refeições eram escassas e frugais. Polenta rala, alguns pedaços de carne salgada, pão duro que se desfazia na boca. A água doce, limitada, era guardada como tesouro. Alessandro aprendeu a dividir, a observar e a respeitar o espaço do outro, pois naquele navio todos eram iguais na necessidade. Entre trabalhos simples — como carregar baldes de água e ajudar a limpar os conveses — e longos momentos de espera, o jovem refletia sobre Roverchiara: o cheiro da terra, o toque da mãe, o silêncio firme do pai. Cada memória o fortalecia, mas também lhe pesava no peito.

O mar, às vezes calmo, às vezes revolto, ensinou-lhe que o mundo era maior e mais imprevisível do que qualquer campo ou estrada de Verona. Tempestades chegavam sem aviso, e Alessandro via a fúria das ondas bater contra o casco do navio, levantando cortinas de água salgada que molhavam os passageiros. O medo se misturava à adrenalina; cada onda vencida era uma pequena vitória sobre si mesmo. A noite, entretanto, era quando a solidão se tornava mais profunda. Deitado em um pequeno leito de madeira, Alessandro olhava para o teto do convés e imaginava o céu estrelado sobre sua vila, sentindo a distância quase impossível de atravessar.

Apesar de tudo, havia momentos de esperança e união. Cantorias surgiam espontâneas nos conveses, histórias eram contadas em voz baixa e risos surgiam entre lágrimas. Alessandro percebeu que, embora cada um carregasse sua própria dor, todos compartilhavam o mesmo sonho: uma nova vida, uma oportunidade de começar de novo. Ele se sentia parte de algo maior, uma corrente de coragem que avançava pelo oceano.

Quando os primeiros sinais da costa brasileira surgiram, em forma de aves marinhas e o cheiro úmido de terra, um misto de cansaço, alívio e emoção invadiu Alessandro. Finalmente, depois de semanas de balanço, enjôos e noites sem dormir, o horizonte oferecia a promessa de novas terras. Ele não sabia o que encontraria, nem se as promessas dos agentes de imigração seriam verdadeiras. Mas sabia, com uma certeza profunda, que a viagem o transformara. Já não era apenas o jovem de Roverchiara; era um homem que havia atravessado o mundo, carregando em si a esperança e o peso da sua família.

E assim, enquanto o navio deslizava lentamente pelos últimos quilômetros até o porto de Santos, Alessandro Bonora se preparava para o segundo ato de sua vida: desembarcar em uma terra estranha e começar do zero.

Chegada ao Brasil

O navio finalmente aportou no porto de Santos, e o calor úmido do Brasil envolveu Alessandro como um manto desconhecido. O cheiro intenso do mar misturado ao suor, ao vapor das mercadorias e ao perfume de frutas tropicais fazia-lhe lembrar, com ironia, os dias frios de Roverchiara. Tudo era estranho: as vozes, a língua, os gestos e o ritmo acelerado da cidade portuária, onde marinheiros, trabalhadores e emigrantes se cruzavam em uma dança caótica de ordens e pressa.

Alessandro passou pelas formalidades da imigração, sentindo a burocracia como mais um obstáculo entre ele e a liberdade prometida. Havia filas longas, papéis a preencher, carimbos a receber — cada movimento exigia paciência e atenção. Ele soube de outros homens que recebiam ordens, ajudavam familiares e tentavam organizar remessas de dinheiro para os que ficavam na Itália. Nas cartas que esses emigrantes escreviam, lia-se a mesma angústia que sentia: o medo da doença, a distância da família e a necessidade de sobreviver em terra estranha.

As horas de espera e o calor escaldante testavam sua resistência. Alessandro sentia-se exausto, com a mente a correr entre a lembrança da mãe e do pai, a saudade da irmã e o peso da responsabilidade sobre os irmãos mais novos. Como Giuseppe, ele sabia que cada decisão tomada naquele instante poderia mudar não apenas sua vida, mas a de todos que esperavam notícias na Itália. Cada moeda, cada palavra, cada gesto de cuidado tinha valor imensurável.

Ao finalmente deixar o porto, o trem que o levaria ao interior da província de São Paulo se transformou em um novo tipo de viagem, cheia de paisagens inesperadas: rios largos, matas densas, terras férteis e, ao longe, a promessa de fazendas de café. Alessandro observava tudo com olhos atentos, tentando memorizar cada detalhe, imaginando como poderia transformar aquele mundo em seu novo lar.

Chegando à colônia destinada aos imigrantes, encontrou famílias em condições semelhantes: jovens como ele, mães com filhos pequenos, idosos carregados de saudade. A adaptação começou imediatamente. Ele trabalhou nos primeiros dias sob sol intenso, carregando pedras, limpando terrenos e preparando pequenas moradas provisórias. A vida exigia força física, resistência e inteligência emocional; não havia tempo para desânimo. A necessidade de enviar algum alívio financeiro à família na Itália transformava cada esforço em urgência, cada gota de suor em promessa cumprida.

À noite, Alessandro escrevia cartas imaginárias, assim como muitos antes já haviam feito, pensando em como transmitir notícias de saúde, segurança e esperança aos parentes. Ele tentava, mesmo à distância, confortar o coração de quem permanecia em Verona, consciente de que cada linha escrita era um elo invisível entre mundos distantes. O Brasil, embora belo e vasto, ainda era uma terra de desafios e incertezas. Mas, pela primeira vez desde que deixara Roverchiara, Alessandro sentiu que estava construindo algo próprio, um caminho que, apesar das dificuldades, poderia garantir um futuro digno para ele e para sua família.

E, entre o cansaço e a ansiedade, ele percebeu que a verdadeira travessia não havia sido apenas pelo mar, mas pela coragem de enfrentar o desconhecido, de se reinventar e de carregar nas costas o peso da esperança de toda uma família.

A Colônia e o Trabalho

O primeiro contato com a colônia foi marcado por uma sensação de isolamento. A mata fechada, densa e úmida, parecia engolir os recém-chegados, como se quisesse provar-lhes que a vida ali não seria um presente fácil, mas um combate diário. Alessandro desceu do trem que o trouxera da porto e sentiu o chão irregular, coberto de raízes e pedras. Não havia mais os campos ordenados de Roverchiara, nem os sinos da igreja marcando as horas. Naquele silêncio profundo da mata, apenas o canto dos pássaros e o eco distante dos machados lembravam que homens lutavam para abrir espaço em meio à vastidão verde.

As primeiras semanas foram de trabalho incessante. A cada manhã, Alessandro se juntava aos outros colonos para derrubar árvores gigantescas, cortar troncos pesados e carregar toras que pareciam não ter fim. O suor escorria-lhe pelo rosto e a camisa se encharcava rapidamente sob o calor sufocante do Brasil. As mãos, acostumadas à enxada leve e ao arado puxado por bois, agora se enchiam de calos e cortes. Cada músculo reclamava em dor, mas ele continuava, movido por uma força que vinha não só da juventude, mas da responsabilidade que carregava em nome de sua família distante.

As moradias improvisadas eram pequenas cabanas de madeira, cobertas com folhas de palmeira ou telhas mal alinhadas. Dentro, o chão de terra batida servia de cama para os que ainda não tinham conseguido improvisar móveis. Alessandro dividia o espaço com outros jovens, cada um trazendo no olhar a mesma mistura de medo e esperança. À noite, os corpos exaustos repousavam em silêncio, interrompido apenas pelo choro de crianças ou pela tosse seca de algum velho debilitado pela viagem.

A carta do emigrante Giacomo Masuetto circulava de mão em mão entre os colonos, como um testemunho vivo do que todos enfrentavam. Alessandro a ouviu lida em voz alta certa noite, sob a luz bruxuleante de uma lamparina. As palavras de dor e de súplica encontraram eco em seu coração: falava-se de enfermidades contraídas logo após a migração, da visão enfraquecida, das pernas castigadas, das dificuldades em sustentar a família. Mas também havia ali uma mensagem de fé, de confiança nos filhos e irmãos que deveriam unir forças para sobreviver. Alessandro fechou os olhos e viu o rosto do próprio pai, que poderia muito bem ter escrito aquelas linhas. Sentiu-se chamado, mais uma vez, à responsabilidade de não fraquejar.

O trabalho no forno da colônia foi outra experiência marcante. Alessandro ajudava a queimar toras e a reparar fornalhas, sentindo o calor intenso que o consumia de dentro para fora. As roupas se encharcavam de suor, o corpo clamava por descanso, mas a mente repetia que cada dia de esforço era um passo em direção a uma vida mais digna. Muitos adoeciam — febres tropicais, feridas infeccionadas, fraqueza causada pela alimentação pobre —, e o jovem compreendeu que a sobrevivência não dependia apenas da força do braço, mas também da solidariedade entre os companheiros.

As refeições eram modestas, lembrando-lhe os tempos de fome na Itália. Feijão grosso, arroz empapado, farinha de mandioca, às vezes um pedaço de carne seca. Mesmo assim, Alessandro agradecia em silêncio, pois sabia que em Roverchiara muitos ainda passavam fome, sem sequer uma promessa de futuro. No coração, crescia-lhe a convicção de que cada gota de suor deveria transformar-se em carta, em notícia enviada para longe, garantindo aos que ficaram que o sacrifício não era em vão.

Com o tempo, o mato derrubado começou a dar lugar a pequenos roçados. Os colonos plantaram milho, feijão e mandioca, abrindo clareiras onde antes apenas a floresta dominava. Alessandro olhava para aquele solo vermelho, úmido e fértil, e se perguntava se realmente seria capaz de criar raízes ali, tão distante do campanário de Roverchiara. A saudade ainda pesava, mas a vida não lhe dava escolha: era preciso resistir, trabalhar, acreditar.

Foi nesse período que Alessandro descobriu um novo tipo de fé. Não a fé do sino da igreja, mas a fé silenciosa, nascida da luta diária, da mão estendida de um vizinho, da coragem de recomeçar a cada manhã. O Brasil não lhe entregara as promessas fáceis dos panfletos, mas lhe mostrava que, apesar da dor, havia espaço para construir algo duradouro.

E assim, entre o machado e a enxada, entre cartas lidas à luz da lamparina e a lembrança de um pai distante, Alessandro Bonora se transformava. Já não era apenas o jovem que partira de Roverchiara em busca de esperança. Era agora colono, trabalhador e testemunha viva de que a migração não era uma viagem, mas uma batalha cotidiana, onde cada dia vencido era um triunfo silencioso sobre a adversidade. 

Nota do Autor

A história que o leitor tem em mãos nasceu da memória preservada pelos descendentes de Alessandro Bonora, que com ele conviveram e guardaram suas lembranças como um legado precioso. Cada episódio aqui narrado foi transmitido ao longo das gerações, em conversas de família, em cartas antigas e em relatos que resistiram ao tempo. Por respeito e para preservar a intimidade daqueles que viveram tais acontecimentos, os nomes foram alterados. Contudo, a essência permanece intacta: a coragem, a dor da partida, a dureza da travessia e a esperança depositada na nova terra.
Este trecho faz parte de um trabalho mais amplo, um livro escrito sob o mesmo título, cuja intenção maior é valorizar a memória dos pioneiros que, como Alessandro, cruzaram o oceano para construir com suor e sacrifício a base de uma nova vida. Mais do que personagens, são símbolos de uma herança que nos define e nos acompanha.

Dr. Piazzetta



sábado, 14 de março de 2026

100 Sobrenomes Italianos Mais Comuns no Brasil - Descubra se o Seu Está na Lista e a História das Famílias de Origem Italiana

 


100 Sobrenomes Italianos Mais Comuns no Brasil - Descubra se o Seu Está na Lista e a História das Famílias de Origem Italiana


A presença de sobrenomes italianos no Brasil está diretamente ligada ao grande movimento migratório que ocorreu entre a segunda metade do século XIX e as primeiras décadas do século XX. Nesse período, mais de um milhão de italianos emigraram para o país, principalmente provenientes das regiões do VênetoLombardiaTrentinoFriuliEmília-Romanha e Piemonte.

Grande parte desses imigrantes estabeleceu-se inicialmente nas fazendas de café do Sudeste — especialmente em São Paulo e Espírito Santo — enquanto outros foram direcionados para colônias agrícolas organizadas no Sul do Brasil, como no Rio Grande do SulSanta Catarina e Paraná. Com o passar das gerações, seus sobrenomes tornaram-se parte integrante da identidade cultural brasileira.

Esses nomes de família possuem origens variadas. Muitos derivam de nomes próprios medievais (patronímicos), outros estão ligados a profissões tradicionais, a características físicas ou morais, ou ainda ao local de origem da família na Itália. A difusão desses sobrenomes no Brasil reflete a diversidade regional da imigração italiana e a ampla integração desses grupos na sociedade brasileira.

Hoje, milhões de brasileiros descendem desses imigrantes e carregam sobrenomes que remontam às aldeias, cidades e campos do norte da Itália. A seguir apresenta-se uma lista de cem sobrenomes italianos bastante frequentes no Brasil, muitos deles particularmente comuns nas regiões colonizadas por imigrantes italianos.


Lista dos 100 Sobrenomes Italianos Mais Comuns no Brasil

Amato, Barbieri, Basile, Basso, Bellini, Belli, Benetti, Bernardi, Berti, Bianco, Bianchi, Bortolini, Bortoluzzi, Bruno, Caputo, Carbone, Caruso, Catalano, Cattani, Colombo, Conti, Coppola, Costa, Dal Molin, De Angelis, De Luca, De Rosa, De Santis, Donati, D’Amico, Esposito, Fabbri, Farina, Ferrari, Ferrara, Ferri, Fiore, Fontana, Furlan, Gallo, Gatti, Gentile, Giordano, Grassi, Grillo, Greco, Guerra, Leone, Lombardi, Lombardo, Longo, Mancini, Mariani, Marchetti, Marino, Marini, Martino, Martinelli, Mazza, Messina, Milani, Monti, Moretti, Negri, Orlando, Pagani, Palumbo, Parisi, Pasin, Pavan, Pellegrini, Pellegrino, Piras, Pizzato, Ricci, Rinaldi, Rinaldo, Riva, Rizzo, Romano, Rossetti, Rossi, Ruggiero, Russo, Sala, Santini, Santoro, Santi, Serra, Silvestri, Testa, Tonin, Trevisan, Valentini, Villa, Vitale, Zanetti, Zanon.

Nota Historiográfica do Autor

A difusão de sobrenomes italianos no Brasil está diretamente ligada ao grande fluxo migratório proveniente da Itália entre as décadas finais do século XIX e as primeiras décadas do século XX. Nesse período, o Brasil tornou-se um dos principais destinos da emigração italiana, recebendo centenas de milhares de famílias oriundas sobretudo das regiões do Vêneto, Lombardia, Trentino, Friuli, Piemonte e Emília-Romanha.
Esses imigrantes trouxeram consigo não apenas seus costumes, dialetos e tradições culturais, mas também seus sobrenomes, que muitas vezes remontavam à Idade Média. Na Itália, a consolidação dos sobrenomes hereditários ocorreu gradualmente entre os séculos XIII e XVI, quando o crescimento das cidades e a organização administrativa passaram a exigir formas mais precisas de identificação das pessoas. Assim, muitos sobrenomes surgiram a partir de nomes próprios, profissões, características físicas ou morais e lugares de origem.
Com a imigração para o Brasil, esses sobrenomes foram preservados e transmitidos ao longo das gerações, tornando-se hoje parte integrante da identidade de milhões de brasileiros descendentes de italianos. Em alguns casos ocorreram adaptações ortográficas ou simplificações na grafia, decorrentes do contato com a língua portuguesa ou de registros realizados por autoridades locais.
O estudo desses sobrenomes permite compreender não apenas as origens familiares, mas também os caminhos históricos da imigração italiana e sua profunda contribuição para a formação cultural e social do Brasil.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta


domingo, 8 de fevereiro de 2026

A Vida de Domenico Laganà na Argentina

 


A Vida de Domenico Laganà na Argentina

A Terra da Miséria e o Sonho da América

Quando Domenico Laganà deixou a pequena localidade de Spadola, no comune de Vibo Valentia, a vida parecia se fechar sobre ele como as paredes de pedra de sua aldeia onde soprava o vento forte do Tirreno. A pobreza esmagava sua família com a mesma constância das colheitas magras. Na Calábria dos últimos anos do século XIX, a vida dos camponeses estava encurralada entre latifúndios improdutivos controlados por proprietários ausentes e o peso insuportável dos impostos, como a taxa sobre a moagem do pão e o sal, que reduzia ainda mais o pouco que se tinha. A fome se repetia em ciclos, agravada por secas, pragas e pela filoxera que devastava as vinhas, privando aldeias inteiras de uma das poucas fontes de sustento. A malária e a cólera corriam pelos povoados, e a mortalidade infantil ceifava gerações antes mesmo que alcançassem a juventude. A unificação da Itália, celebrada em Turim e Roma, deixara na Calábria apenas soldados para reprimir o brigantaggio e cobradores de tributos, sem trazer estradas, escolas ou indústrias. Era uma terra sem futuro, onde diaristas se vendiam por salários de miséria e onde até a esperança parecia ter sido arrancada pelas raízes. Nesse cenário devastador, a promessa da América — tão distante e envolta em incertezas — erguia-se como a única possibilidade de fuga.

Embarcou no navio a vapor Poitou no porto de Napoli com pouco mais do que a roupa do corpo e uma fé que precisava ser maior do que o medo.

A travessia foi longa e cruel, marcada pela fome e pelo enjoo do mar revolto. Mas nada poderia prepará-lo para a realidade que encontrou em território argentino. O país que lhe haviam pintado como um paraíso de trabalho e fartura mostrou-se uma terra dura, onde a sobrevivência era tão difícil quanto na Itália. Logo percebeu que a América não era o sonho de prosperidade, mas uma extensão ampliada das mesmas lutas que havia deixado para trás.

A carne era escassa, o pão mais ainda, e até a polenta que alimentara sua infância tornou-se artigo raro. Nos campos, a vida se resumia a enfrentar animais selvagens e o calor sufocante que castigava os recém-chegados. Domenico, que havia se nutrido da esperança de que dois dias de trabalho na Argentina renderiam tanto quanto dois meses na Calábria, descobriu a amarga verdade: a jornada era interminável, e o pagamento, miserável.

As cartas que enviava para a família em Spadola tornaram-se um misto de alívio e de desespero. Queria que soubessem que estava vivo, mas não podia esconder a dor. Cada palavra carregava o peso de sua decepção, mas também a necessidade de manter acesa uma chama de esperança para aqueles que haviam ficado. Sabia que seus irmãos, primos e pais esperavam por notícias de prosperidade, e isso o feria mais do que a fome.

Aos domingos, quando os sinos das igrejas chamavam para a missa, Domenico calculava as poucas moedas que conseguira juntar. Um dia, após semanas de trabalho árduo, somou apenas vinte e cinco francos. Era tudo o que tinha para enfrentar um mês inteiro de privações. Ao escrever, pedia que a família aceitasse sua sorte com resignação, porque não havia retorno possível. A travessia de volta era cara demais e o orgulho de admitir o fracasso o esmagava ainda mais do que a fome.

Nas noites, sonhava com os montes da Calábria, com o ar salgado do Tirreno, com o cheiro da polenta sobre o fogo, com o aroma condimentado da comida picante que sua mãe preparava. Sonhava também com as vozes dos irmãos que ficaram, imaginando-os perguntando quando finalmente voltaria. Mas a cada amanhecer sabia que esse retorno jamais aconteceria. O destino havia selado seu caminho, e a Argentina seria sua prisão e sua última morada.

Escrevia, por fim, não para confortar, mas para advertir. Implorava aos irmãos que não viessem, que não se deixassem enganar pelas promessas dos recrutadores. A Argentina não era a terra de abundância. Era apenas um lugar onde italianos pobres se transformavam em trabalhadores invisíveis, esquecidos pelos dois mundos.

E assim, sob o sol impiedoso da planície argentina, Domenico Laganà, filho de Spadola, moldava com sofrimento e resignação a história que jamais seria contada nos livros, mas que ecoaria nas cartas guardadas em baús de família. Cada linha, escrita com suor e lágrimas, tornava-se um testemunho silencioso de uma geração que acreditou no sonho da América e encontrou apenas a dureza da sobrevivência.

Nota do Autor

Esta narrativa nasceu a partir de uma carta escrita por um emigrante de Spadola, na Calábria, no final do século XIX, quando milhares de italianos cruzaram o oceano em busca de uma vida melhor na Argentina. Naquela carta, repleta de dor e resignação, um homem relatava à família os sofrimentos de sua nova vida: a fome, a escassez, a solidão e a dura constatação de que a América não era a terra de abundância prometida, mas um prolongamento das dificuldades que já conhecia em sua terra natal. Os nomes foram modificados, assim como alguns detalhes da narrativa, para preservar a intimidade dos descendentes e para dar forma literária ao testemunho. Contudo, o núcleo da história permanece fiel às palavras que ecoaram naquela carta: a luta de um emigrante anônimo que, ao tentar construir um futuro, encontrou apenas mais trabalho, mais sacrifício e mais distância daquilo que amava.

Escrever esta história é uma homenagem a todos os calabreses que deixaram aldeias como Spadola, acreditando em promessas que quase nunca se cumpriram. São vidas que desapareceram no anonimato dos campos e das fazendas argentinas, mas que, através de cartas e memórias, ainda podem ser lembradas.

Que este relato sirva não apenas como memória, mas também como reconhecimento da coragem e da dor daqueles que, com sacrifício pessoal incalculável, ajudaram a moldar a Argentina e deixaram uma marca indelével na história da imigração italiana.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta 



sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

A imigração italiana no Brasil as causas, origens e contribuições


A Imigração Italiana no Brasil as Causas, Origens e Contribuições


No estudo da imigração italiana no Brasil, as primeiras questões que naturalmente se impõem dizem respeito às razões que levaram o Estado brasileiro a receber um contingente tão expressivo de imigrantes italianos, às contribuições sociais, econômicas e culturais desse grupo e às regiões de origem desses homens e mulheres que atravessaram o Atlântico rumo a um país distante e desconhecido.

Desde os primórdios da colonização portuguesa, a escassez de mão de obra constituiu um dos principais entraves ao aproveitamento econômico do território brasileiro. Na mentalidade vigente entre os séculos XVI e XIX, o trabalho manual e extenuante não era atribuído às elites nem às camadas abastadas da sociedade. O labor braçal era considerado indigno dos “bem-nascidos” e, por isso, relegado às camadas mais pobres ou, sobretudo, aos escravizados, que se tornaram a base do sistema produtivo colonial.

O Brasil colonial possuía vastíssimas reservas naturais altamente valorizadas no mercado europeu, como o pau-brasil, além de importantes jazidas minerais, notadamente ouro e diamantes, exploradas intensamente a partir do século XVIII. Para garantir a extração dessas riquezas e a expansão da economia agroexportadora, a Coroa portuguesa recorreu de forma sistemática ao tráfico transatlântico de africanos escravizados, prática que marcou profundamente a formação econômica e social do país.

Durante mais de três séculos, foi o trabalho forçado dos escravizados que sustentou a exploração das florestas, a mineração, as plantações de cana-de-açúcar e, posteriormente, a pecuária no sul do território. A partir da década de 1840, contudo, o café passou a ocupar posição central na economia brasileira, superando o açúcar como principal produto de exportação. Grandes fazendas cafeeiras se consolidaram especialmente nas províncias de São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo, controladas por poderosas famílias de origem luso-brasileira, os chamados barões do café.

O cultivo e a colheita do café continuaram dependentes da mão de obra escravizada, cuja importação aumentou de forma significativa até meados do século XIX. Entretanto, o cenário internacional passava por profundas transformações. A Inglaterra, então principal potência econômica e naval do mundo, já havia iniciado seu processo de industrialização e passou a combater ativamente o tráfico negreiro, impondo sanções aos países que mantinham o regime escravista. Navios negreiros eram interceptados em alto-mar, o que encareceu drasticamente o preço dos escravos e colocou em crise o sistema de trabalho vigente no Brasil.

Internamente, intensificaram-se os debates políticos em torno da escravidão. Uma série de leis graduais — como a Lei Eusébio de Queirós (1850), a Lei do Ventre Livre (1871) e a Lei dos Sexagenários (1885) — enfraqueceu progressivamente o regime escravista, culminando na Lei Áurea, promulgada em 13 de maio de 1888, que aboliu definitivamente a escravidão no país após mais de trezentos anos.

A abolição representou um choque profundo para uma economia totalmente dependente da mão de obra escrava. Os libertos, em sua maioria, recusavam-se a continuar trabalhando nas mesmas condições para seus antigos senhores. Antecipando essa crise, os grandes proprietários rurais e o próprio Estado imperial passaram a buscar alternativas no exterior para suprir a demanda por trabalhadores agrícolas.

A política imigratória brasileira foi fortemente marcada por critérios raciais, culturais e religiosos. O governo priorizou a entrada de imigrantes europeus, considerados “civilizados”, brancos e cristãos, vistos como mais “aptos” ao trabalho disciplinado e também como instrumentos de ocupação territorial e de “branqueamento” da população — ideologia amplamente difundida entre as elites do período.

Inicialmente, a imigração alemã foi incentivada, sobretudo no Sul do Brasil. Contudo, essa experiência gerou resistências por parte das elites agrárias, que consideravam os alemães pouco submissos, excessivamente apegados à sua língua e às suas tradições, formando comunidades fechadas. Diante disso, o foco deslocou-se para a Itália recém-unificada, país que atravessava profundas crises econômicas, sociais e demográficas. A pobreza rural, a fragmentação da propriedade, o desemprego e a fome empurraram milhões de italianos à emigração.

Os italianos — especialmente os provenientes do Vêneto, Lombardia, Piemonte e Trentino — eram vistos como trabalhadores ideais: camponeses habituados ao trabalho duro, católicos e considerados obedientes. Além disso, sua presença atenderia aos interesses estratégicos do Estado brasileiro na ocupação das regiões meridionais e no reforço da população branca.

A partir de 1875, o governo brasileiro passou a oferecer incentivos diretos à imigração, incluindo passagem gratuita, transporte interno, concessão de lotes de terra e apoio inicial à instalação. Para os camponeses italianos, acostumados à condição de meeiros ou jornaleiros, a promessa de se tornarem proprietários representava a realização de um sonho secular. Muitos assinaram contratos sem pleno conhecimento de suas cláusulas, comprometendo-se a ir para onde o governo determinasse — seja para as colônias agrícolas do Sul, seja para as grandes fazendas de café do Sudeste.

Nas colônias do Rio Grande do Sul, posteriormente em Santa Catarina e Paraná, os imigrantes encontraram extensas áreas de mata virgem, sem infraestrutura, estradas ou serviços básicos. A fauna e a flora eram desconhecidas e, muitas vezes, assustadoras. Apesar das adversidades, o clima mais próximo ao europeu e o isolamento favoreceram a preservação da língua, da religiosidade e dos costumes regionais, permitindo a recriação de comunidades profundamente marcadas pela cultura italiana.

Os lotes, geralmente entre 25 e 60 hectares, eram concedidos às famílias mediante pagamento parcelado. Os colonos recebiam ferramentas, sementes e subsídios iniciais, que deveriam ser reembolsados posteriormente. Cabia a eles desmatar, construir moradias, abrir caminhos e garantir a sobrevivência da família em condições extremamente precárias. A ausência de escolas, igrejas e assistência médica tornava a vida ainda mais difícil. Ainda assim, muitos conseguiram prosperar, dando origem a cidades prósperas e economicamente dinâmicas.

Situação distinta enfrentaram os italianos destinados às fazendas de café. Submetidos a contratos rígidos, ao sistema de endividamento e ao controle absoluto dos proprietários, viviam frequentemente em condições análogas à servidão. Violências físicas, morais e até sexuais eram recorrentes. A mobilidade era limitada, e a assistência social praticamente inexistente. A fuga das fazendas tornou-se uma forma comum de resistência, levando muitos imigrantes a migrar para centros urbanos ou mesmo a retornar à Itália.

Entre 1887 e 1902, a imigração italiana atingiu seu auge: cerca de um milhão de italianos ingressaram no Brasil, representando aproximadamente 60% de todos os imigrantes estrangeiros do período. O Brasil ocupava então o terceiro lugar entre os destinos da emigração italiana, atrás apenas dos Estados Unidos e da Argentina.

Em 1902, o governo italiano proibiu a emigração subsidiada para o Brasil, após denúncias sobre as condições degradantes enfrentadas pelos trabalhadores nas fazendas cafeeiras, comparados a “escravos brancos”. A crise de superprodução do café e a queda dos preços internacionais agravaram ainda mais esse cenário. Nas décadas seguintes, os fluxos migratórios diminuíram, retomando-se de forma moderada apenas após 1946, com um perfil mais qualificado de imigrantes.

Até 1915, predominou a imigração rural, familiar e majoritariamente analfabeta. A partir dos anos 1920 e, sobretudo, no pós-Segunda Guerra Mundial, cresceram os contingentes de artesãos, operários especializados e técnicos, acompanhando o processo de industrialização brasileira.

As origens regionais também variaram ao longo do tempo: inicialmente prevaleceram os imigrantes do Norte da Itália; a partir do final do século XIX, aumentou significativamente a participação de italianos do Sul, especialmente da Campânia, Calábria e Abruzzo.

Cada uma dessas comunidades recriou no Brasil um fragmento da Itália, preservando dialetos, tradições religiosas, festas, hábitos alimentares e formas de sociabilidade. Apesar das dificuldades, humilhações e conflitos, é inegável que os imigrantes italianos desempenharam papel fundamental na modernização da economia, na formação do campesinato livre, na urbanização e na construção da identidade cultural brasileira.

Nota do Autor

O presente texto constitui uma abordagem histórica de caráter interpretativo, fundamentada em bibliografia especializada, registros documentais e estudos consolidados sobre o processo de imigração italiana no Brasil. Sem pretensão de esgotar a complexidade do tema, o trabalho busca oferecer uma síntese contextualizada, articulando causas, origens regionais e principais contribuições dos imigrantes italianos à formação social, econômica e cultural brasileira. Trata-se, portanto, de um texto de divulgação histórica qualificada, voltado à preservação da memória, à reflexão crítica e à valorização do legado deixado por esse importante fluxo migratório.

Dr. Luiz Carlos B. Piazzetta



domingo, 18 de junho de 2023

Legados de Honra: Os Sobrenomes que Marcaram os Imigrantes Italianos nas Colônias do Rio Grande do Sul




Sobrenomes de Imigrantes Italianos Pioneiros nas  Colônias Dona Isabel e Conde d’Eu 

 Esta lista pode não estar completa faltando algum sobrenome



Accorsi, Adami, Adamoli, Agazzi, Agliatti, Agnoletto, Agostini, Alberici, Alberti, Alberti, Allegretti, Ambrosi, Anadro, Andreola, Andriollo, Arbusti, Arioli, Ariotti, Arisi, Arigoni, Arsego, Asolini, Astolfi, Attuatti, Azzulari, Bacin, Bagattini,Baiocco, Balbinot, Baldasso, Baldi, Baldin, Ballarini, Ballestrelli, Ballin, Balzan, Bandino, Barater, Baratto, Barbieri, Barni, Baron, Barrichello, Bartolozzi, Baruffi,Baseggio, Basei, Basiggio, Bassani, Bassi, Basso, Battistuzzi, Bau, Bavaresco, Beal, Beduschi, Belatto, Bellaboni, Bellaver, Bellini, Bellotti, Belluzzo, Benedusi, Benvenutti, Bergamaschi, Bernard, Bernardi, Bernardon, Bersaghi, Berselli, Bertani, Berti, Berticelli, Bertoldi, Bertolini, Bertoncello, Bertuol, Bettinelli, Betto, Bez, Biacchi, Bianchetti, Bianchi, Biasibetti, Biasion, Biazus, Bissolotti, Bocca, Bocchi, Bonacina, Bonassi, Bonato, Bonatti, Bonazzi, Bonet, Bonetti, Bonfanti, Bonini, Boninsegna, Borcioni, Bordignon, Bordini, Bortolaz, Bortolini, Bortolozzi, Bos, Bottesini, Bovo, Bozzetto, Brancher, Branchi, Breda, Brignoni, Brochi, Brugalli, Bruschi, Bussinello, Cadore, Cagliari, Calcagnoto, Caldart, Callevi, Camello, Camera, Camillo, Campagnoni, Campio, Campiol, Cannini, Canova, Capelletto, Capellini, Cappellari, Cappi, Carli, Carlotto, Carnacini, Carniel, Carraro, Casagrande, Casellani, Cassol, Castaldo, Castelli, Cattani, Cattuzzo, Cauduro, Cavagnoli, Cavalet, Cavallari, Cè, Cecconello, Cecconi, Ceratti, Ceresa, Ceresoli, Cerini, Cesca, Checchi, Chiapperin, Chiarellotto, Chies, Chiesa, Chiossi, Chittò, Cignacchi, Cipriandi, Cobalchini, Colazioli, Colbacchini, Collonna, Colnaghi, Colombelli, Colussi, Comarella, Comin, Cominetti, Compagnoni, Comunello, Concatto, Conci, Concli, Conti, Conz, Conzatti, Corbellini, Cortesi, Coser, Costa, Crestani, Cristofori, Cunco, Cusin, Cutti, D’agostini, D’Ambrosi, D’Arrigo, Da Cas, Da Riva, Da Roit, Dadalt, Dal Dosso, Dal Pissol, Dal Piva, Dal Ponte, Dal Zocchio, Dalcorso, Dall’Acqua, Dalla Valle, Dallago, Dallavecchia, Dalle Laste, Dalle Laste, Dalmagro, Dalmolin, Dalri, Damin, Darè, Dartora, Datta, Davoglio, De Boni, De Conto, De Gaspari, De Grossi, De Lucca, De Marchi, De Mari, De Paris, De Rossi, De Venz, De Venzo, De Zan, Debastiani, Debona, Decarli, Decesero, Decesero, Degaspari, Degeroni,Deitos, Del Pizzol, Del Sassi, Delani, Della Libera, Dellai, Demarchi, Denardi, Denardi, Denicolò, Destri, Di Pomo, Dissegna, Ditòs, Do Campo, Dolfini, Dolmina, Domenegatto, Donada, Donadel, Donatti, Donatti, Dondoni, Dondoni, Dorigatti, Enos, Fabbian, Fabbrin, Fabbrizio, Faccio, Facciocchi, Faes, Faggion, Fantin, Fardo, Farina, Fascicolo, Fasolo, Favero, Fazzioni, Fedirizzi, Felice, Ferla, Ferrareto, Ferrari, Ferrarini, Ferretti, Ficcagni, Fin, Fiorentin, Fiornentin, Fiorot, Fistarol, Fittarelli, Floriani, Folgatti, Folle, Fonini, Fontana, Fontanella, Forestieri, Franceschet, Franceschini, Francio, Franciosi, Franzoloso, Frare, Frasnelli, Frittoli, Frizzo, Fronza, Frosi, Fucina, Fumegalli, Gabardo, Galli, Gallina, Gallon, Gambin, Garbuio, Gasparin, Gatti, Gazzola, Genacini, General, General, Gerelli, Germani, Gheller, Ghilardi, Ghisi, Giacomel, Giacometti, Giacometto, Gianello, Gianlupi, Gilberti, Giongo, Giordani, Girardi, Giroletti, Giron, Girotto, Gobbi, Goldoni, Goldoni, Grando, Grapiglia, Grasselli, Graziani, Graziola, Gregoletto, Grespan, Grolli, Guarani, Guarnieri, Ioppi, Iora, Ioriatti, Isatton, Jaconi, Lamonato, Lanfranchi, Lanfredi, Lanzini, Larentis, Lazaron, Lazzari, Lazzarini, Lazzarotto, Locatelli, Loncin, Longhi, Longo, Lorenzi, Lorenzon, Lot, Lotti, Lottici, Lucini, Lurni, Luzzana, Maccali, Maccari, Maddalozzo, Maestri, Magagnin, Maggioni, Mainardo, Malabarba, Malacarne, Malvezzi, Mandelli, Manfroi, Manica, Mantovani, Manzoni, Marca, Marchetto, Marchiori, Mariani, Marin, Marini, Mariuzza, Martinbianco, Martinelli, Martini, Martini, Masetto, Masiero, Massarola, Mattevi, Mattia, Mazzolen, Mazzoleni, Mazzolini, Mazzotti, Meggiolaro, Membri, Meneghetti, Menegotto, Menin, Merigo, Merina, Merlo, Mersani, Michelli, Michelon, Migotto, Milan, Milanesi, Mincio, Mion, Miorelli, Misturini, Mocelin, Molin, Mombelli, Monetta, Montanari, Montemaggiore, Montepò, Moragini, Morandi, Morè, Morelatto, Moresco, Moretto, Moro, Moroni, Morosini, Moroso, Moschetta, Mosena, Nicoletti, Nicolini, Noal, Notari, Oldoni,Oliva, Olivier, Ongarato, Oselame, Padoan, Padovan, Padovani, Paese, Paganelli, Pagani, Paggi, Pagliarini, Pagnoncelli, Pagot, Pallaoro, Paloschi, Palozzi, Pasa, Pasini, Pasqualotto, Pastorio, Patuzzi, Pavesi, Pazinato, Pedersetti, Pedersini, Pedot, Pedrini, Pedrollo, Pelicioli, Perico, Periolo, Perotto, Persici, Pertile, Petralli, Petrolli, Pezzenti, Piacentini, Piaia, Piana, Pianta, Piazetta, Piazza, Piccetti, Piccin, Piccoli, Pierdonà, Pietà, Pietrobon, Pigato, Pilati, Pina, Pintarelli, Pinzetta, Piovesan, Pizzamiglio, Pizzato, Pizzetti, Pizzi, Poggi, Polacchini, Polita, Poloni, Pomo, Ponzoni, Posoco, Possagnolo, Possebon, Prandini, Preamor, Presenti, Pretto, Provenzi, Putrich, Quagliotto, Rabaioli, Radavelli, Raffaeli, Raimondi, Rama, Rampanelli, Rampazzo, Ravaglio, Reduschi, Refatti, Regalle, Reginato, Regla, Remonti, Resemini, Riboldi, Rigon, Rinaldi, Riva, Rizzardi, Rizzo, Rocco, Roman, Rossato, Rosset, Rossetti, Rossi, Rossini, Rossoni, Rostirolla, Rotta, Roveda, Roversi, Rubbo, Sabbadini, Sabini, Sacchet, Salami, Salton, Salvador, Salvadoretti, Salvadori, Salvi, Sandri, Sanpine, Santin, Santini, Santolin, Saretto, Saroglia, Saroglio, Sartor, Sartori, Savi, Sbaraini, Sbruzzi, Scappini, Scarpini, Schiavini, Schizzi, Sciessere, Scolaro, Scomason, Scotta, Scudella, Sebben, Secchi, Segabinazzi, Sentenari, Serafini, Servat, Severgnini, Severgnini, Sfoggia, Signore, Silvestri, Simon, Simonetti, Soldi, Somacal, Somensi, Sonaglio, Soncini, Sonza, Soresina, Sorzi, Spada, Spader, Spagnoli, Spaldini, Sperotto, Spiazzi, Splendore, Stanga, Stefanon, Sterzi, Storti, Strapazzon, Stringhi, Stringo, Tabalti, Tagliaro, Tartaro, Tarter, Tarzo, Tasca, Tecchio, Tempesta, Tenasio, Teo, Tesoro, Tessaro, Tesser, Tochetin, Todero, Todeschini, Todesco, Toffoli, Toldo,Tomasi, Tomasini, Tombini, Tomè, Tommasel, Tommasini, Tondo, Tonetto, Toniazzi, Tonidandel, Toniolo, Tonni, Tortora, Tosi, Tosin, Trabucco, Tramarin, Tramontina, Traversin, Travi, Tremmea, Tresoldi, Trevisan, Trevisol, Trintinaglia, Troian, Trois, Trombetta, Trombini, Trucolo, Turcato, Turiani, Vailati, Valcarenghi, Valduga, Valerio, Valesani, Valiatti, Valmorbida, Vanni, Vanti, Varnier, Vazzoler, Ventura, Venturella, Venturi, Venturini, Versetti, Vettoretti, Vian, Vicini, Vigo, Vigolo, Villani, Zabot, Zaccagnini, Zago, Zagonel, Zambon, Zanatta, Zanchet, Zanchettin, Zandonà, Zandonai, Zanetti, Zangrande, Zanin, Zanolla, Zanon, Zanoni, Zanotelli, Zanotto, Zanuso, Zeni, Ziani, Zibetti, Zilli, Zoppas, Zorer, Zottis, Zuccatto, Zucchelli, Zucchetti, Zucchi, Zulian

quinta-feira, 15 de junho de 2023

Itália Baiana: A Presença de Algumas Famílias Italianas

 



Município de Ilhéus


Adami 

Albagli 

Asciutti 

Bathomarco 

Bergamini 

Betti 

Bettin 

Bonice 

Borsari 

Bove 

Bracchi 

Bridi 

Brotto 

Brugnara 

Buscariolli 

Carilo 

Cartibandi 

Chinelli 

D’ Lippi 

Dattoli 

Delboni 

Farani 

Favila 

Fazzi 

Ferrari 

Finotti 

Gavazza 

Geralle 

Gila 

Grazziotti 

Levita 

Orric 

Ottoni 

Paternostro 

Pauletti 

Peluzio 

Stolze 

Taraschi 

Tragni 

Trocoli 

Venezio 

Viroli 

Vitorino 

Vitta 

Zacchio



Município de Itabuna


Benassi  

Bizzi  

Briglia  

Brugni  

Bugarelli  

Canelli  

Carletto  

Creazola  

Davini  

Delazari  

Gagliano  

Gallo  

Gasparetto  

Gavazza  

Guarnieri  

Magnavita  

Martinelli  

Massimo  

Moliterni  

Mutti  

Napoli  

Orrico  

Paternostro  

Pedrazzoli  

Pedrotti  

Chetto  

Perazzo  

Pelegrini  

Pittro  

Plaza  

Poletti  

Ravazzano  

Romani  

Scaldaferri  

Stolze  

Tozzo  

Vello  

Vita



Município de Belmonte


Burlacchini  

Guerrieri  

Magnavita  

Multari  

Rocchigiani  

Paternostro.


Município de Ubaitaba


Baratella  

Brugni


Município de Una


Dall’ Orto  

Milaneze 

Rusciolelli  

Magnavita  

Saraloli  

Tedesco.


Município de Camacã


Stolze  

Tedesco


Município de Itacaré


Angioletti  

Longo.


Município de Eunápolis


Boseti  

Bozi  

Carli  

Contelli  

Creazola  

Denti  

Fadini  

Fiorio  

Garozi  

Giuberti  

Guazziotti  

Guaitolini  

Guerrieri  

Giusti  

Orletti  

Peruzzo  

Ramaciotti  

Saraloli  

Signoreli  

Smassaro


Município de Camamu


Marti


Município de Maraú


D’ Onofri


Município de Teixeira de Freitas


Batistti  

Belitardo  

Bertelli  

Bobbio  

Cavarsani 

Cazelli  

Dall’ Orto  

Donatti  

Ferrari  

Favero  

Ferregnetti  

Gagno  

Garuzzo  

Lenzi  

Magnango  

Malacarne  

Soprani


Município de Itamarajú


Burini  

Dalmaschio  

Favorato  

Ferrari  

Galavotti  

Garozi  

Giostri  

Marchesini  

Orletti  

Otoni  

Angeli  

Bissoli  

Perini  

Pozzati  

Rizzo  

Rossoni  

Rusciolelli  

Sagnetto 

Tedoldi



Município de Medeiros Neto


Ferreti


Município de Mucuri


Gazzinelli  

Ettori  

Griffo


Município de Prado


Arpini  

Baseiri  

Bibli  

Bonomo  

Carletto  

Dall’ Orto



Município de Poções


Acierno 

Arleo 

Blois Capo 

Carlomagno 

Caselli 

Chiapetta 

Conte 

D’Andrea 

D’Antonio 

D’Emilio 

De Benedictis 

Domarco 

Ferraro 

Grisi 

Ianelli 

Labanca 

Lamboglia 

Larocca 

Libonati 

Liguori 

Lilli 

Logetto 

Mensitieri 

Miraglia 

Napoli 

Orrico 

Palladino 

Perrone 

Pesce 

Riccio 

Rotondano 

Sangiovanni 

Santis 

Sarno 

Savastano 

Scaldaferri 

Schettini 

Sola 

Sordi 

Tommasi 

Vita 



Município de Jequié


D’Andrea 

Arleo 

Bartilotti 

Biondi

Caricchio 

Cedroni 

Celli 

Colavolpe 

Comte

Dattoli

Errico

Ferraro

Gaudenzi 

Giudice 

Grillo 

Grisi 

Guena

Innocencio

Laino 

Lacrose 

Lamberti 

Larocca 

Leone 

Leto 

Liguori 

Limongi 

Lomanto

Maimone 

Marotta 

Mensitieri 

Michelli 

Michele 

Mortani

Niella

Orrico

Papaleo 

Penza 

Panza 

Pepe 

Pesce 

Pignataro

Rotondano 

Rusciolelli

Sarno 

Savastano 

Scaldaferri 

Schettini 

Spinelli

Tommasi 

Tripodi



Município de Salvador



Albertazzi 

Albiani 

Alfano 

Allioni 

Badolato 

Baggi 

Ballalai 

Bandochi 

Bentini

Borelli 

Brandi 

Buffoni 

Bulaire 

Camardelli 

Campello 

Datto 

Della Cella 

Domenech 

Dotto 

Fachinet 

Fermi 

Ferraro 

Fittipaldi 

Furiati 

Gagliano 

Gallo 

Gatti 

Gavazza 

Giorgio 

Guerrieri 

Laureana 

Leone 

Lucca 

Maimone 

Manfredi 

Marciano 

Martelli 

Martinelli 

Mercuri 

Mundi 

Olivier 

Pagliese 

Palagno 

Palarin 

Pampello 

Pavese 

Pepe 

Perella 

Perrone 

Podestá 

Prandoni 

Prealle 

Rundano 

Salomoni 

Scaldino 

Tito 

Vita